Blog do Nilson Xavier http://nilsonxavier.blogosfera.uol.com.br Blog do Nilson Xavier - UOL Televisão Tue, 13 Nov 2018 11:30:31 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=4.7.2 Realismo fantástico? Terror pesado marcou a estreia de “O 7º Guardião” http://nilsonxavier.blogosfera.uol.com.br/2018/11/12/realismo-fantastico-terror-pesado-marcou-a-estreia-de-o-7o-guardiao/ http://nilsonxavier.blogosfera.uol.com.br/2018/11/12/realismo-fantastico-terror-pesado-marcou-a-estreia-de-o-7o-guardiao/#respond Tue, 13 Nov 2018 01:30:51 +0000 http://nilsonxavier.blogosfera.uol.com.br/?p=14336

Bruno Gagliasso (foto: reprodução)

A promessa de realismo fantástico na estreia da novela “O Sétimo Guardião” (nesta segunda, 12/11) foi atingida a contento. Os tipos pitorescos da fictícia cidade de Serro Azul são velhos conhecidos nossos, de novelas anteriores, com novos nomes em corpos de novos atores. O seguimento da ação introduziu a história, os personagens principais e drops de perfis de vários outros.

Porém, o autor Aguinaldo Silva deu a entender que essa fuga da realidade seria mais leve que a dureza do dia a dia. Não foi bem o que se viu no primeiro capítulo de sua novela. O foco no suspense remeteu a séries de terror como “Stranger Things“, “American Horror Story” e “O Mundo Sombrio de Sabrina“. A estética, a fotografia, as tomadas, a edição, a sonoplastia e a trilha sonora lembraram o terror conhecido tanto pelos aficionados por Netflix e HBO quanto por clássicos do cinema de suspense.

No primeiro bloco do capítulo, o roteiro tentou manter-se no folhetim, com o casamento desfeito, a noiva chorosa, o pai inconformado (Tony Ramos, quem mais se destacou), a vilã interesseira. Entre uma cena e outra, o gato Leon. Mas em um tom exageradamente soturno. Da metade para o final, a narrativa descambou para o terror explícito, com o abuso de todos os recursos e clichês possíveis, em luz, sonoplastia e caracterização. A direção firme de Rogério Gomes e sua equipe foi pouco sutil e não nos poupou de sangue e sustos.

Marina Ruy Barbosa (foto: reprodução)

Achei uma ousadia e tanto! Praticamente uma novela de horror. De olho no público que troca os “dramalhões” por séries, a Globo cada vez mais incorpora características das produções do streaming em suas novelas. Mas a recíproca também acontece, haja vista o tanto de série folhetinesca na Netflix com clichês dignos das melhores (e piores) novelas.

Por outro lado, ao que tudo indica, os guardiães que protegem a fonte milagrosa de Serro Azul – tipos que pendem para a caricatura – não devem meter medo em ninguém. Aposto que esse terror todo não passa de exibicionismo de primeiro capítulo.

PS: Bonita a homenagem a falecidos diretores que marcaram a história da televisão: numa sala, a fileira de retratos de guardiães-mor com rostos de Carlos Manga, Herval Rossano, Gonzaga Blota, Roberto Talma e Roberto Farias (morto em maio). Eles aparecem também na ótima abertura.

Leia também: Após decisão, Globo dá créditos a alunos em novela: “Justiça sendo feita”.

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Com trama fraca, Segundo Sol seguiu o caminho mais fácil por audiência http://nilsonxavier.blogosfera.uol.com.br/2018/11/09/com-trama-fraca-segundo-sol-seguiu-o-caminho-mais-facil-por-audiencia/ http://nilsonxavier.blogosfera.uol.com.br/2018/11/09/com-trama-fraca-segundo-sol-seguiu-o-caminho-mais-facil-por-audiencia/#respond Sat, 10 Nov 2018 01:35:42 +0000 http://nilsonxavier.blogosfera.uol.com.br/?p=14309

Adriana Esteves (foto: reprodução)

Depois de seis meses de “Segundo Sol“, não é difícil concluir que o  autor João Emanuel Carneiro optou pelo caminho mais fácil. A novela foi a mais irregular de sua autoria. Nada de recursos sofisticados, reviravoltas mirabolantes e ganchos surpreendentes, vistos em “A Favorita“, “Avenida Brasil” e “A Regra do Jogo“. “Segundo Sol” – terminada nesta sexta-feira (09/11) – não poupou o público de clichês e entrechos batidos, repetições de fórmulas, personagens fragilmente construídos, que agiam conforme a necessidade do roteiro, e soluções pouco engenhosas em uma narrativa que em momento algum se dispôs a desafiar o telespectador. A mais preguiçosa novela do autor.

A produção começou provocando auê. A Salvador contemporânea como cenário, a estética solar, o revival da música axé dos anos 90 e o ótimo sotaque na boca da maioria dos atores chamaram a atenção e fisgaram o público de imediato. O elenco bem escalado (a maior qualidade da novela) também surpreendeu. Mas foi fogo de palha. Uma ótima produção, com elenco bom em personagens cativantes, precisa de uma direção à altura e uma trama bem desenvolvida que não traia seu público. As críticas foram inevitáveis diante de furos de roteiro e uma história que foi ficando cada vez mais difícil de engolir.

Deborah Secco e Danilo Mesquita (captação @realitysocial)

Nem a direção (geral de Dennis Carvalho e Maria de Médicis) passou incólume. Além de alguns furos pontuais – como o homem dentro do barco e o os que vazaram no espelho -, faltou uma sintonia maior entre diretores e o texto de João Emanuel Carneiro. O autor é famoso por incluir “sequências de terror” em suas novelas (como as vistas em “A Favorita” e “Avenida Brasil“). A cena em que Luzia acorda com a cama tomada por mariscos, ou aquela em que Karola é aterrorizada por Galdino em seu apartamento, foram bem feitas tecnicamente, mas sem conseguir causar a comoção proposta pelo texto.

Tecnicamente, a direção se saiu melhor mesmo – como a sequência, há poucas semanas, em que o carro no qual Roberval foi tomado como refém capota (direção de Cristiano Marques). Algumas cenas que exigiram uma emoção maior dos atores também funcionaram, como a expulsão de Rosa de casa pelo pai, e o casamento de Roberval e Cacau desfeito no altar.

