Blog do Nilson Xavier http://nilsonxavier.blogosfera.uol.com.br Blog do Nilson Xavier - UOL Televisão Fri, 25 May 2018 01:51:33 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=4.7.2 1ª fase de “Segundo Sol” abusou da coerência e da boa vontade do público http://nilsonxavier.blogosfera.uol.com.br/2018/05/24/1a-fase-de-segundo-sol-abusou-da-coerencia-e-da-boa-vontade-do-publico/ http://nilsonxavier.blogosfera.uol.com.br/2018/05/24/1a-fase-de-segundo-sol-abusou-da-coerencia-e-da-boa-vontade-do-publico/#respond Fri, 25 May 2018 01:51:33 +0000 http://nilsonxavier.blogosfera.uol.com.br/?p=12544

Adriana Esteves como Laureta (foto: reprodução)

Iniciou-se nesta quinta-feira (24/05) a fase definitiva da novela “Segundo Sol“. Ou seja, a trama, que havia começado no ano de 1999, avançou para os dias de hoje. Foram 9 capítulos na primeira fase da novela. Um ritmo alucinado em que o autor João Emanuel Carneiro criou milhares de situações para explicar os antecedentes dos personagens cujas histórias iremos acompanhar a partir de agora.

No afã de contar sua trama em poucos capítulos, Carneiro se atropelou em uma narrativa que abusou da coerência e apelou para a boa vontade do espectador. Fora que a originalidade passou longe: muita coisa “chupada” das mais variadas fontes. OK, o que resta para ser original em novela? (já escrevi sobre isso). Mas surpreendeu a profusão de entrechos batidos (reconhecidos inclusive de sua própria obra) vindo de um autor de quem é sempre esperado algo mais.

Nem a direção escapou ilesa da pressa: não passou despercebido do público um homem da produção dentro de um barco em cena e outros dois refletidos no espelho em outra.

Maurício Stycer listou semelhanças entre “Segundo Sol” e a novela anterior, “O Outro Lado do Paraíso” – BATE NA MADEIRA! Que as semelhanças parem aí! Mas, pelo menos, a primeira fase da novela de Walcyr Carrasco não foi corrida. Afastou o público mais pelos temas pesados (Gael batendo diariamente em Clara e Nádia extremamente racista) do que pelo ritmo. Eu, particularmente, preferia a primeira fase dessa novela (antes de o autor apelar para o absurdo para conquistar audiência fácil).

Deu canseira acompanhar tanto acontecimento por capítulo na primeira fase de “Segundo Sol“. Por que a maioria das novelas hoje têm essa divisão? A primeira fase de “Avenida Brasil” ficou centralizada em Nina criança, até ser abandonada no lixão. Foi o suficiente, mesmo porque, todos os mistérios que envolviam os antecedentes de Carminha, Nilo, Mãe Lucinda, Max e Jorginho foram explicados ao longo da trama ou em flashbacks. O mesmo em “A Favorita“.

Parece que, desta vez, João Emanuel Carneiro preferiu um atalho mais fácil e rápido (escaldado com “A Regra do Jogo“?). Dá medo imaginar que o caminho fácil para obter audiência seja uma herança de “O Outro Lado do Paraíso” a se tornar padrão daqui para frente.

Enfim, “Segundo Sol” é outra história. E não é porque foi atropelada que não é boa. Pelo contrário, tem a assinatura de João Emanuel Carneiro, algo que já vale a pena o tempo dispendido. E ainda a beleza das imagens, a trilha sonora nostálgica e o elenco primoroso: Giovanna Antonelli, Vladimir Brichta, Fabíula Nascimento, Caco Ciocler, André Dias (Groa) e Cláudia Di Moura (Zefa) ótimos. E Emílio Dantas, Déborah Secco, Fabrício Boliveira e Adriana Esteves em estado de graça. O que já valeu a correria desses 9 capítulos.

Vamos ver os que nos reserva os próximos 6 meses de “Segundo Sol“. O primeiro capítulo da segunda fase foi ótimo!

Leia também: Fantasma, cenário repetido e volta no tempo: 5 tropeços de Segundo Sol.

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Globo proíbe SBT de reprisar a novela “Éramos Seis” http://nilsonxavier.blogosfera.uol.com.br/2018/05/22/globo-proibe-sbt-de-reprisar-a-novela-eramos-seis/ http://nilsonxavier.blogosfera.uol.com.br/2018/05/22/globo-proibe-sbt-de-reprisar-a-novela-eramos-seis/#respond Tue, 22 May 2018 10:00:44 +0000 http://nilsonxavier.blogosfera.uol.com.br/?p=12529

Jandir Ferrari, Tarcísio Filho, Luciana Braga, Othon Bastos, Irene Ravache e Leonardo Brício (foto: SBT)

Sabe a novela “Éramos Seis“, com Irene Ravache, exibida com sucesso pelo SBT em 1994? Com uma legião de fãs, é a campeã de pedidos de reprise da emissora. Recentemente, a Globo noticiou que uma nova versão da história está na fila de suas próximas produções. Sempre imaginei que assim que a Globo estreasse um remake de “Éramos Seis“, o SBT, famoso por suas táticas de guerra, imediatamente reprisaria sua novela na tentativa de minar a estreia da Globo.

Porém, no que depender da Globo, o SBT nunca mais poderá reprisar essa novela. Muito menos cogitar uma regravação. Foi o que me disse Silvio de Abreu na semana passada, durante um evento nos Estúdios Globo. A situação de uma emissora não poder reprisar uma novela por impedimento da concorrente configura um caso inédito na história de nossa Teledramaturgia. Explico.

A adaptação do livro “Éramos Seis“, de Maria José Dupré, para o formato telenovela, por Silvio de Abreu em parceria com Rubens Ewald Filho, foi a primeira experiência da dupla como roteiristas de televisão, produzida pela TV Tupi, em 1977, com Nicette Bruno e Gianfrancesco Guarnieri como o casal protagonista. Em 1994, quando a dramaturgia do SBT estava sob o comando de Nilton Travesso, a emissora levou ao ar uma nova versão da novela de Silvio e Rubens. Silvio de Abreu, a essa altura contratado da Globo, vendeu os direitos de seu texto para a emissora de Silvio Santos, que tocou o projeto.

