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Sábado acontece o lançamento da “Sabor Brasilis”, a primeira HQ sobre novelas
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Nilson Xavier

Os bastidores da telenovela já inspiraram livros, filmes (“Tootsie”, “Segredos de uma Novela”, “A Novela das Oito”), peças (“Novela Brasil”) e até a própria telenovela (“Espelho Mágico”). Pela primeira vez, uma HQ se prontifica a explorar esse universo.

Sabor Brasilis” (Zarabatana Books), a graphic novel – uma novela gráfica, literalmente falando –, escrita por Hector Lima e Pablo Casado, com ilustrações de Felipe Cunha e George Schall, desvenda o que rola por trás da produção de uma telenovela de sucesso em seus últimos capítulos: o stress dos roteiristas, a pressão da emissora, das concorrentes, dos patrocinadores, da mídia, do público. A fogueira das vaidades e a luta de egos por trás da historinha de ficção.

As referências com a realidade estão em todas as páginas. Desde a emissora líder de audiência, até sua principal concorrente, administrada por um grupo religioso. A mídia que cobre as novelas: jornais, revistas, internet, programas de televisão. Referências a pessoas da vida real, desde autores de novela, até apresentadores de TV. Nem este blogueiro/tuiteiro escapou ileso!

Sabor Brasilis” foi escrita enquanto ia ao ar “Fina Estampa”, de Aguinaldo Silva, e a reprise de “Vale Tudo”, no Canal Viva – novelas de sucesso da temporada 2011-2012. O “quem matou Olívia Ribeiro” da HQ é uma alusão à Odete Roitman. Mesmo porque, a primeira frase da história é “Agora vale tudo!”. O autor de “Sabor Brasilis”, Antônio Callado, lembra Aguinaldo Silva, principalmente quando ele usa o twitter para divulgar seu trabalho.

Mas, o mais curioso é que “Sabor Brasilis” antevê o final apoteótico de “Avenida Brasil”, através do último capítulo da novela do gibi – a HQ já estava roteirizada antes da estreia da trama de João Emanuel Carneiro.

A ficção imita a vida real. Ou vice-versa. Existe uma máxima em televisão que afirma que as novelas são todas iguais, o que muda é a forma de contar uma mesma história. “Sabor Brasilis” se inspira nas novelas de televisão para imitar a vida real.

O lançamento e sessão de autógrafos com os autores acontece neste sábado, 23/02, a partir das 17 horas, na Gibeteria, Praça Benedito Calixto, 158, 1º  andar, em Pinheiros, São Paulo.

Visite o site da “Sabor Brasilis


Balanço 2012: as Novelas que marcaram o ano
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Nilson Xavier

Adriana Esteves e Vera Holtz em “Avenida Brasil” (Foto: TV Globo)

O ano de 2012 foi de altos e baixos para a nossa Teledramaturgia. A Globo, por exemplo, foi ao céu e logo em seguida desceu ao inferno. Os dois maiores sucessos de repercussão da década (as novelas “Avenida Brasil” e “Cheias de Charme“) foram substituídos pela maior queda em audiência da história. Mais uma prova de que apenas boas produções com algum diferencial prendem o telespectador atualmente. O público hoje tem mais opções que antigamente e cansou do mais do mesmo na TV.

A Vida da Gente
Com uma trama feminina por excelência, Lícia Manzo mostrou competência em sua primeira novela solo, apresentando um texto realista e sensível poucas vezes visto em nossa teledramaturgia. Com o horário das seis em pleno Horário de Verão, a novela enfrentou a baixa audiência do início ao fim, apesar da boa aceitação do público. Talvez uma explicação estivesse no excesso de drama, presente em todos os núcleos, em detrimento ao humor.

Fina Estampa
Um sucesso popular que alavancou a audiência do horário nobre da Globo, a trama de Aguinaldo Silva foi a novela de maior ibope dos últimos cinco anos. O autor uniu tramas surreais – entende-se sem compromisso algum com a realidade – com personagens caricatos – como a vilã Tereza Cristina (Christiane Torloni) e o gay Crodoaldo Valério (Marcelo Serrado) -, e uma heroína maniqueísta – Griselda (Lília Cabral), mulher batalhadora, mãe sofrida, boa e justa, concebida para criar empatia com o público que se identifica com essa figura idealizada. A aposta no tom farsesco e na comédia popular funcionou. Apesar do espaço que a vilã Tereza Cristina ganhou em detrimento à protagonista Griselda, foi o coadjuvante Crô que teve mais notoriedade. E acabou pulando da telinha para a telona do cinema.

Aquele Beijo
Miguel Falabella apresentou uma trama de humor espirituoso e inteligente, típica de seu universo. Mas faltou à novela uma história central empolgante. Foram as tramas paralelas, recheadas de bons personagens secundários, que fizeram a novela. A audiência, aquém da esperada, ficou à altura da história morna apresentada.

Malhação
Em agosto de 2011, a Globo estreou com grande alarde “Malhação Conectados”. Trouxe Ingrid Zavarezzi da TV a cabo para roteirizar a nova fase de sua tradicional novela teen, e a lançou prometendo tramas sobrenaturais repletas de mistério e suspense. Mas de nada adiantou. À medida que a audiência foi caindo, os temas paranormais foram sumindo da história. Novos roteiristas entraram para auxiliar Zavarezzi. As tramas de suspense saíram, o romance ganhou mais destaque, mas o ibope continuou baixo.

Em agosto de 2012, “Malhação” estreou sua atual fase, que mantem a tradição do programa, retratando o dia-a-dia de colegiais, seus namoricos e problemas pessoais e familiares dentro e fora da escola. Com uma cara mais moderna e foco maior em adolescentes, a novelinha enfrenta a baixa audiência atual que assola a TV aberta.

Vidas em Jogo
A autora Cristianne Fridman soube despertar a atenção do público promovendo reviravoltas e pontuando a novela com momentos chave durante os longos onze meses em que a trama esteve no ar. Assassinatos em série, personagens com HIV e viciados em crack e até uma transexual foram o chamariz para despertar a curiosidade do público, que respondeu à altura e manteve a audiência do horário para a Record.

Rebelde
A primeira temporada da novela teen terminou em março de 2012 dando lugar à segunda temporada, que desgastou a grife e fez despencar a audiência. Prejudicada pelas constantes mudanças de horário, a trama apelou para a “vampiromania” e RPG sem sucesso. A crise maior instaurou-se com a estreia de “Carrossel” no SBT, que lhe tomou o posto de segunda colocada na audiência. A autora Margareth Boury acabou deixando a novela antes de seu término. “Rebelde” teve seu fim precipitado e terminou melancolicamente, com brigas e revolta nos bastidores. Apesar dos percalços, é inegável a repercussão junto aos fãs nas mídias sociais e nos shows da banda formada pelos atores da novela.

Empreguetes, Fabian e Chayene no palco, em “Cheias de Charme” (Foto: TV Globo)

Corações Feridos
Os 100 capítulos da novela de Íris Abravanel foram gravados entre março e agosto de 2010. Sua estreia foi sendo protelada, até que finalmente o SBT decidiu desengavetá-la. Puro folhetim, com todos os clichês possíveis do gênero, esta produção do SBT manteve o ranço melodramático da novela xicana original na qual foi inspirada – apesar de elementos nacionais incorporados à trama, como a trilha sonora e ambientações.

Amor Eterno Amor
Elizabeth Jhin apresentou uma trama folhetinesca diluída em um discurso filosófico e doutrinário com temas espiritualistas. Mas, ao impor uma doutrina em detrimento à história romântica, exagerou na dose religiosa, o que levou ao didatismo monótono. A trama ainda se arrastou por meses e a autora só apressou sua história no final. Os maiores destaques foram os vilões vividos por Cássia Kis Magro e Osmar Prado – Melissa e Virgílio.

