Blog do Nilson Xavier

Arquivo : maio 2013

Incoerências e furos de roteiro ajudaram na repercussão “Salve Jorge”
Comentários 201

Nilson Xavier

Nanda Costa e Rodrigo Lombardi em “Salve Jorge” (Foto: Divulgação/TV Globo)

O “bonde do recalque” se desfez nesta sexta-feira (17/05), com a exibição do último capítulo de “Salve Jorge”. Bonde do recalque foi o apelido que a autora Glória Perez deu a uma turminha no Twitter para revidar as críticas diárias que recebia sobre sua novela. A acusação de que existia uma campanha deliberada contra “Salve Jorge” – em que até sugeriu que havia gente recebendo dinheiro para falar mal da trama – mostra que a aproximação com o público tem dois lados: pode aproximar ou afastar. Bloquear perfis que criticam e retuitar apenas os que elogiam talvez tenha sido uma forma nada amistosa de lidar com a situação. Pelo contrário. A meu ver, gerou antipatia e só alimentou ainda mais o bonde do recalque.

Mas é inegável que até as críticas geraram ruído e repercussão para a novela. “Salve Jorge” sobreviveu do que repercutiu. Thammy Gretchen dançando a “Conga”, travestis traficados, as surras que Wanda levou, a seringada no elevador, o wi-fi na caverna, viagens de jatinho à Turquia, o “cabelo bipolar” de Morena, a igreja 24 horas, os personagens que sumiram, bebês dentro da bolsa, português falado na Turquia, a repetição de elenco e estilo, e o próprio bonde do recalque, só serviram para chamar a atenção do público para uma trama que capengou na audiência em seu início e demorou para engrenar.

Salve Jorge” chega ao seu fim com a pecha de “menor média no Ibope entre as tramas das nove da Globo”: 34 pontos (perdendo para “Passione” 35, “Insensato Coração” 36, “Fina Estampa” e “Avenida Brasil”, 39). Mas a audiência não é um fato isolado. A novela estreou em uma época muito ruim, com Horário Político, Horário de Verão, festas de fim de ano, feriadões. E não só a novela das nove, mas todo o horário nobre sofreu uma queda vertiginosa na audiência no período, em todas as emissoras. Não por acaso, a trama das sete (“Guerra dos Sexos”) e a das seis (“Lado a Lado”) também amargaram índices baixos. E estamos falando de Ibope na Grande São Paulo (o que interessa ao mercado publicitário). Em outras praças, e em outros mecanismos de medição, a audiência foi mais representativa.

E mais uma vez Glória fisgou seu público com tipos bem populares (Maria Vanúbia/Roberta Rodrigues PIPIPIPIPI que o diga) e temas de interesse social. Adoção ilegal, alienação parental e tráfico de humanos (mulheres, travestis, bebês) estiveram na pauta durante os sete meses da novela: o grande mérito de “Salve Jorge”, levar ao conhecimento do público assuntos tão sérios. Já estamos acostumados às campanhas sociais de Glória em seus folhetins, sempre pertinentes e interessantes. E também acostumados às culturas exóticas de países distantes, com personagens, dancinhas e bordões, pitorescos ou chatos. A repetição de estilo e elenco foi uma das maiores reclamações do início da novela. Assim como o grande número de personagens – muitos se perderam no caminho e sumiram sem maiores explicações.

Antes mesmo da estreia, Glória Perez enfrentou um dragão com sua novela: a escalação de Nanda Costa para viver a protagonista Morena foi criticada. A atriz, sempre coadjuvante na TV, já se destacara no cinema, mas estranhou os desavisados. Pois todos tiveram que engolir Morena. Nanda fez seu papel direitinho e mostrou a segurança das protagonistas até nas cenas que mais lhe exigiam. Em contrapartida, o protagonista masculino ganhou uma alcunha que lhe caiu como uma luva: PasThéo. Mais culpa do texto e do perfil do personagem do que da capacidade do ator (Rodrigo Lombardi). Mas viver um protagonista masculino em uma novela de Glória Perez não é tarefa nada fácil. Que o diga Márcio Garcia em “Caminho das Índias”.

