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Arquivo : Walcyr Carrasco

Divertido, núcleo caipira de “Êta Mundo Bom!” é o grande destaque da novela
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Nilson Xavier

A família caipira da novela (Foto: Divulgação/TV Globo)

A família caipira da novela (Foto: Divulgação/TV Globo)

A boa repercussão de “Êta Mundo Bom!“, nessas suas três primeiras semanas de exibição, tem provado que o público estava ansioso por uma história interiorana e folhetinesca. Walcyr Carrasco reúne nesta novela tudo o que marcou suas tramas do horário das seis na década passada. Mais especificamente, falo de “O Cravo e a Rosa” (2000-2001), “Chocolate com Pimenta” (2003-2004) e “Alma Gêmea” (2005-2006).

No elenco, alguns nomes já se destacam. Poucos ainda, a bem da verdade. O tom teatral do texto – que cabe na proposta da novela – exige um pouco mais do ator. Entre os que se sobressaem, Sérgio Guizé foi a escolha acertada para o protagonista. Candinho é tão original que o personagem parece feito para o ator. Eliane Giardini e Marco Nanini, experientes como são, também aproveitam a força de seus personagens e conseguem ir além do que pede o texto do autor.

Mas este post é para elogiar o que já considero, de longe, o melhor núcleo de “Êta Mundo Bom!” – do qual nem Guizé, Giardini ou Nanini fazem parte. Quem conhece as novelas de Carrasco, sabe de sua predileção por caipiras, com fazenda, bichinhos de estimação, chiqueiro e humor pastelão. Teve nas três novelas que citei acima mais “Morde e Assopra” (2011), trama contemporânea do horário das sete. O núcleo caipira de “Êta Mundo Bom!” é, até o momento, o que mais tem divertido o telespectador. Nele, Carrasco deita e rola em situações que dispensam sutileza. Sutileza para quê, quando se arremessa o povo no chiqueiro?

etamundobom_cunegundesElizabeth Savalla – figurinha fácil nas novelas do autor – exercita diariamente seu talento e garganta com o texto afiado de Carrasco e o sotaque carregado de Cunegundes, sua personagem. A atriz nos brinda com sua força interpretativa em situações hilárias que envolvem os demais membros dessa família Buscapé. Também com personagens à altura de seus talentos Ary Fontoura – Quinzinho, o marido submisso – e Rosi Campos – Eponina, a cunhada solitária e encalhada. Completam o quadro familiar, os filhos Quincas e Mafalda, vividos pelos jovens Miguel Rômulo e Camila Queiroz., e as empregadas Manoela e Dita, interpretadas por Dhu Moraes e Jennifer Nascimento.

Camila Queiroz já havia sinalizado seu potencial com a Angel de “Verdades Secretas“. E agetamundobom_mafaldaora surpreende numa personagem completamente diferente e que lhe exige bastante. É uma grata surpresa confirmar o que já se suspeitava. A moça está ótima como a inocente caipirinha, ora romântica e ingênua, ora engraçada e com boas tiradas. Também tem Anderson Di Rizzi, como o funcionário Zé dos Porcos, e Flávio Migliaccio, como o vizinho Josias. É um elenco tão afinado e coeso que chega a destoar dos demais núcleos da novela, em que as histórias ainda engatinham e a maioria dos personagens não se mostrou totalmente ou não disse a que veio.

Ainda que o clã caipira de “Êta Mundo Bom!” tenha tido importância para a trama central da novela – foi na família que o protagonista Candinho se criou e ainda há a filha Filó (Débora Nascimento) que partiu para a cidade grande -, a história se distancia da trama principal. O núcleo dos caipiras é inspirado no conto “O Comprador de Fazendas“, de Monteiro Lobato: uma família quer se livrar da fazenda decadente e faz um acordo com seus devedores para ‘maquiá-la’ a fim de vendê-la com mais facilidade, até que um suposto comprador – na verdade um malandro – se aproveita da situação para viver bem como hóspede, enquanto se decide.

A família Buscapé já fez sucesso como série na TV americana e até em desenho animado. É sempre um apelo cômico irresistível e que rende muito. Na novela de Walcyr Carrasco, texto, direção e elenco aproveitam – acertadamente – ao máximo esse potencial. Eta núcleo bom!

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“Êta Mundo Bom!” estreia com trilha caipira e filtro de Instagram
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Nilson Xavier

Sérgio Guizé como Candinho (Foto: Reprodução)

Sérgio Guizé como Candinho (Foto: Reprodução)

Com “Êta Mundo Bom!” (a novela das seis, estreia dessa segunda, 18/01) Walcyr Carrasco está de volta ao horário que o consagrou, com títulos como “O Cravo e a Rosa“, “Chocolate com Pimenta” e “Alma Gêmea“. Sabe o que essas novelas todas têm em comum e que, certamente, não faltará em “Êta Mundo Bom!“? Isso mesmo, caipiras, bichos de fazenda, gente arremessada no chiqueiro, torta na cara e Elizabeth Savala. Ops, Savala não atuou em “O Cravo e a Rosa” – mas esteve na maioria das novelas de Carrasco depois desta.

E é justamente a personagem de Elizabeth Savala – “Cunegundes” – a que dá o tom da novela de Carrasco: a atriz gritou e esperneou com um sotaque caipira puxadíssimo – no sentido de carregado mesmo. “Êta Mundo Bom!” promete toda a caricatura do caipira que fez o sucesso de Mazzaropi nos cinemas em meados do século passado. A trama é justamente baseada em um filme de Mazzaropi, “Candinho“, de 1954, que, por sua vez, tem referências no conto “Cândido ou o Otimismo“, de 1759, do filósofo francês Voltaire.