Avenida Brasil
Um verdadeiro fenômeno de repercussão, a novela de João Emanoel Carneiro virou coqueluche na Internet , provando que a telenovela pode se aliar à rede, e não encará-la como uma concorrente. A “nova classe C” retratada na trama cativou todas as classes. Como em um jogo de certo ou errado, o autor brincou com as nuances simbólicas de ricos e pobres, elaborando uma crítica social muito pertinente. Adriana Esteves se consagrou na interpretação antológica da vilã Carminha, o melhor papel de sua carreira até então. No elenco, bem dirigido, destacaram-se também Débora Falabella, Murilo Benício, Marcello Novaes, José de Abreu, Vera Holtz, e muitos outros.

Avenida Brasil” transgrediu a fórmula do folhetim clássico ao apresentar uma história de vingança em detrimento à história de amor, com uma heroína de personalidade dúbia (Nina). A estética cinematográfica e o ritmo alucinante da trama – sempre com ganchos bombásticos, o que aproximou a novela dos seriados americanos – cativaram o telespectador e fidelizaram a audiência. Lamenta-se apenas que tenha perdido o fôlego na segunda metade para o final. O Brasil parou para assistir ao último capítulo – que chegou a ser noticiado pela imprensa internacional depois que um comício com a presidente Dilma Rousseff foi adiado para evitar a concorrência com o final da novela.

Cheias de Charme
A primeira novela da dupla de autores Filipe Miguez e Izabel Oliveira trouxe de volta o sucesso ao horário das sete da Globo e teve o mérito de tirar proveito da Internet, transformando-a numa poderosa aliada: a novela foi pioneira na ação de transmedia, com o lançamento do clipe das Empreguetes primeiro na rede, depois na novela. A indústria do entretenimento real misturou-se ao entretenimento da ficção, com os cantores da novela dividindo o palco com vários cantores reais. A identidade visual deu o tom que o roteiro exigia.  O colorido dos shows de technobrega inspiraram os cenógrafos, figurinistas e a direção de arte.

Cláudia Abreu brilhou com os figurinos exagerados e a interpretação da desastrosa vilã Chayene, sempre acompanhada de sua “personal curica” Socorro (a revelação Titina Medeiros). Apesar de toda a repercussão, registra-se a perda de agilidade em sua narrativa após o sucesso das Empreguetes como cantoras, a partir da segunda metade da trama.

Máscaras
Problemática atração da Record, a novela de Lauro César Muniz causou estranhamento logo no início: uma direção equivocada e um texto por demais confuso afastaram o telespectador. A emissora viu seu Ibope cair vertiginosamente, o que acabou por deflagrar a pior crise no setor de Teledramaturgia desde que foi renovado, em 2004. A novela teve seu horário de exibição trocado várias vezes, causou desconforto entre elenco e o autor (a atriz Luiza Tomé reclamou publicamente da novela e do autor), e culminou com a troca do diretor e a antecipação de seu término. Parte do elenco divulgou na Internet uma carta em que culpava a mídia pela repercussão negativa da novela. Mas o estrago já estava feito.

Carrossel
Um dos maiores êxitos do ano na televisão, a novela adaptada por Íris Abravanel (a partir do original mexicano) espantou até os dirigentes do SBT, que não esperavam esse sucesso todo. “Carrossel” tornou-se um fenômeno de audiência para os padrões atuais da emissora e lhe devolveu o segundo lugar no horário nobre, desbancando a Record. Novela com público fiel e certo – o infantil -, sua repercussão reflete a carência deste tipo de programação no horário nobre da TV aberta brasileira. A novela conseguiu atrair o público que estava nos canais pagos ou até mesmo longe da televisão.

Na sala de aula de “Carrossel” (Foto: SBT)

Gabriela
A nova adaptação para o romance de Jorge Amado – feita por Walcyr Carrasco – não marcou a história da TV como a primeira versão, de 1975, mas manteve uma boa audiência no horário das onze da noite. Elenco e direção competentes numa produção requintada, desde a abertura até cenários, figurinos, fotografia e a trilha sonora saudosista, que trouxe de volta algumas das músicas da novela da década de 1970. Os bordões “Vou lhe usar” (do Coronel Jesuíno/José Wilker) e “Jesus Maria José!” (de Dona Dorotéia/Laura Cardoso) se popularizaram e viraram memes na Internet. José Wilker e Laura Cardoso foram os grandes destaques no elenco.

Lado a Lado
A novela das seis – de autoria dos novatos João Ximenes Braga e Cláudia Lage – é a melhor atualmente no ar, mas amarga uma baixa audiência desde sua estreia, prejudicada pelo Horário Político e Horário de Verão. Uma trama de época com nuances históricas narrada sem grandes arroubos, retratando um período poucas vezes visto na teledramaturgia. A produção requintada e o elenco afiado parecem pouco para despertar a atenção do telespectador.

Guerra dos Sexos
Este remake da famosa novela de Silvio de Abreu da década de 1980 também sofre na audiência. Se não deslanchou depois de três meses no ar, dificilmente conseguirá. Aos olhos de hoje, a luta das mulheres pela conquista de um espaço na sociedade dominada por homens soa anacrônica. O autor até tirou o foco da disputa entre machistas e feministas, mas a direção optou por uma linha de humor mais ingênuo, que, no ar, soa bobinho demais. Na verdade, “Guerra dos Sexos” mostrou-se ser uma escolha equivocada para um remake.

Balacobaco
A Record antecipou o fim de “Máscaras” e colocou às pressas no ar essa história de Gisele Joras. Mas de nada adiantou. Nem o tom excessivamente popularesco da trama tem chamado a atenção do público. A novela tem uma pegada de comédia, é colorida, repleta de personagens caricatos e tem uma trilha sonora popularíssima. Une elementos de novelas das sete horas da Globo com trilha semelhante à de “Avenida Brasil”. Mas faltam personagens e histórias cativantes. Se “Máscaras” ficou marcada pela repercussão negativa, “Balacobaco”, com uma audiência ainda menor, nem sequer repercute.

Salve Jorge
Com a menor média de audiência da história no horário, a novela de Glória Perez tem enfrentado a rejeição do público e críticas por toda parte, seja pela repetição de temas e elenco, pelo número excessivo de personagens, ou pelas dancinhas e bordões estrangeiros que já não despertam mais tanto interesse como na época de “O Clone”. E a sensação de déjà vu é tão grande que a Turquia da novela parece uma mistura de Marrocos com a Índia.

Mas o inimigo maior de “Salve Jorge” é a novela anterior, “Avenida Brasil”, que acostumou mal o telespectador com uma trama ágil, deixou muitos “viúvos apaixonados” e tem uma grande diferença com a trama de Glória Perez: narrativa e esteticamente falando. O sabor de novidade de “Avenida Brasil” foi substituído por uma novela conservadora e já conhecida do público. Apesar de o tráfico humano abordado na trama ser uma novidade bem vinda.

Opine! Quais as novelas de 2012 que você mais gostou?


“Cheias de Charme” repete trama de “Fina Estampa”
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Nilson Xavier

Os emergentes estão mesmo na moda. Pelo menos nas novelas. Tem a família de Tufão (Murilo Benício) em Avenida Brasil, e agora as Empreguetes em Cheias de Charme. Houve uma passagem de tempo na novela das sete e o grupo musical formado pelas ex-domésticas Penha, Rosário e Cida (Taís Araújo, Leandra Leal e Isabelle Drummond) se transformou num sucesso nacional.

Todas melhoraram de vida e estão devidamente repaginadas. O capítulo de segunda-feira (16/07) mostrou Cida levando a madrinha (Dhu Moraes) para jantar num restaurante chique. Penha comprou um carro e está de casa nova, maior, bem equipada. E Rosário vai comprar um apartamento alto padrão no mesmo condomínio de luxo onde um dia trabalhou como cozinheira na casa de Chayene (Cláudia Abreu), a inimiga das Empreguetes. Também Cida vai morar no condomínio, onde moram seus ex-patrões, a família Sarmento – agora em derrocada financeira.