A trama inicial, do cantor Beto Falcão (Emílio Dantas) julgado morto, não era original, mas poderia ter rendido bem. Esvaziou-se lá pela metade da novela. Foi quando o autor fez de Luzia, vivida por uma Giovanna Antonelli apática, a grande protagonista de sua história. Não bastasse a personagem pouco cativante, em uma trama pouco crível, o autor, para justificar o seguimento da ação, fez dela uma mulher burra, que facilmente caía nas armações dos vilões.

Parte do elenco (foto: reprodução)

Ainda: lembra que Ariella era uma famosa DJ da Islândia? Um detalhe esquecido ou ignorado pelo script quando não lhe serviu mais. Haja boa vontade para ignorar que ninguém reconheceu Luzia em Ariella! Ou, quando Luzia foi presa pela segunda vez, esquecer que ela era “uma famosa DJ”. Bem, se o povo de “Segundo Sol” já não reconhecia o ídolo Beto, que julgava morto, quem dirá uma DJ da Islândia!

Na falta de herói ou heroína de peso, João Emanuel Carneiro fez seus vilões carregarem a novela nas costas. Aí brilharam Laureta, Karola, Remy, Roberval, Rochelle e Rosa (um pouco mocinha, um pouco vilã e muito injustiçada pelo roteiro). Adriana Esteves, sempre excelente, ganhou as melhores falas da novela, mesmo, às vezes, repetindo os arroubos de Carminha. Letícia Colin e Chay Suede tiveram grandes momentos, foram amados e odiados pelo público, merecem todos os elogios. Deborah Secco mostrou um ótimo trabalho quando “a Rosa murchou” e a atriz acabou dominando, com Adriana Esteves e Vladimir Brichta, os últimos meses da trama.

Letícia Colin e Chay Suede (foto: reprodução)

No elenco, além dos citados acima, vale destacar os trabalhos de Fabrício Boliveira (apesar da trajetória enviesada de Roberval), Giovanna Lancellotti (mesmo a vilã Rochelle, na falta de uma trama própria, ter sido punida no final com uma doença, uma resolução infame), Fabíula Nascimento, Roberto Bonfim, Danilo Mesquita (fez tão bem o papel do garoto chato!), Caco Ciocler e Maria Luísa Mendonça (teve momentos tão bons). Outro mérito da novela foi ter revelado ao grande público os talentos de Kelzy Ecard (Nice) e Claúdia di Moura (Zefa) – que venham mais oportunidades!

Em “Segundo Sol“, João Emanuel Carneiro rendeu-se à necessidade de agradar o público para alcançar audiência fácil. Talvez escaldado pela recepção suada que teve o seu trabalho anterior, “A Regra do Jogo“, de trama central mais sofisticada. Ainda: tentando fugir da obrigação de arcar com uma nova “Avenida Brasil“, exibiu um trabalho assumidamente “descompromissado”. Tão descompromissado que acabou replicando o modelo de roteiro raso da novela anterior, “O Outro Lado Paraíso“. Porém sem a mesma audiência: 33 pontos no Ibope da Grande SP contra 38 da atração anterior. Ainda assim, acima da meta de 30 pontos. “Segundo Sol” pode ter sido mais vista que “A Regra do Jogo“, mas ficou longe do prestígio de “A Favorita” ou “Avenida Brasil“.

Leia também: Maurício Stycer, “Só no fim, “Segundo Sol” mostra coragem para rir de si mesma e do Brasil“.

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Alerta na audiência: trama lenta de “Espelho da Vida” afasta o público http://nilsonxavier.blogosfera.uol.com.br/2018/11/07/alerta-na-audiencia-trama-lenta-de-espelho-da-vida-afasta-o-publico/ http://nilsonxavier.blogosfera.uol.com.br/2018/11/07/alerta-na-audiencia-trama-lenta-de-espelho-da-vida-afasta-o-publico/#respond Wed, 07 Nov 2018 21:21:52 +0000 http://nilsonxavier.blogosfera.uol.com.br/?p=14279

Vitória Strada (foto: reprodução)

Sinal amarelo para a novela tal“. É quando a audiência da concorrência ameaça a novela, ou a audiência da novela fica abaixo do esperado pela emissora. Só por isso, já é para a Globo prestar atenção em “Espelho da Vida“, sua produção das seis. O concorrente “Cidade Alerta“, jornalístico policial da Record, já encosta na novela.

Para a faixa, a Globo espera, pelo menos, 20 pontos no Ibope da Grande SP. Em seis semanas de exibição, “Espelho da Vida” registra uma média de 19 pontos, abaixo das produções anteriores no mesmo período: “Orgulho e Paixão” 21, e “Tempo de Amar” 22,5. A “Malhação“, que podia levantar a novela, também não ajuda: a temporada “Vidas Brasileiras” vem há mais de dois meses enfrentando sua pior fase desde que estreou, em março.

É preocupante se considerarmos que essa semana começou o Horário de Verão, historicamente ruim para as audiências. Esperava-se que “Espelho da Vida” fosse arrebatar o público nessas primeiras seis semanas para enfrentar melhor o período em que a novela é exibida enquanto o sol ainda está alto lá fora – mais precisamente a partir de dezembro, quando também chegam as festas de fim de ano.

Mas a novela de Elizabeth Jhin tem deixado a desejar. A trama sobre uma moça que insiste em investigar uma encarnação passada, e faz viagens no tempo através de um espelho, não sai do lugar. Foram seis longas semanas em que raros acontecimentos movimentaram a história.

Alinne Moraes (foto: reprodução)

A cada capítulo, vemos belas imagens de uma cidadezinha histórica mineira; elenco bem escalado, com destaque para as performances de Alinne Moraes, Felipe Camargo, Ana Lúcia Torre, Suzana Faini e Emiliano Queiroz (os dois últimos, pouco aparecem); trilha sonora agradável; e direção correta. É uma novela bonita de ver. Mas a trama não anda.

Até Irene Ravache – sempre se espera uma grande personagem da atriz – está apagada. Vitória Strada – muito bem como a protagonista – mas em uma personagem que já começa a incomodar pelo chove-não-molha a que é submetida. E João Vicente de Castro vivendo um tipo antipaticíssimo. O núcleo de cinema, que chega na cidade para rodar um filme, é um nada que leva a lugar nenhum. Pura encheção de linguiça.

No entanto, há uma sensação de que “Espelho da Vida” cresce quando as cenas são no passado. Primeiro porque são raras. Segundo, são belas. Terceiro, estão envoltas no mistério da trama, bem construído pela autora Elizabeth Jhin. Fica o desejo de mais sequências na década de 1930. Até mesmo para fazer a história se movimentar, já que a novela dá a entender que a trama depende da ação no passado.