Não foi só Savala e o caipirês que chamaram a atenção nessa estreia. Sérgio Guizé está ótimo como o protagonista. Parece um roceiro ingênuo mas já deu mostras de ser esperto, deve cair nas graças do público. E tem a volta de Marco Nanini às novelas (finalmente!). Além do resgate do humor simplório (Carrasco estava afastado do horário das seis fazia dez anos), a trama carrega no melodrama digno de “O Direito de Nascer“, a mãe de todas as novelas – da TV e do rádio. E também tem uma novela dentro da novela – olha a referência à mítica “Espelho Mágico“, de Lauro César Muniz (1977). É a radionovela “Herança do Ódio” (por sua vez baseada na obra de Oduvaldo Vianna), que os personagens de “Êta Mundo Bom!” ouvirão.

A trilha sonora é predominantemente caipira, totalmente de acordo com a proposta da novela. Para a abertura, a banda Suricato fez uma gravação do clássico das festas juninas “O Sanfoneiro Só Tocava Isso” com arranjos modernos. A abertura aposta nas colagens (de novo, vide “Totalmente Demais“). Incomodou a fotografia da novela, com filtros saturando a imagem de tal forma que lembra nossas fotos de Instagram. Tudo pode ser uma questão de habituar-se (ou não!).

Carrasco é mestre na carpintaria da telenovela. Não é à toa que sua obra é formada, na maioria, de sucessos populares. O novelista se firma como um dos mais versáteis de nossa televisão. Já escreveu para todos os horários. De “Amor à Vida“, pulou para “Verdades Secretas” e agora dá um duplo mortal carpado com “Êta Mundo Bom!“, reinventando-se nos estilos. O pastelão está de volta. Prepare-se para oito, nove meses de muitos banhos no chiqueiro e torta na cara. Já teve no primeiro capítulo. Quer dizer, não teve a torta porque não deu tempo para a sobremesa, mas teve o prato principal.

Marco Nanini como Pancrácio (Foto: Reprodução)

Marco Nanini como Pancrácio (Foto: Reprodução)


APCA elege os melhores do Ano na TV. “Verdades Secretas” leva mais prêmios
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Nilson Xavier

Grazi Massafera (atriz) e Mauro Mendonça Filho (diretor) de "Verdades Secretas" (Foto: Divulgação/TV Globo)

Grazi Massafera (atriz) e Mauro Mendonça Filho (diretor) de “Verdades Secretas” (Foto: Divulgação/TV Globo)

A APCA – Associação Paulista de Críticos de Arte (da qual esse colunista faz parte) – escolheu na noite de quarta-feira (02/12), na sede do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo, os melhores de 2015 na Televisão em sete categorias. A novela “Verdades Secretas”, de Walcyr Carrasco, foi a produção que levou mais prêmios: melhor novela, melhor direção, para Mauro Mendonça Filho, e melhor atriz, para Grazi Massafera.

Veja os vencedores entre os candidatos em cada categoria.

Melhor Novela: “Verdades Secretas”, de Walcyr Carrasco.
Os outros candidatos: “Além do Tempo”, “I Love Paraisópolis”, “Os Dez Mandamentos” e “Sete Vidas”.

Melhor Série/Minissérie/Seriado: “Os Experientes” (coprodução da Globo e O2 Filmes).
Os outros candidatos: “Amorteamo”, “Felizes Para Sempre?”, “Magnífica 70” e “Pé na Cova”.

Melhor Ator: Alexandre Nero, pela novela “A Regra do Jogo”.
Os outros candidatos: Domingos Montagner (“Sete Vidas”), Juca de Oliveira (“Os Experientes”), Rafael Cardoso (“Além do Tempo”) e Tony Ramos (“A Regra do Jogo”.

Melhor Atriz: Grazi Massafera, pela novela “Verdades Secretas”.
As outras candidatas: Drica Moraes (“Verdades Secretas”), Irene Ravache (“Além do Tempo”), Marieta Severo (“Verdades Secretas”) e Simone Spoladore (“Magnífica 70”).

Melhor diretor: Mauro Mendonça Filho, pela novela “Verdades Secretas”.
Os outros candidatos: Cláudio Torres (“Magnífica 70”), Fernando Meirelles (“Felizes Para Sempre?” e “Os Experientes”), Jayme Monjardim (“Sete Vidas”) e Rogério Gomes (“Além do Tempo”).

Melhor Apresentador: Mônica Iozzi, pelo programa “Vídeo Show”.
Os outros candidatos: Dan Stulbach (“CQC”), Fátima Bernardes (“Encontro”), Mariana Godoy (“Mariana Godoy Entrevista”) e Sarah Oliveira (“Calada Noite”).

Melhor Programa: “Masterchef Brasil”, da Band.
Os outros candidatos: “Lucky Ladies” (Fox Life), “Que Monstro Te Mordeu” (TV Cultura), “Todas as Manhãs do Mundo” (Nat Geo) e “Zorra” (Globo).

Menção Honrosa: o programa “Mulheres” da TV Gazeta, pelos seus 35 anos.

Grande Prêmio da Crítica: Silvio Santos, pela sua trajetória na TV brasileira.