É a história se repetindo. Na recente Fina Estampa, a protagonista pobre e humilde – Griselda de Lília Cabral – vivia em pé de guerra com a ricaça arrogante – Tereza Cristina de Christiane Torloni. Após ganhar na loteria, Griselda comprou uma mansão bem em frente à mansão de Teresa Cristina, para quem um dia prestou serviços domésticos como “marida de aluguel”.

Em tempo: personagens emergentes são recorrentes em novelas, independente da economia do país ou público alvo das tramas. O Cafona (1971) contava a história de um comerciante de subúrbio – vivido por Francisco Cuoco – que enriqueceu com seu negócio se tornando presidente de uma rede de supermercados. Mas seu sonho era entrar para a alta roda, mesmo sem ter nenhum traquejo social. Daí o título da novela.

Em Os Ossos do Barão (1973-1974), um imigrante italiano (Lima Duarte), que enriquecera com o trabalho, quer comprar a cripta mortuária do barão do café para quem trabalhou quando era criança, e cuja família quatrocentona estava falida e disposta a vender inclusive seu título de nobreza.

Em Rainha da Sucata (1990), uma mulher (Regina Duarte) – cuja família de origem humilde enriquecera a partir de um ferro-velho – era apaixonada e queria se casar com um rapaz (Tony Ramos) de família quatrocentona, mas falida. Ele não a amava, mas aceitou o casamento para tirar a família do vermelho.

Ainda: Foguinho (Lázaro Ramos) em Cobras e Lagartos (2006), que ganhou dinheiro com uma herança; a família de Meg Trajano (Françoise Forton) em Por Amor (1997-1998), representante dos emergentes cariocas da Barra da Tijuca; os personagens de Vidas em Jogo (2011-2012), que enriqueceram com um prêmio da loteria; e outros.


No aniversário de Aguinaldo Silva, relembre sua obra na televisão
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Nilson Xavier

Aguinaldo Silva no programa Roda Viva em março de 2012

O novelista Aguinaldo Silva completa 69 anos nesta quinta-feira, 7 de junho. Ele se autodenomina uma das cinco últimas ararinhas azuis do horário nobre da Globo, ou seja, um dos novelistas veteranos remanescentes do prime-time global (os demais são Gilberto Braga, Glória Perez, Manoel Carlos e Silvio de Abreu).

Natural de Carpina, interior de Pernambuco, de família humilde, Aguinaldo frequentou ótimos colégios no Recife até se tornar jornalista, publicar livros e se mudar para o Rio de Janeiro, aonde chegou a atuar no jornal O Globo, como repórter policial. Foi por causa de sua experiência nas páginas policiais que foi convidado a integrar a equipe de roteiristas do seriado Plantão de Polícia, em 1979 – seu primeiro trabalho na TV.

Em 1982, foi ao ar a primeira minissérie brasileira, Lampião e Maria Bonita, que Aguinaldo assinou com Doc Comparato. Dirigida por Paulo Afonso Grisolli e Luís Antônio Piá, a minissérie tinha Nelson Xavier e Tânia Alves como protagonistas e narrava a vida do rei do cangaço.

Em 1983, o submundo do crime foi retratado na minissérie Bandidos da Falange, nova parceria com Doc Comparato, direção de Luís Antônio Piá e Jardel Mello. A minissérie trouxe o problema da criminalidade urbana, os envolvimentos da polícia e a organização secreta de bandos dentro das penitenciárias em conexão com o crime organizado fora delas. Essa minissérie deveria ter estreado em agosto de 1982, mas teve problemas com a censura e só foi liberada cinco meses depois, picotada.

Novamente com Doc Comparato, Aguinaldo abordou a vida do Padre Cícero nesta minissérie, apresentada em 1984, tendo Stênio Garcia no papel-título, dirigida por Paulo Afonso Grisolli e José Carlos Piéri.

A estreia de Aguinaldo em telenovelas aconteceu em 1984, quando a Globo decidiu unir dois então novos roteiristas da casa para uma novela do horário nobre. Com Glória Perez, Aguinaldo começou a escrever Partido Alto, com direção geral de Roberto Talma. A falta de sintonia entre Aguinaldo e Glória fez com que a dupla fosse desfeita. Aguinaldo abandonou a novela e Glória a concluiu. No elenco, Cláudio Marzo, Elizabeth Savalla, Raul Cortez, Betty Faria, Glória Pires e outros.

Aguinaldo deixou Partido Alto para se dedicar a uma nova minissérie, uma adaptação do romance Tenda dos Milagres, de Jorge Amado, apresentada no segundo semestre de 1985. Com direção geral de Paulo Afonso Grisolli, tinha novamente Nelson Xavier e Tânia Alves como protagonistas.

Entre 1985 e 1986, foi ao ar Roque Santeiro. Aguinaldo foi chamado para escrever a novela com Dias Gomes, o autor da sinopse. Dos 209 capítulos da trama, Dias escreveu 99: os 51 iniciais e os 48 finais. Aguinaldo escreveu os 110 do miolo. Roque Santeiro tornou-se um marco da teledramaturgia nacional. Marcílio Moraes e Joaquim Assis colaboraram no texto e a direção ficou a cargo de Gonzaga Blota, Marco Paulo, Jayme Monjardim e Paulo Ubiratan. No elenco grandioso, José Wilker, Regina Duarte e Lima Duarte viveram os protagonistas Roque, Viúva Porcina e Sinhozinho Malta.

Em 1987, Aguinaldo apresentou uma trama urbana: O Outro, com Francisco Cuoco vivendo os sósias Denizard de Mattos e Paulo Della Santa na história em que um – desmemoriado – assumia a identidade do outro, dado como desaparecido. Direção geral de Gonzaga Blota, Ricardo Waddington e Antônio Rangel. No elenco, também Yoná Magalhães, Natália do Valle, Malu Mader e outros.

No ano seguinte, Aguinaldo uniu-se a Gilberto Braga e Leonor Bassères para juntos escreverem outro grande sucesso de nossa teledramaturgia: Vale Tudo – direção de Denis Carvalho e Ricardo Waddington. Com uma galeria de personagens memoráveis – Odete Roitman (Beatriz Segall), Fátima (Glória Pires), Heleninha (Renata Sorrah), Solange (Lídia Brondi), Marco Aurélio (Reginaldo Faria), César (Carlos Alberto Riccelli), Raquel  (Regina Duarte), e outros – Vale Tudo fez o país parar no último capítulo para o desfecho de um dos “quem matou?” mais notórios de nossa TV: quem matou Odete Roitman?
Leia AQUI o post especial que escrevi sobre Vale Tudo.

Tieta (1989-1990) foi outro grande êxito de nossa TV, considerada pelo próprio Aguinaldo como sua melhor novela. Adaptação do romance Tieta do Agreste de Jorge Amado, escrita com Ana Maria Moretzsohn e Ricardo Linhares, com direção geral de Paulo Ubiratan. O grandioso elenco escalado foi um dos fatores para o sucesso, com personagens na maioria caricatos e inesquecíveis. Destaque para a brilhante atuação de Joana Fomm como a vilã Perpétua. Dois mistérios aguçaram a curiosidade do público: o conteúdo de uma caixa que Perpétua escondia, e a identidade da “Mulher de Branco”, uma figura sinistra que atacava – sexualmente – homens nas noites de lua cheia. No elenco, também Betty Faria, José Mayer, Reginaldo Faria, Lídia Brondi, Yoná Magalhães, Arlete Salles e outros.