Carlos Augusto Strazzer, Carlos Alberto Riccelli, Maria Isabel de Lizandra, Ewerton de Castro, Nicette Bruno e Gianfrancesco Guarnieri (foto: Tupi)

A versão do SBT, produzida em 1994, com Irene Ravache e Othon Bastos como os protagonistas, foi um grande sucesso da emissora, considerada pela crítica especializada a sua melhor novela já feita. Teve apenas uma reprise, em 2001. De lá para cá, o fãs clamam por uma nova reapresentação. O SBT nunca os atendeu porque a emissora devolveu a Silvio de Abreu os direitos sobre o seu texto. Ou seja, Silvio os comprou de volta. O SBT não pode reprisar sua novela porque perdeu os direitos sobre a obra.

Como a Globo manifestou desejo em fazer uma nova versão da novela de Silvio de Abreu e Rubens Ewald Filho (será a terceira), os direitos sobre o texto dos autores estão agora com a Globo. A emissora ainda comprou os direitos sobre o livro de Maria José Dupré. Logo, o SBT não pode nem cogitar uma nova adaptação da história.

A previsão de estreia da nova “Éramos Seis” é para 2020, no horário das seis, com texto de Ângela Chaves (de “Os Dias Eram Assim“). Como ainda é muito cedo, não há previsão de elenco. Pedi uma posição ao SBT e a emissora, por meio de sua assessoria de imprensa, respondeu: “O SBT não vai se pronunciar porque há muitos anos não tem mais os direitos sobre a obra“.

AQUI tem tudo sobre a novela “Éramos Seis” da Tupi, de 1977: trama, elenco, personagens, curiosidades, etc. AQUI, tudo sobre a versão do SBT, de 1994.

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SBT transforma “Poliana”, um livro dos EUA, em novela mexicana http://nilsonxavier.blogosfera.uol.com.br/2018/05/21/sbt-transforma-poliana-um-livro-dos-eua-em-novela-mexicana/ http://nilsonxavier.blogosfera.uol.com.br/2018/05/21/sbt-transforma-poliana-um-livro-dos-eua-em-novela-mexicana/#respond Mon, 21 May 2018 10:00:12 +0000 http://nilsonxavier.blogosfera.uol.com.br/?p=12504

Sophia Valverde e Milena Toscano (foto: Gabriel Cardoso/SBT)

É senso comum louvar a estratégia do SBT em produzir novelas infantis quando a TV aberta carece de programação desse tipo no horário nobre. Atende uma demanda e traz um bom retorno para a emissora, por meio da audiência fiel e dos produtos licenciados. E não há como negar o know-how alcançado a cada produção, sempre a mais recente superior à anterior. É unânime que “As Aventuras de Poliana“, a nova estreia da casa, traz todas as qualidades técnicas já vistas nas produções anteriores. Tudo muito bonito e moderno e em consonância com a criançada de hoje.

Entretanto, ainda que seja uma novela infantil e que a fórmula já testada com sucesso seja um caminho seguro, esta seria uma boa oportunidade para inovar a narrativa e ofertar ao público um produto, digamos, um pouco diferente. Vou deixar não uma crítica, mas uma provocação.

As Aventuras de Poliana” é a primeira novela infantil do SBT não adaptada de uma produção latina (“Carrossel”, “Cúmplices de um Resgate” e “Carinha de Anjo” são mexicanas e “Chiquititas” é argentina). É baseada no famoso livro da escritora estadunidense Eleanor H. Porter, publicado em 1913. Pela primeira vez, a emissora deixa de adaptar uma novela latina já pronta para beber em outra fonte, no caso, um romance dos EUA. Como não poderia ser diferente, a autora Íris Abravanel transferiu a trama original para o Brasil contemporâneo e a recheou de novas histórias paralelas para fazer render uma novela longa.

O público do SBT habituou-se ao padrão latino de suas novelas, calcado no melodrama familiar com personagens maniqueístas, guiados pela dualidade bem-mal. As novelas infantis não escapam dessa proposta. Apesar da Poliana original vir de outra vertente, o SBT apresenta essa versão com as mesmas características de suas adaptações latinas. Ou melhor: os mesmos vícios.

No romance de Eleanor H. Porter, não há a figura da vilã. Pelo menos não a vilã com a qual os espectadores do SBT estão acostumados. No livro, Miss Polly, a tia da menina Pollyana, é uma mulher dura, severa e exigente que impõe uma série de restrições ao espírito livre da sobrinha órfã recém chegada à sua casa. O SBT transformou a tia da menina, agora chamada de Luísa, em uma terrível vilã de novela mexicana. São muitas caras e bocas da atriz Milena Toscano para evidenciar o contraponto entre tia e sobrinha. Só lhe falta o tapa-olho!

Helder Sossa e Igor Jansen (foto: Elizângela de Sousa/SBT)

Também pode ser notado um certo exagero na Poliana, vivida pela menina Sophia Valverde: sorrisos demais em uma felicidade insistente. A história original, no livro, começa com a menina chegando à casa da tia. O SBT iniciou sua novela mostrando os antecedentes de Poliana, feliz com os pais viajando pelo Nordeste. É onde ela conhece o garoto João, interpretado por Igor Jansen. O pai do menino é um homem extremamente rude com o filho, incapaz de demonstrar qualquer traço de carinho, enquanto a mãe, submissa, é exatamente o oposto – olha a herança do melodrama latino!

Em poucas cenas, Poliana perdeu a mãe e, depois, o pai, e chegou à casa da tia rica, em São Paulo. Apesar do trauma recente (e que trauma!), a menina surge toda serelepe, com um sorriso no rosto, afinal ela joga do “jogo do contente“, aprendido com os pais. Destratada pela tia, Poliana insiste em ver o lado bom da vida. É a bonita mensagem do livro, apresentada na novela por meio de uma narrativa nada sutil.

Com anos de experiência no melodrama latino, o SBT transforma um romance infanto-juvenil em uma novela mexicana, sem espaço para meios-termos. Diante dessa caricatura da menina otimista, um adulto teria desistido de Poliana já no primeiro capítulo. Claro, trata-se de uma novela para crianças. Mas seria esse um bom momento para introduzir uma linha narrativa diferente para os pequenos, como no livro.

