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“Amor à Vida” entra para a história com o beijo gay
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Nilson Xavier

Mateus Solano, como Félix, e Thiago Fragoso, como Niko - Foto Reprodução

Mateus Solano, como Félix, e Thiago Fragoso, como Niko – Foto Reprodução

Lembra da primeira semana de “Amor à Vida”? Esqueça, aquela é outra novela, que ficou lá em maio de 2013. Se nas primeiras semanas, a atração exibida foi de tirar o fôlego, essa impressão foi se dissipando logo depois. “Amor à Vida”, que causou espanto em sua estreia, pela agilidade em narrativa e tomadas, revelou-se mais uma ordinária novela (no sentido de comum, frequente) de Walcyr Carrasco, com todas as qualidades, vícios e problemas característicos do autor. Só não contabilizei torta na cara, um bom sinal!

O texto de Carrasco – que ele exige que seja declamado pelo seu elenco, ipsis litteris o que está no roteiro – ainda é o seu grande problema. Sinta-se subestimado diante de tanto didatismo, repetições exaustivas de palavras e frases, diálogos artificiais e primários, em um tom muitas vezes teatral. Até pode funcionar em uma comédia de época das seis horas, ou em um livro infantil. Mas para o horário nobre, que pede uma trama realista, é preciso maior cuidado. O telespectador não é burro. Não precisa ser lembrado – seis meses depois da novela no ar – que a enfermeira Perséfone é uma enfermeira, que Pérsio é sobrinho de César e que Paulinha foi abandonada em uma caçamba. “Caçamba? Sim, caçamba!

O humor carrasquiano – outra marca indelével do autor – esteve onipresente. Combinado com o seu texto, soou infantil muitas vezes, quando não sem graça. Várias sequências e personagens resvalaram na comédia digna de programas de humor populares e de gosto duvidoso. Outro cuidado que o autor precisa ter. Alguns acham graça, mas não é unanimidade. Neste quesito, tivemos a estreia de Tatá Werneck na Globo. Excelente em personagens divertidas na MTV, a atriz cansou com sua Valdirene, em situações repetitivas, em idas e vindas sem fim. Esses esquetes humorísticos funcionam em um programa semanal. Mas não dentro de uma novela, diariamente, durante oito meses seguidos. Tatá brilhou mesmo em sua rápida participação na casa do BBB – não por acaso, a comediante esteve livre do texto de Carrasco e mostrou todo o seu poder de improvisação.

Alguns personagens, quando não totalmente desnecessários e sem trama (como o quadrilátero Patrícia-Michel-Silvia-Guto) tiveram tantas modificações de personalidade ao longo da trama quanto pedia o roteiro. Ninho (Juliano Cazarré) é um deles, que foi se transformando de acordo com as situações novas que o autor criava. Sim, as pessoas mudam ao longo da vida. Mas onde fica a estrutura psicológica do personagem, sua identidade e a coerência narrativa da trama? Ninho se tornou um personagem mal costurado, uma espécie de Frankenstein da Teledramaturgia brasileira. Na melhor das hipóteses, não passou de um coringa nas mãos do autor, um tipo que ele podia usar a qualquer momento em alguma nova situação criada.

Perséfone foi outra personagem problemática de “Amor à Vida”. O autor perdeu uma excelente oportunidade de abordar de forma consistente o bullying pelo qual passam obesos e gordinhos. A personagem de Fabiana Karla sofreu toda espécie de humilhação gratuita, desnecessária e sem graça para, quando finalmente se casar com um príncipe encantado (seu sonho), voltar à estaca zero. Isso sem falar no malfadado “bigodinho” (a depilação íntima) da personagem, uma piada que descambou para o mau gosto. Assim como Tatá Werneck, Fabiana Karla foi outro talento desperdiçado com uma personagem que só cansou.

