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Arquivo : Walcyr Carrasco

Grazi Massafera se destaca como a modelo drogada de “Verdades Secretas”
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Nilson Xavier

Grazi Massafera e Flavio Tolezani em "Verdades Secretas" (Foto: Reprodução)

Grazi Massafera e Flavio Tolezani em “Verdades Secretas” (Foto: Reprodução)

Em meio à história central da novela “Verdades Secretas”, tem se destacado a trama paralela que envolve a personagem Larissa, vivida por Grazi Massafera. Impossível ficar alheio ao drama da modelo “que passou da idade”, sem melhores perspectivas profissionais, e se afunda cada vez mais no mundo das drogas. O excelente desempenho da atriz está ancorado na forma como tema é abordado. E Grazi vem bem assessorada, pelo roteiro (equipe de Walcyr Carrasco) e pela direção caprichada (equipe de Mauro Mendonça Filho).

Grazi se preparou bastante para viver a personagem. E em nada lembra os seus trabalhos anteriores na televisão. Está mesmo irreconhecível, desconstruída na decadência gradual de Larissa. Percebe-se na atriz o peso de carregar um tipo difícil, explorado num assunto urgente, de forma realista, sem rodeios, maniqueísmos ou vernizes. As sequências vistas essa semana, rodadas na região do centro de São Paulo conhecida como “Cracolândia”, imprimem um realismo tão assustador quanto um programa jornalístico. Novela não é documentário. Mas pode chegar perto.

Já tivemos outros personagens adictos em nossa Teledramaturgia: Guilherme (Marcello Antony em “Torre de Babel”, 1998), Alexandre (Guilherme Fontes em “A Viagem”, 1994), Begônia (Caroline Abras em “Avenida Brasil”, 2012), etc. Mas só o horário de “Verdades Secretas” (muitas vezes a novela avança para além da meia-noite) permite mostrar essa realidade de forma nua e crua.

Verdades Secretas” toca nas feridas da sociedade de maneira poucas vezes vistas antes em nossas novelas. Na trama de Larissa, Carrasco é pouco sutil, mas de forma absurdamente acertada. Há a sintonia do autor com a produção, a direção, a atriz e os demais atores com quem ela contracena. Uma combinação perfeita. Impossível ficar indiferente.


“Verdades Secretas” se destaca pela direção primorosa
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Nilson Xavier

Camila Queiroz e Rodrigo Lombardi (Foto: Reprodução)

Camila Queiroz e Rodrigo Lombardi (Foto: Reprodução)

Que direção primorosa a da novela “Verdades Secretas”! E uma direção como essa faz toda a diferença, principalmente em se tratando de um texto de Walcyr Carrasco. A seu favor está o próprio formato: uma novela mais enxuta, com poucos núcleos, elenco menor, menos capítulos. Pode-se dar um acabamento mais sofisticado. O horário tardio também favorece as experimentações estéticas e as ousadias de roteiro.

Nos últimos anos, a Globo tem investido na plasticidade que o horário e uma produção mais curta permitem. Vide as minisséries “O Canto da Sereia” e “Amores Roubados“, a novela “O Rebu” e a série “Dupla Identidade”.

A direção de núcleo de “Verdades Secretas” é de Mauro Mendonça Filho, responsável também pelo último trabalho de Walcyr Carrasco, “Amor à Vida”, em que a direção acabou engolida pelo texto raso do autor nos longos oito meses de novela. Agora, Carrasco está mais comedido – um avanço e tanto! – o que resulta numa sintonia maior com a direção, que deita e rola em tomadas bonitas, favorecidas por muitas externas, fotografia estilosa e trilha sonora de bom gosto.

A equipe de Mauro Mendonça Filho em “Verdades Secretas”: Allan Fiterman, André Barros e Mariana Richard, com direção geral de André Felipe Binder e Natália Grimberg.

dupla-identidade_dvdMauro Mendonça Filho foi também foi o responsável pela aclamada série “Dupla Identidade”, de Glória Perez, exibida no ano passado, com Bruno Gagliasso vivendo um serial-killer. A área de licenciamento da Globo lançou a atração em DVD (já nas lojas). Os quatro discos trazem, além dos treze episódios, um material extra com entrevistas e depoimentos e um documentário. Em “Dupla Identidade”, a história de Glória Perez não teria tido o mesmo impacto não fosse o esmero estético da equipe de Mauro Mendonça Filho. O mesmo se percebe na atual “Verdades Secretas“.


Em blocos bem diferentes, “Verdades Secretas” tem estreia equilibrada
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Nilson Xavier

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Grazi Massafera, Drica Moraes, Rodrigo Lombardi e Camila Queiroz (Foto: Divulgação/TV Globo)

Nenhuma pirotecnia para prender (ou enganar) o telespectador. O primeiro capítulo de “Verdades Secretas” – estreia das onze na Globo, nesta segunda, 08/06 – limitou-se a introduzir a história central e apresentar os principais personagens. Mas nada de correrias, ou acontecimentos estarrecedores. Para começar, uma novidade: os créditos não apareceram em uma abertura, mas em cima da primeira sequência, como nos filmes.

Carolina (Drica Moraes, a melhor atuação dessa estreia) descobriu a traição do marido e saiu de casa com a filha aspirante a modelo, Arlete (Camila Queiroz), que já foi apresentada ao novo colégio e à dona da agência de modelos, Fanny (Marieta Severo finalmente livre de Dona Nenê). Assim nasceu Angel, o novo nome de Arlete.

Diretores e autor apostaram no equilíbrio para apresentar a história e para dividir o seguimento da ação. O melhor e o pior do capítulo estavam separados em seus dois blocos. No primeiro, a ação foi toda centrada em Carolina e seu drama ao saber que o marido Rogério (Tarcísio Filho) tinha uma outra família. Inconformada, ela pega a filha e parte para São Paulo.

