Blog do Nilson Xavier

Arquivo : janeiro 2012

Personagens masculinos de “A Vida da Gente” são fracos ou dominados pelas mulheres
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Nilson Xavier

Desde o início de A Vida da Gente nota-se algo muito inusitado no reino da Teledramaturgia. Na novela das seis, os dramas das protagonistas são de universo feminino, tratados sob a ótica feminina. É claro que ficar em coma, acordar e perceber que o seu amor lhe trocou, poderia ter acontecido a um homem. Mas acredito que as consequências e a forma de lidar com a situação poderiam ser outras se tivesse sido um homem no lugar de Ana (Fernanda Vasconcellos).

No capítulo de sexta-feira (dia 27 de janeiro), Rodrigo (Rafael Cardoso) foi convocado por Manu (Marjorie Estiano) e a filha Júlia (Jesuela Moro) a tirar uma aranha da casa. Tive a impressão de que essa foi a função principal de Rodrigo na novela inteira – e, nas entrelinhas, isso se estende aos demais personagens homens. Rodrigo foi chamado para tirar uma aranha, mas poderia ter sido para matar uma barata, trocar uma lâmpada ou abrir um vidro de pepinos.

Explico: além de a temática ser tratada sob a ótica feminina, percebe-se que os personagens masculinos de A Vida da Gente são todos meros coadjuvantes de mulheres e, na maioria das vezes, inferiores a elas ou dependentes delas, ou fracos, ou bobões. A mulher é quem manda em A Vida da Gente – a novela das “fêmeas-alfa”. Isso fica claro se analisarmos o perfil de cada personagem homem da trama.

Rodrigo: cresceu dominado pelo pai. Amou Ana, mas, na ausência dela, passou a amar Manu. Depois Ana acordou e renasceu sua paixão por ela. Indeciso, sempre com fala mansa, titubeante. Não consegue tomar as rédeas de seus próprios sentimentos. Não sabe se quer Ana ou Manu, ou as duas, ou nenhuma.

Jonas (Paulo Betti), o pai de Rodrigo: homem machista, preconceituoso, egoísta, prepotente, vaidoso, orgulhoso, vive para o trabalho, nunca deu a mínima para a família. Parece que reúne todos os defeitos que um macho pode ter. E ainda é visto como um bobão, quase um vilão cômico.

Lourenço (Leonardo Medeiros): homem sonhador e acomodado cujo maior objetivo na vida era ver seu livro publicado. E isso custou sua relação com Celina (Leona Cavalli), que desejava engravidar, mas ele não queria filhos. Aliás, o personagem representa o terror de toda mulher: o homem que nega à parceira o direito de ser mãe. Aceitou dinheiro do irmão (Jonas) para uma inseminação, da qual nasceu o garoto Thiago (Kaik Crescente) – que ele nem tomou conhecimento quando nasceu. É o melhor amigo de Rodrigo – que, com um confidente como esse, está muito mal servido!

Laudelino (Stênio Garcia): avarento, ranzinza, é dominado pela “namorada” Iná (Nicette Bruno), que o chama de “meu filho” e que dita as regras da relação. E, coitado, ainda sofre de impotência. É o personagem mais impotente da novela, em todos os sentidos.

Lúcio (Thiago Lacerda): apareceu na novela apenas para ser o par de Ana. É o tipo gentil, romântico, afável e atencioso: um sonho para toda mulher, o homem idealizado. No momento, está tendo aulas de tênis com Ana, o que, mais uma vez, denota a posição subserviente do homem em relação à mulher na novela.

Marcos (Ângelo Antônio): quando casado com Vitória (Gisele Fróes), não passava de um acomodado, com a vida absolutamente dominada pela mulher megera. Depois que se separou e uniu-se a Dora (Malu Galli), não consegue acertar uma, porque é sonhador e megalômano. Um inútil.

Renato (Luiz Carlos Vasconcelos): o pai biológico descoberto por Alice (Stephany Brito) é um pobre coitado e alcoólatra.

Cícero (Marcelo Airoldi): é apenas o pai de criação de Alice que sentiu ciúmes do pai biológico – a partir de uma situação forçada pela filha.

Matias (Marcelo Mello Jr.): o motorista de Cris (Regiane Alves) é um funcionário servil, que tenta escapar das investidas da patroa e, por conta disso, é vigiado de perto pela namorada Lorena (Júlia Almeida). Vítima de duas mulheres, portanto.