Com exceção da Menção Honrosa, cada vencedor receberá o Troféu APCA na cerimônia da 59ª Premiação da APCA (em São Paulo), no primeiro trimestre de 2016, ano em que a entidade completa 60 anos.

Além de premiar os melhores do ano na Televisão, a APCA também elege os melhores no Teatro, Teatro Infantil, Dança, Artes Visuais, Cinema, Rádio, Literatura, Música Erudita, Música Popular, Moda e Arquitetura.

APCA originou-se da ABCT (Associação Brasileira de Críticos de Teatro, criada em 1951). Em 1956, de ABCT, passou a ser APCT (Associação Paulista de Críticos de Teatro). Só em 1972, a entidade deixou de premiar apenas o Teatro e estendeu-se a outras áreas artísticas – já como APCA. Portanto, os melhores da Televisão são eleitos desde 1972.

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“Verdades Secretas”: bom exemplo de união entre roteiro, direção e elenco
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Nilson Xavier

Drica Moraes como Carolina (Foto: Reprodução)

Drica Moraes como Carolina (Foto: Reprodução)

Verdades Secretas”, a novela da faixa das onze, de Walcyr Carrasco – que terminou nesta sexta-feira (25/09) – foi a de maior repercussão do horário desde a sua implantação, em 2011, e a de maior audiência: termina com média final de 20 pontos no Ibope da Grande São Paulo – anteriormente, os remakes de “O Astro” e “Gabriela” fecharam em 19. O público vibrou com uma premissa pouco coerente, mas ousada: o homem que se casa com uma mulher apenas para ser amante da filha dela. O submundo da moda serviu como pano de fundo.

Carrasco, um bom criador de histórias, fez de “Verdades Secretas” uma novela de voyeurismo e, do telespectador, a testemunha ocular de sua trama como aquele que espia a vida alheia pela fechadura da porta, sozinho, na calada da noite, ávido por uma sacanagenzinha. Desta forma, quase tudo foi mostrado, como raras vezes mostrou-se antes em uma novela: drogas, homossexualidade e prostituição (tudo junto ou separado), com boa carga erótica e muitos nudes. Este recheio, muitas vezes, soou gratuito, mas deu um tempero especial à produção e garantiu boa repercussão.

A trama envolvente e a ousadia das abordagens fizeram de “Verdades Secretas” uma das melhores novelas do autor. Carrasco, desta vez mais comedido nos diálogos e cauteloso no humor, apresentou-se bem mais sutil do que o usual, quando comparado com trabalhos anteriores. Isso precisa ser considerado já que sua peculiar falta de sutileza nos diálogos e no humor – característica do autor – poderia pôr a perder todo o excelente trabalho da direção.

Mas não. Ainda que a história central e seu desenrolar soasse pouco coerente ou crível. Ainda que os xingamentos entre o exagerado Viscky (Rainer Cadete) e sua amiga/inimiga/amante Lurdeca (Dida Camero) tenham preenchido a cota carrasquiana. E ainda que alguns diálogos, em momentos isolados, parecessem forçados – como aquele “acerto de contas” entre Alex e seu filho (Rodrigo Lombardi e João Vitor Silva) que levou o garoto a afundar-se nas drogas.

Ponto para a direção, que conseguiu driblar, ou mascarar, algumas falhas de roteiro. O que seria da história de Walcyr Carrasco não fosse a direção primorosa de Mauro Mendonça Filho e sua equipe. A proposta estética e a fotografia sofisticadas, o esmero nas tomadas, a trilha sonora escolhida a dedo para cada tipo de cena e a direção de atores contribuíram para um resultado final poucas vezes visto na televisão. Evidente que a seu favor, autor e diretor tiveram o horário e o formato (novela mais enxuta, com menos tramas e personagens), o que permitiu extrapolar o trivial e apresentar um trabalho mais bem acabado.

Marieta Severo / Grazi Massafera / Eva Wilma (Fotos: Reprodução)

Marieta Severo / Grazi Massafera / Eva Wilma (Fotos: Reprodução)

O elenco respondeu à altura da proposta. A estreante Camila Queiroz (Arlete/Angel) fez bonito, passando a naturalidade e a jovialidade exigidas pela personagem. Aguardemos seu próximo trabalho. Drica Moraes exorcizou de vez a Cora de “Império”, um tipo que pouco lhe contribuiu ou favoreceu. Diferente de Carolina, personagem mais complexa, que poderia beirar o ridículo (por conta de sua trajetória na trama) não fosse a dimensão dramática que a atriz lhe conferiu.

Marieta Severo também exorcizou seu último trabalho. Fanny em nada lembrou Dona Nenê da série “A Grande Família”. Era para Marieta ter voltado às novelas há mais tempo. Eva Wilma emprestou toda a sensibilidade que sua personagem, Dona Fábia, demandava, num trabalho preciso e marcante. É outra atriz que consegue extrapolar o texto, lhe dando credibilidade. Destaque também para Ágatha Moreira (Giovanna), João Vitor Silva (Bruno) e Rainer Cadete (Viscky), muito bem em seus papéis.

Outra que muito brilhou – tendo inclusive desviado os holofotes da trama central – foi Grazi Massafera, como a modelo drogada Larissa. Grazi surpreendeu não apenas com a caracterização e com as várias cenas difíceis exigidas, envolvendo drogas, prostituição e cracolândia. A atriz conseguiu passar a verdade nua e crua da personagem de forma visceral, arrancando elogios de toda parte. E ela muito deve ao trabalho da direção. “Verdades Secretas” é um bom exemplo de união entre roteiro, direção e elenco.