Pelo visto, o público infantil também terá que se esforçar no jogo do contente para suportar ver por mais de dois anos Poliana sofrer nas mãos da tia megera.

Em tempo, a campanha de divulgação do SBT surtiu efeito: a audiência dos primeiros capítulos foi alta, na casa dos 14 pontos no Ibope da Grande São Paulo, quando costumeiramente o horário fica nos 10 pontos.

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E se o Casamento Real fosse escrito por autores de novelas brasileiras? http://nilsonxavier.blogosfera.uol.com.br/2018/05/19/e-se-o-casamento-real-fosse-escrito-por-autores-de-novelas-brasileiras/ http://nilsonxavier.blogosfera.uol.com.br/2018/05/19/e-se-o-casamento-real-fosse-escrito-por-autores-de-novelas-brasileiras/#respond Sat, 19 May 2018 14:15:04 +0000 http://nilsonxavier.blogosfera.uol.com.br/?p=12489

Casamento do Príncipe Harry e Meghan Markle (Ben Birchall/Pool)

 

Se o Casamento Real fosse escrito por Walcyr Carrasco:
Seria desfeito no altar. Todos os coadjuvantes assistindo na igreja. Ao fim da cena, torta na cara.

Se o Casamento Real fosse escrito por Manoel Carlos:
A lua-de-mel seria no Leblon. A mãe de Megan se chamaria Helena e Megan seria uma moça chata e mimada.

Se o Casamento Real fosse escrito por Glória Perez:
Viriam comitivas da Índia, Turquia e Marrocos (em voos de 10 minutos). Todos dançariam e falariam português.

Eta Mundo Bom (Walcyr Carrasco) | Laços de Família (Manoel Carlos) | Caminho das Índias (Glória Perez)

 

Se o Casamento Real fosse escrito por Benedito Ruy Barbosa:
As famílias seriam rivais por causa de uma cerca que avançou a propriedade. A festa seria na roça com italianos dançando a tarantela.

Se o Casamento Real fosse escrito por João Emanuel Carneiro:
O Príncipe Harry levaria Megan para um lixão ao descobrir que ela é amante de um amigo.

Se o Casamento Real fosse escrito por Carlos Lombardi:
O Príncipe Harry e todos os padrinhos estariam sem camisa.

Da Cor do Pecado (João Emanuel Carneiro) | Vale Tudo (Gilberto Braga) | Tieta (Aguinaldo Silva)

 

Se o Casamento Real fosse escrito por Gilberto Braga:
O casamento seria de fachada já que Megan e Harry dividiriam o mesmo amante.

Se o Casamento Real fosse escrito por Silvio de Abreu:
Haveria um assassinato durante a cerimônia. A única pista: uma lista com o horóscopo chinês.

Se o Casamento Real fosse escrito por Aguinaldo Silva:
O casamento seria numa sexta-feira de lua cheia já que Megan é a Mulher de Branco.

Fotos: Acervo/TV Globo.
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Relembre a carreira de Eloísa Mafalda, uma das atrizes mais queridas da TV http://nilsonxavier.blogosfera.uol.com.br/2018/05/17/relembre-a-carreira-de-eloisa-mafalda-uma-das-atrizes-mais-queridas-da-tv/ http://nilsonxavier.blogosfera.uol.com.br/2018/05/17/relembre-a-carreira-de-eloisa-mafalda-uma-das-atrizes-mais-queridas-da-tv/#respond Thu, 17 May 2018 13:27:55 +0000 http://nilsonxavier.blogosfera.uol.com.br/?p=12453

Em “Saramandaia” e “Quem é Você”

O Brasil perdeu nesta quarta-feira (16/05) uma de suas atrizes mais queridas e populares, que, mesmo afastada há quinze anos da profissão, ainda povoava o imaginário popular, por seus inúmeros papeis marcantes na TV. Eloísa Mafalda faleceu aos 93 anos de idade, de causas naturais, em Petrópolis, região serrana do Rio de Janeiro.

A dona de casa alegre, popular, foi um tipo que acompanhou a atriz ao longo de sua carreira, perfeita como mulheres simples, despachadas e simpáticas. Também se destacou como as divertidas beatas com traços de vilania.

Neta de italianos, Mafalda Theotto nasceu em Jundiaí, São Paulo, em 18 de setembro de 1924. O irmão mais velho, Oliveira Neto, que já trabalhava em rádio, a levou para fazer um teste de radio-atriz. Começou atuando nas novelas da Rádio Nacional. Em seguida, com o advento da televisão, foi para a TV Paulista. Quando a recém-inaugurada TV Globo comprou a TV Paulista, Eloísa Mafalda foi contratada. Logo, pode-se afirmar que ela começou junto com a Globo. Estava no elenco de “O Ébrio”, um dos primeiros folhetins da emissora.

Em “Mulheres de Areia” e “O Astro”

Emendando uma novela na outra, Eloísa trabalhou ininterruptamente entre 1964 e 2003: foram 31 novelas (a primeira foi “Tortura D´Alma”, na TV Paulista, em 1964, e a última foi “O Beijo do Vampiro”, na Globo, em 2003), 5 minisséries e 2 seriados, além de participações em vários programas (como “Você Decide”, “Caso Verdade” e “Caso Especial”). Presença constante na tela da Globo, nos acostumamos com sua figura carismática em nossos lares por todas as décadas de 70, 80 e 90. Por causa de seus vários trabalhos em televisão, Eloísa Mafalda pouco pôde se dedicar ao teatro ou cinema.

Mapear a carreira de Eloísa Mafalda é se deparar com uma gama dos mais variados tipos de personagens, tamanha era a versatilidade da atriz. A mulher despachada, alegre, extrovertida foi uma marca. Como a comerciante Manuela em “Mulheres de Areia” (1993) e três outras personagens criadas pela novelista Ivani Ribeiro: Gioconda de “Hipertensão” (1986), Francisquinha de “O Sexo dos Anjos” (1989) e Kitty de “Quem é Você” (1996). A Edith de “Brilhante” (1981), de Gilberto Braga, também entra na categoria da personagem alegre e espalhafatosa.