O mistério “quem matou Julia Castelo?” é bom, aguça a curiosidade. Mas não há curiosidade que resista a uma história que dá um passo a cada cinco capítulos.

Leia também: “Cidade Alerta dispara e já aparece no ‘Espelho’ de novela das seis“.

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Há 50 anos, Beto Rockfeller nacionalizou e revolucionou a nossa telenovela http://nilsonxavier.blogosfera.uol.com.br/2018/11/07/ha-50-anos-beto-rockfeller-nacionalizou-e-revolucionou-a-nossa-telenovela/ http://nilsonxavier.blogosfera.uol.com.br/2018/11/07/ha-50-anos-beto-rockfeller-nacionalizou-e-revolucionou-a-nossa-telenovela/#respond Wed, 07 Nov 2018 09:00:51 +0000 http://nilsonxavier.blogosfera.uol.com.br/?p=14266

Luiz Gustavo e Bete Mendes

O modelo de telenovela brasileira que você conhece hoje nasceu há exatamente 50 anos, com a estreia de “Beto Rockfeller“, na TV Tupi, em novembro de 1968. Um “divisor de águas” no gênero. Todas as bibliografias são unânimes: a novela brasileira se divide entre antes e depois de “Beto Rockfeller“.

Tratava-se do auge do processo de nacionalização da nossa teledramaturgia, iniciada timidamente com algumas produções anteriores. “Beto Rockfeller” deu início a um novo formato que passou a ser seguido pelas demais emissoras. A Globo, por exemplo, aderiu ao estilo ao demitir a cubana Glória Magadan, até então responsável pela dramaturgia da emissora, com suas histórias melodramáticas e fantasiosas baseadas no modelo latino, que nada tinham a ver com a realidade brasileira.

Luiz Gustavo com Débora Duarte

Beto Rockfeller” abandonava a linha de atitudes dramáticas e artificiais que acompanhavam as novelas desde que o gênero havia chegado por aqui. O tom coloquial dos diálogos rompia com os padrões estabelecidos até então. Todavia, só mesmo com o trabalho de criação e o posicionamento de modernizar a linha da telenovela foi possível adaptar o público às novas exigências. Não só os diálogos mudaram. Tudo passou por uma renovação – a estrutura da história principalmente.

O maniqueísmo vigente encontrou seu contraponto no protagonista. Beto, o anti-herói, vivido por Luiz Gustavo, assumiu os postos até então ocupados por personagens de caráter firme, sensatos, absolutamente honestos e capazes de qualquer proeza para salvar a mocinha das adversidades. A sua concepção procurava se aproximar das pessoas comuns, isto é, ter as atitudes boas ou más conforme se apresenta a vida.

Um dos méritos da novela foi dar ao público uma fantasia com gosto de realidade. As notícias que andavam nos jornais da época faziam parte de sua trama e eram comentadas por seus personagens. Houve inovação também na forma de gravar, com externas em locais verdadeiros de São Paulo. Antes, pouco se ultrapassava os limites dos estúdios.

Eleonor Bruno, Luiz Gustavo, Irene Ravache e Jofre Soares | Maria Della Costa e Walter Forster

Beto Rockfeller” revolucionou até o modelo de interpretação dos atores, que passou dos exagerados gestos dramáticos para uma forma natural. A linguagem era coloquial, os diálogos incorporavam gírias e expressões do cotidiano. Isso fazia com que o público se identificasse com a história. Muitas vezes, os atores improvisavam suas falas, inventando diálogos que não estavam no roteiro, o que também era novo na TV. A direção não se restringiu apenas a marcar os atores em função da câmera. O despojamento dessa marcação provocou a libertação dos atores, no sentido de fazer um trabalho artístico também na televisão.

A ideia inicial da novela foi do então diretor artístico da Tupi, Cassiano Gabus Mendes. O protagonista surgiu na boate paulistana Dobrão, que pertencia a Cassiano. Uma menina da alta sociedade comemorava lá seu aniversário, quando, de repente, entrou um camarada com roupa descolada, pegou flores do balcão, deu para a aniversariante – que era lindíssima -, tirou-a para dançar e, no final, acabou levando a moça embora.
Luiz Gustavo, cunhado de Cassiano, relembrou: “Perguntei para um amigo quem era o cara. Acredita que ninguém conhecia? Falei para o Cassiano: ‘Era um bicão!’ e ele: ‘Bicão não, ele é um puta personagem!”. (“Antes e Depois de Beto”, Alline Dauroiz, O Estado de São Paulo, 15/11/2008).

Com a ideia do personagem na cabeça, Cassiano foi atrás do autor. Bráulio Pedroso, ex-editor do caderno de literatura do Estadão, estava na pior, sem dinheiro depois de um acidente de carro. Logo aceitou o desafio. Mas como Bráulio era um homem do teatro e pouco entendia sobre televisão, seus textos eram adaptados pelo diretor da novela, Lima Duarte. Cassiano, Bráulio e Lima estavam por trás de uma trama simples, mas que mostrava nova proposta de trabalho para a televisão brasileira.

Sobre a identidade do protagonista, Cassiano Gabus Mendes, Luiz Gustavo e Bráulio Pedroso sabiam que o nome precisava ser curto e remeter a algo meio nobre, para um malandro cheio de ginga que sempre teria uma boa sacada para os imprevistos. Não demorou muito para chegarem a “Beto”. Mas o sobrenome exigiu um pouco mais de atenção. “Onassis” e “Rothschild” foram propostos por Luiz Gustavo, e “Rockfeller” foi o tiro certeiro de Cassiano. (“Biografia da Televisão Brasileira”, de Flávio Ricco e José Armando Vannucci).

Outra inovação foi a trilha sonora, que deixou de trazer temas sinfônicos tocados por orquestras e utilizou sucessos populares de artistas da época, como Erasmo Carlos, Luiz Melodia, Beatles, Rolling Stones, Bee Gees e Salvatore Adamo. A identificação do público com personagens e seus temas musicais começou com “Beto Rockfeller“. No entanto, uma trilha sonora “oficial” da novela nunca foi lançada comercialmente.