Lui (Marat Descartes): era apenas o marido de Nanda (Maria Eduarda). Serviu de escada para a relação conturbada entre a mulher e o filho adolescente dele, Francisco (Victor Navega Motta). Apareceu pouco, teve algumas falas e morreu.

Seu Wilson (Luiz Serra): quem diria que um mero coadjuvante do coadjuvante seria o macho alfa da novela! O velhinho foi safado, porque namorou duas mulheres ao mesmo tempo. Mas mentira tem perna curta – e na visão feminina, curtíssima: já foi descoberto e ficou com apenas uma (Moema, Cláudia Mello). Mas as melhores falas ditas por homem na novela são dele – agora principalmente, já que é confidente de Laudelino.

Cléber (Tadeu Di Pietro): o secretário de Jonas, pau mandado e puxa-saco. Aguenta calado as humilhações do patrão. Não precisa dizer mais nada.

Mariano (Francisco Cuoco), Miguel (Rafael Almeida) e Josias (Duda Mamberti): quem?

Por ser uma trama realista, fica incoerente este universo em que mulheres tão fortes e determinadas estejam rodeadas apenas por homens pouco representativos diante delas. É como se eles não servissem para mais nada a não ser procriar ou atuarem como coadjuvantes para os dramas vividos por elas. O único personagem com drama especificamente masculino é Laudelino, que sofre de impotência sexual – o que até soa irônico, quase uma provocação!

Costumo dizer que Lícia Manzo escreve uma novela de mulher para mulher. A Vida da Gente é a “novela Marisa”!


Os personagens que fizeram o sucesso de “Fina Estampa”
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Nilson Xavier

Fina Estampa entrou em sua reta final. Faltam dois meses para o término da novela, que totalizará 185 capítulos em 23 de março. Depois de cinco meses no ar, já dá para saber o que funcionou dentro da trama de Aguinaldo Silva e quais foram os destaques no elenco.

Algumas das melhores cenas da novela são as que envolvem Tereza Cristina (Christiane Torloni), Crô (Marcelo Serrado) e Baltazar (Alexandre Nero) – cada personagem dentro de sua caricatura. Com texto afiadíssimo, o autor dá mais uma prova de porque é considerado um de nossos melhores roteiristas de televisão. Os atores, em suas interpretações e no timing que o texto exige, dão um show à parte.

Carolina Dieckmann e José Mayer, apesar de toda a estranheza inicial que seus tipos causaram, também se destacam no elenco. Ela como uma piriguete memorável. Ele, fugindo do estereótipo do galã pegador. E Eva Wilma, como Tia Íris, tem bons momentos, apesar da semelhança – proposital – com Altiva, sua personagem em outra trama de Aguinaldo, A Indomada (1997).

Em minha opinião, estes personagens e seus intérpretes são os responsáveis pelo sucesso incontestável de Fina Estampa. A protagonista Griselda, de Lília Cabral, ainda me soa muito maniqueísta e chata. Talvez fosse uma personagem mais interessante se o autor tivesse levado adiante a ideia inicial de usá-la para questionar “o ser e o parecer” – o que justificaria o título da novela.

Opine: quais personagens deram certo em Fina Estampa?


Minissérie “Rei Davi” tenta impressionar visualmente mas deixa a desejar
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Nilson Xavier

Faltou verdade nas falas de Rei Davi, a nova minissérie bíblica da Record que estreou nesta terça-feira (24/01/2012). Na boca dos atores, elas soaram declamadas, tal qual um jogral de igreja. Gracindo Júnior foi um dos únicos atores do elenco que transmitiu alguma verdade com seu personagem, o Rei Saul.

A caracterização da minissérie impressiona, para o bem e para o mal. A fotografia é interessante e os cenários são ótimos. Mas os figurinos femininos pecaram pelo colorido, que fez parecer um carnaval e destoou da unidade estética da atração. Já as perucas e apliques dos atores lembraram mesmo o Carnaval.

As cenas que exigiram efeitos especiais deixaram a desejar, o que ficou visível na sequência em que Davi luta contra um urso, e na que Samuel decapita um homem. O chroma-key só é bem usado quando não percebemos. Bem como os efeitos de computação gráfica que preenchem a tela. E eles foram fartamente utilizados neste primeiro capítulo. A Record já apresentou efeitos especiais melhores em Os Mutantes, em 2007.