Em 1990 foi ao ar a minissérie Riacho Doce que Aguinaldo escreveu com Ana Maria Moretzsohn, adaptada do romance homônimo de José Lins do Rêgo. Com direção geral de Paulo Ubiratan, a minissérie apresentou belas paisagens de Fernando de Noronha. Os protagonistas foram vividos por Fernanda Montenegro, Vera Fischer e Carlos Alberto Riccelli.

Aguinaldo, Ana Maria Moretzsohn e Ricardo Linhares se uniriam novamente para mais um novela com direção geral de Paulo Ubiratan: Pedra Sobre Pedra, sucesso do ano de 1992, com Lima Duarte, Renata Sorrah e Armando Bógus nos papeis centrais. O realismo fantástico, que o autor usara discretamente em Roque Santeiro e Tieta, teve aqui o seu ápice com uma série de personagens surreais: o morto que voltava para as mulheres que ele seduziu em vida, quando elas comiam uma flor; o homem atraído pela lua cheia; e a mulher com mais de cem anos e com uma memória prodigiosa. No elenco, ainda Eva Wilma, Maurício Mattar, Adriana Esteves, Eloísa Mafalda, Fábio Jr. e outros.

A trama seguinte, Fera Ferida (1993-1994) apresentou mais um leque de personagens curiosos e tramas por vezes absurdas de Aguinaldo Silva. Desta vez ele usou como ponto de partida os personagens e histórias de Lima Barreto. O realismo fantástico também esteve presente, no homem que prometia transformar ossos humanos em ouro; na personagem que entrou em sono profundo e dormiu anos a fio; no coveiro que falava com os mortos e sabia os segredos das famílias da cidade (Tubiacanga); e nas cenas de sexo dos amantes Demóstenes e Rubra Rosa (José Wilker e Susana Vieira), que pegavam fogo, literalmente. Novamente escrita com a coautoria de Ana Maria Moretzsohn e Ricardo Linhares. Direção geral de Denis Carvalho e Marcos Paulo. No elenco, também Edson Celulari, Giulia Gam, Lima Duarte, Hugo Carvana, Joana Fomm, Juca de Oliveira, Arlete Salles, Cassia Kiss e outros.

A Indomada - de 1997, escrita com a parceria de Ricardo Linhares e direção geral de Marcos Paulo – foi outro sucesso onde transitaram os personagens fantásticos de Aguinaldo Silva. A história se passava na fictícia cidade de Greenville, onde os moradores davam grande valor às tradições britânicas. O destaque foi o português com sotaque nordestino falado pelos personagens, misturado a expressões da língua inglesa. Frases como “oh chente, mai gódi” se popularizaram. Grande momento de Eva Wilma e Ary Fontoura, que viveram a ardilosa dupla de vilões Altiva e Pitágoras. Como ingrediente do realismo fantástico, havia o Delegado Motinha (José de Abreu) – que caiu num buraco e foi parar no Japão -, e Altiva – que no final virou fumaça jurando voltar para se vingar. Isso sem falar no mistério do Cadeirudo, a figura que atacava as mulheres de Greenville em noites de lua cheia (o que lembrava a “Mulher de Branco” de Tieta). No elenco, ainda Adriana Esteves, José Mayer, Claudio Marzo, Renata Sorrah, Betty Faria, Paulo Betti, Luiza Tomé e outros.

Em 1998, Aguinaldo foi supervisor de Ricardo Linhares na primeira novela solo dele na Globo: Meu Bem Querer (direção geral de Marcos Paulo e Roberto Naar). Lá estava todo o universo ficcional de Aguinaldo com o qual Linhares estava acostumado a lidar: cidadezinha do interior nordestino com personagens caricatos e de apelo popular, e doses de realismo fantástico. Unindo o universo dos dois autores, os endereços da cidadezinha da novela foram batizados com nomes de personagens criados pela dupla em outras novelas: Travessa Professor Praxedes de Menezes (de Fera Ferida), Ladeira Altiva de Mendonça e Albuquerque (de A Indomada), Beco da Cinira (de Tieta), Rua Gioconda Pontes e Largo Dona Francisquinha Queiróz (de Pedra Sobre Pedra). No elenco, Marília Pêra, José Mayer, Ângela Vieira, Murilo Benício, Alessandra Negrini, Leonardo Brício, Flávia Alessandra e outros.

A novela seguinte talvez tenha sido a mais problemática da carreira de Aguinaldo Silva: Suave Veneno (de 1999, direção geral de Marcos Schechtmann, Ricardo Waddington e Daniel Filho). Desta vez o autor voltou a ambientar sua trama no urbano. A história confundiu o telespectador que se afastou, e pouco restava a ser feito para reconquistá-lo. Durante a novela, o ator José Wilker teria circulado nos estúdios com uma camiseta em que se lia: “Suave Veneno: Eu sobrevivi!”. Destaque para o guru Uálber Cañedo (Diogo Vilela) e para a vilã Maria Regina (Letícia Spiller com os cabelos à la Isabella Rosselinni). O elenco também tinha Glória Pires, Irene Ravache, Betty Faria, Patrícia França, Ângelo Antônio e outros.

Porto dos Milagres – de 2001, escrita com Ricardo Linhares, direção geral de Marcos Paulo e Roberto Naar – pareceu uma salada de todas as tramas regionalistas que Aguinaldo fizera anteriormente. Foi, inclusive, seu último trabalho nesses moldes. Mas, graças ao ótimo elenco, a novela conseguiu escapar da simples cópia, garantindo boa audiência. Entre os destaques estava a vilã Adma Guerreiro (Cássia Kiss), a “perua” Amapola (Zezé Polessa), e Augusta Eugênia (Arlete Salles, que não se deixou abalar pelas críticas acerca da semelhança entre a personagem e Altiva que Eva Wilma viveu em A Indomada, e aos poucos deu um jeito diferente à personagem). O elenco também contou com Antônio Fagundes, Marcos Palmeira, Flávia Alessandra, Luiza Tomé, Leonardo Brício, Camila Pitanga, Fúlvio Stefanini e outros.

Em 2004, Aguinaldo abandonou o realismo fantástico e retomou definitivamente os dramas urbanos com Senhora do Destino, um de seus maiores sucessos (direção geral de Wolf Maya). O autor tirou o mote central da novela das manchetes de jornais: o seqüestro do garoto Pedrinho por Vilma Martins Costa – ela levou o bebê de uma maternidade de Brasília, em 1986, e o criou como se fosse seu filho até ser desmascarada, em 2003. Grande destaque para Renata Sorrah, que viveu a inesquecível vilã Nazaré Tedesco. José Wilker também conseguiu construir um personagem marcante: Giovanni Improta, um bicheiro bonachão com a dose exata de histrionismo. No elenco, também os atores Susana Vieira, Carolina Dieckamnn, José Mayer, Eduardo Moscovis, Letícia Spiller e outros.

A trama seguinte de Aguinaldo, Duas Caras – de 2007-2008, direção geral de Wolf Maya – abordou educação, racismo, luta de classes, drogas, homossexualidade, especulação imobiliária e invasão de terras improdutivas. Com Dalton Vigh, Marjorie Estiano, Antônio Fagundes, Susana Vieira, José Wilker, Renata Sorrah, e outros.

Em 2009, Aguinaldo Silva escreveu com Maria Elisa Berredo a minissérie Cinquentinha (direção geral de Wolf Maya), com Susana Vieira, Marília Gabriela, Betty Lago e Maria Padilha. A minissérie gerou um spin-off em 2011: o seriado Lara com Z, protagonizado por Lara Romero, a personagem de Susana Vieira em Cinquentinha (também escrita com Maria Elisa Berredo e dirigida por Wolf Maya).

Numa parceria com a emissora portuguesa SIC, a Globo produziu a novela Laços de Sangue em 2010, gravada em Portugal, com profissionais de lá, tendo Aguinaldo Silva como supervisor de texto do autor da novela, Pedro Lopes.

