Blog do Nilson Xavier

5 anos de Avenida Brasil: como explicar seu sucesso e por que nenhuma novela conseguiu repeti-lo

Nilson Xavier

26/03/2017 07h00


Sucesso de audiência e repercussão, “Avenida Brasil” completa cinco anos de estreia nesse dia 26 de março. Foi a primeira novela coqueluche da Internet, vide os memes referenciando a trama, a “cascata” diária de “oioiois” no Twitter (aos primeiros acordes do tema de abertura), as charges no Facebook, os bordões “é culpa da Rita!”, “me serve vadia!”, “quero ver você me chamar de amendoim” e “hi hi hi”, os GIFs animados com as caretas de Carminha e suas frases de efeito, e os avatares “congelados” ao estilo das fotos dos personagens sobre o fundo com bolinhas coloridas, ao final de cada capítulo.

Durante seus sete meses de exibição, a novela reuniu todas as noites, nas redes sociais, milhões de brasileiros ávidos em compartilhar opiniões em um mesmo sofá, virtual. O último capítulo parou o país, se não literalmente, quase. Um fenômeno poucas vezes visto na história de nossa televisão.

Independentemente da repercussão dentro ou fora da Internet, acredito que “Avenida Brasil” seja aquele caso raro de novela certa na hora certa. De quando o público encontra na ficção televisiva uma forma de extravasar a realidade de um momento político-sócio-econômico muito particular e favorável. Lembro apenas de duas situações semelhantes ocorridas anteriormente:

Roque Santeiro”, 1985. Com o fim do governo dos militares e início da Nova República, pairava sobre o país um tom ufanista e de esperança. A novela se propunha a discutir os problemas de nossa sociedade pintando um microcosmo do Brasil através da fictícia cidadezinha de Asa Branca, cenário da história.

Vale Tudo”, 1988. Com uma proposta repleta de crítica social, a novela levou o público a discutir a honestidade do brasileiro e a corrupção dos poderosos. O Brasil passava por uma onda de descrença nas instituições ao mesmo tempo em que ansiava por um futuro melhor com a promulgação da nova Constituição e a iminência das primeiras eleições diretas para presidente da República em 29 anos (no ano seguinte).

Avenida Brasil”, 2012. O país vivia o auge da ascensão da “nova classe C” (a que emergiu após o governo Lula), marcada por uma certa estabilidade econômica e um boom de consumo. A novela refletiu essa situação para retratar na tela um quadro pitoresco da realidade. Assim como em Asa Branca, o Brasil foi representado no fictício bairro do Divino, onde se passava a trama, com cores fortes, euforia e uma galeria de personagens carismáticos que arrebatou o público.

Roque Santeiro” e “Vale Tudo” também tiveram personagens carismáticos e marcantes, lembrados até hoje. Outras semelhanças unem as três novelas: produções caprichadas, elencos excelentes e, acima de tudo, tramas cativantes, de forte apelo popular, aliadas ao bom e velho folhetim. O mais curioso é notar que a crítica social de “Roque Santeiro” e “Vale Tudo” são atemporais, valem para os dias de hoje, inclusive.

Avenida Brasil”, por sua vez, nunca teve a pretensão de fazer crítica social, a não ser refletir um momento do povo brasileiro através de uma batida trama de vingança, filão já fartamente explorado em nossa Teledramaturgia. Porém, os clichês do folhetim vieram em uma nova roupagem, em tom de novidade, camuflada na fotografia cinematográfica e no ritmo de série americana.

Com uma história repleta de plot twists (*), cada capítulo terminava com um gancho contundente envolvendo algum personagem da trama central. Apesar da barriga saliente (**), dos furos do roteiro (lembra do pendrive da Nina?) e do “quem matou Max?” ao final, o saldo sempre foi positivo.