Além do bullying, pipocou por “Amor à Vida” toda sorte de temas interessantes que poderiam ter gerado debates e campanhas construtivas, mas que acabaram soando avulsos e desconexos com a trama da novela, quando não mal aproveitados. O autor abordou barriga solidária, adoção, racismo, amor na terceira idade, incentivo à leitura, virgindade, bigamia, assédio moral, a questão palestinos x judeus, além de toda uma gama de doenças (lúpus, câncer, Aids, autismo, alcoolismo, etc). Se a intenção era informar, didaticamente, até conseguiu a contento. Mas a maioria desses temas foi abordada de forma superficial, en passant, sem se aprofundar ou concluir – diferente de outras novelas, em que o autor toma um ou dois temas, vai a fundo e consegue trabalhar uma campanha de forma eficiente.

O que aconteceu com a enfermeira que descobriu ter Aids? – além de uma das sequências mais bizarras da novela: quando os vários parceiros dela recebem os seus resultados de exame de HIV. As indicações de livros, longe de alguma campanha em prol da leitura, soaram como o mais puro merchan – ficou tão gratuito no ar que virou piada na Internet. Destaco ainda o controverso autismo da personagem Linda (a ótima Bruna Linzmeyer), tratado com toda liberdade (criativa e poética). Valeu pela abordagem inédita do tema, que despertou o interesse do público. Ainda mais através de uma personagem carismática, tão bem defendida por Bruna Linzmeyer. E concordo com o desfecho que o autor deu a Linda: se a família (responsável por ela) é a favor do casamento, qual o problema?

Foto Divulgação/TV Globo

Foto Divulgação/TV Globo

Mas nem tudo foram espinhos em “Amor à Vida”. Vamos dar os louros a Walcyr Carrasco, que ele merece. O cara é mestre em prender o público com suas tramas rocambolescas e cheias de reviravoltas – em minha opinião, sua maior qualidade como novelista e o seu segredo de sucesso. Com ótimos ganchos, alguns capítulos-chave e sequências de impacto, o novelista conseguiu manter o interesse de seu público cativo por oito meses seguidos. E sem barriga (aquele momento da trama em que nada acontece), mesmo tendo que espichar a novela. Carrasco alcançou, inclusive, o feito de levantar o Ibope do horário das nove da Globo. “Amor à Vida” não foi nenhum fenômeno de audiência, mas tampouco fez feio: fecha com uma média final de 36 pontos no Ibope da Grande São Paulo – mais que a antecessora, “Salve Jorge” (que fechou em 34) e menos que “Avenida Brasil” e “Fina Estampa” (39 as duas).

Contribuindo para esse sucesso, a direção eficiente de Mauro Mendonça Filho e sua equipe e o talento de alguns excelentes atores, como Elizabeth Savalla (a melhor atriz de 2013, irrepreensível como a ex-chacrete Márcia), Vanessa Giácomo (como a vilã Aline) e Mateus Solano (Félix). Muito da repercussão de “Amor à Vida” se deve à interpretação de Solano, de vilão “bicha má” ao regenerado mais amado do Brasil. Félix não foi o primeiro vilão gay de nossas novelas: esse posto pertence a Mário Liberato – Cecil Thiré em “Roda de Fogo” (1986-1987). Mas, desde a primeira aparição da “bicha má”, os elogios vieram de toda parte. E merecidos. Beirando a caricatura, com língua ferina e frases de efeito, Félix foi construído para ser daqueles personagens carismáticos que arrebatam o povo. Mesmo que a mudança em sua personalidade tenha sido questionável. Ao final, só faltou Félix ser canonizado pelo Papa, Mas, nenhum psicopata (capaz de atrocidades, como jogar um bebê em uma caçamba e planejar assassinatos e sequestros) muda da água para o vinho sem manter algum traço de suas características doentias.

Entretanto, a redenção de Félix é válida e tem um lado positivo dentro da trama da novela. Nunca a homossexualidade foi discutida de forma tão abrangente e clara dentro de um folhetim. Este, talvez, tenha sido o maior feito e contribuição de “Amor à Vida”. Se Carrasco tratou vários temas de interesse social de forma rasa (citados acima), ao abordar a homossexualidade, através de Félix, o autor acertou em cheio e conseguiu levantar uma discussão importante. A novela que melhor havia abordado o tema foi “Insensato Coração” (2011). Carrasco, ao escancarar o preconceito de um pai homofóbico (César de Antônio Fagundes) contra seu filho afeminado, tocou na ferida por um viés diferente. Foi didático, mas não menos eficiente. O vilão psicopata, afinal, tinha uma razão para ser mau – ainda que esta razão não justificasse suas vilanias. O público, tomado de compaixão, entendeu que ele merecia o perdão.