Entre 2011 e 2012, Aguinaldo escreveu outro sucesso popular, a novela Fina Estampa – (direção geral de Wolf Maya), que alavancou a audiência do horário nobre da Globo. O autor uniu tramas sem compromisso algum com a realidade com elementos populares em voga no momento – como UFC e o funk -, personagens caricatos – como a vilã Tereza Cristina (Christiane Torloni) e o gay Crodoaldo Valério (Marcelo Serrado) -, e uma heroína maniqueísta – Griselda (Lília Cabral), mulher batalhadora, boa e justa, concebida especialmente para criar empatia com o público que se identifica com essa figura idealizada: a “nova classe C” (responsável pela audiência do horário no momento). No elenco, também Dalton Vigh, José Mayer, Carolina Dieckmann, Eva Wilma e outros.
Leia AQUI meu post sobre o balanço final de Fina Estampa.

Leia AQUI meu post sobre os mistérios nas novelas de Aguinaldo Silva.

Leia AQUI meu post sobre a entrevista de Aguinaldo Silva ao programa Roda Viva da TV Cultura em março desse ano.

Comente os trabalhos de Aguinaldo Silva que você mais gostou!


“Avenida Brasil” e “Cheias de Charme” miram a classe C mas agradam a todos os públicos
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Nilson Xavier

É evidente no Brasil a atual preocupação de todos os setores em bajular a “nova classe C”, tão em voga no momento, inclusive na televisão. De acordo com dados do Ibope, esta classe emergente foi responsável por 52% da audiência dos canais abertos em 2011. Daí a intenção dos executivos de televisão em reproduzir na telinha gostos e padrões da “nova classe C” – atualmente evidenciados nas novelas da sete e nove horas da Globo, Avenida Brasil e Cheias de Charme.

Para definições e curiosidades sobre o fenômeno “nova classe C”, sugiro a leitura no site da Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República (SAE). AQUI

A questão da “nova classe C” nas novelas está mais no produto em si – em sua temática, tramas e personagens – do que no público telespectador. Considerando as atuais novelas das sete e nove horas, houve uma mudança de foco: o popular se destaca (em tramas e personagens) – quando comparamos com novelas anteriores onde se evidenciavam as classes mais abastadas (como em tramas de Gilberto Braga e Manoel Carlos).

Mas isso não quer dizer que a novela não possa agradar a todas as classes. O segredo está em continuar fazendo novelas que agradam a todos de uma forma universal, mas mudando temas/tramas/personagens onde a “nova classe C” possa sentir uma maior identificação.

Se antes as empregadas eram personagens que só serviam à mesa e entravam mudas e saiam caladas, hoje elas podem ser as protagonistas – algo impensável tempos atrás, pois, de certa forma, “subvertia” a linguagem estabelecida. Os novos ricos da novela das nove não abandonaram o subúrbio, tampouco deixaram para trás seus gostos e comportamentos.

Avenida Brasil e Cheias de Charme conseguem esse feito, o de agradar a todos. São “populares” porque miram o popular. No entanto, não abrem mão de uma linguagem estética estilizada – vide a fotografia e trilha instrumental de Avenida Brasil. Até mesmo Cheias de Charme, com seu colorido, que remete ao “technobrega” – inclusive quando focalizada a comunidade do Borralho, a favela da trama. É na preocupação estética que percebemos a “classe” da novela. Não vou nem citar a irrepreensível direção e interpretação de atores – estão acima de qualquer “luta de classes”.

Cabe aqui uma comparação entre Avenida Brasil e Fina Estampa, a novela anterior no horário. A trama de Aguinaldo Silva manteve uma estética mais simplista com personagens maniqueístas (Griselda, Crô, Tereza Cristina), concebidos exclusivamente para agradar um público menos exigente, através de uma linguagem mais fácil, mais digerível – mais popular. Mesmo assim, diante da repercussão que teve Fina Estampa (entende-se números de Ibope), parece que acabou por agradar a todos de uma mesma forma.

Independente do novo foco, novo público alvo, novas temáticas, o fato é que as novelas continuam como dantes: atingindo todas as classes, seja qual for o poder aquisitivo. Na verdade, no Brasil sempre existiu produção teledramatúrgica para todos os gostos: novela cômica, dramática, realista, infantil, adulta, off-Globo, dramalhão latino, seriados, etc, populares ou não. Que continuemos escolhendo o que ver.


As Periguetes invadem as novelas
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Nilson Xavier

As periguetes estão em alta nas novelas globais. E já faz um tempo. Suelen é uma das personagens mais populares de Avenida Brasil. Ísis Valverde brilha na pele da maria-chuteira oferecida que usa o corpo para conseguir o quer. Muito a vontade na personagem, a atriz afasta para sempre o estigma de Rakelli, que viveu na novela Beleza Pura, em 2008. Suas insinuações para os rapazes na frente do “ficante” Leandro (Thiago Martins), e os seus bate-bocas com Roni (Daniel Rocha Azevedo) são diversão na certa.

A novela das sete, Cheias de Charme, também tem uma periguete à altura de Suelen. Brunessa é a funkeira abusada que faz qualquer coisa por dinheiro e, tal qual sua colega de Avenida Brasil, usa o corpo como uma arma poderosa. A personagem é interpretada pela atriz Chandelly Braz, estreante em novelas (ela participara da série Clandestinos, o Sonho Começou, em 2010).

Às seis da tarde, em Amor Eterno Amor, Andreia Horta vive Valéria, uma moça da ilha de Marajó um tanto quanto “atirada”, que faz qualquer coisa pelo seu amor, Carlos (Gabriel Braga Nunes). Romântica, mas não menos periguete, o corpo – de novo – é a arma que ela usa para prender seu homem.

As novelas anteriores também tinham sua cota-periguete. Em A Vida da Gente, a cerejinha Cris (Regiane Alves) até se deu bem por um tempo, ao fisgar o ricaço Jonas (Paulo Betti), mas o casório não durou até o último capítulo. Fina Estampa teve uma das maiores periguetes de todos os tempos: Theodora (Carolina Dieckmann), que até mostrou ser boa gente ao aproximar-se do filho pequeno, mas nem por isso deixou de lado os métodos sórdidos para conseguir o queria. Da mesma novela, saiu a periguetinha funkeira Solange (Carol Macedo), que só queria saber de rebolar até o chão.

Em Insensato Coração, era Natalie Lamour, vivida por Deborah Secco, quem fazia qualquer coisa para se dar bem e estar diante dos holofotes. Aliás, Deborah interpretou outras periguetes parecidas: a deslumbrada Darlene de Celebridade (2003-2004), a sonsa Céu de A Favorita (2008), e a maria-chuteira Marina de Suave Veneno (1999).

Mas a lista é grande: Thaísa (Fernanda Souza em Ti-Ti-Ti), Elvira (Bárbara Borges em Bela, a Feia), Norminha (Dira Paes em Caminho das Índias), Gislaine (Juliana Alves em Duas Caras), Valquíria (Renata Dominguez em Amor e Intrigas), Bebel (Camila Pitanga em Paraíso Tropical), Leona (Carolina Dieckmann em Cobras e Lagartos), Creusa (Juliana Paes em América), Karla com K (Juliana Paes em O Clone),  Sandrinha (Adriana Esteves em Torre de Babel), Mary Matoso (Patrícia Travassos em Vamp), Clara (Cláudia Abreu em Barriga de Aluguel), Nicinha (Marisa Orth em Rainha da Sucata), Fátima (Glória Pires em Vale Tudo), Tina Pepper (Regina Casé em Cambalacho), Marilda (Elizângela em Roque Santeiro), Carolina (Lucélia Santos em Guerra dos Sexos).

Cite outras periguetes que você lembra!