Drica, excelente, em nada lembra Cora, a vilã pé de chinelo que cheirava cuecas e soltava pum em “Império”. Em cenas bem dirigidas, também foi apresentado o personagem de Rodrigo Lombardi, o rico Alex, e seu envolvimento com modelos – ótima toda a sequência com a modelo Alessandra Ambrosio. Texto e direção (de núcleo de Mauro Mendonça Filho) excelentes.

No segundo bloco, a coisa foi bem diferente. No novo colégio, Arlete sofreu bullying das “mean girls” porque era do interior, porque não se vestia como as demais garotas e porque era da periferia. Também surgiu o gordinho com olhar carinhoso que lhe deu uma palavra amiga.

Corta para a agência de modelos e a figura de um gay afetadíssimo pôs Crô, Téo Pereira e Félix no chinelo: Visky, vivido por Rainer Cadete, de língua afiadíssima a trocar impropérios com uma colega de trabalho, um desafeto. É aí que Walcyr Carrasco se entrega: na total falta de sutileza nos diálogos e nos tipos que cria. Dois blocos que parecem duas novelas diferentes. Eu ficaria no primeiro.


Novela “A Padroeira” recontou a história de Nossa Senhora Aparecida
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Nilson Xavier

Silvana (Laura Cardoso) ao receber a imagem da santa que apareceu no rio (Fonte: Reprodução)

Silvana (Laura Cardoso) ao receber a imagem da santa que apareceu no rio (Fonte: Reprodução)

No ano do 2001, a Globo exibiu, no horário das seis, a novela “A Padroeira”, de Walcyr Carrasco, que tinha dois pontos de partida: o romance histórico “As Minas de Prata”, de José de Alencar (que já havia rendido uma novela, de Ivani Ribeiro, na TV Excelsior, em 1966-1967), e a história da descoberta da imagem de Nossa Senhora Aparecida, a Padroeira do Brasil. Carrasco mesclou as tramas de forma que uma complementasse a outra.

A ideia era repetir a dobradinha Walcyr Carrasco (no roteiro) e Walter Avancini (na direção), responsáveis pelo sucesso de “O Cravo e a Rosa”, que havia terminado apenas três meses antes. Havia uma certa urgência em levar a nova produção ao ar, já que Avancini estava com sua saúde abalada. Mas, infelizmente, o diretor não chegou a ver sua obra concluída: Walter Avancini foi afastado um mês após a estreia de “A Padroeira”, vindo a falecer em 26 de setembro de 2001.

Na trama da novela, Carrasco remontou a história real da descoberta de uma imagem na região do Vale do Rio Paraíba, São Paulo, no ano de 1717, por três pescadores: Filipe Pedroso, João Alves e Domingos Garcia (na novela, interpretados por Isaac Bardavid, Cláudio Gabriel e Carlos Gregório, respectivamente). Não era época de pesca, mas os pescadores foram atrás de peixes para o banquete a ser servido ao Conde de Assumar (Antônio Marques), então governante da Capitania de São Paulo que estava de passagem pela cidade de Guaratinguetá.

apadroeira_logoOs pescadores jogaram a rede e tudo o que conseguiram foram o corpo da imagem de uma santa e, na sequência, a cabeça dessa imagem, que era negra. Os homens atribuíram a imagem à Virgem Maria, rezaram e foram agraciados com uma farta pesca. Levada para a cidadezinha, a cabeça da imagem foi colada ao corpo com cera, montada em um altar, que passou a reunir diariamente vários fieis para orações à Nossa Senhora que apareceu no rio.

Os personagens deste núcleo de “A Padroeira” são reais, reconhecidos pela Igreja Católica. Além dos três pescadores, destacaram-se também a beata Silvana (Laura Cardoso), mãe de João Alves, e Atanásio (Jackson Antunes), filho de Filipe Pedroso, que, juntamente com o vigário de Guaratinguetá, ergueu a primeira capela a Nossa Senhora Aparecida, por volta do ano de 1734.

A história da santa, dentro da novela, se funde com as demais tramas de “A Padroeira” quando cresce o preconceito com relação à adoração pela imagem da santa negra, o que divide os camponeses e fidalgos da região. Este preconceito cai por terra quando acontece o terceiro milagre atribuído à santa: a menina cega Marcelina (Renata Nascimento), filha do fidalgo Dom Lourenço de Sá (Paulo Goulart), começa a enxergar quando é levada para rezar junto à imagem. O capítulo de “A Padroeira” com esta sequência foi ao ar no dia 12 de outubro de 2001.

Inicialmente, “A Padroeira” teve rejeição do público, que estranhou sua estética sombria e pesada. Com a morte de Avancini, o diretor Roberto Talma assumiu a novela e, por conta dos baixos índices de audiência, a reformulou por completo. A direção de arte mudou o tom sóbrio da produção em cenários, figurinos e caracterização dos personagens, e parte do elenco original saiu e novos personagens foram criados para dar mais “vida” à história.

Saiba mais sobre “A Padroeriano site Teledramaturgia.


“Amor à Vida” entra para a história com o beijo gay
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Nilson Xavier

Mateus Solano, como Félix, e Thiago Fragoso, como Niko - Foto Reprodução

Mateus Solano, como Félix, e Thiago Fragoso, como Niko – Foto Reprodução

Lembra da primeira semana de “Amor à Vida”? Esqueça, aquela é outra novela, que ficou lá em maio de 2013. Se nas primeiras semanas, a atração exibida foi de tirar o fôlego, essa impressão foi se dissipando logo depois. “Amor à Vida”, que causou espanto em sua estreia, pela agilidade em narrativa e tomadas, revelou-se mais uma ordinária novela (no sentido de comum, frequente) de Walcyr Carrasco, com todas as qualidades, vícios e problemas característicos do autor. Só não contabilizei torta na cara, um bom sinal!