É notável a recepção dessa novela no momento de forte resistência da audiência às tramas das nove da emissora (“Babilônia” e “A Regra do Jogo”). Todas elas tratam/trataram de temas espinhosos para a sociedade – guardadas as devidas proporções que os horários de exibição permitem. Aí entra uma outra questão: são públicos distintos? Ou releva-se “Verdades Secretas” por avançar para além da meia-noite? Todos os públicos gostam de temáticas fortes, ou a audiência está segmentada?

Veja também: O melhor e o pior de “Verdades Secretas” (Maurício Stycer)

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Alex (Rodrigo Lombardi) e Angel (Camila Queiroz) (Foto: Divulgação/TV Globo)

Alex (Rodrigo Lombardi) e Angel (Camila Queiroz) (Foto: Divulgação/TV Globo)


Grazi Massafera se destaca como a modelo drogada de “Verdades Secretas”
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Nilson Xavier

Grazi Massafera e Flavio Tolezani em "Verdades Secretas" (Foto: Reprodução)

Grazi Massafera e Flavio Tolezani em “Verdades Secretas” (Foto: Reprodução)

Em meio à história central da novela “Verdades Secretas”, tem se destacado a trama paralela que envolve a personagem Larissa, vivida por Grazi Massafera. Impossível ficar alheio ao drama da modelo “que passou da idade”, sem melhores perspectivas profissionais, e se afunda cada vez mais no mundo das drogas. O excelente desempenho da atriz está ancorado na forma como tema é abordado. E Grazi vem bem assessorada, pelo roteiro (equipe de Walcyr Carrasco) e pela direção caprichada (equipe de Mauro Mendonça Filho).

Grazi se preparou bastante para viver a personagem. E em nada lembra os seus trabalhos anteriores na televisão. Está mesmo irreconhecível, desconstruída na decadência gradual de Larissa. Percebe-se na atriz o peso de carregar um tipo difícil, explorado num assunto urgente, de forma realista, sem rodeios, maniqueísmos ou vernizes. As sequências vistas essa semana, rodadas na região do centro de São Paulo conhecida como “Cracolândia”, imprimem um realismo tão assustador quanto um programa jornalístico. Novela não é documentário. Mas pode chegar perto.

Já tivemos outros personagens adictos em nossa Teledramaturgia: Guilherme (Marcello Antony em “Torre de Babel”, 1998), Alexandre (Guilherme Fontes em “A Viagem”, 1994), Begônia (Caroline Abras em “Avenida Brasil”, 2012), etc. Mas só o horário de “Verdades Secretas” (muitas vezes a novela avança para além da meia-noite) permite mostrar essa realidade de forma nua e crua.

Verdades Secretas” toca nas feridas da sociedade de maneira poucas vezes vistas antes em nossas novelas. Na trama de Larissa, Carrasco é pouco sutil, mas de forma absurdamente acertada. Há a sintonia do autor com a produção, a direção, a atriz e os demais atores com quem ela contracena. Uma combinação perfeita. Impossível ficar indiferente.


“Verdades Secretas” se destaca pela direção primorosa
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Nilson Xavier

Camila Queiroz e Rodrigo Lombardi (Foto: Reprodução)

Camila Queiroz e Rodrigo Lombardi (Foto: Reprodução)

Que direção primorosa a da novela “Verdades Secretas”! E uma direção como essa faz toda a diferença, principalmente em se tratando de um texto de Walcyr Carrasco. A seu favor está o próprio formato: uma novela mais enxuta, com poucos núcleos, elenco menor, menos capítulos. Pode-se dar um acabamento mais sofisticado. O horário tardio também favorece as experimentações estéticas e as ousadias de roteiro.

Nos últimos anos, a Globo tem investido na plasticidade que o horário e uma produção mais curta permitem. Vide as minisséries “O Canto da Sereia” e “Amores Roubados“, a novela “O Rebu” e a série “Dupla Identidade”.

A direção de núcleo de “Verdades Secretas” é de Mauro Mendonça Filho, responsável também pelo último trabalho de Walcyr Carrasco, “Amor à Vida”, em que a direção acabou engolida pelo texto raso do autor nos longos oito meses de novela. Agora, Carrasco está mais comedido – um avanço e tanto! – o que resulta numa sintonia maior com a direção, que deita e rola em tomadas bonitas, favorecidas por muitas externas, fotografia estilosa e trilha sonora de bom gosto.

A equipe de Mauro Mendonça Filho em “Verdades Secretas”: Allan Fiterman, André Barros e Mariana Richard, com direção geral de André Felipe Binder e Natália Grimberg.

dupla-identidade_dvdMauro Mendonça Filho foi também foi o responsável pela aclamada série “Dupla Identidade”, de Glória Perez, exibida no ano passado, com Bruno Gagliasso vivendo um serial-killer. A área de licenciamento da Globo lançou a atração em DVD (já nas lojas). Os quatro discos trazem, além dos treze episódios, um material extra com entrevistas e depoimentos e um documentário. Em “Dupla Identidade”, a história de Glória Perez não teria tido o mesmo impacto não fosse o esmero estético da equipe de Mauro Mendonça Filho. O mesmo se percebe na atual “Verdades Secretas“.