Nomes esdrúxulos de personagens invadem as novelas
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Nilson Xavier

Parece que as novelas atuais estão apostando em nomes esquisitos de personagens para chamar a atenção do público. A nova estreia da Globo, Avenida Brasil, já se destaca por isso: Muricy (Eliane Giardini), Begônia (Carol Abras), Olenka (Fabíula Nascimento), Tessália (Débora Nascimento), Bervely (Luana Martau),  Darkson (José Loreto).

Miguel Falabella, no ar com Aquele Beijo, não deixa por menos: Maruschka (Marília Pêra), Locanda (Stella Miranda), Belezinha (Bruna Marquezine), Íntima (Elizângela), Grace Kelly (Leilah Moreno), Eveva (Maria Gladys), Ana Girafa (Luís Salém), Brites (Maria Vieira), Mirta (Jacqueline Laurence), Taluda (Priscila Marinho).

Em Fina Estampa, Aguinaldo Sillva também usou do expediente, a começar com a protagonista, Griselda (Lília Cabral). Também Crodoaldo Valério (Marcelo Serrado), Zambeze (Totia Meirelles), Wallace Mu (Dudu Azevedo).

Aguinaldo e Falabella são os autores que mais frequentemente batizam personagens assim, usando toda sorte de nomes e apelidos estranhos, ou que “soam diferente” aos nossos ouvidos.

Aguinaldo Silva

Índia do Brasil (Yoná Magalhães em O Outro, 1987)
Glorinha da Abolição (Malu Mader em O Outro, 1987)
Rubra Rosa (Susana Vieira em Fera Ferida, 1993-1994)
Ipiranga Pitiguari (Paulo Betti em A Indomada, 1998)
Uálber Cañedo (Diogo Vilela em Suave Veneno, 1999)
Crescilda (Gottsha em Senhora do Destino, 2004-2005)
os irmãos Leidi Daiani e Maikel Jecson das Neves (Jéssica Sodré e Agles Steib em Senhora do Destino, 2004-2005)
Juvenal Antena (Antônio Fagundes em Duas Caras, 2007-2008)
Evilásio Caó (Lázaro Ramos em Duas Caras, 2007-2008)
Benoliel (Armando Babaiaoff em Duas Caras, 2007-2008).

Miguel Falabella

Sexta-Feira (Mara Manzan em Salsa e Merengue, 1996-1997)
Zé Bisonho (Luís Guilherme em A Lua Me Disse, 2005)
Sulanca (Diva Pacheco em A Lua Me Disse, 2005)
Zelândia (Maria Zilda em A Lua Me Disse, 2005)
Dona Roma (Miguel Magno em A Lua Me Disse, 2005)
Adail (Bia Nunnes em A Lua Me Disse, 2005)
Talarico (Luís Salém em A Lua Me Disse, 2005)
Morcega (Sylvia Massari em A Lua Me Disse, 2005)
Samovar de Santa Luzia (Cássio Scapim em A Lua Me Disse, 2005)
Dona Gôndola (Thelma Reston em A Lua Me Disse, 2005)
Bozena (Alessandra Maestrinni em Toma Lá Dá Cá, 2007-2009)
Dona Álvara (Stella Miranda em Toma Lá Dá Cá, 2007-2009)
Seu Ladir (Ítalo Rossi em Toma Lá Dá Cá, 2007-2009)
Zé Boneco (Frederico Reuter em Negócio da China, 2008-2009)
Flor-de-Liz (Bruna Marquezine em Negócio da China, 2008-2009)
Tozé (Dudu Pelizzari em Negócio da China, 2008-2009)
Lucivone, Aldira e Lausane (Maria Galdys, Débora Olivieri e Josie Antello em Negócio da China, 2008-2009).

Mas essa prática é antiga. O casal de novelistas Dias Gomes e Janete Clair eram peritos em inventar nomes “sonoros” para os personagens de suas tramas.

Dias Gomes

Jovelino Sabonete (Felipe Carone em Bandeira Dois, 1971-1972)
Odorico Paraguaçu (Paulo Gracindo em O Bem Amado, 1973)
Zeca Diabo (Lima Duarte em O Bem Amado, 1973)
Dirceu Borboleta (Emiliano Queiroz em O Bem Amado, 1973)
as irmãs Cajazeiras (Ida Gomes, Dorinha Duval e Dirce Migliaccio em O Bem Amado, 1973)
Lazinha Chave-de-Cadeia (Betty Faria em O Espigão, 1974)
Professor Aristóbulo (Ary Fontoura em Saramandaia, 1976)
Dona Redonda (Wilza Carla em Saramandaia, 1976)
Rudi Caravagglia (Jardel Filho em Sinal de Alerta, 1978-1979)
Viúva Porcina (Regina Duarte em Roque Santeiro, 1985-1986)
Florindo e Pombinha Abelha (Ary Fontoura e Eloisa Mafalda em Roque Santeiro, 1985-1986)
Tony Carrado (Nuno Leal Maia em Mandala, 1987-1988)
Aristênio Catanduva, o Araponga (Tarcísio Meira em Araponga, 1990-1991)
Tião Socó (José Wilker em O Fim do Mundo, 1996).

Janete Clair

Pedro Azulão (Juca de Oliveira em Fogo Sobre Terra, 1974)
Herculano Quintanilha (Francisco Cuoco em O Astro, 1977-1978)
Salomão Hayalla (Dionísio Azevedo em O Astro, 1977-1978)
Ana Preta (Gloria Menezes em Pai Herói, 1979)
André Cajarana (Tony Ramos em Pai Herói, 1979)
Juca Pitanga (Tarcísio Meira em Coração Alado, 1980-1981)
Maria Faz-Favor (Aracy Balabanian em Coração Alado, 1980-1981)
Luana Camará (Regina Duarte em Sétimo Sentido, 1982)
Rudi Rivoredo (Carlos Alberto Riccelli em Sétimo Sentido, 1982)
Lucas Cantomaia (Francisco Cuoco em Eu Prometo, 1983-1984)
Horácio Ragner (Walmor Chagas em Eu Prometo, 1983-1984).

Você lembra de outros nomes esquisitos de personagens de novelas?

 


Edição do Troféu Imprensa foi questionável mas divertiu
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Nilson Xavier

Neste domingo, 25/03, Silvio Santos promoveu mais uma edição do Troféu Imprensa. Lembro que quando eu era criança e adolescente, acompanhava com seriedade a atração, uma das mais antigas da nossa TV. Por seu histórico e popularidade, o Troféu Imprensa sempre é lembrado como um prêmio de televisão almejado pelos candidatos. E até importante. E soa assim, principalmente pela sua imparcialidade, visto que ele premia atrações de todas as emissoras – diferente de alguns prêmios entregues por outros canais, que prestigiam apenas as emissoras que os promovem.

Mas o que se viu ontem destoa de todo o histórico do troféu. Um verdadeiro festival de gafes entre Silvio Santos, o júri, a plateia e os convidados, apimentadas pela troca de farpas entre Décio Piccinini e Nelson Rúbens e a língua afiada de Leão Lobo, ao criticar candidatos. Impossível não rir das piadinhas de Silvio, como sempre um mestre de cerimônias espirituoso. Um programa divertido, um verdadeiro show de humor, acompanhado pelos internautas que levaram a hashtag #TrofeuImprensa ao primeiro lugar no Twitter.

Mas tão risível quanto o programa em si, foram alguns candidatos finalistas dentro de algumas categorias. Para ganhar o prêmio, os três finalistas eram escolhidos entre cinco dos jurados presentes. Irei analisar apenas as categorias que mais me dizem respeito: Novela, Ator e Atriz.