O texto de Carrasco – que ele exige que seja declamado pelo seu elenco, ipsis litteris o que está no roteiro – ainda é o seu grande problema. Sinta-se subestimado diante de tanto didatismo, repetições exaustivas de palavras e frases, diálogos artificiais e primários, em um tom muitas vezes teatral. Até pode funcionar em uma comédia de época das seis horas, ou em um livro infantil. Mas para o horário nobre, que pede uma trama realista, é preciso maior cuidado. O telespectador não é burro. Não precisa ser lembrado – seis meses depois da novela no ar – que a enfermeira Perséfone é uma enfermeira, que Pérsio é sobrinho de César e que Paulinha foi abandonada em uma caçamba. “Caçamba? Sim, caçamba!

O humor carrasquiano – outra marca indelével do autor – esteve onipresente. Combinado com o seu texto, soou infantil muitas vezes, quando não sem graça. Várias sequências e personagens resvalaram na comédia digna de programas de humor populares e de gosto duvidoso. Outro cuidado que o autor precisa ter. Alguns acham graça, mas não é unanimidade. Neste quesito, tivemos a estreia de Tatá Werneck na Globo. Excelente em personagens divertidas na MTV, a atriz cansou com sua Valdirene, em situações repetitivas, em idas e vindas sem fim. Esses esquetes humorísticos funcionam em um programa semanal. Mas não dentro de uma novela, diariamente, durante oito meses seguidos. Tatá brilhou mesmo em sua rápida participação na casa do BBB – não por acaso, a comediante esteve livre do texto de Carrasco e mostrou todo o seu poder de improvisação.

Alguns personagens, quando não totalmente desnecessários e sem trama (como o quadrilátero Patrícia-Michel-Silvia-Guto) tiveram tantas modificações de personalidade ao longo da trama quanto pedia o roteiro. Ninho (Juliano Cazarré) é um deles, que foi se transformando de acordo com as situações novas que o autor criava. Sim, as pessoas mudam ao longo da vida. Mas onde fica a estrutura psicológica do personagem, sua identidade e a coerência narrativa da trama? Ninho se tornou um personagem mal costurado, uma espécie de Frankenstein da Teledramaturgia brasileira. Na melhor das hipóteses, não passou de um coringa nas mãos do autor, um tipo que ele podia usar a qualquer momento em alguma nova situação criada.

Perséfone foi outra personagem problemática de “Amor à Vida”. O autor perdeu uma excelente oportunidade de abordar de forma consistente o bullying pelo qual passam obesos e gordinhos. A personagem de Fabiana Karla sofreu toda espécie de humilhação gratuita, desnecessária e sem graça para, quando finalmente se casar com um príncipe encantado (seu sonho), voltar à estaca zero. Isso sem falar no malfadado “bigodinho” (a depilação íntima) da personagem, uma piada que descambou para o mau gosto. Assim como Tatá Werneck, Fabiana Karla foi outro talento desperdiçado com uma personagem que só cansou.

Além do bullying, pipocou por “Amor à Vida” toda sorte de temas interessantes que poderiam ter gerado debates e campanhas construtivas, mas que acabaram soando avulsos e desconexos com a trama da novela, quando não mal aproveitados. O autor abordou barriga solidária, adoção, racismo, amor na terceira idade, incentivo à leitura, virgindade, bigamia, assédio moral, a questão palestinos x judeus, além de toda uma gama de doenças (lúpus, câncer, Aids, autismo, alcoolismo, etc). Se a intenção era informar, didaticamente, até conseguiu a contento. Mas a maioria desses temas foi abordada de forma superficial, en passant, sem se aprofundar ou concluir – diferente de outras novelas, em que o autor toma um ou dois temas, vai a fundo e consegue trabalhar uma campanha de forma eficiente.

O que aconteceu com a enfermeira que descobriu ter Aids? – além de uma das sequências mais bizarras da novela: quando os vários parceiros dela recebem os seus resultados de exame de HIV. As indicações de livros, longe de alguma campanha em prol da leitura, soaram como o mais puro merchan – ficou tão gratuito no ar que virou piada na Internet. Destaco ainda o controverso autismo da personagem Linda (a ótima Bruna Linzmeyer), tratado com toda liberdade (criativa e poética). Valeu pela abordagem inédita do tema, que despertou o interesse do público. Ainda mais através de uma personagem carismática, tão bem defendida por Bruna Linzmeyer. E concordo com o desfecho que o autor deu a Linda: se a família (responsável por ela) é a favor do casamento, qual o problema?

Foto Divulgação/TV Globo

Foto Divulgação/TV Globo

Mas nem tudo foram espinhos em “Amor à Vida”. Vamos dar os louros a Walcyr Carrasco, que ele merece. O cara é mestre em prender o público com suas tramas rocambolescas e cheias de reviravoltas – em minha opinião, sua maior qualidade como novelista e o seu segredo de sucesso. Com ótimos ganchos, alguns capítulos-chave e sequências de impacto, o novelista conseguiu manter o interesse de seu público cativo por oito meses seguidos. E sem barriga (aquele momento da trama em que nada acontece), mesmo tendo que espichar a novela. Carrasco alcançou, inclusive, o feito de levantar o Ibope do horário das nove da Globo. “Amor à Vida” não foi nenhum fenômeno de audiência, mas tampouco fez feio: fecha com uma média final de 36 pontos no Ibope da Grande São Paulo – mais que a antecessora, “Salve Jorge” (que fechou em 34) e menos que “Avenida Brasil” e “Fina Estampa” (39 as duas).