Com Cassia Kiss e Lucinha Lins em “Roque Santeiro”

A carreira de Eloísa também aparece muito associada à de seu amigo Ary Fontoura. Três vezes formaram um casal na ficção: Zulmira e Apolinário em “Bandeira Dois”, Pombinha e Florindo Abelha em “Roque Santeiro” e Zuleide e Perácio em “Araponga” – curiosamente, três novelas de Dias Gomes. Em “Paraíso”, de Benedito Ruy Barbosa, sua personagem, a beata Mariana, tinha muitas cenas com o Padre Bento (Ary Fontoura). Mariana, por sinal, entra na categoria das carolas, juntamente com Maria Aparadeira de “Saramandaia”, Pombinha de “Roque Santeiro” e Gioconda de “Pedra Sobre Pedra”.

As donas de casa abnegadas e sofridas foram muitas: Socorro em “O Grito”, Consolação em “O Astro”, Zoraide em “Pecado Rasgado”, Adélia em “Champagne” e Guiomar em “Corpo a Corpo”. Ainda as donas de casa mais leves, pendendo para a comédia: Nenê na primeira versão de “A Grande Família”, Joana em “Locomotivas” e Zeni em “Plumas e Paetês”. Em seus últimos papeis, a atriz viveu “vovozinhas”: Leonor em “Por Amor”, Delfina em “Meu Bem Querer” e Carmem em “O Beijo do Vampiro”.

E ainda as personagens “fora da curva”: a macumbeira Gonzaguinha de “O Bofe”; a cafetina Maria Machadão de “Gabriela”; a secretária solteirona Irene de “Água Viva”; e a delegada Celeste da série “Delegacia de Mulheres”.

Dona Nenê e Lineu (Jorge Dória) em “A Grande Família”

Abaixo, 10 das personagens mais lembradas da atriz na televisão.

Zulmira de “Bandeira Dois” (1971-1972)
Formava um casal divertido com Apolinário (Ary Fontoura), oficial reformado da Marinha. Os dois viviam inventando fantasias sexuais para apimentar o casamento. O autor, Dias Gomes, repaginou esses personagens em “Araponga” (1990-1991), mas com outros nomes: Zuleide e General Perácio.

Dona Nenê de “A Grande Família” (1972-1975)
A apaziguadora matriarca da família Silva. Inesquecível parceria da atriz com Jorge Dória (o marido Lineu), Brandão Filho (o pai Seu Floriano), Djenane Machado/Maria Cristina Nunes, Luiz Armando Queiroz e Osmar Prado (respectivamente os filhos Bebel, Tuco e Júnior), e Paulo Araújo (o genro Agostinho).

Em “O Beijo do Vampiro” e “Gabriela”

Maria Machadão em “Gabriela” (1975)
Um de seus melhores momentos na televisão. Ela era a cafetina do Bataclã, onde se encontravam os poderosos de Ilhéus. Sabia de muitos segredos, alguns comprometedores. A caracterização e interpretação de Eloísa lhe marcaram a carreira.

Maria Aparadeira (“Saramandaia”, 1976)
Beata de Bole-Bole, parteira da cidade – por isso seu nome. Mulher de Seu Cazuza (Rafael de Carvalho), o que soltava o coração pela boca, e mãe de Marcina (Sônia Braga), a que incendiava (literalmente) quando excitada. Marcada pela caracterização: um enorme lenço no alto da cabeça e com um cachimbo no canto da boca.

Dona Consolação em “O Astro” (1977-1978)
Mulher abnegada e sofrida, foi abandonada pelo marido no passado e criou sozinha as três filhas Laura (Ângela Leal), Lili (Elizabeth Savalla) e Luísa (Rejane Marques). Inesquecível a cena em que Consolação foi entregar um bolo de aniversário à filha Lili em seu emprego e descobriu que ela lhe mentia, já que não trabalhava lá.

Com Ary Fontoura em “Bandeira Dois”

Irene em “Água Viva” (1980)
Secretária na clínica do cirurgião plástico Miguel Fragonard (Raul Cortez). Solteirona, vivia para a família: o irmão mais novo Evaldo (Mauro Mendonça), um malandro sustentado por ela, a cunhada Vilma (Aracy Cardoso) e a sobrinha personalística Janete (Lucélia Santos). A novela fazia um contraponto entre Irene, que abdicou de sua vida pessoal pela família, com Janete, de decisões individualistas.

Mariana em “Paraíso” (1982-1983)
Fervorosa beata que acreditava que a filha, Maria Rita (Cristina Mullins), era uma santa. Criou e fomentou o mito ao redor da Santinha, que atraía fiéis ansiosos por uma graça. Seu mundo caiu quando a filha apaixonou-se pelo “Filho do Diabo”, como era conhecido o peão José Eleutério (Kadu Moliterno).

Pombinha Abelha em “Roque Santeiro” (1985-1986)
A primeira dama de Asa Branca, beata fervorosa guardadora da moral e bons costumes da cidade. Principal oponente de Matilde (Yoná Magalhães), dona da boate Sexu´s. Seu submisso marido, o prefeito Florindo (Ary Fontoura), sofria com os rompantes da mulher. Inclusive quando ela descobriu que ele tivera um caso no passado com a vedete Amparito Hernandez (Nélia Paula).

Em “O Sexo dos Anjos” e “Paraíso”

Gioconda em “Hipertensão” (1986-1987)
Despachada, desbocada, extrovertida e alegre. Com um alto astral contagiante, Gioconda só não amolecia o coração duro da irmã Donana (Geórgia Gomide), a quem vivia provocando. Ivani Ribeiro deu a Eloísa duas outras personagens semelhantes: Francisquinha de “O Sexo dos Anjos” (1989-1990) e Kitty de “Quem É Você” (1996, que foi ao ar depois do falecimento da autora).

Gioconda em “Pedra Sobre Pedra” (1992)
O oposto de sua homônima em “Hipertensão”, essa era uma mulher amarga e autoritária. Viúva e beata, mandava na vida dos filhos Ivonaldo (Marco Nanini) e Úrsula (Andrea Beltrão). Ao final, descobre-se que era a assassina de Jorge Tadeu (Fábio Jr.). O fotógrafo a presenciou roubando arte sacra da igreja. Para não ser denunciada, ela matou o retratista, que já era seu desafeto pelo envolvimento dele com a filha Úrsula.

