Blog do Nilson Xavier

Nos 42 anos da estreia de “Irmãos Coragem”, relembre tramas e personagens da novela

Nilson Xavier

Nesta semana a novela Irmãos Coragem completa 42 anos de sua estreia. Uma das mais marcantes obras de nossa Teledramaturgia, a trama – escrita por Janete Clair, com direção de Daniel Filho e Milton Gonçalves – foi importante por ter sido a divisora de águas no processo da hegemonia da audiência da TV Globo. Pela primeira vez, uma novela da emissora carioca conquistava a audiência nacional – o que nunca mais deixou de acontecer desde então, com exceção de alguns poucos casos isolados.

Irmãos Coragem é uma das mais longas novelas já produzidas pela Globo: com 328 capítulos, ficou no ar de 29 de junho de 1970 a 15 de julho de 1971. E também é lembrada por ter sido a primeira novela em que os homens assumiram que acompanhavam, por causa de sua trama masculina que misturava faroeste e futebol.

No ano passado, a Globo Marcas lançou no mercado o box da novela, com oito DVDs. Analisando o DVD, a impressão que se tem é que a TV do comecinho da década de 1970 – ainda em preto e branco – era muito, muito ingênua. E considerando a repercussão de Irmãos Coragem na época, seu público só podia ser muito ingênuo também, para embarcar naquela fantasia.

A fantasia que me refiro não é a história em si – muito boa, empolgante, bem conduzida, coerente na maioria das vezes, com tramas paralelas interessantes que se unificavam com a história central. Falo da realização da novela, sua produção e direção. Irmãos Coragem mistura cenas dignas de imagens conceituais de cinema com algumas das sequencias mais toscas já vistas na televisão.

O cinema fazia sucesso com filmes de bang-bang. Os italianos haviam criado seu estilo próprio neste segmento, o “western spaguetti”. A inspiração para Irmãos Coragem veio destes filmes, americanos e italianos. Proscritos, justiceiros a cavalo, muito tiroteio e o tempero brasileiro fizeram da novela o que se convencionou chamar de “faroeste caboclo''.

A história é bem brasileira, mas os arquétipos do faroeste estão todos lá. O justiceiro honesto, puro de coração e ingênuo, na figura do mocinho João Coragem (Tarcísio Meira), que desacreditado com o sistema, resolve fazer valer sua própria justiça, com a melhor das boas intenções. O vilão Pedro Barros (Gilberto Martinho), no estilo dos “coronéis” do sertão brasileiro, poderoso, arrogante, se julgando o dono da região e, portanto, fazendo valer a sua própria lei. A mocinha sofredora – que no caso sofre porque é doente: Lara (Glória Menezes) tem outras duas personalidades e enlouquece João Coragem de amor e dúvida.

E é no faroeste que Irmãos Coragem peca, com cenas de luta e tiroteio mal feitas, mal dirigidas, toscas no sentido exato da palavra. E não são assim por precariedade de recursos técnicos ou da época. A TV brasileira já apresentara produções do requinte do cinema na TV Excelsior, nos anos 60 – com novelas históricas como O Tempo e o VentoAs Minas de Prata e A Muralha. A impressão que passa é que as cenas foram gravadas assim de propósito, como se para imprimir um estilo próprio na novela, um faroeste caboclo, brasileiro e tosco.

Mas isso em nada diminui a obra. Pelo contrário, a deixa divertida. E chega a ser um contraponto muito grande, pois a novela tem outras cenas muito bem dirigidas, com atores em grandes interpretações e tomadas cinematográficas. Percebe-se o uso excessivo de closes fechados, recurso para disfarçar cenários pequenos, prática comum na época. E a trilha sonora incidental é toda “chupada” de filmes de faroeste.

O que salta aos olhos na novela é a direção de atores e a interpretação de seu elenco. Até atores menos conhecidos, ou que nos acostumamos a ver em papeis menores, tem em Irmãos Coragem grandes momentos. Pode-se dizer que Carlos Eduardo Dolabella (Delegado Falcão), Ênio Santos (Dr. Maciel), Ana Ariel (Domingas), José Augusto Branco (Rodrigo César) e Dary Reis (Lázaro) tiveram nesta novela os seus melhores papeis na televisão.

Também um grande momento para Tarcísio Meira (João Coragem), Glória Menezes (Lara/Diana/Márcia), Cláudio Cavalcanti (Jerônimo Coragem), Lúcia Alves (Potira), Regina Duarte (Ritinha), Emiliano Queiroz (Juca Cipó), Neuza Amaral (Branca) e Suzana Faini (Cema). Até Sônia Braga, novinha, em sua estreia em novelas, transmitiu segurança em cenas fortes de sua personagem Lídia.