Murilo Grossi e Giovanna Antonelli em “Salve Jorge” (Foto: Divulgação/TV Globo)

Salve Jorge” reservou ótimos momentos para Giovanna Antonelli e Carolina Dieckmann – quase elevadas à categoria de protagonistas da novela, ante a rejeição inicial sobre Morena/Nanda Costa. Antonelli brilhou tanto que sua delegada Donelô já é um de seus melhores papeis em TV. Brilharam também Dira Paes e Totia Meirelles. A mãe-coragem Lucimar e a vilã Wanda foram uma atração à parte dentro da trama. Dira teve cenas ótimas, responsável por alguns dos momentos de maior carga dramática na história. Wanda foi o destaque do núcleo dos vilões, a única com alguma humanidade e que fugiu do estereótipo caricato de Lívia Marine ou Irina (as robóticas Cláudia Raia e Vera Fischer).

Thammy “Gretchen” Miranda chamou a atenção positivamente. Sem levantar bandeira, a lésbica Jô esteve lá quietinha em sua mesa boa parte do tempo, cumprindo sua função profissional. Ponto para a autora, que não teve a pretensão de discutir a homossexualidade de Jô. Glória preferiu outro viés, mais condizente com a trama central da novela: gays e travestis foram incluídos no grupo dos traficados. Pena que os gays apresentados eram bem caricatos e estereotipados. Diferente das travestis, que ganharam uma caracterização mais realista.

Do núcleo dos turcos, entre vários personagens desinteressantes, salvou-se a trama da família de Mustafá (Antônio Calloni), com o drama de Aisha (Dany Moreno), que passou a novela inteira atrás de suas origens e, ao final, descobriu que havia sido vítima do tráfico de recém-nascidos. Mas foi difícil de engolir a resistência de Aisha em aceitar a mãe biológica (por ela ser uma humilde moradora do Morro do Alemão) após ter caído no papo de Wanda e aceitado ela como sua mãe, mesmo Wanda estando presa. Preconceito social de Aisha, ou uma situação, que ficou incoerente, criada apenas para atender o roteiro?

Independente de esta ter sido mais uma das várias incongruências de “Salve Jorge”, a novela entrou para a história como a que teve mais furos de roteiro. E o bonde do recalque foi implacável com Glória Perez, nada passou despercebido. O auge ocorreu na sequência em que Raquel (Ana Beatriz Nogueira) é assassinada: ela entra no elevador do hotel para melhorar o sinal do celular (oi?) e Lívia Marine mete-lhe uma seringa envenenada no pescoço dentro do elevador – ignorando o fato de que qualquer elevador possui câmeras de segurança.

Do remendo, o que foi o pior? A autora ter ido ao Twitter tentar se explicar, ou a explicação em si? “Livia Marine tinha contatos no hotel”. FIM. Outra justificativa muito usada pela autora foi a de que novela é ficção, não tem a obrigação de mostrar a realidade. ”Licença poética! É preciso voar!” (com direito a clipe do “Pavão Misterioso” de Ednardo). Coerência para quê, diante de tal argumento?

Glória está certa, o folhetim é um estilo que permite vôos altos. Mas, pelo menos 48 anos separam o folhetim de Glória Perez dos folhetins de outra Glória, a Magadan, novelista que usava e abusava de tramas rocambolescas e fantasiosas em países exóticos, na década de 1960. A telenovela no Brasil é o que é hoje porque se sofisticou a tal ponto (como narrativa e programa televisivo de entretenimento) que seu público conhece e reconhece estilos e propostas. “Salve Jorge” foi vendida como uma trama realista, que tratava de um tema urgente, difícil e alarmante: o tráfico de humanos – mais uma novela de Glória Perez calcada em um tema social. Mas, como embarcar em uma proposta tida como realista que acabou tendo um desenvolvimento muitas vezes fantasioso, com vilões caricatos, em que a autora pedia ao seu público que voasse com ela? “Salve Jorge” não era realismo fantástico (“Saramandaia”, “A Indomada”), ou uma fantasia (“Cordel Encantado”). O tema tráfico humano merecia um desenrolar mais realista, à altura de sua problemática e urgência.

A autora pecou pelas incoerências e furos de roteiro enquanto a direção derrapou em várias sequências, com direito a erros de continuidade (o “cabelo bipolar da Morena”, por exemplo, uma hora liso, outra cacheado). Ficou a impressão de que a direção preferiu fechar os olhos a esses “detalhes” e dar vazão ao lema da autora: “é preciso voar”. Só que o público não gosta de ser subestimado.

