Blog do Nilson Xavier

Em fase de títulos ruins de novelas, relembre 10 nomes criativos do passado

Nilson Xavier

Meu amigo Flavio Ricco anunciou os títulos definitivos de duas das próximas novelas da Globo, que estreiam ainda nesse ano: Tempo de Amar” entra às seis horas (no lugar de “Novo Mundo“) e O Outro Lado do Paraíso” às nove (substituindo “A Força do Querer“). Incrível como a emissora tem optado por nomes de novela tão óbvios, para não dizer cafonas – remete à programação vespertina do SBT, repleta de produções mexicanas.

O horário das nove apresenta uma sucessão de títulos de romance de banca de jornal: “A Lei do Amor“, “A Força do Querer” e “O Outro Lado do Paraíso“. Parece que usam alguma espécie de gerador automático de títulos que apenas concatena palavras com Amor, Paixão, Vida, Força, Desejo, Coração, Sonho, Paraíso.

Lógico que não é um título de novela que garante seu sucesso ou qualidade. Fosse assim, “Por Amor” e “Força de um Desejo” não teriam sido excelentes produções. Mas é importante que o título tenha a ver com a história exibida. “A Força do Querer” vai abordar o desejo de mudança. Mas, qual é “A Lei do Amor” contada na novela mesmo?

A Globo já foi mais criativa na hora de nomear uma novela. Listo a seguir 10 títulos (de várias emissoras e épocas) se não criativos, no mínimo curiosos, que, certamente, chamaram a atenção!

2-5499 Ocupado” (Excelsior, 1963): Foi o título da primeira telenovela diária exibida no Brasil. Referia-se ao número de telefone de um presídio feminino, para onde o mocinho da trama (Tarcísio Meira) ligou por engano e apaixonou-se pela voz de uma detenta (Glória Menezes), que trabalhava como telefonista. Reza a lenda que, no sul do país, um rapaz foi obrigado a mudar o número de seu telefone por coincidir com o título da novela.

Quem Bate” (Record, 1965): Na década de 1960, a Record não conseguia concorrer com as novelas da Tupi e Excelsior (campeãs de audiência), muito por conta de seu elenco reduzido. No entanto, se destacava com um invejável time de comediantes. Por isso, levou ao ar novelas humorísticas, como “Ceará Contra 007“, que parodiava os filmes de OO7, e esta “Quem Bate“, sátira à série americana “Combate“, que fazia sucesso no Brasil naquele tempo. No elenco, Otelo Zeloni, Renato Corte Real, Carmem Verônica, Rony Rios e Carlos Alberto de Nóbrega, entre outros.

O Bofe” (Globo, 1972): Nada a ver com a gíria usada hoje para designar homem bonito ou atraente. Pelo contrário: “bofe” na novela servia como metáfora a homem mal cuidado, sujo, mal educado e pilantra, mais precisamente os protagonistas da trama vividos por Claudio Marzo e Jardel Filho, dois mecânicos grosseirões.

Claudio Marzo em “O Bofe” | Maria Claudia e Luiz Gustavo em “Te Contei?” (Foto: Acervo/TV Globo)

Te Contei?” (Globo, 1978): Sugere fofoca, intriga e o que mais ligava esse título à novela era a trama das cartas anônimas comprometedoras que assustavam vários personagens. A música tema de abertura – de Rita Lee e Roberto de Carvalho, gravada por Sônia Burnier – foi um sucesso e imediatamente remete à produção: “Você se lembra daquela sirigaita / que tentou roubar o meu marido? / Te contei, não? / O marido dela agora está comigo!”.

Como Salvar Meu Casamento” (Tupi, 1979-1980): Adivinha do que se tratava? Bingo se você pensou em casamento em crise! Claro que o marido (Adriano Reys) tinha uma amante (Elaine Cristina) e a esposa (Nicette Bruno) lutava por esse casamento. Mais famosa por ter sido a última novela da Tupi e por ter ficado incompleta, já que a emissora fechou as portas antes do final da trama, faltando 20 capítulos para o seu término.

Pão Pão, Beijo Beijo” (Globo, 1983): Deliciosa novela! – no sentido de que havia muita comida envolvida, desde a abertura, ao som de “Sanduíche de Coração” do Rádio Táxi, à rede de cantinas italianas que fazia parte da trama. O título, dos mais criativos, fez um jogo de palavras dando um sentido romântico à expressão “pão pão, queijo queijo”, que quer dizer “às claras”, “sem rodeios”, “preto no branco”.

A Gata Comeu” (Globo, 1985): Quando a novela estreou, todos queriam saber o que a gata havia comido afinal. Novamente um jogo de palavras, agora com a expressão “o gato comeu”, ligando à protagonista da história, Jô Penteado (Christiane Torloni), uma espécie de devoradora de homens que já havia ficado noiva sete vezes. A música da abertura, de Caetano Veloso gravada pelo grupo Magazine, também explica: “Ela comeu meu coração / trincou, mordeu, mastigou, engoliu, comeu!

De Quina Pra Lua” (Globo, 1985-1986): Definitivamente o jogo de palavras para nomear novelas estava na moda na década de 80. Na trama desta, um pobretão fica milionário quando joga na loto e acerta a quina. Ou seja, ele nasceu virado para a lua, expressão popular que indica que a pessoa é muito sortuda. Vulgarmente falando, “com o (pontinhos) virado pra lua“. O problema foi a capa do disco internacional da novela, que até hoje faz esse título soar de grande mal gosto.

O Sexo dos Anjos” (Globo, 1989-1990): “Discutir o sexo dos anjos” significa chegar a lugar nenhum numa conversa. O que a expressão tem a ver com a novela? Absolutamente nada. A não ser a palavra “anjo”. Na trama, um anjo apaixonado (Felipe Camargo) desce à Terra para livrar uma humana da morte (Isabela Garcia). Curioso que essa novela era a adaptação de outra, da década de 60, originalmente batizada de “O Terceiro Pecado” (o anjo tinha que evitar que sua amada cometesse o terceiro pecado, senão ela morria). Caso fosse ao ar hoje, certamente o título original seria mantido.

Pícara Sonhadora” (SBT, 2001): Silvio Santos fez questão de manter o título original dessa versão brasileira de uma novela mexicana. Pícara quer dizer astuta, mas o dono do SBT sabia que se mantivesse a palavra original, chamaria mais a atenção. Na época, virou piada e “pícara” ganhou correlatos, c̶o̶m̶o̶ ̶b̶ú̶n̶d̶a̶r̶a̶.

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Sobre o autor

Nilson Xavier é catarinense e mora em São Paulo. Desde pequeno, um fã de televisão: aos 10 anos já catalogava de forma sistemática tudo o que assistia, inclusive as novelas. Pesquisar elencos e curiosidades sobre esse universo tornou-se um hobby. Com a Internet, seus registros novelísticos migraram para a rede: em 2000 lançou o site Teledramaturgia (http://www.teledramaturgia.com.br/), cujo sucesso o levou a publicar o Almanaque da Telenovela Brasileira, em 2007.

Sobre o blog

Um espaço para análise e reflexão sobre a produção dramatúrgica em nossa TV. Seja com a seriedade que o tema exige, ou com uma pitada de humor e deboche, o que também leva à reflexão.

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