Simpática, carismática, de riso fácil, assim Eloísa Mafalda será sempre lembrada. A atriz estava há quinze anos aposentada. Tinha problemas de memória, já não podia mais atuar, por isso mudou-se para a casa da filha Miriam, em Petrópolis. Longe da TV, já fazia uma falta danada! Mas permanecem em nossa memória suas personagens maravilhosas.

Fotos: Acervo/TV Globo.
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Plágio? Trama de “Segundo Sol” lembra novela mexicana e filme americano http://nilsonxavier.blogosfera.uol.com.br/2018/05/15/plagio-trama-de-segundo-sol-lembra-novela-mexicana-e-filme-americano/ http://nilsonxavier.blogosfera.uol.com.br/2018/05/15/plagio-trama-de-segundo-sol-lembra-novela-mexicana-e-filme-americano/#respond Wed, 16 May 2018 01:30:50 +0000 http://nilsonxavier.blogosfera.uol.com.br/?p=12425

Beto Falcão (Emílio Dantas), Karola (Deborah Secco) e Remy (Vladimir Brichta) (foto: divulgação/TV Globo)

Houve quem enxergasse semelhanças entre a trama central de “Segundo Sol” e a novela “Roque Santeiro” (1985-1986). O cantor Beto Falcão (Emílio Dantas), dado como morto, vira mito após sua suposta morte. Como o santeiro Roque vivido por José Wilker nos anos 80. Quem quer lucrar com a falsa morte é a “viúva” do ídolo, Karola (Deborah Secco), de conluio com o amante, Remy (Vladimir Brichta). Claro que são Porcina e Sinhozinho Malta, personagens de Regina e Lima Duarte. Seria uma releitura moderna e interessante. Mas as semelhanças terminam aí. Roque não era cantor e sequer conhecia Porcina, a viúva que “era sem nunca ter sido”.

“Oficialmente”, as referências do autor João Emanuel Carneiro para sua novela são cantores famosos cujas mortes causaram grande comoção popular, como Michael Jackson, Cristiano Araújo e o grupo Mamonas Assassinas (vítima de um desastre aéreo, como supostamente aconteceu a Beto Falcão). A trama central também remete a outra novela sua, “Da Cor do Pecado” (2004). Entretanto, já chegaram até mim (ah as redes sociais unem as pessoas e nada passa despercebido, não é mesmo!) duas outras fontes que poderiam fortemente ter inspirado a trama de João Emanuel Carneiro.

Em “Segundo Sol“, Beto Falcão, cantor que já não fazia mais tanto sucesso, é anunciado como vítima fatal de um acidente aéreo. A grande emoção nacional com a tragédia valoriza a sua obra. Quem ganha com isso é a namorada Karola e o empresário e irmão Remy. Não por acaso, Karola e Remy são amantes e a dupla fatura com os direitos sobre a música de Beto. Mas o cantor estava vivo. Remy e Karola bolam então o plano perfeito: Beto mantem a farsa da morte, mudando-se para um lugar remoto com outra identidade. Enquanto isso, todos enchem o bolso, já que o artista vale mais morto do que vivo.

O filme norte-americano “Póstumo” (uma coprodução com a Alemanha, lançado em 2014, disponível na Netflix), tem uma trama muito semelhante. A presumida morte de um artista plástico “incompreendido” valoriza sua obra. Percebendo o bom retorno financeiro, ele e seu marchand sustentam o mal-entendido.

̶B̶e̶t̶o̶ ̶F̶a̶l̶c̶ã̶o̶,̶ ̶K̶a̶r̶o̶l̶a̶ ̶e̶ ̶R̶e̶m̶y̶, digo, José Wilker, Regina Duarte e Lima Duarte (Foto: Acervo/TV Globo)

Já a novela mexicana “Zacatillo, un lugar en tu corazón“, produzida pela Televisa em 2010 (inédita no Brasil), tem uma trama mais parecida com a de “Segundo Sol“. A vilã, empresária de uma cantora famosa, arma para que ela morra prevendo lucrar com sua morte. Seu paralelo em “Segundo Sol” é Laureta (Adriana Esteves), que alia-se a Remy e Karola. A cantora da trama mexicana, que para todos os efeitos está morta, assume a identidade de uma prima e observa de longe a comoção que sua morte causou no povo da cidadezinha de Zacatillo (do título).

O mais sensacional é perceber o quanto a história de “Zacatillo” remete a… “Roque Santeiro“! Além de a cidade mexicana que dá nome à novela ser uma espécie de Asa Branca, repleta de tipos curiosos e divertidos, uma equipe de cinema chega ao local para filmar a vida da tal cantora que todos acham que morreu. Tal qual em “Roque“.

Plágio? Claro que não! Arquétipos, inspiração ou mera coincidência. Existe em dramaturgia a máxima de que novela é a arte de contar uma mesma história, só que de maneira diferente. Essa cadeia de mesclas, referências e inspirações levanta a questão do que é realmente original. Existe ainda uma história que não foi contada?

Em tempo, a trama do filme “Póstumo” também remete à novela “Selva de Pedra” (de 1972), na parte em que a artista plástica Simone (Regina Duarte), dada como morta, reaparece sob o disfarce de uma irmã. Mas a própria “Selva de Pedra” não era uma ideia original, foi inspirada no filme “Um Lugar ao Sol” (de 1951). Que por sua vez foi inspirado no romance “Uma Tragédia Americana” (publicado em 1925). E por aí vai.

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Estreia de “Segundo Sol” tenta seduzir com muito colorido e música baiana http://nilsonxavier.blogosfera.uol.com.br/2018/05/14/estreia-de-segundo-sol-tenta-seduzir-com-muito-colorido-e-musica-baiana/ http://nilsonxavier.blogosfera.uol.com.br/2018/05/14/estreia-de-segundo-sol-tenta-seduzir-com-muito-colorido-e-musica-baiana/#respond Tue, 15 May 2018 02:28:25 +0000 http://nilsonxavier.blogosfera.uol.com.br/?p=12417

Giovanna Antonelli e Emílio Dantas (foto: reprodução)

Sai o peso da Clara vingativa e entra a leveza de uma Bahia colorida e musical. Ainda que quase sem negros, pelo menos nesse primeiro capítulo.

