Blog do Nilson Xavier

"É a história de pessoas que queriam que esse país desse certo", dizem autores de "Novo Mundo"

Nilson Xavier

Letícia Colin como D. Leopoldina entre os autores Alessandro Marson e Thereza Falcão (Foto: Raquel Cunha/TV Globo)

A Globo estreia no dia 22 de março (uma quarta-feira) a nova novela das seis, “Novo Mundo“. A trama se passa na época da Independência do Brasil e mescla personagens fictícios – como os protagonistas Anna e Joaquim (Isabelle Drummond e Chay Suede) – com reais – como D. Pedro (Caio Castro), D. Leopoldina (Letícia Colin) e a Marquesa de Santos (Agatha Moreira). A produção tem direção artística de Vinícius Coimbra (da minissérie “Ligações Perigosas” e da novela “Liberdade Liberdade”) e o roteiro está sob responsabilidade dos novatos Thereza Falcão e Alessandro Marson.

Nem tão novatos assim! A dupla tem anos de experiência como colaboradores, tendo trabalhado em “O Profeta“, “Cama de Gato“, “Cordel Encantado” e “Joia Rara” (de Thelma Guedes e Duca Rachid), e “Avenida Brasil” e “A Regra do Jogo“, de João Emanuel Carneiro. Marson ainda trabalhou com Walther Negrão em “Desejo Proibido” e “Flor do Caribe“. Eles me receberam em seu local de trabalho, no Rio, para um bate-papo sobre o desafio de desbravar o “Novo Mundo“.

Uma aventura romântica

(Alessandro) É uma novela de aventura, muito baseada em filmes de piratas dos anos 1950, filmes de aventura, “Pirata Sangrento”, “Simbad”, “Scaramouche”. Juntamos referências desses filmes com “Piratas do Caribe”. Resolvemos muita coisa com luta de espadas, com gente atravessando salão pendurada em lustre. Não é uma apropriação de uma obra, mas uma apropriação de um estilo. Não há referências diretas a um filme, mas a um estilo. Uma aventura romântica, é o que define a novela.

(Thereza) Muito pensada para o horário das seis, porque queríamos fazer uma novela para as seis horas, com a expectativa do romance. E os filmes de piratas vêm unindo gerações, porque tem a memória de nossa avó, nossa mãe, dos anos 1940 e 1950, e tem os garotos de hoje que veem os filmes com Johnny Depp. Tínhamos essa ideia de juntar gerações.

(Alessandro) Como em “Piratas do Caribe”, temos muito humor, nossos diálogos são leves, humorados. É uma novela romântica leve e espirituosa, com cuidado para o diálogo não ficar rebuscado.

(Thereza) A novela é leve, mas não tem o tom de humor o tempo inteiro. Ela tem humor também. Nós nos preocupamos muito em falar dessa travessia do novo mundo. A partir do momento que eu me disponho a uma aventura, eu me transformo por essa aventura e transformo essa aventura. Temos, por exemplo, uma passagem de tempo, por volta do capítulo 17, em que a vida de todos os personagens já mudou de uma forma muito forte.

(Alessandro) A gente usa muito a História para nos ajudar a contar a nossa história. A Família Real vai embora e isso rende muita cena para a gente. Temos o Dia do Fico, o 7 de Setembro, todos os fatos históricos.

Assista abaixo o vídeo de Thereza Falcão apresentando “Novo Mundo”

“Novo Mundo” estreia em março e fica no ar até meados de setembro. A trama vai até qual fato histórico?

(Alessandro) Até D. Pedro ser proclamado Imperador.

Por que esse corte?

(Alessandro) Precisávamos de uma história com final. Além do mais, logo depois os imperadores morrem. Eles morrem muito jovens.

Vocês são fiéis à História ou abusam da licença criativa?

(Thereza) Os fatos históricos estão ali, isso não tem como a gente mudar. As datas históricas serão respeitadas, porem a licença poética é muito grande. A maior dela diz respeito à entrada de Domitila na vida de D. Pedro. Nossa história é feita de várias versões. Uma delas é que Domitila conheceu Pedro no dia 29/08/1822, em São Paulo. Uma outra versão diz que Domitila já estava na vida dele não se sabe desde quando. Outra versão diz que Domitila foi amante de Chalaça. Juntamos essas referências todas.

Os personagens são todos de época ou existe algum elo com o brasileiro contemporâneo?

(Thereza) Demos ares contemporâneos a alguns personagens. O Piatã (Rodrigo Simas), por exemplo, é um índio [brasileiro] adotado pelo pai da Anna Milmann (…) criado na Inglaterra. Lá, Piatã era visto como um estrangeiro. Quando volta ao Brasil, ele quer recuperar a sua origem. Só que aqui, entre os índios, ele também é um estrangeiro. Piatã é uma figura apatriada. Ele não é inglês e não é índio. É como se fosse um refugiado. Achamos que esse é um personagem muito moderno. Jacira é outro personagem moderno.