Luiz Gustavo e Plínio Marcos

Mas nem tudo foi perfeito em “Beto Rockfeller“. O sucesso fez com que a emissora espichasse a novela e Bráulio Pedroso, em grande estafa, abandonou provisoriamente a sua obra (foi substituído por três autores liderados por Eloy Araújo). Lima Duarte também ausentou-se, sendo substituído na direção por Wálter Avancini. Alguns atores tiraram férias, e muitos dos capítulos eram preenchidos com qualquer criação de emergência: um grupo de jovens dançando numa festinha, um personagem caminhando indeciso ou então uma determinada ação, sem diálogos, era acompanhada por alguma música da trilha. Com uma mudança tão radical, a novela poderia perder audiência, o que não aconteceu.

O esquema de produção em cima da hora, as longas jornadas de trabalho, as cansativas externas, o estúdio improvisado e o atraso no pagamento foram gerando cada vez mais estresse no elenco e muitos atores começaram a pedir para sair da novela.
Ela foi longa e no final já estávamos cansados, querendo que terminasse logo”, desabafou a atriz Ana Rosa.
O próprio Luiz Gustavo pediu férias e os autores foram obrigados a justificar a saída de Beto, colocar boa parte da carga dramática em Neide (irmã do protagonista, vivida por Irene Ravache) e criar cenas para preencher o tempo. (“Biografia da Televisão Brasileira”, de Flávio Ricco e José Armando Vannucci).

Tudo o que foi válido serviu de base para as novelas do futuro. Até mesmo as improvisações dentro da falta de organização da época servem de modelo até hoje. Mas, no fundo, se as novelas revolucionavam na sua fórmula, seu conteúdo era mantido o mesmo. Um vaivém em busca da audiência.

O filme “Beto Rockfeller”

Em 1970, no rastro do sucesso da novela, foi lançado o filme “Beto Rockfeller“, dirigido por Olivier Perroy, protagonizado pelo ator-personagem Luiz Gustavo – mas sem repercussão. Em 1973, Bráulio Pedroso escreveu uma continuação da novela: “A Volta de Beto Rockfeller“, com parte do elenco original. Não conseguiu a repercussão esperada, mas também não comprometeu o personagem.

Hoje, não existem mais os capítulos da novela. O pouco que sobrou de suas filmagens está guardado na Cinemateca Brasileira, em São Paulo. Quase todos os capítulos foram apagados pela própria Tupi, que usava as fitas para gravar por cima os capítulos seguintes. A Tupi já passava por dificuldades financeiras e todos os projetos que apareciam tinham de ser feitos com baixos custos, mas que trouxessem lucros para a emissora. Nada muito diferente de hoje em dia, 50 anos depois.

AQUI tem tudo sobre “Beto Rockfeller“: trama, elenco completo, personagens e mais curiosidades.
Fotos: divulgação.
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“O Tempo Não Para” ensina dívida histórica com negros sem abordar cotas http://nilsonxavier.blogosfera.uol.com.br/2018/11/06/o-tempo-nao-para-ensina-divida-historica-com-negros-sem-abordar-cotas/ http://nilsonxavier.blogosfera.uol.com.br/2018/11/06/o-tempo-nao-para-ensina-divida-historica-com-negros-sem-abordar-cotas/#respond Tue, 06 Nov 2018 09:30:03 +0000 http://nilsonxavier.blogosfera.uol.com.br/?p=14256

Olívia Araújo, Maicon Rodrigues, Aline Dias, David Júnior e Cris Vianna (foto: João Miguel Jr/TV Globo)

Passada a euforia com a estreia de “O Tempo Não Para” (a audiência ficou bem acima da média durante o primeiro mês de exibição), a novela de Mário Teixeira segue sem grandes reviravoltas na trama, o que se reflete no Ibope, com média de 26 pontos na Grande SP (um ponto acima da atração anterior, “Deus Salve o Rei“, no mesmo período). Mesmo assim, dentro do esperado pela emissora no horário.

Ainda que a história dos congelados tenha esfriado (não resisti!), “O Tempo Não Para“, a meu ver, tem pelo menos duas grandes qualidades que me fazem assistir à novela com prazer: a galeria de personagens cativantes (menos a Betina) e o texto inspirado de Mário Teixeira.

Isto posto, destaco a abrangente abordagem sobre racismo na trama, com ênfase para o contexto histórico por meio dos personagens ex-escravos – Cesária (Olívia Araújo), Menelau (David Júnior), Cairu (Cris Vianna), Cecílio (Maicon Rodrigues) e Damásia (Aline Dias). Os atores estão ótimos em seus papeis, cada qual com personalidades bem definidas e tramas próprias.

Na semana passada, Cesária e Menelau, de passagem no Rio de Janeiro, visitaram o lugar onde os negros vindos da África desembarcavam para serem vendidos. “O Tempo Não Para” não desperdiça oportunidades para fazer refletir sobre “dívida histórica”. Porém, de maneira sutil, no subtexto. Perceba que nunca se falou na novela em “dívida” ou mesmo “cotas nas universidades”. Não que não devesse. Mas o texto, em vez de incitar polêmicas, vai por um caminho, penso eu, menos óbvio e ainda assim eficiente: provoca a reflexão.

Carol Macedo e Milton Gonçalves | Solange Couto (foto: divulgação/TV Globo)

As cenas de contraponto entre os ex-escravos e os personagens negros contemporâneos são as melhores: Eliseu (Milton Gonçalves), um “escravo moderno” e os familiares Barão (Rui Ricardo Dias), que enveredou-se pelo crime, e Paulina (Carol Macedo), que luta para ascender socialmente por mérito próprio. Entre outros, há ainda Vanda (Lucy Ramos), realizada social e profissionalmente. O humor também é uma boa arma usada pelo autor: Coronela (Solange Couto), personagem de caráter duvidoso e posturas questionáveis, refere-se aos negros de forma pejorativa e vive repetindo “Eu não sou negra!“.

O texto também trata do descaso com o idoso, da posição da mulher e outros temas ditos “sociais” – envolvendo personagens negros ou não. Ainda que a expressão “dívida histórica” não seja dita com todas as letras dentro da novela, basta um olhar um pouco mais sagaz sobre as tramas para captar a mensagem.

Em três meses no ar, “O Tempo Não Para” foi mais eficiente na abordagem da questão negra do que seis meses inteiros de “Segundo Sol“. Tudo bem que talvez essa nem tenha sido a proposta da novela das nove. Mas para uma trama que se passa na Bahia (criticada pelo elenco demasiadamente branco), a representatividade negra passou ao largo e “O Tempo Não Para” dá um banho.

