Blog do Nilson Xavier

Arquivo : Selva de Pedra

Sucesso prolongado de “Avenida Brasil” contribui para repercussão negativa de “Salve Jorge”
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Nilson Xavier

Totia Meirelles e Nanda Costa em cena de “Salve Jorge” (Foto: TV Globo)

Não sei se Glória Perez já usou o argumento de que existe uma campanha negativa da mídia contra Salve Jorge. Todo dia me deparo com alguma notícia espinafrando a novela ou, ao menos, chamando a atenção para a sua repercussão negativa, a baixa audiência, o número volumoso de atores no elenco, as repetições de temas, etc. Não vou me estender nos exemplos senão vai parecer que eu mesmo estou desqualificando a obra. O fato é que as audiências de todas as novelas no ar estão abaixo do esperado (com exceção de Carrossel, do SBT, que tem seu público cativo).

Continuo achando que Carminha é a grande vilã nessa má vontade toda do público com a trama de Glória. Avenida Brasil abriu um precedente: o público está cansado de mais do mesmo. É claro que Avenida também tinha mais do mesmo, como deve ter todo folhetim (a base da telenovela). Mas houve ali uma quebra de paradigma – pelo menos no formato (estética cinematográfica, linguagem de seriado com ganchos surpreendentes, elenco enxuto, etc.)… Também não vou me estender em enaltecer Avenida para não resvalar a novela da Glória na comparação com a trama de João Emanuel Carneiro.

O período de luto de Avenida Brasil se estende na medida em que a novela continua colhendo louros de seu sucesso. Na noite de terça-feira (27/11), Avenida foi a principal vencedora do Prêmio Extra de Televisão. Ganhou seis das nove categorias em que concorreu: Novela, Atriz (Adriana Esteves), Ator Coadjuvante (José de Abreu), Atriz Coadjuvante (Ísis Valverde), Revelação (Cacau Protásio) e Revelação Infantil (Mel Maia) – Marcelo Serrado, de Fina Estampa, levou o prêmio de Melhor Ator.

Os internautas comemoram na Internet. Assim como comemoram os capítulos de Avenida Brasil transmitidos atualmente pelo canal SIC, em Portugal, que podem ser vistos aqui pela Internet. E justamente na hora que está passando Salve Jorge. Que azar, hein!

“Roque Santeiro” – “Selva de Pedra” – “Vale Tudo” – “O Salvador da Pátria”

Assim como Avenida Brasil, outras duas novelas, do passado também causaram frisson e viraram coqueluche: Roque Santeiro (1985-1986) e Vale Tudo (1988-1989). A novela que teve a difícil tarefa de substituir Roque Santeiro foi o remake de Selva de Pedra (com Fernanda Torres, Tony Ramos e Christiane Torloni como protagonistas). Apesar do sucesso da novela original em 1972 (aquela dos 100% de audiência), o remake não agradou a maioria. A trama custou para pegar – se é que de fato “pegou” – e foi muito criticada na época. A história se repete mais ou menos assim agora, em 2012…

Em contrapartida, o caso de Vale Tudo foi diferente. Depois do enorme sucesso da novela, de todos saberem que foi Leila quem matou Odete Roitman, a trama substituta – O Salvador da Pátria – não fez feio. Aqui cabem algumas comparações. Selva de Pedra tinha a estrutura do mais clássico dos folhetins. Era uma história relativamente nova e conhecida em 1986 – havia sido reprisada em 1975, onze anos antes. Ou seja, foi escolhido um melodrama sem novidade para substituir um fenômeno de repercussão. Selva de Pedra, naquele momento, revelou-se uma escolha equivocada para entrar no lugar de Roque Santeiro.