A direção de Rei Davi preocupou-se mais em apresentar uma obra grandiosa de se ver na TV do que com a direção de seu elenco. Deveria ser o contrário, justamente por se tratar de uma obra bíblica, em que impressionar pelo texto bem interpretado é mais importante do que apenas pelo visual.


Novela “A Vida da Gente” segue arrastada e angustiante
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Nilson Xavier

Faltando pouco mais de um mês para seu término, a novela das seis da Globo, A Vida da Gente, passa por aquele momento conhecido no jargão novelístico como “barriga”, ou seja, quando nada acontece na trama. Desde que Manuela flagrou Ana com Rodrigo, rompeu com os dois e partiu para Florianópolis, que a novela entrou num círculo vicioso e cansativo de “DRs” (discussões de relação), em que os personagens desabafam com seus respectivos pares ou “amigos-orelha”, mas nunca chegando a alguma conclusão concreta, o que intensifica a sensação de “embromation”.

Até tem acontecido bastante coisa na novela nas últimas semanas: Eva, Marcos e Renato perderam seus respectivos empregos, Lui morreu, Laudelino começou uma terapia, Aurélia deu um chega pra lá no Seu Wilson, Iná está na iminência de perder o local para seus bailes de terceira idade, etc. Mas o clima de sofrimento que a novela instaurou, sem ao menos um bom refresco cômico, a torna pesada e arrastada.

Essa fase reflexiva e lacrimosa da trama só vem justificar a alcunha que A Vida da Gente recebeu do Ministério da Justiça: a de novela angustiante. Na última semana houve a morte de Lui, o que fez com que seu filho, o garoto Francisco, fosse transferido para a casa de um avô indócil. Como se não bastasse o menino ter perdido o pai, ainda vai levar uma vida de cão com o avô carrasco – é ou não é sofrimento demais?

Manu, quando aparece, é um pote até aqui de mágoa. Ana, por sua vez, se convenceu que é impossível lutar pelo amor filial de Júlia, quando a menina prefere Manu, e, por conta disso, rompeu com Rodrigo – claro, depois de muitas lágrimas e consultas com a amiga-orelha Alice. E ainda recebemos a notícia de que Júlia será diagnosticada com leucemia nas próximas semanas.

Você não acha que Lícia Manzo está pegando pesado demais em sua angustiante novela?

Deus nos livre a vida da gente ser assim, arrastada, triste e sofrida!


Renata Sorrah revive Nazaré Tedesco em “Fina Estampa”
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Nilson Xavier

Não deve ser fácil para um ator ficar marcado em sua carreira com um papel. Tem o lado bom, claro. Mas tem o outro lado, em que o público faz comparações e exige o tempo todo um papel semelhante, ou à altura daquele que fora sucesso. Acontece atualmente com Renata Sorrah, no ar em Fina Estampa.

A atriz já havia ficado marcada como a alcoólatra Heleninha Roitman de Vale Tudo, em 1988. Dezesseis anos depois voltou a brilhar com uma personagem totalmente diferente e que fez tanto sucesso que ainda povoa o imaginário brasileiro: a vilã Nazaré Tedesco de Senhora do Destino (2004/2005). Depois desta, Renata participou de apenas duas outras novelas, mas com personagens que passaram despercebidas: foi a juíza Tereza, de Páginas da Vida (2006/2007), e a sofrida dona de casa Célia Mara, de Duas Caras (2007/2008).

Atualmente, Renata Sorrah vive a Drª Danielle Frasier, uma médica que, ao longo de Fina Estampa, mostrou não ser muito ética. A personagem está tendo o seu momento de evidência na novela e a atriz está bem no papel. Mas é comum ouvir do público reclamações do tipo “Renata Sorrah merecia papel melhor” ou “Quando teremos uma nova Nazaré Tedesco?”. Ainda mais porque o autor Aguinaldo Silva referencia sua vilã de Senhora de Destino vez ou outra dentro de Fina Estampa.

As experiências genéticas de Danielle lembram a trama central de Barriga de Aluguel (1990/1991), como bem frisaram Carla Neves e Mauricio Stycer num texto no UOL – leia a matéria AQUI.  Para além das semelhanças com a trama de Glória Perez (que inclusive é reprisada atualmente no canal Viva), percebe-se, neste momento de Fina Estampa, uma forte ligação entre a Drª Danielle e Nazaré Tedesco.