Contribuindo para esse sucesso, a direção eficiente de Mauro Mendonça Filho e sua equipe e o talento de alguns excelentes atores, como Elizabeth Savalla (a melhor atriz de 2013, irrepreensível como a ex-chacrete Márcia), Vanessa Giácomo (como a vilã Aline) e Mateus Solano (Félix). Muito da repercussão de “Amor à Vida” se deve à interpretação de Solano, de vilão “bicha má” ao regenerado mais amado do Brasil. Félix não foi o primeiro vilão gay de nossas novelas: esse posto pertence a Mário Liberato – Cecil Thiré em “Roda de Fogo” (1986-1987). Mas, desde a primeira aparição da “bicha má”, os elogios vieram de toda parte. E merecidos. Beirando a caricatura, com língua ferina e frases de efeito, Félix foi construído para ser daqueles personagens carismáticos que arrebatam o povo. Mesmo que a mudança em sua personalidade tenha sido questionável. Ao final, só faltou Félix ser canonizado pelo Papa, Mas, nenhum psicopata (capaz de atrocidades, como jogar um bebê em uma caçamba e planejar assassinatos e sequestros) muda da água para o vinho sem manter algum traço de suas características doentias.

Entretanto, a redenção de Félix é válida e tem um lado positivo dentro da trama da novela. Nunca a homossexualidade foi discutida de forma tão abrangente e clara dentro de um folhetim. Este, talvez, tenha sido o maior feito e contribuição de “Amor à Vida”. Se Carrasco tratou vários temas de interesse social de forma rasa (citados acima), ao abordar a homossexualidade, através de Félix, o autor acertou em cheio e conseguiu levantar uma discussão importante. A novela que melhor havia abordado o tema foi “Insensato Coração” (2011). Carrasco, ao escancarar o preconceito de um pai homofóbico (César de Antônio Fagundes) contra seu filho afeminado, tocou na ferida por um viés diferente. Foi didático, mas não menos eficiente. O vilão psicopata, afinal, tinha uma razão para ser mau – ainda que esta razão não justificasse suas vilanias. O público, tomado de compaixão, entendeu que ele merecia o perdão.

A regeneração de Félix trouxe consigo outro fato interessante em “Amor à Vida”. Lá pela metade da novela, os conflitos do casal romântico central – Paloma e Bruno (Paolla Oliveira e Malvino Salvador), se não estavam resolvidos ou esvaziados, dependiam unicamente de Félix. Foi quando vimos a “bicha má” tomar o posto de protagonista de Paloma e Bruno, que, a essa altura, já era um casal insosso e sem torcida do público. Não foi a primeira vez que um coadjuvante roubou a posição do protagonista: em “Viver a Vida” (2009-2010, de Manoel Carlos), Luciana, a personagem tetraplégica de Alinne Moraes, suplantou a Helena vivida por Taís Araújo. A bem da verdade, Félix era o protagonista de “Amor à Vida” desde o início: um vilão que regenerou-se.

E, com o protagonismo de Félix, um fato inédito: pela primeira vez, o público passou a torcer por um casal protagonista gay. Carrasco teceu sua teia de forma tão engenhosa que fez Félix, que já era querido, se envolver com o gay bonzinho da história, Niko (Thiago Fragoso), arrebatando o público. Foi o golpe de misericórdia. Niko, de bom coração, tinha o sonho de ser pai, sofreu nas mãos de Amarylis e Eron (Danielle Winits e Marcelo Antony), e era um tanto quanto ingênuo e puro. O público aprovou a relação, Félix estava em boas mãos. A química dos atores também ajudou, em bonitas cenas de envolvimento emocional, que dispensaram maiores contatos físicos. Até que, no último capítulo, a Globo decidiu pelo tão esperado e cobrado beijo gay em sua novela do horário nobre. Outras emissoras, já apresentaram, faltava apenas a Globo se render. E, diante do sucesso de Félix e Niko, a trama de Walcyr Carrasco – importante pela sua repercussão e penetração nos lares brasileiros – entrou para a história de nossa televisão com uma belíssima cena final, que teve beijo gay e a reconciliação do pai homofóbico com seu filho afeminado.


Veja como “Amor à Vida” e “Joia Rara” têm tramas muito parecidas
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Nilson Xavier

Antônio Fagundes (César Khoury) e Mateus Solano (Félix) em "Amor à Vida" (Foto: Divulgação/TV Globo)

Antônio Fagundes (César Khoury) e Mateus Solano (Félix) em “Amor à Vida” (Foto: Divulgação/TV Globo)

O seguidor Henrique Guzella me chamou a atenção no Twitter para uma curiosidade envolvendo os folhetins da Globo “Joia Rara”, das seis horas, e “Amor à Vida”, das nove. Já percebeu como as tramas centrais dessas novelas são parecidas?

Ernest Hauser (José de Abreu em “Joia Rara”), assim como César Khoury (Antônio Fagundes em “Amor à Vida”), são empresários poderosos, controladores e arrogantes. Ernest é dono de uma joalheria – daí o título da novela, “Joia Rara”. E César, dono de um hospital – daí o título “Amor à Vida”.

Sim, eu sei que não é exclusivamente pela joalheria que a novela se chama “Joia Rara“, mas por causa da menina que é a reencarnação de um mestre budista. Mas de “Joia Rara” para uma joalheria, a relação é óbvia. Assim como “Amor à Vida” – que é um título bastante abrangente – para o hospital da história.

Manfred (Carmo Dalla Vecchia), filho bastardo de Ernest, e Félix (Mateus Solano), filho de César, são filhos rejeitados pelos seus pais, mas com uma forte ligação com suas mães – Manfred com Gertrude (Ana Lúcia Torre) e Félix com Pilar (Susana Vieira). Os filhos lutam para serem amados e reconhecidos por seus respectivos pais ausentes.

Amor à Vida” está bem mais adiantada que “Joia Rara”, então vamos desconsiderar que Félix deixou de ser vilão e regenerou-se, e vamos nos ater ao início de Amor à Vida e sua trama original.