Mas de todo o elenco, as melhores performances são de Gilberto Martinho e Zilka Salaberry. Martinho mostra uma interpretação visceral de seu vilão Pedro Barros. O personagem é um homem rude e odioso, quase selvagem, mas, ao mesmo tempo, humano, capaz de demonstrar afeto pelo filho bastardo (Juca Cipó), provando a dualidade do ser humano. A Sinhana de Zilka Salaberry é, por sua vez, a personificação da “mãe coragem”, capaz de tudo para proteger sua prole. A atriz se entregou totalmente à personagem. Com o olhar, revelava toda a ternura de uma mulher rude, batalhadora e sofrida.

Cenas marcantes:

 - João encontrando seu diamante – cena já repetida várias vezes na TV -, em uma tomada escura e claustrofóbica. Foi a primeira vez que a música tema da novela tocou na versão cantada, interpretada por Jair Rodrigues. Até então, o tema de abertura era uma versão instrumental da música.

- A primeira vez que ficou visível para o público que Lara era Diana – havia o mistério: eram a mesma pessoa ou mulheres distintas? Na sequência, a câmera faz um close fechado no rosto de Glória Menezes, que cobre a tela inteira, e a atriz passa de uma a outra personagem apenas mudando a expressão facial. A trilha sonora ajuda a dar o clima.

- Jerônimo Coragem é um dos melhores personagens da novela, talvez o mais rico de todos. Claudio Cavalcanti tem sequências memoráveis. Como o acerto de contas com Lídia, sua mulher, em que ela acaba baleada. Uma cena de discussão longa, tensa, marcada pela ótima interpretação dos atores.

- Em represália a João Coragem, os homens de Pedro Barros batem em Sinhana e a levam até a cidade puxada por um cavalo, amarrada a uma corda. Aos olhos de hoje, a sequência chega a ser cruel.

- O “sonho” de Ritinha. Na verdade ela é dopada enquanto Juca, disfarçado numa fantasia, rouba a chave do cofre da prefeitura. O que se vê na tela é a retratação de uma viagem de ácido. Não era para menos, aqueles eram tempos do LSD. A câmera é deformada num vai-e-vem constante e enjoativo, em que Ritinha é envolvida por uma criatura disforme, numa dança alucinógena. Podia beirar o tosco, mas não. Com um simples recurso de deformação da imagem, a sequência consegue passar para o público a dúvida da personagem: era real o que estava acontecendo ou um delírio de sua cabeça?

- O aborto de Potira. Assim como a viagem de ácido (ou o “sonho” de Ritinha) que fica subentendida para o público, também o aborto de Potira não é claro. Drogas e aborto eram temas por demais delicados para se tratar na televisão daqueles tempos. Para todos os efeitos, a índia Indaiá (Jurema Penna) prepara uma espécie de “ritual religioso” para que a criança que Potira espera “suma”. Mas é evidente que a índia velha deu à jovem algum chá abortivo.

- O casamento de Juca Cipó, numa referência a O Bem Amado, a peça de Dias Gomes, marido de Janete Clair. O Bem Amado ainda não havia sido adaptado para a televisão, e antes de Dirceu Borboleta ser obrigado a se casar com sua amada por ela estar grávida, Juca Cipó também se viu na mesma situação – com o agravante de que os personagens das duas novelas foram vividos pelo mesmo ator, Emiliano Queiroz.

- A sequência em que a câmera segue mostrando um rio e para na imagem de Gloria Menezes sentada em uma pedra. Por trás de uma árvore, é possível ver Tarcísio Meira parado, quando, do nada, ele sai e grita por Lara. A impressão que ficou é que o “gravando” começou antes do diretor dar a ordem. Ou a imagem de Tarcísio Meira vazou e ele foi focalizado antes do tempo.

- A cena da perseguição ao trem, em que os homens do bando de João Coragem tentam resgatá-lo. Chega a ser risível de tão tosco que é o efeito final que aparece na tela. Não dá para descrever, só vendo!

Enfim, o DVD de Irmãos Coragem é, acima de tudo, o registro de um tempo em que a telenovela ainda não havia entrado no esquema industrial. Por mais mal acabadas que algumas passagens possam parecer aos olhos de hoje, é nítida a garra de um grupo de profissionais que se valia do talento acima de qualquer recurso tecnológico. Indispensável para quem aprecia o gênero, diversão garantida para nostálgicos ou para os mais jovens que querem saber mais da história da nossa televisão.

Saiba mais sobre Irmãos Coragem no site Teledramaturgia.