AQUI tem tudo sobre “O Tempo Não Para“: trama, elenco, personagens, curiosidades.
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Mais que cinebiografia, Bohemian Rhapsody é um tributo a Mercury e sua arte http://nilsonxavier.blogosfera.uol.com.br/2018/11/03/mais-que-cinebiografia-bohemian-rhapsody-e-um-tributo-a-mercury-e-sua-arte/ http://nilsonxavier.blogosfera.uol.com.br/2018/11/03/mais-que-cinebiografia-bohemian-rhapsody-e-um-tributo-a-mercury-e-sua-arte/#respond Sat, 03 Nov 2018 21:05:31 +0000 http://nilsonxavier.blogosfera.uol.com.br/?p=14218

Rami Malek como Freddie Mercury

Assisti ao filme “Bohemian Rhapsody” e confesso que saí do cinema extasiado. Como toda análise eufórica tende a criar em quem lê uma expectativa exagerada, vou tentar segurar minha onda. Mas não seria demais dizer que o filme de Bryan Singer vai muito além da cinebiografia (parcial e limitada, diga-se de passagem) de Freddie Mercury. Trata-se de um grande tributo ao astro e à sua arte.

Eu era criança, lá nos anos 70, quando o Queen despontou e consagrou-se como uma das maiores bandas de rock de todos os tempos. Tomei conhecimento do quarteto nos anos 80, já na fase dos sintetizadores, das críticas e dos maiores desentendimentos entre os integrantes. Porém, as músicas – atemporais – são reconhecidas por todas as gerações posteriores.

Ben Hardy, Gwilym Lee, Joseph Mazzello e Rami Malek

Não se iluda: a narrativa é convencional e linear, com boas doses de melodrama (a relação de Mercury com a família, com a namorada Mary Austin, a descoberta de que era portador de Aids, etc). Mas é com base nessa narrativa que o filme prepara o público para a catarse final: a apresentação apoteótica do Queen no show Live Aid, no estádio de Wembley, em Londres, em 1985. O filme já abre com esse prenúncio, aliás. E, ao terminar aí, deixa de fora detalhes sobre os últimos anos da banda e da vida do cantor (falecido em 1991).

A interpretação de Rami Malek (da série “Mr. Robot“) como Freddie Mercury é exuberante, para dizer o mínimo. O ator reproduziu com precisão a personalidade do astro, que mesclava timidez e euforia, os trejeitos, os gestos no palco, o andar altivo e o queixo erguido que ressalta os dentes protuberantes. Aliás, uma crítica: achei bem exagerada a prótese que o ator usa no filme. Na vida real, Mercury até que disfarçava bem, com o bigode e sempre fotografando de boca fechada. Eu mesmo, só depois de muito tempo fui perceber que Mercury era dentuço!

Rami Malek e Lucy Boynton

Rami Malek brilha e os três atores que vivem os companheiros no Queen também são ótimos: Ben Hardy como Roger Taylor, Gwilym Lee como Brian May e Joseph Mazzello como John Deacon. A favor da narrativa, a ordem cronológica não é lá muito respeitada – como o show no Rio com o coro de “Love of My Life“, que não aconteceu nos anos 70 como no filme. A homossexualidade de Mercury, seus excessos e sua doença são pouco detalhados – as festas regadas a sexo e drogas, por exemplo, são apenas pinceladas. A cinebiografia é parcial porque é limitada cronologicamente e porque tem um quê de chapa branca.

Ainda assim, funciona muito bem na telona. O desenvolvimento da trama e dos personagens converge para o clímax. Mas o efeito não seria o mesmo não fossem as músicas do Queen. Elas dão tom à carga dramática proposta. E o público sai satisfeito: quase todos os grandes sucessos da banda são ouvidos em “Bohemian Rhapsody“. Reproduzido na tela, o show do Live Aid promove uma verdadeira experiência sensorial. Por mais que saibamos que os efeitos especiais fizeram a cena, a música do Queen transcende tudo.

Apropriando-se da música, “Bohemian Rhapsody” emociona. Graças ao legado do Queen.

Fotos: divulgação.
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Música gringa do passado será o tema de abertura de “O Sétimo Guardião” http://nilsonxavier.blogosfera.uol.com.br/2018/11/02/musica-gringa-do-passado-sera-o-tema-de-abertura-de-o-setimo-guardiao/ http://nilsonxavier.blogosfera.uol.com.br/2018/11/02/musica-gringa-do-passado-sera-o-tema-de-abertura-de-o-setimo-guardiao/#respond Fri, 02 Nov 2018 13:10:37 +0000 http://nilsonxavier.blogosfera.uol.com.br/?p=14192

Bruno Gagliasso e Lília Cabral (foto: João Cotta/TV Globo)

Nas chamadas de “O Sétimo Guardião” – nova novela de Aguinaldo Silva que estreia dia 12 -, toca a música “Entre a Serpente e a Estrela” (gravada por Zé Ramalho), que marcou uma antiga novela do autor, “Pedra Sobre Pedra“, de 1992. Porém, ela não será o tema de abertura da nova produção.

Novamente uma música estrangeira do passado embala a abertura de uma novela das nove da Globo. Ainda que o sétimo guardião não seja da galáxia, a canção escolhida para musicar a entrada da novela é “The Chain“, da banda anglo-americana de pop rock Fleetwood Mac. Lançada originalmente em 1977, ela fez parte, no ano passado, da trilha do segundo filme dos “Guardiões da Galáxia“.

Composta pelos cinco integrantes da banda, Stevie Nicks, Lindsey Buckingham, Christine McVie, John McVie e Mick Fleetwood, “The Chain” foi faixa do 11º álbum de estúdio do grupo, “Rumours“, considerado o melhor disco do Fleetwood Mac.

Curiosamente, a última novela de Aguinaldo Silva, “Império” (2014-2015), já trazia uma antiga música estrangeira na abertura: “Lucy in the Sky with Diamonds“, dos Beatles, numa regravação de Dan Torres. É a onda das músicas requentadas que dominou as trilhas das novelas da Globo. As atuais tramas das sete e seis horas também trazem “releituras” ou gravações de sucessos do passado: “Eu Nasci Há Dez Mil Anos Atrás“, regravação de Ivete Sangalo da famosa música de Raul Seixas e Paulo Coelho – na abertura de “O Tempo Não Para“, às 19h; e “Minha Vida“, gravada por Rita Lee em 2001 – na abertura de “Espelho da Vida“, às 18h.

Faz tempo: a última vez que uma canção original contemporânea embalou a abertura de uma novela das nove da Globo foi em 2012: “Alma de Guerreiro“, gravada por Seu Jorge, na abertura da novela “Salve Jorge“, de Glória Perez.