Diferentemente, a trama que substituiu o fenômeno Vale TudoO Salvador da Pátria – trazia o mais apurado texto de Lauro César Muniz, na história do boia-fria matuto (Sassá Mutema de Lima Duarte) que serviu de bode expiatório para as falcatruas dos poderosos de uma cidadezinha. Apesar de ser uma releitura de um antigo conto de Lauro César (O Crime do Zé Bigorna, exibido nos anos 1970 como Caso Especial), O Salvador da Pátria apresentou uma história e tanto que cativou o público de cara, logo nos primeiros meses. Não por acaso, a novela registrou altos índices de audiência na época (apesar dos problemas que teve da metade para o final).

Roque Santeiro-Selva de Pedra e Vale Tudo-O Salvador da Pátria são exemplos para se refletir no atual caso Avenida Brasil-Salve Jorge. Acredito que o público deixa o luto pela novela anterior mais cedo quando o casamento seguinte traz novidade. E convenhamos que Salve Jorge carece de novidade. A única está no núcleo do tráfico de mulheres.

Como se não bastasse Salve Jorge ser uma novela tradicional demais para ocupar a vaga de Avenida Brasil, o sucesso prolongado da trama de João Emanuel Carneiro ecoa e intensifica a sensação do quanto as duas novelas são diferentes. Para melhor e para pior.


No Dia dos Namorados, relembre casais românticos que marcaram as novelas
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Nilson Xavier

Amanda e Herculano em "O Astro" (Carolina Ferraz e Rodrigo Lombardi)

Viúva Porcina e Sinhozinho Malta em "Roque Santeiro" (Regina Duarte e Lima Duarte)

Matteo e Giuliana em "Terra Nostra" (Thiago Lacerda e Ana Paula Arósio)

Lara e João em "Irmãos Coragem" (Glória Menezes e Tarcísio Meira)

João Fernandes e Xica em "Xica da Silva" (Victor Wagner e Taís Araújo)

Cacá e Júlia em "Dancin´ Days" (Antônio Fagundes e Sônia Braga)

Daniel e Clarisse em "Prova de Amor" (Marcelo Serrado e Lavínia Vlasak)

Marcos e Ruth em "Mulheres de Areia" (Guilherme Fontes e Glória Pires)

Afonso e Solange em "Vale Tudo" (Cássio Gabus Mendes e Lídia Brondi)

Beto e Renata em "Beto Rockfeller" (Luiz Gustavo e Bete Mendes)

Babalu e Raí em "Quatro por Quatro" (Letícia Spiller e Marcello Novaes)

Cristiano e Simone em "Selva de Pedra" (Francisco Cuoco e Regina Duarte)

Nando e Milena em "Por Amor" (Eduardo Moscovis e Carolina Ferraz)

Professor Fábio e Jô Penteado em "A Barba Azul" (Carlos Zara e Eva Wilma)

Jade e Lucas em "O Clone" (Giovanna Antonelli e Murilo Benício)

Márcio e Lili em "O Astro" (Tony Ramos e Elizabeth Savalla)

Cite outros casais românticos de novelas!


“Selva de Pedra” completa 40 anos
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Nilson Xavier

Há exatos quarenta anos a Globo lançava uma das novelas de maior sucesso da TV brasileira: Selva de Pedra, escrita por Janete Clair, com direção de Daniel Filho – substituído depois por Reynaldo Boury e Walter Avancini, então estreando na Globo.

Selva de Pedra foi a quarta de uma série de novelas consecutivas que Janete escreveu para o horário das oito da Globo. Entre novembro de 1969 e janeiro de 1973, a autora escreveu, ininterruptamente: Véu de Noiva, Irmãos Coragem (sendo esta uma das mais longas novelas da emissora), O Homem que Deve Morrer e Selva de Pedra.

A novela foi baseada no romance “Uma Tragédia Americana”, de Theodore Dreiser, que já havia rendido dois filmes em Hollywood: o primeiro, em 1931, de Joseph Von Sternberg, com o mesmo título do romance original, com Sylvia Sidney, Philips Holmes e Frances Dee. E o segundo, o filme “Um Lugar ao Sol”, em 1951, de George Stevens, com Shelley Winters, Montgomery Clift e Elizabeth Taylor.