Tanto Manfred quanto Félix são vilões obcecados pelo poder, capazes de tudo para se apoderarem do negócio de suas famílias. Ambos trabalhavam nas empresas e superfaturavam a compra de materiais através de contratos fraudulentos. Ou seja, Manfred e Félix roubavam dentro das empresas. Manfred sempre quis a presidência da joalheria, e conseguiu, destituindo seu pai. Ernest, do cargo. Igualzinho a Félix, que também chegou a tomar o hospital das mãos de César.

José de Abreu (Ernest Hauser) e Carmo Dalla Vecchia (Manfred) em "Joia Rara" (Foto: Divulgação/TV Globo)

José de Abreu (Ernest Hauser) e Carmo Dalla Vecchia (Manfred) em “Joia Rara” (Foto: Divulgação/TV Globo)

Ernest Hauser e César Khoury têm seus filhos prediletos: Franz Hauser (Bruno Gagliasso) e Paloma Khoury (Paolla Oliveira), o que enchia de inveja seus respectivos irmãos malvados, Manfred e Félix, que fizeram o possível para se apossar das heranças deles. Franz e Paloma se casaram com pessoas de classe social inferior, a contragosto de seus pais: Franz casou-se com Amélia (Bianca Bin) e Paloma casou-se com Bruno (Malvino Salvador). Ambos os casais tiveram uma filha: Pérola (Mel Maia em “Joia Rara”) e Paulinha (Klara Castanho em “Amor à Vida”) – ainda que Paulinha não seja filha biológica de Bruno. Parentes de Bruno (mãe e irmão) trabalham no hospital dos Khoury, enquanto o irmão de Amélia trabalhava na joalheria da família Hauser.

Ernest e César escondem mistérios nebulosos que causaram tragédias no passado. Por causa desses acontecimentos, as belas Silvia (Nathalia Dill em “Joia Rara”) e Aline (Vanessa Giácomo em “Amor à Vida”) se infiltraram nas famílias Hauser e Khoury, atrás da máscara de boas moças, com o objetivo de vingar seus algozes. Silvia quer vingança pela morte de seu pai, cujo responsável foi Ernest – ela chegou a casar-se com Franz para entrar para a família Hauser. E Aline quer vingar a morte da mãe e responsabiliza César – por isso o seduziu e casou-se com ele.

Vale lembrar que a dupla Thelma Guedes e Duca Rachid (as autoras de “Joia Rara”) e Walcyr Carrasco (autor de “Amor à Vida“), já trabalharam juntos. Elas foram colaboradoras dele em algumas de suas novelas (“O Cravo e a Rosa”, “A Padroeira”, “Chocolate com Pímenta”, “Alma Gêmea”). E ele supervisionou a primeira novela solo da dupla, “O Profeta” (também escrita com Júlio Fischer).

COMENTE: Você consegue ver mais semelhanças entre “Amor à Vida” e “Joia Rara”?


Félix é o novo Crô
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Nilson Xavier

Crô (Marcelo Serrado) e Félix (Mateus Solano) (Foto: Divulgação/TV Globo)

Crô (Marcelo Serrado) e Félix (Mateus Solano) (Foto: Divulgação/TV Globo)

A novela “Fina Estampa” (de Aguinaldo Silva, exibida entre 2011 e 2012) tinha uma protagonista (Griselda/Lília Cabral) e uma antagonista (Tereza Cristina/Christiane Torloni) maniqueístas e bem populares. Mas, talvez, o grande responsável pelo sucesso deste folhetim tenha sido um personagem coadjuvante: o mordomo Crodoaldo Valério, o Crô, vivido magistralmente por Marcelo Serrado. Crô era um homossexual afetado, espirituoso, com um linguajar e um modo de vestir muito peculiares. E bem caricato. A típica caricatura do gay de programas humorísticos populares. Crô caiu nas graças do público, que o adorava, por ele ser carismático, “do bem”, inteligente, queridinho e engraçado. Era um gay fofo. O sucesso do personagem foi tanto que lhe rendeu um filme, atualmente em cartaz.

Quando estreou, em maio, “Amor à Vida” causou espanto, principalmente pela direção inspirada, aliada a uma fotografia escura, em cenas clipadas e nervosas. Mas o que chamou a atenção mesmo foi o vilão Félix, o personagem de Mateus Solano. Cruel, vil, invejoso, ele não pensou duas vezes em jogar a sobrinha recém-nascida em uma caçamba de lixo, pois aquela criança poderia ser um empecilho para sua futura escalada de poder dentro do hospital da família. Tão mau quanto Carminha (Adriana Esteves), que abandonou a pequena Rita (Mel Maia) no lixão de “Avenida Brasil”. Tanto que Félix chegou a ser comparado a Carminha. E ganhou um apelido: Bicha Má.

A Bicha Má de “Amor à Vida” em nada lembrava o Crô, a não ser pela língua ferina. A novela foi avançando e, lá pela metade, Félix já havia tomado o lugar dos protagonistas da trama no interesse do público. Paloma e Bruno têm uma relação insossa. Os atores – Paolla Oliveira e Malvino Salvador – têm pouca química em cena, não empolgam. Nem dá para torcer por eles. Félix continuou sua escalada de maldades: entre outras atrocidades, planejou o sequestro da sobrinha Paulinha (Klara Castanho), com a ajuda de Ninho, o pai biológico e desmiolado da menina.

Após Félix ter saído do armário diante da família, notou-se uma mudança brusca no perfil do personagem. A Bicha Má trouxe à tona o drama do filho desprezado pelo pai homofóbico (César/Antônio Fagundes). Se a intenção do autor, Walcyr Carrasco, era fazer o público se apiedar de Félix, conseguiu a contento. Afinal, suas maldades eram justificáveis? Félix passou então a travar uma ferrenha luta contra o pai pelo poder dentro do Hospital San Magno. Foi quando se deflagrou o segundo golpe duro para o personagem: todos ficaram sabendo que ele havia jogado Paulinha bebê na caçamba de lixo.