A televisão sempre acompanhou a evolução social e tecnológica. O futuro da telenovela depende disso. Algumas produções já compreenderam esse contexto. Não se pode mais ignorar que falhas passem despercebidas. Antigamente, se uma falha fosse notada, o máximo que se podia fazer era escrever uma carta para a redação de uma revista. Hoje em dia, milhares de telespectadores assistem à novela e comentam juntos, no momento em que ela vai ao ar. Nada passa despercebido e qualquer falha vira alvo de reclamação ou troll. Independente se paga-se para isso ou não. O bonde do recalque, parece, vai continuar de olho.


Com Ibope em ascensão, “Salve Jorge” repercute na Internet
Comentários 37

Nilson Xavier

Rodrigo Lombardi e Claudia Raia em cena de “Salve Jorge” (Foto: TV Globo)

Uma semana fria em São Paulo fez bater o recorde da audiência das novelas da Globo – que passavam por um período de Ibope baixo.. Na semana passada, as três novelas inéditas da casa registraram suas melhores médias desde suas estreias – “Flor do Caribe” = 19, “Guerra dos Sexos” = 24,7 e “Salve Jorge” = 38.

Salve Jorge”, entrando em sua reta final, está em sua melhor fase: a delegada Helô (Giovanna Antonelli) arquiteta com Morena (Nanda Costa) o desbaratamento da organização criminosa liderada por Lívia Marine (Cláudia Raia).

A novela começou a “bombar” no início da semana passada, com a morte de Raquel (Ana Beatriz Nogueira) – atacada pela seringa letal de Lívia dentro de um elevador sem câmeras -, passando pelo nascimento da filha de Morena – dentro de uma caverna que tinha uma imagem de São Jorge pintada na parede – e pela paixão desenfreada de Lívia pelo pastel Théo (Rodrigo Lombardi) – que, de uma hora para outra, ficou espertalhão e enganou a fria vilã, que, de uma hora para outra, ficou trouxa.

E a novela melhora a cada capítulo, graças à performance de Giovanna Antonelli – radiante como a super delegada – e graças ao roteiro de Glória Perez, que – parece – deixou de lado a seriedade que o tema tráfico de humanos pede e partiu para um viés mais bem humorado. Não que seja proposital da autora, mas é o efeito que causa quando a novela vai ao ar – algo do tipo “mirou no drama e acertou na comédia”.

Nanda Costa como Morena em “Salve Jorge” (Foto: TV Globo)

Acompanhar o desenrolar das tramas pelas mídias sociais deixa a novela ainda mais divertida. Se bem que a autora anda #xatiada (como se escreve na internet) com o “troll” (a gozação pela rede) e tem demonstrado sua insatisfação no Twitter, onde diariamente “Salve Jorge” é bombardeada com críticas e gracinhas. A hashtag #bondedosrecalcados – como autora chamou os troladores – chegou a primeiro lugar nos TTs (os assuntos mais comentados no Twitter). Ela ainda sugeriu que os críticos estão sendo pagos para trolar sua novela – como se Gloria nunca tivesse sido criticada em trabalhos anteriores (lembram de “América”?).

Além de criticar os críticos e os recalcados, Glória Perez tem se ocupado em retuitar elogios à trama (#bondedospuxasacos?) e tuitar números de ibope e textos que envolvam Janete Clair, sua madrinha na televisão. E notas sobre casos reais de tráfico – isso sim importante.

Convenhamos que tudo o que um autor quer é ver sua obra comentada, repercutida. E Glória sempre conseguiu essa façanha com suas novelas – de forma positiva, na maioria das vezes, mas também negativa, em algumas poucas ocasiões. Ela é uma autora experiente e sabe como manter sua novela na boca do povo – ainda que trolada no Twitter, onde a máxima “fala mal da novela mas não perde um capítulo” se aplica muito bem.

Pena que o “Casseta e Planeta” não esteja mais aí para eles também trolarem “Salve Jorge” (lembram de “O Siliclone”, “Amerreca” e “Com a Minha nas Índias”?) – acredito que renderia esquetes hilárias envolvendo Raquel no elevador tentando melhorar o sinal do celular, as cenas de sexo cafoDIGO caliente entre Livia e PasTheo, e Morena parindo na caverna – entre outras. Não creio que Glória ficaria #xatiada de ver sua novela trolada pelos cassetas.