Na estreia de “Segundo Sol” (nesta segunda, 14/05), João Emanuel Carneiro cumpriu o que prometeu nas entrevistas sobre sua novela: uma atração descontraída, mais “Avenida Brasil” que “A Regra do Jogo” (seus últimos trabalhos). Quase uma “Da Cor do Pecado” (do horário das sete). E isso é bom. Não só porque “Avenida Brasil” tem uma fórmula mais palatável ao público do que “A Regra do Jogo“, como também por esse mesmo público ainda estar acomodado pelo simplismo da produção anterior, “O Outro lado do Paraíso“.

O que chamou mais a atenção? A trilha repleta de releituras atraentes de clássicos da música popular baiana dos anos 1990 (época em que se passa a trama, inicialmente). A agilidade com que a história foi apresentada mais a beleza estética das locações e do elenco. Tudo em sintonia com um objetivo certo: seduzir o público.

Do elenco, só os protagonistas tiveram mais cenas, referentes à trama central. Emílio Dantas exorcizou o bandido Rubinho de “A Força do Querer” em um espaço de seis meses. O ator está super a vontade na pele do cantor baiano Beto Falcão. Destaque também para Giovanna Antonelli, quase uma Gabriela, e a dupla ardilosa de Vladimir Brichta e Deborah Secco. E Adriana Esteves, que em apenas uma rápida cena, em nada lembrou a Carminha de “Avenida Brasil” – uma das grandes temeridades dessa estreia.

Cedo para falar mais. Capítulo de estreia é sempre para fisgar o público. Claro que esse ritmo ágil tende a se diluir nas próximas semanas – mesmo sabendo que João Emanuel Carneiro é um autor de muito fôlego em suas tramas. No mais, personagens carismáticos e a beleza e sonoridade baianas retratados de forma bastante sedutora. Deu vontade de ver mais!

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Com trama ultrapassada, “O Outro Lado” teve público certo: o conservador http://nilsonxavier.blogosfera.uol.com.br/2018/05/11/com-trama-ultrapassada-o-outro-lado-teve-publico-certo-o-conservador/ http://nilsonxavier.blogosfera.uol.com.br/2018/05/11/com-trama-ultrapassada-o-outro-lado-teve-publico-certo-o-conservador/#respond Sat, 12 May 2018 02:12:35 +0000 http://nilsonxavier.blogosfera.uol.com.br/?p=12363

Marieta Severo (foto: reprodução)

Imagine que a trama de “O Outro Lado do Paraíso” se passasse na década de 1940, com os personagens em figurinos de época e alguns ajustes pontuais. Não ia mudar absolutamente nada! Sem tirar nem por, a novela de Walcyr Carrasco pareceu concebida para uma atração de época do horário das seis. O texto, as situações, as falas e comportamentos do personagens, todos anacrônicos, ultrapassados, fora do contexto de nosso tempo (e não é porque o interior do país seja, talvez, “atrasado” quando comparado ao Rio ou São Paulo). O alvo? Um público mais conservador. Ou que não está a fim de ser desafiado ou instigado.

O dinamismo foi a maior qualidade do roteiro do autor, que mostrou fôlego com mil e uma reviravoltas e o poder de fisgar o público e mantê-lo grudado em sua história por seis meses, causando catarses e, assim, fidelizando a audiência. Porém, para dar conta da trama ágil, Carrasco abriu mão de um texto mais elaborado e caiu no simplismo de diálogos repetitivos e rasteiros em entrechos batidos e situações forçadas, mandando a coerência e a verossimilhança às favas e subestimando a inteligência do espectador. E assim, com uma trama envolvente, mastigada e de fácil assimilação, conquistou a audiência.

Desta forma, a novela descambou para um festival de maniqueísmo, reiteração de falas e tramas (à exaustão), diálogos tatibitate e humor de gosto duvidoso, carregados pela mão pesada do autor, sem filtro, nuances, meios-termos ou sutilezas. O que agradou em cheio uma audiência que não estava interessada em pensar ou refletir, mas apenas em se desligar da realidade do dia a dia e se deixar levar e divertir passivamente. O que é louvável, afinal telenovela é, acima de tudo, entretenimento.

Laura Cardoso (foto: reprodução)

Direção e elenco

A direção (equipe de Mauro Mendonça Filho) apresentou um ótimo trabalho na primeira fase da novela, valorizando a produção através da iluminação, arte e trilha sonora, com tomadas sofisticadas, destacando os cenários naturais do Tocantins. Porém, a partir da segunda fase, ficou evidente o desnível com o texto de Carrasco, o que forçou os diretores a acompanhar o roteiro ingrato do autor. Mesmo assim, em momentos pontuais, a direção teve resoluções bem administradas para o texto: a fuga de Clara do manicômio, seu retorno triunfal, o julgamento do pedófilo e o casamento de Mercedes e Josafá foram alguns dos melhores momentos da novela.

Por outro lado, direção e elenco acabaram algumas vezes contaminados pelo simplismo. Glória Pires pareceu pouco à vontade em sua personagem. A cena da atriz e de Juca de Oliveira na morte do personagem dele foi um dos momentos mais constrangedores da novela, em que os atores não conseguiram escapar do texto raso e da direção pouco cuidadosa. Atuações que deixaram a desejar em uma encenação digna dos piores dramalhões latinos.

Se Glória e Juca, atores tarimbados, escorregaram no texto de Carrasco, imagina os mais jovens cujas cenas demandavam estofo. Neste quesito, ficaram devendo Caio Paduan e Érika Januza, com personagens importantes na trama. Rafael Cardoso repetiu as caras e bocas de outros vilões que interpretou. Ainda: Bianca Bin, ótima na primeira fase da história, caiu na armadilha da cara de paisagem para justificar uma personagem fria e vingativa; e Julia Dalavia ficou limitada a uma personagem ruim e sem camadas, diferente de seus trabalhos anteriores, pelos quais foi bastante elogiada.

Em contrapartida, brilharam Eliane Giardini, que imprimiu personalidade e carisma à sua personagem racista; Fernanda Montenegro, que tentou levar com dignidade uma personagem nada crível; Marieta Severo, que sabiamente fugiu do tom cômico na criação da vilã maniqueísta; e Laura Cardoso, que mesmo com uma personagem pequena, deu a impressão de se divertir em cena. Há de se registrar ainda as ótimas atuações da experiente Ana Lúcia Torre e da novata Bella Piero, e o desperdício de Fábio Lago, Zezé Motta e Tainá Müller, atores talentosos relegados a papeis menores e sem importância.