Escorraçado da família Khoury, odiado por todo mundo, renegado pela própria mãe (Pilar/Susana Vieira), Félix comeu o pão que ele mesmo amassou. Foi quando o personagem encontrou o apoio de Márcia (Elizabeth Savalla), que o levou consigo para vender “hot-dogs” na rua 25 de Março. De repente, diante de tanto sofrimento, o personagem parece ter caído em si, foi mostrando seu lado afetuoso. E quanto mais bonzinho se mostrava, mais engraçadinho e mais caricato. Hoje, Félix usa um shortinho vermelho justíssimo, uma flor no cabelo e desmunheca para vender os “hot-dogs” de Márcia.

Nos últimos capítulos, o filho de criação de Félix, Jonathan (Thales Cabral), tentou abrir os olhos de Pilar para a mudança e regeneração do pai. Pegando pesado no melodrama familiar, o autor tenta convencer o telespectador de que Félix mudou, tornou-se uma alma boa, e que merece perdão. Para aumentar ainda mais o amor do público pela “bicha divertida” da novela das nove, Carrasco cria um envolvimento amoroso entre a ex-Bicha Má e Niko (Thiago Fragoso), até então, o único gay bonzinho da novela.

O mais curioso é perceber que Félix, que um dia foi capaz de jogar um bebê no lixo, está se apaixonando por Niko, que, durante toda a trama, acalentou o desejo de ser pai. Sim, eu também acho tudo muito bonito e cor-de-rosa. Não fosse o fato de Félix não ter pago pelas suas maldades – mesmo tendo se regenerado aos olhos do público.

O que tem Crô a ver com tudo isso? Nada. A não ser o fato de Walcyr Carrasco ter decidido fazer com que Félix trilhasse o mesmo caminho que o personagem de Aguinaldo Silva: o da figura gay caricata, carismática e engraçada, querida por todos. Aguardem por “Félix, o Filme”.

Nisso tudo, vejo um lado bem positivo: diferente de Aguinaldo, que não ousou revelar a identidade do amante de Crô, Carrasco expõe a vida amorosa de Félix, criando assim um casal gay caricato e fofo. O mais interessante de tudo: o público está torcendo por Félix e Niko enquanto não está nem aí para Paloma e Bruno, o casal hétero normativo protagonista de “Amor à Vida“. Isso sim é inédito em novelas.


Para garantir audiência, “Amor à Vida” usa barracos e humor popularesco
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Nilson Xavier

Mateus Solano em "Amor à Vida" (Foto: reprodução)

Félix no hotel barato – Mateus Solano em “Amor à Vida” (Foto: reprodução)

Gancho”, no jargão novelístico, é aquele momento clímax ao final do capítulo que aguça a curiosidade do telespectador e o leva a continuar a acompanhar aquela história, no capítulo seguinte. Reza a cartilha que, para sobreviver ao longo de sete, oito meses, uma novela precisa de bons ganchos diários. É assim desde os folhetins do século XIX.

O capítulo deste sábado (23/11) de “Amor à Vida” revela muito sobre a novela. Começou com um gancho, digamos no mínimo, fraco: Félix (Mateus Solano) recebe a conta do restaurante chique onde jantou e conclui que não tem como pagá-la. O que isso tem a ver com a trama central da novela? Absolutamente nada. A não ser que tal situação iria render mais uma performance cômica do personagem.

E assim foi: Félix ligou para a mãe, que mandou um motorista com o dinheiro, que, por sua vez, levou Félix para dormir em um hotel barato e sujo – com direito a um escândalo por causa de uma barata no quarto (irc!). Engraçado? Até é. Mateus Solano deita e rola no personagem. E os esquetes escritos por Walcyr Carrasco arrancam um riso aqui, outro ali, graças ao ótimo desempenho do ator.

E assim foi o resto do capítulo, com situações envolvendo Valdirene (Tatá Werneck) e sua trupe, Amarylis (Danielle Winits) “e seus dois maridos”, e Pilar (Susana Vieira), divagando sobre um possível romance com um rapaz mais jovem. Relevante para a trama central da novela, apenas a ameaça de Valentim (Marcelo Schmidt) sobre Félix, o que levou ele, ao final, a procurar Márcia (Elizabeth Savalla) – este sim, um bom gancho.

Amor à Vida” tem uma história central até interessante, calcada na luta pelo poder no Hospital San Magno e em segredos obscuros do passado da família Khoury, como a vingança pessoal de Aline (Vanessa Giácomo) e o laço que une Márcia a Félix. Enquanto cozinha sua novela até o final de janeiro, Carrasco vai “enchendo linguiça” com lágrimas de Niko (Thiago Fragoso) e pastelão digno de um humorístico de qualidade duvidosa.

Barriga”, no jargão novelístico, é aquele momento da novela em que o autor – com prazo longo para cumprir e sem muitas histórias ainda para render – vai enrolando a trama.

O capítulo de sábado foi um exemplo de como “Amor à Vida” tem um alicerce frágil. É uma novela baseada em alguns eventos “bombásticos” (como os barracos da família Khoury), soltos em alguns capítulos durante a semana com o intuito de despertar a audiência. Foi ótimo o capítulo em que Paloma (Paolla Oliveira) descobriu que Félix jogou sua filha recém-nascida numa caçamba. Na quarta-feira (20/11), a surra de cinto que Félix levou do pai mereceu uma chamada especial, mas não passou de uma sequência constrangedora e sem sentido. E, assim, Carrasco vai causando algum alarde com seus barracos – que só não são dignos de “Casos de Família” (programa popularesco do SBT) porque tem um verniz de novela global.

Fora isso, o autor insiste em um humor popularesco e pouco condizente com a proposta realista da novela e com seu horário de exibição. Pouco condizente inclusive com a ótima direção. Sorte de “Amor à Vida” ter uma ótima direção (geral de Mauro Mendonça Filho). Ainda: pelo fato do capítulo de sábado anteceder o “Zorra Total”, fica a impressão de que o batidíssimo humorístico é uma extensão da novela – como já anuncia a chamada do programa nos intervalos de “Amor à Vida”: “Sábado à noite a novela continua, e vai ser uma Zorra Total!”.