Sobre as audiências das novelas na semana passada, saiba mais no blog “O Cabide Fala“.


“Salve Jorge” derrapa na coerência e subestima a inteligência do telespectador
Comentários 95

Nilson Xavier

Ana Beatriz Nogueira e Cláudia Raia na cena do elevador em “Salve Jorge” (Foto: TV Globo)

“Você vai cair dura quando souber quem é a chefe!”

Esta foi a última fala de Raquel (Ana Beatriz Nogueira) antes de cair dura com a injeção de veneno letal que a vilã Lívia Marine (Cláudia Raia) lhe aplicou no capítulo desta segunda-feira (19/03) de “Salve Jorge”.

Sem conseguir falar com a delegada Helô (Giovanna Antonelli), por causa do sinal do celular, Raquel entra no elevador (oi?). Na sequência, Lívia, que está deixando o hotel, a encontra no elevador, saca sua injeção com “veneno letal” e faz uma nova vítima. Claro, a vilã nem está preocupada com câmeras de segurança, afinal, “ela tem cúmplices no hotel” – como justificou Glória Perez no Twitter depois que a cena foi ao ar. Coerência para quê, quando se pode dar qualquer desculpa para explicar um roteiro mal costurado.

Santa Clara – a padroeira da televisão – deve ter chorado sangue. Diante de tantas críticas acerca de seu roteiro estapafúrdio, a autora desabafou que era preciso “voar” em sua história. Sim, novela é novela. O brasileiro está acostumado às fantasias de nossos folhetins. Mas é necessário um mínimo de coerência para embarcar em uma história que tem a pretensão de tratar de um tema tão real e importante como o tráfico de humanos.

Glória Perez – que já foi chamada de “herdeira de Janete Clair” – adora entrechos absurdos. A novela “Carmem” (TV Manchete, 1987-1988) ficou famosa pela cena em que uma mulher deu seis tiros à queima roupa no marido, a menos de um metro de distância, e errou todos! Um exemplo mais recente: Sol, a personagem de Deborah Secco em “América” (2005), escondeu-se dentro de uma caixa de papelão para fugir da imigração americana, e foi parar no apartamento de Ed (Caco Ciocler), que se apaixonou instantaneamente pela moça assim que ela saiu da caixa (parece que a pessoa escondida na caixa de papelão foi inspirada em um fato real).

Só para lembrar: Janete Clair também foi muito criticada pelos seus roteiros fantasiosos demais, tanto que ela entendeu a urgência em mudar seu estilo, a partir de “Pecado Capital” (1975-1976).

Vilões caricatos (que parecem saídos de um filme de 007 ou de um desenho animado da Disney), situações bizarras, furos de roteiro, entrechos que subestimam a inteligência do telespectador, Morena versão cabelo liso, Morena versão cabelo encaracolado. Fica muito difícil embarcar no balão de “Salve Jorge” e “voar com a novela”, como suplica a autora, quando ela cria uma fantasia descabida no desenvolvimento de um tema realista que merecia um tratamento mais cuidadoso.

Dias Gomes era mestre na realidade disfarçada de fantasia, em novelas como “O Bem Amado”, “Saramandaia” e “Roque Santeiro”. “Que Rei Sou Eu?” (de Cassiano Gabus Mendes) é outro exemplo.  O contrário – a fantasia disfarçada de realidade – também pode agradar, caso de “Avenida Brasil”. Também o realismo pelo realismo, como em “Vale Tudo” e o naturalismo das novelas de Manoel Carlos. Ou a fantasia pela fantasia, sem pretensões realísticas, como em algumas novelas de Aguinaldo Silva (inclusive “Fina Estampa”), ou a fantasiosa “Cordel Encantado”.

A morte de Raquel poderia lembrar uma cena do filme “Vestida para Matar” (de Brian de Palma, 1980), em que uma mulher é morta a facadas no elevador (como bem lembrou @joaolimajr pelo Twitter). Mas o máximo que conseguiu foi remeter à “pegadinha” da menina fantasma no elevador, do SBT. E ainda fez sentir saudades do pendrive da Nina.