Bianca Bin e Sergio Guizé (foto: reprodução)

Irresponsabilidade social

Na pretensão de abordar temas sociais, Walcyr Carrasco meteu os pés pelas mãos e mais prestou desserviços do que suscitou discussões ou conscientização para a sociedade.

A única abordagem levada com alguma coerência foi a pedofilia, cuja sequência do julgamento do pedófilo foi aplaudida (menos o final, quando tudo vira um salseiro). Mesmo assim, arranhada com uma polêmica. Por que um problema grave como o enfrentado pela personagem Laura foi tratado por uma advogada novata que fez um curso de coach e aprendeu a fazer hipnose? Por que Laura não procurou um profissional experiente da área específica, um psicólogo ou um terapeuta? Porque tratava-se de um “merchan“, uma ação paga pelo Instituto Brasileiro de Coaching. Assim o autor forçou uma situação para justificar a ação de merchandising. Pegou mal, muito mal.

Ao tratar racismo, homossexualidade, nanismo, alcoolismo, violência doméstica, assédio, corrupção e prostituição, o autor perdeu a oportunidade da abordagem profunda, conduzindo tudo para a caricatura ou a discussão rasa, com desfechos mal alinhavados e vazios. “O Outro Lado do Paraíso” promoveu o deboche de minorias e oprimidos através do humor anacrônico, apelativo e de mau gosto que não cabe mais nos dias atuais – pejorativamente chamado de “humor Zorra Total”. Escárnio de prostitutas, gays e anões disfarçado em alívio cômico. Uma lástima.

Todo avanço conquistado por “A Força do Querer” na discussão sobre homossexualidade e transexualidade pareceu jogado ladeira abaixo cada vez que surgia o núcleo gay de “O Outro Lado do Paraíso“. É como ter avançado 2 passos e depois voltado 3. Em vez de garantir o patamar alcançado para não haver retrocesso, Carrasco só reforçou preconceito, estigmatização e estereótipos. Assim, o autor passou seis meses pregando a cura gay e ridicularizando homossexuais desprezados pelas famílias para, ao final, dar uma conclusão paliativa (a mãe aceitou o filho porque ele ameaçou abandoná-la).

Da mesma forma, a racista, que durante a novela inteira proferiu impropérios contra negros, ao final, como num passe de mágica, tomou consciência de seu preconceito. Não houve a intenção de levar homossexualidade e racismo à pauta da sociedade, apenas apresentar como alívio cômico para fisgar audiência. Um desserviço se pensarmos que personagens preconceituosos (assim como os vilões) funcionam como uma válvula inconsciente de escape, para que o público extravase o preconceito através de esquetes de humor.

O personagem Gael (Sérgio Guizé), o violentador de mulheres no início da trama, foi outra abordagem infeliz do autor. Em vez de aprofundar o tema da violência doméstica, Carrasco preferiu a redenção do violentador. Ou seja, não se discutiu nada, já que o personagem apenas serviu à trama romântica. E o que dizer da anã Estela (Juliana Caldas), apresentada meramente como uma atração grotesca para despertar a curiosidade do público! Perdeu-se a oportunidade de levantar as dificuldades e o preconceito sofrido por anões. Visibilidade, só se for negativa, já que Estela apenas serviu de chacota para outros personagens. Outra lástima.

Se a proposta da novela era uma “fantasia”, como declarou o autor, por que colocar na trama temas de interesse social que não conseguiu abordar eficientemente?

Bianca Bin e Marieta Severo (foto: reprodução)

Audiência vs. Qualidade

Massacrada por todos os lados pelas críticas à qualidade do texto e da trama, “O Outro Lado do Paraíso” termina com Ibope na Grande SP em torno dos 38.5 pontos, inferior a “Avenida Brasil“, o último grande sucesso do horário, que fechou nos 38.8 (leia abaixo). O último capítulo cravou 46 pontos, bem menos que o último de “A Força do Querer” (50) e de “Avenida Brasil” (52).

Sabemos que Ibope mede audiência, não qualidade, e que audiência e qualidade nem sempre andam juntas. Para explicar o ibope da novela, vários fatores podem ser considerados, como a fraca concorrência, a crise econômica e o hábito de manter a TV ligada na Globo. Mas o principal mérito de “O Outro Lado do Paraíso” foi entregar o que o público aceitou e com o que se envolveu: diversão através de escapismo e fuga da realidade, sem gerar questionamentos ou fazer raciocinar.

Sob este prisma, o folhetim de Walcyr Carrasco cumpriu com louvor a sua meta: entreter somente. E para um público certo: não apenas o que só está interessado em relaxar, mas também o que se diverte com piadinhas sobre gays, negros, anões e prostitutas, e que pensa com a mentalidade da década de 1940, como os personagens da trama.

Novela nenhuma tem a obrigação de fazer merchandising social. Não precisa ter campanha de conscientização nem resvalar no politicamente correto. Entretanto, quando a obra se propõe a isso (caso de “O Outro Lado do Paraíso“), espera-se um mínimo de qualidade e o comprometimento com a pauta da sociedade. Melhor que a trama tivesse ficado no  horário das seis.

Leia também Ricardo Feltrin:
O Outro Lado do Paraíso termina abaixo de Avenida Brasil no ibope“.
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Fernanda Montenegro (foto: reprodução)

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Por que as novelas das seis são as melhores? http://nilsonxavier.blogosfera.uol.com.br/2018/05/09/por-que-as-novelas-das-seis-sao-as-melhores/ http://nilsonxavier.blogosfera.uol.com.br/2018/05/09/por-que-as-novelas-das-seis-sao-as-melhores/#respond Wed, 09 May 2018 10:00:51 +0000 http://nilsonxavier.blogosfera.uol.com.br/?p=12307

Nathalia Dill em “Orgulho e Paixão” – foto: reprodução

Considere a divisão das novelas da TV Globo por faixa horária – 6, 7 e 9 da noite -, tomando as suas características, público alvo e expectativa de audiência. É possível afirmar que o horário das seis é o que vem ofertando uma maior diversidade de tramas e produções quando comparadas às atrações das outras faixas (tradicionalmente as comédias às sete e os dramas mais pesados às nove).