Das três finalistas ao Troféu Imprensa de Melhor Atriz do ano passado, achei que o resultado não poderia ser mais justo. E qualquer uma das que ganhasse seria um bom resultado: Glória Pires – por Norma em Insensato Coração (a minha escolha), Lília Cabral e Christiane Torloni – por Griselda e Tereza Cristina em Fina Estampa. Outras atrizes que atuaram no ano passado também poderiam ser citadas: Cássia Kiss por Morde e Assopra, Lília Cabral pela série Divã, Regina Duarte por O Astro, Beth Goulart por Vidas em Jogo e pelo menos quatro atrizes da novela A Vida da Gente, Fernanda Vasconcellos, Marjorie Estiano, Nicette Bruno e Ana Beatriz Nogueira (uma novela feminina por excelência).

A revelação dos candidatos a Melhor Novela de 2011 causou estranheza pela presença da novela teen Rebelde, da Record (as demais foram Cordel Encantado e Fina Estampa). Não desmerecendo Rebelde, o estranhamento está no fato de haverem outras candidatas bem mais fortes e representativas, como Vidas em Jogo, da própria Record, e Insensato Coração, Morde e Assopra, O Astro e A Vida da Gente – indiscutivelmente novelas que tiveram mais repercussão que Rebelde.

Mas o que coroou esta divertida noite de Troféu Imprensa foi sem duvida o pronunciamento aos candidatos a Melhor Ator: Gabriel Braga Nunes por Léo em Insensato Coração (merecido), mais Caio Castro por Antenor em Fina Estampa e Chay Suede por Tomás em Rebelde. Eu vou me abster de discutir a presença dos nomes de Caio Castro e Chay Suede. Apenas lembrarei que 2011 contou com as performances de Marcelo Serrado por Crô em Fina Estampa, Herson Capri por Cortez em Insensato Coração, Humberto Martins por Neco em O Astro, Domingos Montagner por Herculano em Cordel Encantado e André Gonçalves por Áureo em Morde e Assopra.

E o tal Troféu Internet, o prêmio que acompanha o Troféu Imprensa já há alguns anos, torna a situação ainda mais engraçada, beirando o constrangimento: os fãs da novela Rebelde promoveram uma força tarefa na Internet e conseguiram elege-la em todas as categorias possíveis: Melhor Novela, Melhor Ator (Chay Suede), Melhor Atriz (Mel Fronckowiak, que ainda levou o prêmio como Revelação) e melhor conjunto musical (Rebeldes). Parabéns ao #RebeldeTeam! Uma prova de que são bem unidos.

Não vou questionar as regras e critérios para a votação ou escolha dos candidatos aos prêmios. Mesmo porque, se analisarmos os jurados, também parece não haver um critério muito homogêneo com relação às suas escolhas. Décio Piccinini, por exemplo, justificou seu voto de melhor novela a Fina Estampa alegando que ela merece porque foi a maior audiência do ano passado. E Sônia Abrahão parabenizou por Rebelde estar entre as finalistas, já que a novela não é da Globo – desmerecendo assim novelas melhores que deveriam estar lá, independente de emissora.

Se a escolha dos candidatos ao Troféu Imprensa se dá por meio de votação na Internet, o perfil de votantes torna-se bem limitado. E o critério “melhor” pode ser bastante questionável. Usando jargões da própria Internet: “Tem que ver isso aí!”. Ou “Critérios, não trabalhamos”. Ou ainda: “#puxado!

Jurados: José Armando Vannucci, Nelson Rubens, Sonia Abrão, Paulo Barboza, Leão Lobo, Keila Jimenez, Décio Piccinini, Valença Sotero, Paulo Cabral e Regina Rito.

Troféu Imprensa:

Cantora - Paula Fernandes
Programa infantil Carrossel Animado com Patati Patatá
Jornal de TV - Jornal Nacional
Novela - Cordel Encantado
Programa de entrevista - Agora é Tarde
Dupla sertaneja - Victor e Leo
Atriz - Lilia Cabral
Programa humorístico - CQC e Pânico na TV
Animadora ou apresentadora de TV - Eliana
Ator - Gabriel Braga Nunes
Conjunto musical - Exaltasamba
Revelação - Patricia Abravanel
Animador ou apresentador de TV - Rodrigo Faro
Programa jornalístico - Conexão Repórter
Cantor - Roberto Carlos

 Troféu Internet:

Cantora - Paula Fernandes
Programa infantil Bom Dia & Cia
Jornal de TV - Jornal Nacional
Novela - Rebelde
Programa de entrevista - De Frente com Gabi
Dupla sertaneja - Jorge e Mateus
Atriz - Mel Fronckowiak
Programa humorístico - Pânico na TV
Animadora ou apresentadora de TV - Eliana
Ator - Chay Suede
Conjunto musical - Rebeldes
Revelação - Mel Fronckowiak
Animador ou apresentador de TV - Silvio Santos
Programa jornalístico - Fantástico
Cantor - Michel Teló


“Fina Estampa” apostou na comédia e acertou na audiência
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Nilson Xavier

A máxima “fale mal, mas fale” poderia ser aplicada à novela Fina Estampa – cujo último capítulo foi exibido nessa sexta-feira, 23/03. Desde sua estreia, a trama de Aguinaldo Silva foi alvo das críticas mais ferrenhas, vindas de todos os lados, por causa de sua história, personagens, direção ou proposta “nova classe C”. Mas o fato é que a novela alavancou a audiência do horário. Isso é o que interessa para a emissora e para seu autor.

No ibope da Grande São Paulo (o que conta para o mercado publicitário), Fina Estampa teve na média geral menos audiência (39) que a última trama de Aguinaldo, Duas Caras (41), e a novela seguinte, A Favorita (40), e empatou com Caminho das Índias. Mas ultrapassou as três novelas subsequentes: Viver a Vida (36), Passione (35) e Insensato Coração (36). Já na média nacional (PNT – Painel Nacional de Televisão, que Aguinaldo divulga em seu blog), Fina Estampa se saiu melhor: 41 pontos, empatando com Duas Caras e ultrapassando as demais novelas.

Ainda que as críticas recebidas pudessem funcionar como um chamariz para a trama, está claro que o sucesso da novela não veio delas. Ver para falar mal pode até ser um passatempo divertido, mas não é o suficiente para justificar sua repercussão. O fato é que a novela cativou o público, independente das críticas.

Aguinaldo Silva uniu tramas surreais – entende-se sem compromisso algum com a realidade – com elementos populares em voga no momento – como UFC e o funk -, personagens caricatos – como a vilã Tereza Cristina (Christiane Torloni) e o gay Crodoaldo Valério (Marcelo Serrado) -, e uma heroína maniqueísta – Griselda (Lília Cabral), mulher batalhadora, de personalidade forte, mãe sofrida, boa e justa, concebida especialmente para criar empatia com o público que se identifica com essa figura idealizada: a chamada “nova classe C”, que, acredita-se, é a principal responsável pela audiência do horário nobre na TV aberta brasileira no momento.

Aguinaldo sempre foi um autor popular, escreveu algumas das melhores novelas de nossa TV, é um mestre na arte de despertar audiências com tramas e personagens marcantes. Fina Estampa está longe de ser seu melhor trabalho. Não teve uma história consistente, marcante, inovadora ou original. O autor se perdeu do mote inicial: Griselda, que, ao ficar rica, se questionaria se o que vale mais é a aparência ou o caráter – como bem sugere a abertura e o título da novela.

Isso acabou não acontecendo e a vilã tresloucada Tereza Cristina passou a ganhar mais espaço dentro da história, despertando a atenção do público acerca de seu “segredo”. Mas esse segredo – cuja revelação foi ápice em dois momentos – acabou por frustrar o telespectador, à la “segredo de Gerson” (personagem de Marcelo Antony na novela Passione). O autor também frustrou o público com a não revelação da identidade do amante de Crô. Uma brincadeirinha de Aguinaldo.