Raquel poderia ter morrido de uma forma mais simples e mais coerente. Mas a autora preferiu ampliar a realidade, justificando que sim, câmeras de segurança falham. Optou pela situação surreal, a que chama a atenção, a que causa burburinho. Afinal, a audiência de “Salve Jorge” não anda lá essas coisas e repercussão é sempre bom… Agora, se a repercussão é negativa ou positiva, essa já é outra história. De qualquer forma, o estratagema funcionou na noite fria de São Paulo: 39 pontos no Ibope.


Totia Meirelles, a Wanda de “Salve Jorge”, é o destaque entre os vilões da novela
Comentários 19

Nilson Xavier

Totia Meirelles e Paloma Bernardi em “Salve Jorge” (Foto: TV Globo)

O assunto é sério: tráfico humano. Mas fica difícil levar com seriedade o principal entrecho de “Salve Jorge” quando os vilões parecem saídos de uma HQ de super-heróis. Na contramão das vilãs caricatas (entenda Lívia Marine/Cláudia Raia e Irina/Vera Fischer) está Wanda, a personagem de Totia Meirelles, o fio solto que a investigadora Helô (Giovanna Antonelli) puxa para desatar a organização criminosa da novela.

Totia é a única que leva sua personagem com naturalidade, o que chega a destoar quando a atriz contracena com Cláudia Raia e Vera Fischer. A atriz está tão bem no papel que este já é o mais marcante de sua carreira de coadjuvantes em novelas. Houve um momento em que se temeu que sua Wanda suplantasse a chefona Lívia Marine. Foi quando Glória Perez passou a dar mais destaque para Lívia na história.

Ainda que a personagem esteja envolta a algumas situações esdrúxulas da trama, gosto muito do tom sarcástico-debochado de Wanda. Torna a personagem mais humana, portanto, mais crível, essencial para uma história que tem a pretensão de retratar uma dura e triste realidade. Contracenando com Giovanna Antonelli então, dá até gosto de ver.

Leia AQUI o texto de Maurício Stycer, que também trata dos vilões da novela: “O sumiço de Yuri, gatinho vilão: drama ou comédia em “Salve Jorge”?


Trama central de “Salve Jorge” tem se mostrado pouco funcional
Comentários 78

Nilson Xavier

Rodrigo Lombardi e Nanda Costa em “Salve Jorge” (Foto: TV Globo)

Não está sendo fácil torcer pelos mocinhos de “Salve Jorge”. Théo (Rodrigo Lombardi), o cara bobão, indeciso, impulsivo e dominado pela mãe, age conforme o humor de Morena (Nanda Costa), sua amada. Se ela o chama, ele corre abanando o rabinho. Se ela o afasta, ele corre com o rabinho entre as pernas para os braços de Érika (Flávia Alessandra). Aliás, Théo tem a sorte de Érika ser apaixonada por ele e relevar toda a sua imaturidade. Merecem terminar juntos. No capítulo de quinta-feira (17/01), Morena e Théo se reecontraram e foram para a cama – mesmo Théo tendo reatado com Érika. Esse cara é o Théo!

Leia também: “Théo é a verdadeira mocinha de “Salve Jorge

Já Morena, de passagem pelo Brasil, teve todas as oportunidades do mundo para desmantelar a rede de tráfico da qual é vítima, mas até agora nada. Ela e sua parceira Jéssica (Carolina Dieckmann) nem de perto lembram as moças corajosas que já tentaram fugir várias vezes do cárcere na Turquia. É de se espantar também que os amigos do Alemão não tenham notado a cara de infelicidade e preocupação que a dupla estampa diante de todos. Convenhamos que não seja normal voltar da Turquia emburrado depois de tantas expectativas. Nem a mãe Lucimar (Dira Paes) parece se incomodar com a tristeza da filha. Ah, mas esta agora que está enrabichada pelo vilão Russo (Adriano Garib)!

Os vilões de “Salve Jorge” são um caso a parte. A interpretação teatral de Cláudia Raia e Vera Fischer só reforça o tom de desenho animado dos malvadões. Russo, Lívia (Cláudia Raia), Wanda (Totia Meirelles), Irina (Vera Fischer) e Rosângela (Paloma Bernardi) formam uma espécie de Legião do Mal (lembram o desenho dos Superamigos?). Só falta eles se reunirem em uma mesa oval para discutir seus planos diabólicos e soltarem gargalhadas maléficas!