Vemos às seis histórias com ambientações mais variadas (por abranger uma faixa etária mais ampla), em produções luxuosas (pela maioria delas ser de época), sem pretensões de inovação ou polêmicas. Não há distinção de profissionais envolvidos, já que muitos dos melhores são deslocados para a faixa. Ao tratar de qualidade, vamos descartar a audiência, afinal, como há menos público disponível no horário, há menos ibope. Mesmo porque, audiência e qualidade nem sempre andam juntas (vide “O Outro Lado do Paraíso“).

Neste cenário, a título de amostragem, são exemplos bem sucedidos: “Orgulho e Paixão“, “Tempo de Amar“, “Novo Mundo“, “Eta Mundo Bom!“, “Além do Tempo“, “Sete Vidas“, “Meu Pedacinho de Chão“, “Lado a Lado“, “A Vida da Gente” e “Cordel Encantando“, todas com ótimas avaliações pelo público e/ou crítica especializada, com abordagens que vão da comédia ao drama, romance, aventura, infanto-juvenil, diferentes épocas, ambientações e propostas estéticas.

Jayme Matarazzo e Isabelle Drummond em “Sete Vidas” | Bianca Bin e Cauã Reymond em “Cordel Encantado” – divulgação/TV Globo

Você também já ouviu alguém comentando que atualmente as novelas das seis são as melhores?

Se comparado a décadas anteriores, as produções do horário da seis da Globo dos últimos anos refletem o bom momento que a faixa vem passando. É como se elas tivessem se tornado “a menina dos olhos” da emissora – ainda que as produções das nove sejam as de maior retorno em audiência e faturamento e as de maior alcance e repercussão. Mas nada é por acaso. O olhar mais atento da emissora sobre a faixa das seis se explica justamente pela audiência.

Os folhetins das 18h são hoje vistos como um trampolim poderoso para o horário nobre. Na verdade, esse impulso no ibope deveria começar antes, no Vale a Pena Ver de Novo, passar por Malhação e a novela das seis e ter o ápice no Jornal Nacional, para que a trama das nove (no horário mais nobre) chegue arrebentando. Este é o cenário ideal. Claro que nem tudo (nem sempre) é tão orgânico e funciona desse modo. Mas já aconteceu, na temporada 2017: “Senhora do Destino” no Vale a Pena, “Viva a Diferença” na Malhação, “Novo Mundo”, “Pega Pega” (pelo menos pela audiência alta) e “A Força do Querer”.

Caio Castro e Letícia Colin em “Novo Mundo” | Marco Nanini e Sérgio Guizé em “Eta Mundo Bom!” – divulgação/TV Globo

Percebe-se a variedade nas temáticas às seis tendo por base as novelas das nove, que se propõem exclusivamente aos dramas urbanos mais robustos e realistas, enquanto as das sete focam na comédia. Logicamente há exceções, em todas as faixas. Atualmente o horário das sete apresenta uma trama dita “medieval” de teor aventuresco (“Deus Salve o Rei“), uma novidade. Às nove, tivemos recentemente “Velho Chico“, ambientada no interior do Nordeste, com uma estética muito específica. Ao mesmo tempo, a faixa das seis não está livre das tramas urbanas, características dos demais horários.

Vale ressaltar que nem sempre foi assim. Até a década de 1980, o horário das seis era considerado “menor”, visto com certo preconceito até dentro da emissora. Havia um menor investimento, tanto em produção quanto em profissionais envolvidos (atores de peso, como Tarcísio Meira e Regina Duarte, nunca eram escalados para as seis). Só a partir dos anos 90 é que isso foi mudando, ainda que gradativamente.

Bem, aqueles eram outros tempos, em que a Globo reinava absoluta, nadava de braçada, sem concorrência com outras tecnologias e formas de entretenimento, sem redes sociais, sem plataformas on-demand, sem Netflix, etc. Há 30 anos, tudo era diferente. A administração da grade hoje requer um outro olhar sobre a televisão. Daí tantas ótimas e variadas produções às seis horas.

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“O Outro Lado” melhora nos últimos capítulos com humor trash e involuntário http://nilsonxavier.blogosfera.uol.com.br/2018/05/07/o-outro-lado-melhora-nos-ultimos-capitulos-com-humor-trash-e-involuntario/ http://nilsonxavier.blogosfera.uol.com.br/2018/05/07/o-outro-lado-melhora-nos-ultimos-capitulos-com-humor-trash-e-involuntario/#respond Tue, 08 May 2018 01:59:28 +0000 http://nilsonxavier.blogosfera.uol.com.br/?p=12329

Laura Cardoso e Rafael Losso (foto: reprodução)

A verossimilhança nunca foi o forte de “O Outro Lado do Paraíso“. Mas nos últimos capítulos, o autor Walcyr Carrasco tem transformado sua novela no mais puro surrealismo fantástico, vide as bruxarias de Mercedes e o rapto do garoto Tomaz (que vale barras de ouro), com muitas caras e bocas dos vilões Renato e Fabiana. Digno das paródias do “Casseta e Planeta” e “TV Pirata“.

Avenida Brasil” já ensinou que novela de sucesso gera memes:

Esperando esse momento de Mercedes…

Quem assistiu ao capítulo desta segunda-feira (07/05) se divertiu com a sequência em que Zé Vitor (Rafael Losso) vai até o bordel com a incumbência de matar Dona Caetana (Laura Cardoso). O que se viu foram cenas que mais lembravam os filmes das Panteras ou de kung-fu e pancadaria, com as quengas ninjas deixando o meliante no chão. Outra referência muito boa é “Esqueceram de Mim” – lembra dos bandidos que apanham feio do garotinho endiabrado?

Mostras do humor involuntário do autor em uma trama pretensamente realista mas que só é trash e arranca risadas. Não por acaso, o capítulo de segunda registrou o recorde de audiência da novela em São Paulo, marcando 48 pontos com 64% de participação. No Rio de Janeiro também marcou 48 pontos, igualando o recorde anterior. Podia ter sido assim desde o começo! Garanto que teria ultrapassado a audiência de “Avenida Brasil“.

Lívia, Clara, delegado Bruno, Patrick e Gael

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