E dizer que Nina foi enterrada viva em um capítulo de sábado!…

PS: Uma sequência deste capítulo merece elogio: Linda ganhou uma bicicleta. Bruna Linzmeyer está excelente no papel. A direção realizou uma cena curtinha, mas emocionante.


Walcyr Carrasco em alta: “Caras e Bocas” volta no “Vale a Pena Ver de Novo”
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Nilson Xavier

Denis (Marcos Pasquim) e o chipanzé Xico em "Caras e Bocas" (Foto: Divulgação/TV Globo)

Denis (Marcos Pasquim) e o chipanzé Xico em “Caras e Bocas” (Foto: Divulgação/TV Globo)

Walcyr Carrasco anda mesmo em alta na Globo. No ar com “Amor à Vida”, a atual trama das nove, o autor também é visto à tarde, no “Vale a Pena Ver de Novo”, com o re-repeteco de “O Cravo e a Rosa” – produção de 2000-2001, já reprisada em 2003.

E Carrasco continuará às tardes – se a Globo não mudar em cima da hora, como já ocorreu. Em 2014, ele estará de volta em “Caras e Bocas”, originalmente exibida em 2009 – num caso raro no “Vale a Pena Ver de Novo”: novelas seguidas de um mesmo autor – ainda mais se considerarmos que “O Profeta”, que antecedeu “O Cravo e a Rosa”, teve supervisão de Carrasco.

Veja as últimas novelas do “Vale a Pena” (desde 2010) com as médias finais no Ibope na Grande São Paulo (cada ponto equivale a 62 mil domicílios):

Alma Gêmea” (2009-2010) >> 20 pontos >> de Walcyr Carrasco
Sinhá Moça” (2010) >> 15
Sete Pecados” (2010-2011) >> 13 >> de Walcyr Carrasco
O Clone” (2011) >> 17
Mulheres de Areia” (2011-2012) >> 16
Chocolate com Pimenta” (2012) >> 15 >> de Walcyr Carrasco
Da Cor do Pecado” (2012-2013) >> 13,5
O Profeta” (2013) >> 12 >> supervisão de Walcyr Carrasco
O Cravo e a Rosa” (2013-2014) >> 13 (até o capítulo 70) >> de Walcyr Carrasco

A Globo está mesmo preocupada com a audiência de suas tardes: mudou o logotipo do “Vale a Pena” e da “Sessão da Tarde“, vai revitalizar o “Vídeo Show” e até cogitou extinguir a “Sessão da Tarde“. Para a faixa de novelas vespertinas, optou por um sucesso popular: “Caras e Bocas” é considerada um dos maiores êxitos do horário das sete da década passada – chegou a ultrapassar a audiência da novela das nove da época, “Viver a Vida” (de Manoel Carlos). Fechou com uma média final de 31 pontos no Ibope, ainda não superada pelas suas sucessoras até hoje. Veja:

Sete Pecados” (2007-2008) >> 30 >> de Walcyr Carrasco
Três Irmãs” (2008-2009) >> 24
Caras e Bocas” (2009) >> 31 >> de Walcyr Carrasco
Tempos Modernos” (2010) >> 24
Ti-ti-ti” (2010-2011) >> 30
Morde e Assopra” (2011) >> 30 >> de Walcyr Carrasco
Aquele Beijo” (2011-2012) >> 25
Cheias de Charme” (2012) >> 30
Guerra dos Sexos” (2012-2013) >> 23
Sangue Bom” (2013) >> 25

Com forte apelo popular, a novela caiu – inclusive – no gosto do público infantil, que se encantou com as peripécias do chipanzé Xico, que pintava as telas que Denis (Marcos Pasquim) expunha como se fossem suas. Também agradou a personagem de Isabelle Drummond, Bianca, que formou uma carismática dupla adolescente com Felipe (Miguel Rômulo). O bordão de Bianca – “É a treva!” – fez sucesso.

Foi com “Caras e Bocas” que Marco Pigossi passou a ser reconhecido, por conta de seu personagem Cássio, um gay pra lá de afetado, por quem Léa (Maria Zilda Bethlem) se apaixonava. “Tô rosa chiclete!” foi uma das frases do personagem que ganharam as ruas. A repercussão foi tanta que Pigossi passou a receber papeis de maior destaque em seus trabalhos seguintes. Também fez sucesso o casal de nordestinos vivido por Suzana Pires e Fábio Lago – “Não me absorva Fabiano!”, era o bordão de Ivonete (Suzana Pires), se referindo ao marido.

A novela teve também uma atriz deficiente visual com um papel fixo do início ao fim: Danieli Haloten, que viveu a cega Anita. E a atriz Rachel Ripani teve sua cabeça raspada em cena, por conta do tratamento de quimioterapia de sua personagem, Tatiana – muito antes de Marina Ruy Barbosa recusar-se a perder os cabelos, em “Amor à Vida”.

Saiba mais sobre “Caras e Bocasno site Teledramaturgia.

Fonte dos dados do Ibope: blog “O Cabide Fala“.


Prolongamento de “Amor À Vida” faz o autor praticamente criar nova novela
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Nilson Xavier

Felix (Mateus Solano) dá as cartas no hospital na nova fase de “Amor À Vida” (Foto: Divulgação/ TV Globo)

Com ordens para espichar “Amor À Vida” – que ficará no ar até o final de janeiro -, a novela entra em uma nova fase em que o autor, Walcyr Carrasco, praticamente levantou uma outra novela – pelo menos nas tramas paralelas.