Depois de Morena ser traficada, ela e Jéssica, por mais de uma vez, tentaram fugir e foram capturadas. Por um momento, pensou-se que ia ser assim pelo resto da novela. Então a autora Glória Perez levou as duas para o Brasil. E elas simplesmente não conseguem revelar a verdade aos amigos. Mas pudera: se a rede de prostituição for desmantelada, a novela acaba.

Cena de “Salve Jorge” (Foto: TV Globo)

Como denúncia, o tema de “Salve Jorge” é dos mais sérios e urgentes, e serve de alerta para todos. Mas, pelo menos até o momento, a abordagem tem se mostrado pouco funcional como narrativa de telenovela. A cada tentativa frustrada de Morena de fugir ou revelar a verdade, fica aquela sensação de que o público está sendo enrolado. Talvez funcione melhor como um filme, ou até mesmo em uma série. Telenovela requer outros mecanismos para fazer uma trama fluir.

Somente nesta última semana “Salve Jorge” tem atingido números mais expressivos na audiência, uma média de 35 pontos no Ibope, os melhores até agora (cada ponto equivale a 62 mil domicílios na Grande São Paulo) – apesar de ainda longe da meta dos 40. Mas este é um fenômeno que engloba todo o horário nobre. No resto do Brasil, a novela tem um desempenho melhor. E, enquanto isso, a concorrência pouco tem se mobilizado para fazer frente à trama das nove da Globo.


No centenário de Nelson Rodrigues, Viva reprisa novamente a minissérie “Engraçadinha”
Comentários 9

Nilson Xavier

A partir de quinta-feira, 23 de agosto, o canal Viva volta a reprisar a minissérie Engraçadinha, desta vez em comemoração ao centenário do aniversário do escritor, dramaturgo e jornalista Nelson Rodrigues (nascido no Recife em 23/08/1912 e falecido no Rio de Janeiro em 21/12/1980), autor do romance no qual a minissérie foi baseada.

O Viva já havia apresentado Engraçadinha antes, entre outubro e novembro de 2010 – tal qual acontecera com a minissérie Dona Flor e Seus Dois Maridos, já apresentada pelo canal e re-reprisada neste ano (em fevereiro), em homenagem ao centenário de Jorge Amado, o autor.

Uma boa pedida teria sido a série A Vida Como Ela É…, baseada em contos de Nelson Rodrigues, apresentada originalmente dentro do Fantástico, em 40 episódios, no ano de 1996 (será reprisada no próprio Fantástico a partir de domingo, 26). Mais difícil – por serem programas mais antigos – teria sido o Viva reprisar a minissérie Meu Destino É Pecar, de 1984, ou a novela O Homem Proibido, de 1982, ambas baseadas em romances do Anjo Pronográfico – como era conhecido Nelson Rodrigues.

Engraçadinha foi uma das melhores minisséries apresentadas pela Globo na década de 1990 – direção geral de Denise Saraceni. A história é uma adaptação de Leopoldo Serran do folhetim Asfalto Selvagem: Engraçadinha, Seus Amores e Seus Pecados, publicado no jornal Última Hora entre agosto de 1959 e fevereiro de 1960. O texto é o primeiro a ser assinado por Nelson Rodrigues com seu nome verdadeiro.

Ótima adaptação, com personagens inflamados, apaixonados e também toda a postura conservadora e ao mesmo tempo hipócrita da sociedade nas décadas de 1940 e 1960. A minissérie foi marcada pelo rigor na retratação das décadas, desde a fachada das casas até a linguagem própria de Nelson Rodrigues.

Com sequências fortes e impactantes, a minissérie destacou a presença no elenco da então iniciante Alessandra Negrini, que viveu a Engraçadinha jovem. Também um ótimo trabalho de Cláudia Raia (Engraçadinha na segunda fase) e Maria Luísa Mendonça (como Letícia, amiga de Engraçadinha e apaixonada por ela).

O romance já havia rendido versões para o cinema: Asfalto Selvagem (1964) e Engraçadinha Depois dos Trinta (1966), filmes de J.B. Tanko; e Engraçadinha (1981), de Haroldo Marinho Barbosa, com Lucélia Santos.

Engraçadinha, minissérie em 18 capítulos, entre 23 de agosto e 17 de setembro, de segunda a sexta-feira, às 23h15.

Saiba mais sobre Engraçadinha no site Teledramaturgia.