Apesar do espaço que Tereza Cristina ganhou na trama, pela primeira vez não foi a vilã da novela que despertou paixões no telespectador – como Nazaré Tedesco de Senhora do Destino, Odete Roitman de Vale Tudo, Altiva de A Indomada, Laura de Celebridade, Flora de A Favorita, e tantas outras. O personagem de Fina Estampa que entra para galeria de tipos queridos da TV é o Crô de Marcelo Serrado, o grande destaque da novela, impagável nas cenas com Tereza Cristina, o chofer Baltazar (Alexandre Nero) e a empregada Marilda (Kátia Moraes) – que juntos formavam o melhor núcleo da novela.

Também Pereirinha (José Mayer), Teodora (Carolina Dieckamnn) e Tia Íris (Eva Wilma) tiveram ótimos momentos com seus personagens, valorizados pelo texto afiado do autor e pela interpretação dos atores. O núcleo de Ester-Paulo-Danielle (Júlia Lemmertz, Dan Stulbach e Renata Sorrah), em banho-maria por mais da metade da novela, despertou nesta reta final e chegou a movimentar a trama.

Apesar de vários núcleos e personagens com histórias desinteressantes, e por mais surreal que a novela tenha sido – com direito a citações a várias outras tramas do autor -, a aposta no tom farsesco e na comédia popular funcionou. O que talvez não teria acontecido se o autor tivesse se restringido à chata família de Griselda e seu discurso politicamente correto. Ou ao núcleo da praia e seus aplausos ao sol.


Aguinaldo Silva no Roda Viva: “A telenovela é tratada com profundo desdém pela mídia.”
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Nilson Xavier

Na segunda-feira, 12/03, participei do programa Roda Viva, na TV Cultura, em que o novelista Aguinaldo Silva foi entrevistado. Além de mim, o autor de Fina Estampa foi sabatinado por Mário Sérgio Conti (apresentador do programa), Mauricio Stycer (repórter e crítico de televisão do UOL), Cristina Padiglione (editora e colunista de TV do jornal O Estado de São Paulo), Katia Mello (gerente de conteúdo da TV1 Eventos) e Raimundo Rodrigues Pereira (diretor da revista Retrato do Brasil).

Diferente da postura em seu blog e no Twitter, Aguinaldo mostrou-se uma pessoa calma, serena, de fala mansa e baixa e muito simpática. Questionei se ele usava um personagem nas redes sociais e ele afirmou que não faria um blog apenas para descrever o seu dia a dia. “Todos criam uma persona na Internet! (…) É um personagem, aquilo não sou eu. Quem me conhece sabe que eu não sou assim”.

Gostei bastante do programa, mesmo porque – e até comentei com Aguinaldo – não me lembrava de já tê-lo assistido em alguma entrevista na TV. Durante mais de uma hora e meia, ele falou – entre coisas cosas – do sucesso e dos bastidores de Fina Estampa, de sua carreira antes da televisão, quando era jornalista e repórter policial, de como cria seus personagens, de seu restaurante e sua pousada, de Portugal, do politicamente correto, da censura que já sofreu e que ainda sofre, da nova classe C, de sua desavença com Walcyr Carrasco, de novelas x seriados, de seu futuro na Globo (seu contrato vai até setembro de 2014), de sua imagem na Internet e de sua relação com a mídia em geral.

Sobre o final de Fina Estampa, Aguinaldo revelou apenas que a vilã Tereza Cristina (Christiane Torloni) não morrerá nem será presa, e que Baltazar (Alexandre Nero) não é o amante de Crô (Marcelo Serrado). O mote central da novela – “o que vale mais, o caráter ou a aparência?”, que fora abandonado no decorrer da trama – será retomado quando Griselda (Lília Cabral) discursar sobre ética na formatura do filho Antenor (Caio Castro). Ele confirmou ainda que a Barra da Tijuca não será varrida do mapa com um tsunami, como já fora anunciado.

Desenhos do cartunista Paulo Caruso

Aguinaldo disse que alguns personagens da novela são como personagens de desenho animado: “As crianças adoram o Crô porque ele é o Pica Pau! (…) E Tereza Cristina é o Tom” (da dupla Tom & Jerry). Perguntado se algum personagem de Fina Estampa ficará para a posteridade, Aguinaldo respondeu: “O Crô, para a infelicidade dos gays [que criticam o personagem]”.

Questionado sobre sua melhor novela, o escritor primeiro deu uma resposta clichê: “É sempre a última!”. Ao final do programa, ele reconheceu: “É Tieta! A primeira que escrevi depois do fim da censura. Pude me permitir coisas que não podia antes”.

Sempre achei estranho Aguinaldo Silva ter sido supervisor de texto de Bosco Brasil em Tempos Modernos (trama das 7 horas, de 2010) pelo fato da novela não ter absolutamente nada a ver com o seu universo ficcional (a trama era ambientada em São Paulo e, no início, tinha uma “pegada” de ficção científica). Perguntei a ele qual foi a sua efetiva participação na novela, no que Aguinaldo respondeu: “Praticamente nenhuma! Porque nada na novela tinha a ver comigo”.

Questionei também se Aguinaldo não tem mais interesse em fazer novelas regionalistas. Sua resposta: “Vou te contar um segredo: eu continuo fazendo novelas rurais! Eu uso um truque: finjo que faço novela urbana! Você acha que aquilo é a Barra da Tijuca [cenário de Fina Estampa]? Não é! É uma cidadezinha do interior!”

Para Aguinaldo, os autores de novelas das 21 horas da Globo estão em extinção, porque escrever novela exige muita disciplina, que só os veteranos têm. Ele chama os novelistas veteranos remanescentes no horário de “as cinco últimas ararinhas azuis”, a saber: ele, Gilberto Braga, Glória Perez, Manoel Carlos e Silvio de Abreu. E João Emanuel Carneiro, “um jovem autor de 40 anos”.

Abaixo transcrevo algumas de suas melhores frases no programa.

“Os gays que abominam o Crô anseiam por parecerem heterossexuais.”

“Todas as pesquisas indicam que as pessoas não querem ver o beijo gay [na novela]. Dependendo de mim, beijo gay só na minha casa!”

“Crítico é uma pessoa que entende e gosta de televisão. Em primeiro lugar tem que gostar de televisão!”

“A telenovela é tratada com profundo desdém pela mídia.”

“Não me interessa falar de jornalistas sérios, porque eles são irretocáveis. Me interessa falar dos que não são sérios, porque eles existem. A gente sabe que existem jornalistas assim, principalmente cobrindo televisão.”

“Novela é entretenimento, não é arte. Porque é uma obra coletiva.”

“Sempre comparo novela com jornal de ontem: quando acaba, some da mente das pessoas. Não existe nada mais antigo do que jornal de ontem.”

“O brasileiro gosta mais de novelas do que seriados porque não temos bons seriados. (…) Temos muito que aprender com os americanos. (…) Acho que a linguagem dos seriados [nacionais] ainda é antiga.”
“Tentei fazer algo novo
[sobre Lara com Z], não sei se consegui. Tenho que reconhecer que eu tenho os vícios da novela. Então meus seriados sempre acabam ficando no meio termo entre o seriado e a novela.”

 “Quando tinha a Censura [oficial] era mais divertido, porque as regras do jogo eram muito claras.”

“A novela não é minha, é do produtor [da emissora]. Mas você é o senhor da novela – sinto que nós somos o lado negro da história, e isso é perigoso! Se pudesse fazer novelas sem autor, seria melhor.”

O brasileiro não se preocupa com spoiler “porque mesmo sabendo o que vai acontecer, o público quer saber como vai acontecer.”

“Entrego uma sinopse que dura no máximo 80 capítulos. Depois, seja o que Deus quiser!”

 “Eu ainda tenho muitas histórias para contar. Não estou interessado em remakes.”

“Se eu posso fazer propaganda de uma peça de teatro, por que não posso fazer de minha pousada?”

Assista abaixo a entrevista na íntegra (vídeo do Youtube).