Nazaré era uma mulher desequilibrada, uma vilã caricata e engraçada – por isso a popularidade. Ela roubou um bebê e o criou como se fosse seu filho. Por outro lado, Danielle Frasier é uma cientista, uma mulher culta e esclarecida. Mas que também demonstra desequilíbrio, em sua obsessão em perpetuar a memória do falecido irmão. Primeiro através do sobrinho, que ela luta contra os avós dele para ter a guarda. E agora, através da filha do falecido irmão que a médica gerou no útero de Esther (Júlia Lemmertz), uma mulher que não pode ter filhos.

A grande semelhança entre as duas personagens está nas tramas. Nazaré roubou uma criança recém-nascida e fugiu com ela. Danielle roubou os óvulos de Beatriz (Monique Alfradique) para que fossem fecundados com os espermatozoides de seu irmão e, assim, ter seu sobrinho gerado na “barriga de aluguel” de Esther. Tudo bem que afirmar que Danielle “roubou” os óvulos de Beatriz é uma força de expressão, pois Beatriz, na verdade, doou seus óvulos para a médica. Mas a doutora foi omissa e antiética quando escondeu de Beatriz que usou seus óvulos em Esther, e que, portanto, a menina que Esther deu a luz é de Beatriz e do irmão da médica.

É claro que Nazaré e Danielle são muito diferentes entre si, e a maior prova disso é a popularidade de uma em comparação com a da outra personagem. Mas assim como Nazaré, a médica de Fina Estampa usa a maternidade frustrada – de Esther e Beatriz, e por que não a sua própria – para se satisfazer, ainda que em nome da ciência. Aliás, essa trama lembra ainda outra novela de Glória Perez, O Clone (2001/2002), em que o cientista Albieri (Juca de Olveira), faz experiências genéticas por meios escusos – assim como a Drª Danielle Frasier.

Tem ainda Os Mutantes de Tiago Santiago. Mas aí já é dar asas à imaginação…


Entra no ar a quarta Abertura de “Aquele Beijo”
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Nilson Xavier

No dia 18/01/2012 entrou no ar a nova abertura de Aquele Beijo com mais beijos famosos de novelas.

Foi a quarta vez que a abertura foi mudada.

Taís Araújo e Reynaldo Gianecchini (Da Cor do Pecado) | Tarcísio Meira e Glória Menezes (Irmãos Coragem)

Mário Gomes e Lucélia Santos (Vereda Tropical) | Eduardo Moscovis e Priscila Fantim (Alma Gêmea)

Eva Wilma e Luiz Gustavo (Elas por Elas) | Miguel Rômulo e Isabelle Drummond (Caras e Bocas)

Lauro Corona e Glória Pires (Direito de Amar) | Marcelo Novaes e Letícia Spiller (Quatro por Quatro)

Tony Ramos e Elizabeth Savalla (Pai Herói)

Veja AQUI quais foram os beijos das aberturas anteriores da novela.


“O Brado Retumbante” é realidade disfarçada de ficção
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Nilson Xavier

A máxima televisiva “esta é uma obra de ficção e qualquer semelhança com nomes, fatos ou acontecimentos terá sido mera coincidência” deve ser seguida à risca para a minissérie global O Brado Retumbante, que estreou nesta terça-feira (17/01/2012). Mas é impossível ficar imune a tantas referências com a realidade. Mesmo quando disfarçada de um “Brasil fictício”, ao que a atração se propõe – em que, por exemplo, a sede do governo foi transferida de Brasília de volta para o Rio de Janeiro.

A TV brasileira já apresentou várias críticas ao Governo e governantes de nosso país, recheadas de metáforas com a realidade – O Salvador da Pátria, Que Rei Sou Eu?, Vale Tudo, O Bem Amado, Roque Santeiro, O Rei do Gado. Mas nunca se escancarou tanto uma realidade disfarçada de ficção como na trama de O Brado Retumbante, com personagens tão parecidos com os da vida real, em aparência ou atitudes – como os políticos e jornalistas que cercam o presidente protagonista.