Em blocos bem diferentes, “Verdades Secretas” tem estreia equilibrada
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Nilson Xavier

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Grazi Massafera, Drica Moraes, Rodrigo Lombardi e Camila Queiroz (Foto: Divulgação/TV Globo)

Nenhuma pirotecnia para prender (ou enganar) o telespectador. O primeiro capítulo de “Verdades Secretas” – estreia das onze na Globo, nesta segunda, 08/06 – limitou-se a introduzir a história central e apresentar os principais personagens. Mas nada de correrias, ou acontecimentos estarrecedores. Para começar, uma novidade: os créditos não apareceram em uma abertura, mas em cima da primeira sequência, como nos filmes.

Carolina (Drica Moraes, a melhor atuação dessa estreia) descobriu a traição do marido e saiu de casa com a filha aspirante a modelo, Arlete (Camila Queiroz), que já foi apresentada ao novo colégio e à dona da agência de modelos, Fanny (Marieta Severo finalmente livre de Dona Nenê). Assim nasceu Angel, o novo nome de Arlete.

Diretores e autor apostaram no equilíbrio para apresentar a história e para dividir o seguimento da ação. O melhor e o pior do capítulo estavam separados em seus dois blocos. No primeiro, a ação foi toda centrada em Carolina e seu drama ao saber que o marido Rogério (Tarcísio Filho) tinha uma outra família. Inconformada, ela pega a filha e parte para São Paulo.

Drica, excelente, em nada lembra Cora, a vilã pé de chinelo que cheirava cuecas e soltava pum em “Império”. Em cenas bem dirigidas, também foi apresentado o personagem de Rodrigo Lombardi, o rico Alex, e seu envolvimento com modelos – ótima toda a sequência com a modelo Alessandra Ambrosio. Texto e direção (de núcleo de Mauro Mendonça Filho) excelentes.

No segundo bloco, a coisa foi bem diferente. No novo colégio, Arlete sofreu bullying das “mean girls” porque era do interior, porque não se vestia como as demais garotas e porque era da periferia. Também surgiu o gordinho com olhar carinhoso que lhe deu uma palavra amiga.

Corta para a agência de modelos e a figura de um gay afetadíssimo pôs Crô, Téo Pereira e Félix no chinelo: Visky, vivido por Rainer Cadete, de língua afiadíssima a trocar impropérios com uma colega de trabalho, um desafeto. É aí que Walcyr Carrasco se entrega: na total falta de sutileza nos diálogos e nos tipos que cria. Dois blocos que parecem duas novelas diferentes. Eu ficaria no primeiro.


Novela “A Padroeira” recontou a história de Nossa Senhora Aparecida
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Nilson Xavier

Silvana (Laura Cardoso) ao receber a imagem da santa que apareceu no rio (Fonte: Reprodução)

Silvana (Laura Cardoso) ao receber a imagem da santa que apareceu no rio (Fonte: Reprodução)

No ano do 2001, a Globo exibiu, no horário das seis, a novela “A Padroeira”, de Walcyr Carrasco, que tinha dois pontos de partida: o romance histórico “As Minas de Prata”, de José de Alencar (que já havia rendido uma novela, de Ivani Ribeiro, na TV Excelsior, em 1966-1967), e a história da descoberta da imagem de Nossa Senhora Aparecida, a Padroeira do Brasil. Carrasco mesclou as tramas de forma que uma complementasse a outra.

A ideia era repetir a dobradinha Walcyr Carrasco (no roteiro) e Walter Avancini (na direção), responsáveis pelo sucesso de “O Cravo e a Rosa”, que havia terminado apenas três meses antes. Havia uma certa urgência em levar a nova produção ao ar, já que Avancini estava com sua saúde abalada. Mas, infelizmente, o diretor não chegou a ver sua obra concluída: Walter Avancini foi afastado um mês após a estreia de “A Padroeira”, vindo a falecer em 26 de setembro de 2001.

Na trama da novela, Carrasco remontou a história real da descoberta de uma imagem na região do Vale do Rio Paraíba, São Paulo, no ano de 1717, por três pescadores: Filipe Pedroso, João Alves e Domingos Garcia (na novela, interpretados por Isaac Bardavid, Cláudio Gabriel e Carlos Gregório, respectivamente). Não era época de pesca, mas os pescadores foram atrás de peixes para o banquete a ser servido ao Conde de Assumar (Antônio Marques), então governante da Capitania de São Paulo que estava de passagem pela cidade de Guaratinguetá.

apadroeira_logoOs pescadores jogaram a rede e tudo o que conseguiram foram o corpo da imagem de uma santa e, na sequência, a cabeça dessa imagem, que era negra. Os homens atribuíram a imagem à Virgem Maria, rezaram e foram agraciados com uma farta pesca. Levada para a cidadezinha, a cabeça da imagem foi colada ao corpo com cera, montada em um altar, que passou a reunir diariamente vários fieis para orações à Nossa Senhora que apareceu no rio.

Os personagens deste núcleo de “A Padroeira” são reais, reconhecidos pela Igreja Católica. Além dos três pescadores, destacaram-se também a beata Silvana (Laura Cardoso), mãe de João Alves, e Atanásio (Jackson Antunes), filho de Filipe Pedroso, que, juntamente com o vigário de Guaratinguetá, ergueu a primeira capela a Nossa Senhora Aparecida, por volta do ano de 1734.