As novelas do horário das nove após “Avenida Brasil” foram vítimas de um outro momento do país: a crise política-sócio-econômica deflagrada em 2013 e que se arrasta até hoje. Não que a situação do Brasil seja o vilão. Mas ela serve como o contexto dentro do qual cada novela deve ser analisada separadamente, cada uma com suas qualidades e defeitos próprios. A seguir.

Observação: os números entre parêntesis são as médias finais de audiência (pontos no Ibope da Grande SP, fonte Fábio Dias). “Avenida Brasil” fechou em 39 pontos. Eles não são bons parâmeros de comparação, já que a quantidade de domicílios em 2012 (ano de “Avenida Brasil”) é menor do que a quantidade hoje em dia.

Salve Jorge” (34): criticada pelas incoerências de sua trama e, curiosamente, com uma boa repercussão por causa dessas incoerências. Apesar dos excessos, a autora Glória Perez desenvolveu uma interessante trama sobre tráfico de mulheres para o exterior.

Amor à Vida” (36): a mais bem sucedida novela após “Avenida Brasil”, principalmente por conta do personagem Félix, vivido por Mateus Solano. Mas também alvo de críticas, mais pelos exageros do autor Walcyr Carrasco em seu texto.

Em Família” (30): uma queda brusca de audiência motivada por uma trama extremamente lenta e pouco atraente dentro do estilo pasteurizado e já bastante saturado do autor, Manoel Carlos.

Império” (33): outra novela que pode ser considerada bem sucedida, principalmente pela trama bem amarrada de Aguinaldo Silva e o carisma do protagonista vivido por Alexandre Nero.

Babilônia” (25): um dos maiores fracassos da história da Globo. A principal crítica veio do público: o excesso de realidade em um momento crítico do país onde tudo o que se esperava de uma novela era a fuga da realidade. A Record é que se deu bem, abocanhando parte da audiência com o fenômeno “Os Dez Mandamentos“.

A Regra do Jogo” (28): se em “Avenida BrasilJoão Emanuel Carneiro contou uma história simples e batida, porém irresistível, aqui ele resolveu ousar: novela pretensiosa, com uma trama policial complexa de pouco apelo popular.

Velho Chico” (29): assim como a anterior, uma novela que não abriu concessões para o público, logo, pouco popular. O diretor Luiz Fernando Carvalho abusou no estilo barroco da estética, o que desagradou parte da audiência. Grandes interpretações do elenco, porém em uma trama com ritmo arrastado.

A Lei do Amor” (previsão de 27 pontos): aqui o inverso das duas anteriores: todas as concessões para o público foram feitas, o que acabou resultando numa trama retalhada, que descaracterizou vários personagens. Uma “novela Frankenstein” que vai terminar melancolicamente amargando a segunda pior audiência do período.

Concluo meu texto com uma frase que ficou famosa na internet e que resume bem esse momento: falta uma novela que reúna todas as tribos, como foi “Avenida Brasil”. Será que a “A Força do Querer” (que substitui “A Lei do Amor” a partir do dia 03/04) vai conseguir essa proeza? #Oremos

(*) plot twist: reviravolta na trama.
(**) barriga: aquele momento na trama em que nada acontece.
Fotos: divulgação/TV Globo.
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Sobre o autor

Nilson Xavier é catarinense e mora em São Paulo. Desde pequeno, um fã de televisão: aos 10 anos já catalogava de forma sistemática tudo o que assistia, inclusive as novelas. Pesquisar elencos e curiosidades sobre esse universo tornou-se um hobby. Com a Internet, seus registros novelísticos migraram para a rede: em 2000 lançou o site Teledramaturgia (http://www.teledramaturgia.com.br/), cujo sucesso o levou a publicar o Almanaque da Telenovela Brasileira, em 2007.

Sobre o blog

Um espaço para análise e reflexão sobre a produção dramatúrgica em nossa TV. Seja com a seriedade que o tema exige, ou com uma pitada de humor e deboche, o que também leva à reflexão.

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