O produto final é de uma qualidade inquestionável. A fotografia, a linguagem moderna e a temática remetem a alguns seriados da TV americana. Mas é no texto de Euclydes Marinho e seus colaboradores – Nelson Motta, Denise Bandeira e Guilherme Fiuza – que está o maior mérito da minissérie. Diálogos ágeis, irônicos, repletos de frases feitas, mas ácidas, com referências à história moderna de nosso país.

A direção segura – de Gustavo Fernandez em núcleo de Ricardo Waddington – prioriza o texto e valoriza a atuação dos atores. Domingos Montagner e Maria Fernanda Cândido apoiam-se em um elenco de coadjuvantes forte e interessante. Montagner vive o deputado Paulo Ventura, que vira Presidente da República da noite para o dia – literalmente – e tenta lidar com todas as consequências que isso lhe acarreta.

A audiência não correspondeu à qualidade da atração. O Brado Retumbante ficou poucos pontos acima do segundo lugar, o blockbuster A Hora do Rush 2 apresentado pelo SBT. Nesses tempos em que a “nova classe C” dita a programação da TV e comanda a audiência, é sempre bom festejar produções voltadas para um público “diferenciado”.


“Corações Feridos” – embalagem bonita recheada de clichês
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Nilson Xavier

O SBT estreou nesta segunda-feira (16/01/2012), às 20h30, sua nova atração: a novela Corações Feridos, adaptada por Íris Abravanel da trama mexicana La Mentira, de Caridad Bravo Adams – já apresentada pela emissora na década de 2000. A novela foi totalmente gravada em 2010 e sua estreia foi sendo protelada até que o SBT resolveu estreá-la após o fim de Amor e Revolução, enquanto prepara uma trama inédita, o remake de Carrossel.

A embalagem é bonita, com destaque para fotografia e cenários – sem dúvida, não deixam nada a desejar às melhores produções do gênero. Takes cortados formando um mosaico na tela dão um ar moderno. Stockshots em imagem avançada sugerem uma linguagem de videoclipe. Tudo já fartamente usado pela emissora em novelas anteriores, mas que sempre confere certa jovialidade a um formato dramatúrgico bem conservador – como costumam ser as novelas da casa.

Corações Feridos traz de volta ao SBT o estilo de novela que a emissora popularizou. Baseada em um dramalhão mexicano e feita sob medida para a família SBT – há décadas condicionada a receber este tipo de dramaturgia -, a novela é puro folhetim, com todos os clichês possíveis, já evidentes no primeiro capítulo – embalado por uma trilha sonora popularesca.

Os ricos da cidade grande são muito ricos. Os maus são muito maus. E os caipiras do interior, muito caipiras. Tem a vilã (Cynthia Falabella) mancomunada com um mau caráter para extorquir um mocinho bobão – um clássico do folhetim! O mocinho da vez é o personagem vivido por Paulo Zulu, numa escalação equivocada, já que ele não é ator – ainda que para apenas um capítulo – mas que piorou quando contracenou com Antônio Abujamra. Soou como uma provocação!

Este primeiro capítulo mostrou-se bastante ágil. O personagem de Zulu, enganado pela namorada pilantra (Falabella), entrou em desespero quando ela rompeu o compromisso. Descontrolado, ele jogou o jipe que dirigia contra um precipício, numa sequência à altura da performance de Zulu.

Para uma estreia, é precoce avaliar a atuação do resto do elenco e a novela como um todo. À primeira vista, Corações Feridos é uma novela de bela embalagem e com conteúdo para um público certo. A estreia marcou apenas 3 pontos na audiência, mas é provável que suba. Afinal, a novela mal começou e o SBT tem seu público cativo. E a abertura promete “coisa de Deus”, como sugere a música-tema.


“Amor e Revolução” pecou pela pretensão e falta de sutileza
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Nilson Xavier

A novela de Tiago Santiago, apresentada pelo SBT, terminou nesta sexta-feira (13/01/2012) com audiência muito abaixo da esperada pela emissora. E menos ainda repercussão, da esperada pelo seu autor. O público de novelas do SBT está acostumado ao estilo melodramático das tramas importadas que a emissora apresenta ou adapta. E Tiago Santiago é um autor inquieto. A maior prova disso é Os Mutantes, que ele levou ao ar na Record na década passada – uma novela pretensiosa, mas que chamou a atenção da mídia e teve o seu público cativo.