A história da santa, dentro da novela, se funde com as demais tramas de “A Padroeira” quando cresce o preconceito com relação à adoração pela imagem da santa negra, o que divide os camponeses e fidalgos da região. Este preconceito cai por terra quando acontece o terceiro milagre atribuído à santa: a menina cega Marcelina (Renata Nascimento), filha do fidalgo Dom Lourenço de Sá (Paulo Goulart), começa a enxergar quando é levada para rezar junto à imagem. O capítulo de “A Padroeira” com esta sequência foi ao ar no dia 12 de outubro de 2001.

Inicialmente, “A Padroeira” teve rejeição do público, que estranhou sua estética sombria e pesada. Com a morte de Avancini, o diretor Roberto Talma assumiu a novela e, por conta dos baixos índices de audiência, a reformulou por completo. A direção de arte mudou o tom sóbrio da produção em cenários, figurinos e caracterização dos personagens, e parte do elenco original saiu e novos personagens foram criados para dar mais “vida” à história.

Saiba mais sobre “A Padroeriano site Teledramaturgia.


“Amor à Vida” entra para a história com o beijo gay
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Nilson Xavier

Mateus Solano, como Félix, e Thiago Fragoso, como Niko - Foto Reprodução

Mateus Solano, como Félix, e Thiago Fragoso, como Niko – Foto Reprodução

Lembra da primeira semana de “Amor à Vida”? Esqueça, aquela é outra novela, que ficou lá em maio de 2013. Se nas primeiras semanas, a atração exibida foi de tirar o fôlego, essa impressão foi se dissipando logo depois. “Amor à Vida”, que causou espanto em sua estreia, pela agilidade em narrativa e tomadas, revelou-se mais uma ordinária novela (no sentido de comum, frequente) de Walcyr Carrasco, com todas as qualidades, vícios e problemas característicos do autor. Só não contabilizei torta na cara, um bom sinal!

O texto de Carrasco – que ele exige que seja declamado pelo seu elenco, ipsis litteris o que está no roteiro – ainda é o seu grande problema. Sinta-se subestimado diante de tanto didatismo, repetições exaustivas de palavras e frases, diálogos artificiais e primários, em um tom muitas vezes teatral. Até pode funcionar em uma comédia de época das seis horas, ou em um livro infantil. Mas para o horário nobre, que pede uma trama realista, é preciso maior cuidado. O telespectador não é burro. Não precisa ser lembrado – seis meses depois da novela no ar – que a enfermeira Perséfone é uma enfermeira, que Pérsio é sobrinho de César e que Paulinha foi abandonada em uma caçamba. “Caçamba? Sim, caçamba!

O humor carrasquiano – outra marca indelével do autor – esteve onipresente. Combinado com o seu texto, soou infantil muitas vezes, quando não sem graça. Várias sequências e personagens resvalaram na comédia digna de programas de humor populares e de gosto duvidoso. Outro cuidado que o autor precisa ter. Alguns acham graça, mas não é unanimidade. Neste quesito, tivemos a estreia de Tatá Werneck na Globo. Excelente em personagens divertidas na MTV, a atriz cansou com sua Valdirene, em situações repetitivas, em idas e vindas sem fim. Esses esquetes humorísticos funcionam em um programa semanal. Mas não dentro de uma novela, diariamente, durante oito meses seguidos. Tatá brilhou mesmo em sua rápida participação na casa do BBB – não por acaso, a comediante esteve livre do texto de Carrasco e mostrou todo o seu poder de improvisação.

Alguns personagens, quando não totalmente desnecessários e sem trama (como o quadrilátero Patrícia-Michel-Silvia-Guto) tiveram tantas modificações de personalidade ao longo da trama quanto pedia o roteiro. Ninho (Juliano Cazarré) é um deles, que foi se transformando de acordo com as situações novas que o autor criava. Sim, as pessoas mudam ao longo da vida. Mas onde fica a estrutura psicológica do personagem, sua identidade e a coerência narrativa da trama? Ninho se tornou um personagem mal costurado, uma espécie de Frankenstein da Teledramaturgia brasileira. Na melhor das hipóteses, não passou de um coringa nas mãos do autor, um tipo que ele podia usar a qualquer momento em alguma nova situação criada.

Perséfone foi outra personagem problemática de “Amor à Vida”. O autor perdeu uma excelente oportunidade de abordar de forma consistente o bullying pelo qual passam obesos e gordinhos. A personagem de Fabiana Karla sofreu toda espécie de humilhação gratuita, desnecessária e sem graça para, quando finalmente se casar com um príncipe encantado (seu sonho), voltar à estaca zero. Isso sem falar no malfadado “bigodinho” (a depilação íntima) da personagem, uma piada que descambou para o mau gosto. Assim como Tatá Werneck, Fabiana Karla foi outro talento desperdiçado com uma personagem que só cansou.

Além do bullying, pipocou por “Amor à Vida” toda sorte de temas interessantes que poderiam ter gerado debates e campanhas construtivas, mas que acabaram soando avulsos e desconexos com a trama da novela, quando não mal aproveitados. O autor abordou barriga solidária, adoção, racismo, amor na terceira idade, incentivo à leitura, virgindade, bigamia, assédio moral, a questão palestinos x judeus, além de toda uma gama de doenças (lúpus, câncer, Aids, autismo, alcoolismo, etc). Se a intenção era informar, didaticamente, até conseguiu a contento. Mas a maioria desses temas foi abordada de forma superficial, en passant, sem se aprofundar ou concluir – diferente de outras novelas, em que o autor toma um ou dois temas, vai a fundo e consegue trabalhar uma campanha de forma eficiente.