Saudades do tempo em que músicas originais eram compostas exclusivamente para aberturas de novelas. Ou sucessos que, se não feitos sob encomenda, ficavam para sempre associados às novelas: “Dancin´Days” com as Frenéticas, “Pecado Capital” de Paulinho da Viola, “Menino do Rio” (em “Água Viva“) de Caetano Veloso gravada por Baby Consuelo, “Brasil“, de Cazuza gravada por Gal Costa para “Vale Tudo“, “Modinha para Gabriela” também com Gal Costa, o “lerê-lerê” de “Escrava Isaura” (a música “Retirantes“), etc.

AQUI tem tudo sobre “O Sétimo Guardião“: trama, elenco completo, personagens e curiosidades.

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“Segundo Sol” vai chegando ao fim com soluções e desfechos preguiçosos http://nilsonxavier.blogosfera.uol.com.br/2018/10/30/segundo-sol-vai-chegando-ao-fim-com-solucoes-e-desfechos-preguicosos/ http://nilsonxavier.blogosfera.uol.com.br/2018/10/30/segundo-sol-vai-chegando-ao-fim-com-solucoes-e-desfechos-preguicosos/#respond Wed, 31 Oct 2018 01:28:07 +0000 http://nilsonxavier.blogosfera.uol.com.br/?p=14152

Deborah Secco e Vladimir Brichta (foto: reprodução)

João Emanuel Carneiro, de “Segundo Sol“, nem parece o mesmo autor de “A Favorita“, “Avenida Brasil” e “A Regra do Jogo“. As duas primeiras conquistaram o público pelas tramas bem amarradas e reviravoltas surpreendentes (entre outros fatores).

A Regra do Jogo” também teve tudo isso, mas ainda alguns problemas e menos empatia do “grande público”. Contudo, não há como negar que tratava-se de uma novela ousada, que saiu do conforto e do lugar comum. Ainda: seu último mês estava com o Ibope alto (para aquele momento) e a trama virada do avesso – o que não é exatamente o que se vê nessas últimas semanas de “Segundo Sol“.

A atual trama das nove (que mais parece das sete) vai chegando ao fim sem ritmo de final de novela. Parece que ainda estamos no meio da história. Os desfechos mais parecem improvisações. Deixam a desejar, considerando o que se espera da assinatura João Emanuel Carneiro. Exemplos recentes: a proposta de Maura (Nanda Costa) de trisal (casal de três) para Selma (Carol Fazu) e Ionan (Armando Bababioff) – eles aceitaram rapidinho; a morte do pai-de-santo (João Acaiabe desperdiçado) para que Groa (André Dias) assuma o terreiro (que trama aleatória!); Laureta (Adriana Esteves) atira em Du Love (Ciro Sales) em um estacionamento de shopping – o encontro não seria num lugar movimentado? E como a esperta Laureta mata o cara num local como esse e na frente de uma testemunha, Tomé (Pablo Morais)?

Renata Sorrah e Adriana Esteves (foto: reprodução)

E a doença de Rochelle (Giovanna Lancellotti) serviu para? A regeneração da vilãzinha somente. Assim como o interminável assalto à mansão da família Athayde: tão simplesmente para a regeneração de Severo (Odilon Wagner), uma suposta união da Família Addams e para preencher uma semana de novela – o vulgo “encher linguiça”. Sem contar os recursos narrativos já fartamente usados pelo autor em novelas anteriores (tramas requentadas).

Soluções fáceis e preguiçosas assim fizeram a crítica cair matando em “O Outro Lado do Paraíso“: doenças para punir vilões e regenerações de caráter ou mudanças de personalidade repentinas e sem maiores explicações (ou, ao menos, sem um desenvolvimento coerente). A diferença é que o público havia comprado a trama maluca de Walcyr Carrasco e o Ibope estava nas alturas. Enquanto “Segundo Sol” – usando um jargão futebolístico – segue apenas cumprindo tabela.

Um aparte para a participação de Renata Sorrah como a mãe lunática de Laureta, uma personagem pitoresca que trouxe algum frescor para a reta final da novela.

Leia também:Mãe doida de Laureta quebra a monotonia de Segundo Sol na reta final“.

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Em minha cabeça eu já havia saído da TV, diz Regina Volpato do “Mullheres” http://nilsonxavier.blogosfera.uol.com.br/2018/10/29/em-minha-cabeca-eu-ja-havia-saido-da-tv-diz-regina-volpato-do-mullheres/ http://nilsonxavier.blogosfera.uol.com.br/2018/10/29/em-minha-cabeca-eu-ja-havia-saido-da-tv-diz-regina-volpato-do-mullheres/#respond Tue, 30 Oct 2018 02:21:54 +0000 http://nilsonxavier.blogosfera.uol.com.br/?p=14130

Regina Volpato (foto: reprodução)

Bati um papo com a apresentadora Regina Volpato, desde janeiro à frente do programa “Mulheres“, o rosto que representa a nova fase do antigo programa da TV Gazeta. Uma fase “mais arejada”, nas palavras dela. Afastada há 5 anos da televisão, Regina estava direcionando a carreira para o seu canal no YouTube e para a literatura (ela lançou, em 2017, o livro “Mudar Faz Bem”). Regina estava pronta para sair do país quando veio, de repente, o convite para comandar o “Mulheres“. E tudo mudou. Ela falou do inesperado de substituir Cátia Fonseca (a apresentadora anterior), das primeiras dificuldades, e das mudanças no programa e em seu público. O diretor do “Mulheres“, Ocimar de Castro, estava com a gente.

A substituição

Regina: Eu ia sair do país. Eu estava desde 2013 sem fazer televisão. Em minha cabeça, eu já havia saído da TV. Estava feliz com meu livro e fazendo o canal no Youtube. Eu pensei ‘para fazer o canal e o livro, eu posso estar em qualquer lugar, não preciso estar aqui‘. Minha ideia era ir para Portugal em maio [deste ano], ficar uns 3 meses e ver se voltava. Era uma possibilidade, porque a minha carreira estava sendo direcionada para a escrita e o canal. Aí veio o convite para cobrir as férias da Cátia Fonseca, em janeiro. E tudo foi acontecendo, fui me adaptando.

Ninguém imaginava que a Cátia ia sair. Era uma possibilidade remota ficar no lugar dela ou de outra apresentadora, porque a Gazeta é uma emissora muito organizadinha. Então eu vim para fazer um mês. Aí, a Cátia anunciou a saída dela no final de dezembro e eu recebi um telefonema da emissora dizendo ‘nada muda entre nós, você vai ficar um mês‘. Fiz esse mês e gostei.