(Alessandro) Jacira (Giullia Buscaccio) é um índia jovem que quer ser guerreira. É uma mulher “empoderada”. Ela adora ser índia, mas não se conforma com as limitações de ser índia. Não entende, por exemplo, porque ela não pode caçar. A personagem da Sheron Menezes (Diara) é uma negra que se casa com um nobre e vira uma nova rica. Uma espécie de Xica da Silva, a princípio. Mas ela acaba virando abolicionista, que vai pegar um cavalo, por uma máscara e lutar pelos negros.

Perguntados se assistiram às outras obras que retratam esses personagens e esse período – os filmes “Independência ou Morte” e “Carlota Joaquina, Princesa do Brasil” e as minisséries “Marquesa de Santos” e “O Quinto dos Infernos” – eles responderam que não se preocuparam com essas referências audiovisuais.

(Thereza) Assisti “Independência ou Morte” com uns 10 anos de idade. Mas não revi. Nem “Carlota Joaquina”. Até para termos o nosso próprio comparativo.

Isabelle Drummond e Chay Suede (Foto: Paulo Belote/TV Globo)

Como será a Marquesa de Santos de “Novo Mundo”?

(Thereza) Historicamente, todas as versões são contra Domitila. De vez em quando se lê algo mais suave sobre ela. Não que fosse uma santa, longe disso! Na verdade, ela é quem se dá bem nessa história toda. Ela é quem morre mais velha, com mais 60 anos, e rica. Mas é inegável, existe uma química muito louca entre ela e D. Pedro. Percebe-se nas cartas que eles trocavam, pelo conteúdo, na maneira como se amavam. Era algo bem carnal. O livro “A Carne e o Sangue” (de Mary Del Priore, uma das referências bibliográficas) traz esse poder novelesco para essa história. Domitila era uma mulher muito decidida, ela queria D. Pedro e conseguiu conquistá-lo. Tivemos a preocupação de não fazer dela uma vilã. Quisemos entender melhor essa Domitila, como produto de seu meio. (…) Ela casou aos 15 anos com um homem violento que quase a matou com uma faca, grávida. Procuramos também não defender Domitila, mas falar um pouco dessa humanidade dela.

E como será D. Pedro de Caio Castro?

(Thereza) D. Pedro é um personagem extremamente fascinante. Ele é um homem próximo de tudo, é um cara contemporâneo. E bipolar. Uma pessoa capaz de falar as maiores barbaridades e, com a mesma sinceridade, em um segundo, estar aos seus pés implorando perdão. Foi um cara importante nessa história política. Ele imprimiu uma marca.

(Alessandro) D. Pedro fez coisas muito bacanas. D. João VI levou embora para Portugal todo o dinheiro do Banco do Brasil, deixando Pedro como príncipe regente sem um tostão para pagar as contas dos funcionário públicos. Ele não tinha como pagar os salários das pessoas e tirou do próprio salário e cortou o salário dos ministros. Imagina se nossos governantes iriam fazer isso hoje!

(Thereza) Havia uma visão econômica de país, de líder.

Quem é o protagonista Joaquim e por que ele está acima de D. Pedro em “Novo Mundo”?

(Alessandro) Quisemos contar a história de um herói, de alguém que sacrifica a sua felicidade pessoal em nome de uma felicidade coletiva. Joaquim vira esse herói quando chega ao Brasil.

É algum contraponto com D. Pedro?

(Alessandro) Joaquim se torna amigo e conselheiro de D. Pedro. Quando ele chega ao Brasil, vai parar numa aldeia de índios e vive anos nessa tribo, se transformando em uma outra pessoa. E ele acaba virando um grande aglutinador de todas as nações indígenas no Brasil. (…) Esse cara irresponsável do começo vira um grande herói, uma pessoa que se sacrifica, que deixa de encontrar a Anna para resolver a situação dos índios. (…) Ele sacrifica a felicidade dele em nome de um coletivo. E isso faz com que ele fique ainda mais interessante para a Anna. Quando ele se aproxima de D. Pedro, se transforma num grande articulador e defensor da Independência. A gente quer contar a história de pessoas que queriam que esse país desse certo.

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Sobre o autor

Nilson Xavier é catarinense e mora em São Paulo. Desde pequeno, um fã de televisão: aos 10 anos já catalogava de forma sistemática tudo o que assistia, inclusive as novelas. Pesquisar elencos e curiosidades sobre esse universo tornou-se um hobby. Com a Internet, seus registros novelísticos migraram para a rede: em 2000 lançou o site Teledramaturgia (http://www.teledramaturgia.com.br/), cujo sucesso o levou a publicar o Almanaque da Telenovela Brasileira, em 2007.

Sobre o blog

Um espaço para análise e reflexão sobre a produção dramatúrgica em nossa TV. Seja com a seriedade que o tema exige, ou com uma pitada de humor e deboche, o que também leva à reflexão.

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