O que aconteceu com a enfermeira que descobriu ter Aids? – além de uma das sequências mais bizarras da novela: quando os vários parceiros dela recebem os seus resultados de exame de HIV. As indicações de livros, longe de alguma campanha em prol da leitura, soaram como o mais puro merchan – ficou tão gratuito no ar que virou piada na Internet. Destaco ainda o controverso autismo da personagem Linda (a ótima Bruna Linzmeyer), tratado com toda liberdade (criativa e poética). Valeu pela abordagem inédita do tema, que despertou o interesse do público. Ainda mais através de uma personagem carismática, tão bem defendida por Bruna Linzmeyer. E concordo com o desfecho que o autor deu a Linda: se a família (responsável por ela) é a favor do casamento, qual o problema?

Foto Divulgação/TV Globo

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Mas nem tudo foram espinhos em “Amor à Vida”. Vamos dar os louros a Walcyr Carrasco, que ele merece. O cara é mestre em prender o público com suas tramas rocambolescas e cheias de reviravoltas – em minha opinião, sua maior qualidade como novelista e o seu segredo de sucesso. Com ótimos ganchos, alguns capítulos-chave e sequências de impacto, o novelista conseguiu manter o interesse de seu público cativo por oito meses seguidos. E sem barriga (aquele momento da trama em que nada acontece), mesmo tendo que espichar a novela. Carrasco alcançou, inclusive, o feito de levantar o Ibope do horário das nove da Globo. “Amor à Vida” não foi nenhum fenômeno de audiência, mas tampouco fez feio: fecha com uma média final de 36 pontos no Ibope da Grande São Paulo – mais que a antecessora, “Salve Jorge” (que fechou em 34) e menos que “Avenida Brasil” e “Fina Estampa” (39 as duas).

Contribuindo para esse sucesso, a direção eficiente de Mauro Mendonça Filho e sua equipe e o talento de alguns excelentes atores, como Elizabeth Savalla (a melhor atriz de 2013, irrepreensível como a ex-chacrete Márcia), Vanessa Giácomo (como a vilã Aline) e Mateus Solano (Félix). Muito da repercussão de “Amor à Vida” se deve à interpretação de Solano, de vilão “bicha má” ao regenerado mais amado do Brasil. Félix não foi o primeiro vilão gay de nossas novelas: esse posto pertence a Mário Liberato – Cecil Thiré em “Roda de Fogo” (1986-1987). Mas, desde a primeira aparição da “bicha má”, os elogios vieram de toda parte. E merecidos. Beirando a caricatura, com língua ferina e frases de efeito, Félix foi construído para ser daqueles personagens carismáticos que arrebatam o povo. Mesmo que a mudança em sua personalidade tenha sido questionável. Ao final, só faltou Félix ser canonizado pelo Papa, Mas, nenhum psicopata (capaz de atrocidades, como jogar um bebê em uma caçamba e planejar assassinatos e sequestros) muda da água para o vinho sem manter algum traço de suas características doentias.

Entretanto, a redenção de Félix é válida e tem um lado positivo dentro da trama da novela. Nunca a homossexualidade foi discutida de forma tão abrangente e clara dentro de um folhetim. Este, talvez, tenha sido o maior feito e contribuição de “Amor à Vida”. Se Carrasco tratou vários temas de interesse social de forma rasa (citados acima), ao abordar a homossexualidade, através de Félix, o autor acertou em cheio e conseguiu levantar uma discussão importante. A novela que melhor havia abordado o tema foi “Insensato Coração” (2011). Carrasco, ao escancarar o preconceito de um pai homofóbico (César de Antônio Fagundes) contra seu filho afeminado, tocou na ferida por um viés diferente. Foi didático, mas não menos eficiente. O vilão psicopata, afinal, tinha uma razão para ser mau – ainda que esta razão não justificasse suas vilanias. O público, tomado de compaixão, entendeu que ele merecia o perdão.

A regeneração de Félix trouxe consigo outro fato interessante em “Amor à Vida”. Lá pela metade da novela, os conflitos do casal romântico central – Paloma e Bruno (Paolla Oliveira e Malvino Salvador), se não estavam resolvidos ou esvaziados, dependiam unicamente de Félix. Foi quando vimos a “bicha má” tomar o posto de protagonista de Paloma e Bruno, que, a essa altura, já era um casal insosso e sem torcida do público. Não foi a primeira vez que um coadjuvante roubou a posição do protagonista: em “Viver a Vida” (2009-2010, de Manoel Carlos), Luciana, a personagem tetraplégica de Alinne Moraes, suplantou a Helena vivida por Taís Araújo. A bem da verdade, Félix era o protagonista de “Amor à Vida” desde o início: um vilão que regenerou-se.