Ocimar: Regina assinou para cobrir as férias. Veio a notícia da saída da Cátia e eu estava viajando. Liguei para ela e falei: segunda-feira a gente se encontra e você faz o programa. Vamos ver o que vai dar! No primeiro programa que Regina fez ao vivo, havia 4 câmeras. Eu dizia ‘vai para a câmera 1‘, ela ia para o outro lado [risos]. No segundo, terceiro dia, ela falava para mim ‘calma que eu tô me acostumando!‘. Não teve ensaio nem nada. Ela foi jogada aos leões!

Regina Volpato e o diretor Ocimar de Castro (foto: Luís França)

Regina: É desafiador ficar quatro horas ao vivo fazendo o programa nessa época de patrulha, em que as pessoas estão o tempo todo criticando tudo. Preciso ter informação, jogo de cintura e estômago. Mas também é muito divertido. Vi que a equipe era legal e que o trabalho era relevante. Fazer um trabalho relevante é muito importante. Não ser mais uma. A minha vaidade está quando falam ‘você é diferente por isso e por aquilo. Um trabalho que seja autêntico, que faça diferença para as pessoas, que provoque o mínimo de reflexão. Então eu fui gostando e isso começou a fazer sentido em minha cabeça. Nesse momento que estamos vivendo, na posição que a mulher está se colocando, acho que tenho alguma coisa a acrescentar nessa história. A minha presença pode ser interessante.

Nesse período eleitoral, você falou de política em algum momento? Você se posicionou politicamente?

Regina: Não me posicionei. Como jornalista, não acho legal. Não gosto de jornalista que se mistura com a notícia. Sou da velha guarda. No máximo falo de meu time de futebol porque não trabalho com esporte. Eu procuro ser muito cuidadosa com isso, inclusive em postagens nas minhas redes sociais. Claro que um olhar mais atento, mais cuidadoso, vai saber qual apito eu toco! Mas eu não me manifestei abrindo o meu voto para nenhum candidato. Inclusive é uma recomendação da emissora aos jornalistas para que se mantenha discrição com relação a isso. Mesmo estando no entretenimento, eu me entendo jornalista. Porém, como a eleição é o assunto do momento, eu faço o edital de abertura dos programas falando de política em várias situações: falei de tolerância, de saber respeitar, de fake news, da dificuldade que estamos tendo em conversar com quem não pensa igual. Falei de política mas não me posicionei politicamente. Mas dá para perceber qual é a minha, né?

Foi difícil substituir a Cátia em um programa que estava indo bem? Você sentiu medo?

Regina: Não senti medo. Não tenho medo da comparação. Eu tenho um estilo e modéstia à parte eu gosto de meu estilo. Nadamos em raias diferentes. Meu estilo é muito diferente do estilo de todas as pessoas com quem já trabalhei: da Daniela Albuquerque, que fazia o programa comigo na RedeTV, da Cristina Rocha, que me substituiu no “Casos de Família“, e da Cátia Fonseca, que eu substituí no “Mulheres“. Todas têm o seu mérito, a sua dose de empatia e de rejeição e eu não sou melhor nem pior que ninguém. Então eu não tenho medo da comparação. Nem quando escrevi meu livro, que para mim foi um desafio. Tinha medo da avaliação de meu trabalho, de acharem o livro ruim. Mas não da comparação. Ela não me acanha. E porque acho que tem espaço para todo mundo, para todos os estilos. Fiquei com medo do cansaço físico [são 4 horas diárias de um programa ao vivo]. Não fiquei com medo de não ter repertório porque os assuntos são muito variados. Acho que a idade traz essa segurança. Se eu não fizer bem hoje, eu me preparo e amanhã faço um pouco melhor até chegar a hora em que vou fazer bem. Quando comecei aqui, eu não fazia bem o merchan. Fui aprendendo e desenvolvendo o meu estilo. Porque não faço merchan igual a nenhuma das apresentadoras daqui e nem de nenhuma outra emissora.

Foto: Luís França

Ambiente mais arejado

Regina: Esse ano de 2018 foi um ano de muito trabalho e de renovação para o programa. Para mim, ficar à frente de um programa que está há 38 anos no ar, no mesmo horário, mesma emissora, com essa tradição, é uma responsabilidade muito grande. Mas acho que era preciso “tirar a poeira”. Tava precisando de uma arejada. Mas sem deixar de lado esses 38 anos. É um mérito da emissora bancar um programa de quatro horas diárias durante tanto tempo.

Foi uma força-tarefa da emissora para que o programa fosse mudado. E o grande golpe de sorte para mim foi que eu encontrei uma equipe azeitada, babando por trazer novidades, por poder trabalhar de uma maneira mais criativa, por poder ousar, por correr o risco de errar. A gente não tem medo de errar, porque se não der certo, não deu. Mas vamos tentar! Eu fui apenas a cerejinha do bolo, porque tudo já estava harmonicamente estruturado, todo mundo trabalhando. Então a única coisa que eu tive que fazer foi a minha parte, sem atrapalhar. Só precisei chegar e fazer o meu direitinho porque todo mundo já estava fazendo o seu. E assim tem sido.

O que mudou?

Regina: O público mudou. Não é mais apenas a “senhorinha”, a dona de casa ou o público sênior. Tenho o cuidado de não subestimar meu público. A culinária, por exemplo, funciona de um jeito que ninguém pensa em mudar. Há um ritual. O Instagram do programa só tinha fotos. Decidimos colocar as receitas no Instagram. Algo simples que fez a diferença. A um custo zero. Deu uma modernizada, o público adorou. Até fazer os merchans de um jeito diferente foi um desafio que a gente se impôs”

Regina com Tutu (foto: Luís França), Tia e Fefito (foto: divulgação)

O diretor Ocimar de Castro considera Regina Volpato a nova “Rainha do Merchan“: com ela, o merchandising no “Mulheres” subiu 40%. Uma média diária de 16 ações. E o merchan saiu da bancada.

Ocimar: A gente mudou e já estão copiando! O merchan que as pessoas conhecem é no balcão, na bancada. Por que não fazemos diferente?

Regina: A princípio, os clientes [que pagam para ter o produto anunciado no programa] tiveram resistência. Um topou e fizemos sentados, no sofá. Outro gostou e pediu para fazer também.