Infelizmente não foi adiante a ideia de transformar Valdirene (Tatá Werneck) em uma cantora gospel – o que seria um entrecho pra lá de interessante. A personagem começou uma nova fase com o nascimento de sua filha Mary Jane e o casamento com o ricaço Ignácio (Carlos Machado). Tatá e Beth Savalla continuam firmes, rendendo bons momentos.

Perséfone (Fabiana Karla), até então um núcleo “Zorra Total” da novela, ganhou novos contornos com o seu casamento com Daniel (Rodrigo Andrade). O autor abandonou os esquetes sem graça em que a personagem tentava perder a virgindade e a abordagem aos gordinhos agora será do ponto de vista do casamento – e não mais das dificuldades dela para arrumar um namorado, em meio a bullying e humilhações.

Gina (Carolina Kasting), a boa filha-empregada de vida nula com um dúbio sotaque italianado – quem diria – ganhou uma história só para ela, com a chegada de um novo personagem: Herbert (José Wilker). Assim, o autor criou uma nova trama paralela. Carrasco já descartou a hipótese de incesto nesta história. Vamos aguardar por quais conflitos passarão o novo casal.

O quadrilátero Guto-Patrícia-Michel-Silvia (Márcio Garcia, Maria Casadevall, Caio Castro e Carol Castro) continua lá, sem história consistente alguma, a não ser suas desventuras sexuais. Lamenta-se que o autor tenha perdido a chance de limá-los da novela nesta nova fase.

Amarylis (Daniele Winits) segue com uma das personagens mais odiosas de “Amor À Vida” – não tirando a responsabilidade de Eron (Marcello Antony), tão culpado quanto ela na trama da barriga solidária que rendeu a traição dele. E parece que Carrasco tem mesmo algum problema com cabelos. Como se não bastasse a polêmica inútil do raspa-não-raspa a cabeça de Marina Ruy Barbosa, agora o autor entrou em outro quiproquó capilar, desta vez por conta da cabeleira do órfão negro Jaiminho (Kayky Gonzaga). Reclamaram porque o autor pediu uma mudança no look do menino quando ele fosse adotado pelos pais brancos e ricos, o que incluía cortar seu cabelão black-power.

Até parece mesmo vingancinha do autor contra Marina Ruy Barbosa, que não aceitou raspar a cabeça em cena. A personagem Nicole mal aparece na novela mais e sua trama anda bem morna. O foco agora é a paraplegia de Leila (Fernanda Machado). E uma substituta para Nicole já entrou na novela: Natasha (Sophia Abrahão), uma suposta irmã da fantasminha.

Ao som de “I Have the Love”, interpretada pelo Simply Red, floresce o amor de terceira idade entre Lutero e Bernarda (Ary Fontoura e Nathalia Timberg), uma trama bonita, que vale a pena ser abordada. E recorrente na obra do autor: o próprio Ary Fontoura formou um par romântico de terceira idade com Nicette Bruno, numa abordagem semelhante, em outra trama de Carrasco: “Sete Pecados” (2007-2008).

A autista Linda finalmente – e felizmente – começa a ter sua história desenvolvida na novela. Bruna Linzmeyer está ótima na personagem, bem como todo seu núcleo, inclusive a mãe chata e repressora, interpretada por Sandra Coverloni. De quebra, o autor deu continuidade à participação de Rainer Cadete, o intérprete do advogado Rafael, que havia perdido função na novela, mas agora está apaixonado por Linda.

Como já comentei aqui no blog anteriormente, Ninho (Juliano Cazarré) teve sua personalidade alterada pela terceira vez por conta da necessidade de roteiro. O personagem começou como um tipo hippie-adicto-sedutor, que enlouqueceu de paixão a patricinha Paloma (Paolla Oliveira). Para raptar a filha Paulinha (Klara Castanho), Ninho se transformou num bobalhão, uma releitura de seu Adauto de “Avenida Brasil”. Na fase atual, para justificar novos entrechos, Ninho voltou de Nova York como um artista de certa repercussão. Agora Ninho é yuppie. Será que até o final de janeiro ele muda de novo?

Os temas médicos continuam pipocando na novela, ainda que superficialmente. Pelo menos para justificar o cenário do Hospital San Magno. A doente da vez é Vívian (Ângela Dip), dona do bar frequentado pelos personagens da novela. Alcoólatra, ela foi diagnosticada com cirrose. Ganha Ângela Dip, ótima atriz cujo talento vinha sendo desperdiçado.

O romance proibido entre os médicos Pérsio e Rebeca (Mouhamed Harfouch e Paula Braun) ganha ares de “Romeu e Julieta”, já que suas famílias não aceitariam o envolvimento entre o muçulmano e a judia. Mas é uma trama que só se desenrola agora, consequência de uma chantagem do vilão Félix (Mateus Solano).

A Dr.ª Glauce (Leona Cavalli) aparece quando o autor lembra da personagem para alguma armação do mal. Será que ele lembra ainda do assassinato da enfermeira Elenice (Nathalia Rodrigues)?

Emílio Orciollo Netto segue fazendo figuração de luxo na novela. Mal aparece. E quando aparece, mal fala.

Enquanto isso segue a trama central de “Amor À Vida”, envolvendo a família Khoury e a ambição desmedida de Félix. O vilão mudou seu alvo. Primeiro queria afastar a irmã, que ameaçava seu poder no Hospital San Magno. Para tanto, cometeu atrocidades, como jogar a sobrinha recém-nascida em uma caçamba de lixo, e, mais tarde, planejar o sequestro dela. Hoje, Félix quer se vingar do pai César (Antônio Fagundes) e estancar a escalada de Aline (Vanessa Giácomo).

Tem muito pano pra manga a render até o final de janeiro. Disso não podemos reclamar de Walcyr Carrasco: ele sabe costurar tramas como ninguém, usando várias histórias paralelas. Diferente de “Salve Jorge”, que – com exceção da trama principal – teve uma gama enorme de subtramas desperdiçadas e mal desenvolvidas, do início ao fim.