O vídeo de lançamento de Amor e Revolução já dava o tom da novela: muitas cenas “fortes”, com tortura e violência. Era muita revolução para pouco amor. Soou como se a emissora estivesse apostando todas as suas fichas em algo grandioso. Lógico que essas cenas eram para chamar a atenção do público para a nova atração da emissora.

Amor e Revolução foi outra obra pretensiosa de Tiago Santiago, mas desta vez não surtiu o efeito à altura de sua pretensão. O período de repressão do governo militar no Brasil é riquíssimo, cultural e socialmente falando – e sempre renderá ótimas histórias, vide a minissérie Anos Rebeldes, da Globo. Acontece que para um público que está há décadas acostumado ao melodrama fácil, uma temática mais ousada requer um cuidado especial: há de se estimular o telespectador para algo diferente no ar e conquistá-lo aos poucos.

Mas o que se viu foi uma sequência de cenas violentas, regadas a muita tortura – várias delas muito boas e bem dirigidas, diga-se de passagem. Lógico que elas faziam parte do contexto da história. Mas a abundância soou como exibicionismo. Faltou sutileza.

Amor e Revolução mostrou uma produção de primeira, com ótima fotografia, abertura, trilha sonora, cenografia, figurinos e direção de arte. Mas, de novo, pecou pela falta de sutileza. Os personagens não pareciam trajados em uma obra de época, mas fantasiados para uma festa retrô. As ótimas músicas tocavam aleatoriamente, a todo instante, aparentemente sem critério.

A direção de atores fez algumas cenas soarem como jogral de escola. Mas em compensação, alguns veteranos do elenco se mantiveram acima do texto piegas e da direção capenga – como Lúcia Veríssimo, Reynaldo Gonzaga e Cláudio Cavalcanti.

Há de se destacar os ótimos depoimentos de vítimas reais do Regime Militar, apresentados no início da novela, que encerravam cada capítulo – recurso abandonado mais tarde por falta de representantes do regime para os depoimentos.

A trama teve as cenas mais violentas abrandadas, por conta de rejeição do público. Mas não foi poupada de todos os clichês possíveis que o período retratado pudesse sugerir. Tentativas de comédia romântica foram inseridas para amenizar a história. O beijo gay entre as personagens de Luciana Vendraminni e Gisele Tigre foi um chamariz e tanto, mas não serviu para fisgar o grande público, que viu a tal cena do beijo e continuou alheio à novela.

No início, muito criticado pelo didatismo de sua trama, Tiago Santiago deu a entender que era necessário “ensinar” o público. Seu argumento pode ser bom, mas novela é novela, telecurso é outra coisa. Saber de cor o significado da sigla DOPS não influenciava em nada o entendimento da história.

Faltou sutileza inclusive no último capítulo, em que o general vilão interpretado por Reynaldo Gonzaga age como que possuído pelo demônio e atenta contra a vida de sua mulher, que se protege segurando uma bíblia e uma cruz. Para uma abordagem realista, como pede o tema da novela, esta foi uma saída um tanto quanto surreal, digna da trama dos Mutantes. Será que autor sugere que a ditadura do Regime Militar teria sido obra do demônio?


“Dercy”, curta demais para ser “de verdade”
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Nilson Xavier

Dercy de Verdade terminou nesta sexta-feira (dia 13/01/2012) e deixou aquela sensação de quero mais. Em quatro capítulos, a minissérie atropelou a vida da artista: foi muito pouco para contar a sua história e mostrar a verdadeira Dercy, como sugeria o título. Poderia ter tido pelo menos mais quatro capítulos.

Fafy Siqueira brilhou na pele da protagonista. Independente da atuação de Heloísa Périssé e sem desmerecer o trabalho dela, Fafy mostrou uma imagem de Dercy Gonçalves que é a mais próxima e fiel da que temos guardada em nossa memória. E Fafy interpretou Dercy, o que é diferente de imitar – que é o que Fafy faz muito bem com as imagens de Roberto Carlos e Ronald Golias.

Algumas participações no elenco chamaram a atenção. Nizo Neto, filho de Chico Anysio, interpretou o pai. Carlos Loffler, neto de Oscarito, viveu seu avô, assim como Mário Wilson, que viveu o avô Max Wilson. Vanessa Goulart, bisneta da atriz Eleonor Bruno – que era mãe de Nicette Bruno – interpretou a bisavó. E Bruno Boni, o filho caçula de Boni, estava lá, não para interpretar o pai, mas pelo menos para representá-lo.