E, com o protagonismo de Félix, um fato inédito: pela primeira vez, o público passou a torcer por um casal protagonista gay. Carrasco teceu sua teia de forma tão engenhosa que fez Félix, que já era querido, se envolver com o gay bonzinho da história, Niko (Thiago Fragoso), arrebatando o público. Foi o golpe de misericórdia. Niko, de bom coração, tinha o sonho de ser pai, sofreu nas mãos de Amarylis e Eron (Danielle Winits e Marcelo Antony), e era um tanto quanto ingênuo e puro. O público aprovou a relação, Félix estava em boas mãos. A química dos atores também ajudou, em bonitas cenas de envolvimento emocional, que dispensaram maiores contatos físicos. Até que, no último capítulo, a Globo decidiu pelo tão esperado e cobrado beijo gay em sua novela do horário nobre. Outras emissoras, já apresentaram, faltava apenas a Globo se render. E, diante do sucesso de Félix e Niko, a trama de Walcyr Carrasco – importante pela sua repercussão e penetração nos lares brasileiros – entrou para a história de nossa televisão com uma belíssima cena final, que teve beijo gay e a reconciliação do pai homofóbico com seu filho afeminado.


Veja como “Amor à Vida” e “Joia Rara” têm tramas muito parecidas
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Nilson Xavier

Antônio Fagundes (César Khoury) e Mateus Solano (Félix) em "Amor à Vida" (Foto: Divulgação/TV Globo)

Antônio Fagundes (César Khoury) e Mateus Solano (Félix) em “Amor à Vida” (Foto: Divulgação/TV Globo)

O seguidor Henrique Guzella me chamou a atenção no Twitter para uma curiosidade envolvendo os folhetins da Globo “Joia Rara”, das seis horas, e “Amor à Vida”, das nove. Já percebeu como as tramas centrais dessas novelas são parecidas?

Ernest Hauser (José de Abreu em “Joia Rara”), assim como César Khoury (Antônio Fagundes em “Amor à Vida”), são empresários poderosos, controladores e arrogantes. Ernest é dono de uma joalheria – daí o título da novela, “Joia Rara”. E César, dono de um hospital – daí o título “Amor à Vida”.

Sim, eu sei que não é exclusivamente pela joalheria que a novela se chama “Joia Rara“, mas por causa da menina que é a reencarnação de um mestre budista. Mas de “Joia Rara” para uma joalheria, a relação é óbvia. Assim como “Amor à Vida” – que é um título bastante abrangente – para o hospital da história.

Manfred (Carmo Dalla Vecchia), filho bastardo de Ernest, e Félix (Mateus Solano), filho de César, são filhos rejeitados pelos seus pais, mas com uma forte ligação com suas mães – Manfred com Gertrude (Ana Lúcia Torre) e Félix com Pilar (Susana Vieira). Os filhos lutam para serem amados e reconhecidos por seus respectivos pais ausentes.

Amor à Vida” está bem mais adiantada que “Joia Rara”, então vamos desconsiderar que Félix deixou de ser vilão e regenerou-se, e vamos nos ater ao início de Amor à Vida e sua trama original.

Tanto Manfred quanto Félix são vilões obcecados pelo poder, capazes de tudo para se apoderarem do negócio de suas famílias. Ambos trabalhavam nas empresas e superfaturavam a compra de materiais através de contratos fraudulentos. Ou seja, Manfred e Félix roubavam dentro das empresas. Manfred sempre quis a presidência da joalheria, e conseguiu, destituindo seu pai. Ernest, do cargo. Igualzinho a Félix, que também chegou a tomar o hospital das mãos de César.

José de Abreu (Ernest Hauser) e Carmo Dalla Vecchia (Manfred) em "Joia Rara" (Foto: Divulgação/TV Globo)

José de Abreu (Ernest Hauser) e Carmo Dalla Vecchia (Manfred) em “Joia Rara” (Foto: Divulgação/TV Globo)

Ernest Hauser e César Khoury têm seus filhos prediletos: Franz Hauser (Bruno Gagliasso) e Paloma Khoury (Paolla Oliveira), o que enchia de inveja seus respectivos irmãos malvados, Manfred e Félix, que fizeram o possível para se apossar das heranças deles. Franz e Paloma se casaram com pessoas de classe social inferior, a contragosto de seus pais: Franz casou-se com Amélia (Bianca Bin) e Paloma casou-se com Bruno (Malvino Salvador). Ambos os casais tiveram uma filha: Pérola (Mel Maia em “Joia Rara”) e Paulinha (Klara Castanho em “Amor à Vida”) – ainda que Paulinha não seja filha biológica de Bruno. Parentes de Bruno (mãe e irmão) trabalham no hospital dos Khoury, enquanto o irmão de Amélia trabalhava na joalheria da família Hauser.

Ernest e César escondem mistérios nebulosos que causaram tragédias no passado. Por causa desses acontecimentos, as belas Silvia (Nathalia Dill em “Joia Rara”) e Aline (Vanessa Giácomo em “Amor à Vida”) se infiltraram nas famílias Hauser e Khoury, atrás da máscara de boas moças, com o objetivo de vingar seus algozes. Silvia quer vingança pela morte de seu pai, cujo responsável foi Ernest – ela chegou a casar-se com Franz para entrar para a família Hauser. E Aline quer vingar a morte da mãe e responsabiliza César – por isso o seduziu e casou-se com ele.

Vale lembrar que a dupla Thelma Guedes e Duca Rachid (as autoras de “Joia Rara”) e Walcyr Carrasco (autor de “Amor à Vida“), já trabalharam juntos. Elas foram colaboradoras dele em algumas de suas novelas (“O Cravo e a Rosa”, “A Padroeira”, “Chocolate com Pímenta”, “Alma Gêmea”). E ele supervisionou a primeira novela solo da dupla, “O Profeta” (também escrita com Júlio Fischer).

COMENTE: Você consegue ver mais semelhanças entre “Amor à Vida” e “Joia Rara”?