Ocimar: Temos toda a liberdade da direção da emissora para criar. Também já teve um cliente que fez um merchan por meio de um link de fora, lá da Avenida Paulista, conversando com uma pessoa na rua.

Regina: Saiu do estúdio, deu uma arejada. Por isso eu falo ‘tirar a poeira’, na maneira nova de tratar os assuntos. Outro exemplo de mudança foi o anúncio de um aplicativo. Um cliente sem o produto físico. O produto é o aplicativo e você anuncia explicando e pedindo para o telespectador baixar no celular. Outro exemplo: pauta de moda. A pessoa fala ‘isso fica bem porque ela é jovenzinha, porque isso alonga, isso emagrece‘ e vem a minha observação ‘se você acha que você tem que ter o corpo mais alongado, né! porque se você acha que está ótima do jeito que está, tudo bem‘. Aqui é tudo muito fluido, muito orgânico. Mas quem está em casa capta. Mesmo em meus figurinos. Alguém falou ‘ah, mas você pode‘. Não! Eu vou poder sempre, enquanto eu achar que estou me sentindo bem, que não estou inadequada. No programa de aniversário, usei um macacão com um decote enorme. Eu, uma mulher de 50 anos! Ninguém achou estranho, porque estava harmônico, de acordo com esse ambiente ‘mais arejado’.

Fotos: Divulgação/TV Gazeta.

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Exposição organizada por Boni comemora os 50 anos da mídia no Brasil http://nilsonxavier.blogosfera.uol.com.br/2018/10/28/exposicao-organizada-por-boni-comemora-os-50-anos-da-midia-no-brasil/ http://nilsonxavier.blogosfera.uol.com.br/2018/10/28/exposicao-organizada-por-boni-comemora-os-50-anos-da-midia-no-brasil/#respond Sun, 28 Oct 2018 10:00:47 +0000 http://nilsonxavier.blogosfera.uol.com.br/?p=14098

Claro que a mídia existe no Brasil há mais que 50 anos! O cinquentenário é do Grupo de Mídia São Paulo, entidade que congrega os profissionais de mídia das agências de publicidade e propaganda do estado. A exposição “50 anos de mídia no Brasil – 1968-2018” conta a evolução dos meios de comunicação nas últimas cinco décadas entremeada com os fatos históricos que ocorreram no país no decorrer deste período. A proposta é uma viagem no tempo para mexer com a memória afetiva e com as emoções de quem viveu estas épocas. E também como uma oportunidade de conhecimento para os mais jovens.

Separada por décadas, a exposição contou com a curadoria de José Bonifácio de Oliveira Sobrinho (o Boni) e Thomaz Souto Corrêa, dois ícones do mercado de mídia brasileiro, que, junto com uma equipe de apoio, foram responsáveis por selecionar e indicar as referências para cada período da exposição. No passeio pelo tempo, tudo está ambientado de acordo com as características de cada década. Aparelhos de televisão e rádio (das épocas correspondentes) exibem trechos de programas de cada período em questão. Também há um “Álbum Interativo da Mídia”, em que o visitante organiza imagens de acordo com o que acha mais relevante ou a seu gosto pessoal.

Este ano, o Grupo de Mídia São Paulo comemora seus 50 anos. Como profissionais ligados diretamente aos meios de comunicação e seu público consumidor, nada mais justo do que comemorarmos esta data com a população. Esta exposição foi concebida como um presente para cidade, uma oportunidade de entretenimento para as famílias viajarem juntas por estas décadas tão marcantes na vida dos brasileiros“, comentou Paulo Sant’Anna, presidente do Grupo de Mídia São Paulo, durante a coletiva de imprensa da mostra.

A exposição contou com a criação e produção de cenografia da Caselúdico, responsável por algumas das exposições mais bem-sucedidas do país, como o Castelo Ra-Tim-Bum, Tim Burton e Sílvio Santos; pesquisa e textos de Elmo Francfort; produção geral da Piraporanó e gerenciamento operacional da Duo Experience.

As décadas

1968-1977, Massificação das mídias: ditadura, chegada do homem à Lua, revista Veja, ascensão da TV Globo, Copa de 70, TV colorida, transmissões via satélite, Sílvio Santos, Chacrinha, Flávio Cavalcanti, Hebe Camargo, Os Trapalhões, Beto Rockfeller, Irmãos Coragem, O Bem Amado, Gabriela, Escrava Isaura, Jornal Nacional, Fantástico, Sítio do Picapau Amarelo, os homens do Rádio, etc.

1978-1987, O Brasil via Embratel: rádios FM, Era Disco, Dancin’Days, quem matou Salomão Hayalla?, fim da TV Tupi, a anistia, Diretas Já, fim do Governo Militar, Henfil, SBT, TV Manchete, TV Mulher, Bozo, Roque Santeiro, Armação Ilimitada, Xuxa, revistas verticais, vídeo-clipes, vídeo-games, videocassete, etc.

1988-1997, Quantidade e Qualidade: nova Constituição, TV Pirata, Jô Soares Onze e Meia, Faustão, compact-disc, MTV, Vale Tudo, Pantanal, Carrossel, TV a cabo, impeachment de Collor, TVA, Globosat, morte de Ayrton Senna, internet, UOL, DVD, Castelo Rá-Tim-Bum, banheira do Gugu, telefone celular, etc.

1998-2007, A Internet veio para ficar: ferramentas gratuitas iG e BOL, portais Terra e Yahoo, ICQ e MSN Messenger, fim da TV Manchete, Ratinho, bug do milênio, blogs, Napster, rádios web, Google, Orkut, versões online das revistas, blu-ray, Casa dos Artistas, BBB, O Clone, Senhora do Destino, Twitter, Facebook, etc.

2008-2018, A Era Digital: plataformas digitais, redes sociais, segunda tela, Breaking Bad, Game of Thrones, Avenida Brasil, Empreguetes, Os Dez Mandamentos, A Força do Querer, The Voice Brasil, Masterchef Brasil, trend topics do Twitter, Youtube, memes, Netflix, rádio ao vivo e a cores, mídia exterior, cinema multiuso, aplicativos, etc.

50 anos de mídia no Brasil – 1968-2018
De 26/10/2018 a 03/02/2019, de terça a domingo, das 10h00 às 19h00.
Ingressos: R$ 20,00 | R$ 10,00 (meia)
Unibes Cultural: Rua Oscar Freire, 2.500, São Paulo (ao lado da estação Sumaré do metrô)
Informações: (11) 3065-4333 ou no site.

Fotos: Flavio Santana.

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