Na TV, o triângulo amoroso central foi vivido por Regina Duarte (Simone), Francisco Cuoco (Cristiano) e Dina Sfat (Fernanda), numa interpretação marcante. Outro ator que brilhou no elenco foi Carlos Vereza, que deu vida ao malandro Miro, um tipo de caráter duvidoso, mas extremamente carismático, que caiu no gosto do público.

O ponto de partida é o mesmo da história original: rapaz pobre (Cristiano) se casa com moça pobre (Simone), mas conhece moça rica (Fernanda) e fica dividido entre as duas, pensando na possibilidade de matar a jovem pobre para viabilizar seu casamento com a rica. Mas a censura do Regime Militar da época obrigou a autora a mudar seu roteiro: o mocinho não poderia se casar com a rica porque já era casado com a pobre – mesmo ele pensando que a pobre estivesse morta. Janete Clair teve que inutilizar 22 capítulos e várias cenas foram regravadas.

Na história, Miro convencia Cristiano de que, para ele se casar com Fernanda, era preciso se livrar de Simone. Miro se encarregou do serviço e, numa perseguição, o carro de Simone caiu num precipício – uma das sequências mais marcantes da novela. Cristiano, em crise de consciência, não conseguiu se casar com Fernanda, abandonando-a no altar.

Mas Simone sobreviveu. Ela preferiu que todos continuassem achando que estava morta e partiu para o exterior com outra identidade, Rosana. Em seu retorno ao Brasil, Cristiano não acreditou na farsa e tentou se reaproximar da ex-mulher, que se tornara uma artista plástica famosa. Enquanto isso, Fernanda, enlouquecida, fazia de tudo para destruir seus desafetos, Cristiano e Simone.

A mudança de rumos acabou gerando novos desfechos para Selva de Pedra, que fez com o público ficasse cada vez mais vidrado na trama. O capítulo 152, apresentado em 04/10/1972, registrou incríveis 100% de audiência no Ibope, pelo menos nas cidades de São Paulo e Rio de Janeiro.  Foi o capítulo em que Rosana, ou melhor, Simone, era desmascarada por Cristiano, na polícia.

Selva de Pedra foi ao ar originalmente entre abril de 1972 e janeiro de 1973, e reprisada em 1975, em forma compacta, também às oito da noite, cobrindo a censura de Roque Santeiro, que havia sido impedida de ir ao ar em sua estreia. Enquanto a Globo providenciava uma novela substituta (Pecado Capital), a emissora optou por reprisar Selva de Pedra, que, mesmo fresquinha na memória dos telespectadores, voltou a fazer sucesso. Em 1986 foi ao ar o remake da novela, com Fernanda Torres (Simone), Tony Ramos (Cristiano), Christiane Torloni (Fernanda) e Miguel Falabella (Miro).

Selva de Pedra é uma representante da era da inocência da televisão brasileira, em que o talento de seus profissionais se contrapunha aos parcos recursos técnicos da época e a um público muito diferente do de hoje em dia. Sob a vigilância do governo do Regime Militar, a TV evitava a dura realidade através de uma história extremamente sedutora e envolvente – como bem citou Ismael Fernandes em seu livro “Memória da Telenovela Brasileira”:

“O país vivia a fase do “milagre brasileiro” e com prazer se reunia à frente da televisão para assistir a vitória do bem sobre o mal, como mostrou o último capítulo. Acontecia um milagre na vida de Cristiano e Simone. Eles voltavam a se entender como nos duros tempos, mas não eram mais os mesmos. Agora eles se amavam envolvidos pelo dinheiro ao sabor do sucesso pessoal. Era o milagre brasileiro mesmo!”

Para finalizar, a música Rock and Roll Lullaby, gravada por B. J. Thomas, embalou o romance do casal protagonista e virou um fenômeno nas rádios, tornando-se um dos temas musicais mais marcantes de nossa TV.

Saiba mais sobre Selva de Pedra no site Teledramaturgia.