A regeneração de Félix trouxe consigo outro fato interessante em “Amor à Vida”. Lá pela metade da novela, os conflitos do casal romântico central – Paloma e Bruno (Paolla Oliveira e Malvino Salvador), se não estavam resolvidos ou esvaziados, dependiam unicamente de Félix. Foi quando vimos a “bicha má” tomar o posto de protagonista de Paloma e Bruno, que, a essa altura, já era um casal insosso e sem torcida do público. Não foi a primeira vez que um coadjuvante roubou a posição do protagonista: em “Viver a Vida” (2009-2010, de Manoel Carlos), Luciana, a personagem tetraplégica de Alinne Moraes, suplantou a Helena vivida por Taís Araújo. A bem da verdade, Félix era o protagonista de “Amor à Vida” desde o início: um vilão que regenerou-se.

E, com o protagonismo de Félix, um fato inédito: pela primeira vez, o público passou a torcer por um casal protagonista gay. Carrasco teceu sua teia de forma tão engenhosa que fez Félix, que já era querido, se envolver com o gay bonzinho da história, Niko (Thiago Fragoso), arrebatando o público. Foi o golpe de misericórdia. Niko, de bom coração, tinha o sonho de ser pai, sofreu nas mãos de Amarylis e Eron (Danielle Winits e Marcelo Antony), e era um tanto quanto ingênuo e puro. O público aprovou a relação, Félix estava em boas mãos. A química dos atores também ajudou, em bonitas cenas de envolvimento emocional, que dispensaram maiores contatos físicos. Até que, no último capítulo, a Globo decidiu pelo tão esperado e cobrado beijo gay em sua novela do horário nobre. Outras emissoras, já apresentaram, faltava apenas a Globo se render. E, diante do sucesso de Félix e Niko, a trama de Walcyr Carrasco – importante pela sua repercussão e penetração nos lares brasileiros – entrou para a história de nossa televisão com uma belíssima cena final, que teve beijo gay e a reconciliação do pai homofóbico com seu filho afeminado.


Veja como “Amor à Vida” e “Joia Rara” têm tramas muito parecidas
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Nilson Xavier

Antônio Fagundes (César Khoury) e Mateus Solano (Félix) em "Amor à Vida" (Foto: Divulgação/TV Globo)

Antônio Fagundes (César Khoury) e Mateus Solano (Félix) em “Amor à Vida” (Foto: Divulgação/TV Globo)

O seguidor Henrique Guzella me chamou a atenção no Twitter para uma curiosidade envolvendo os folhetins da Globo “Joia Rara”, das seis horas, e “Amor à Vida”, das nove. Já percebeu como as tramas centrais dessas novelas são parecidas?

Ernest Hauser (José de Abreu em “Joia Rara”), assim como César Khoury (Antônio Fagundes em “Amor à Vida”), são empresários poderosos, controladores e arrogantes. Ernest é dono de uma joalheria – daí o título da novela, “Joia Rara”. E César, dono de um hospital – daí o título “Amor à Vida”.

Sim, eu sei que não é exclusivamente pela joalheria que a novela se chama “Joia Rara“, mas por causa da menina que é a reencarnação de um mestre budista. Mas de “Joia Rara” para uma joalheria, a relação é óbvia. Assim como “Amor à Vida” – que é um título bastante abrangente – para o hospital da história.

Manfred (Carmo Dalla Vecchia), filho bastardo de Ernest, e Félix (Mateus Solano), filho de César, são filhos rejeitados pelos seus pais, mas com uma forte ligação com suas mães – Manfred com Gertrude (Ana Lúcia Torre) e Félix com Pilar (Susana Vieira). Os filhos lutam para serem amados e reconhecidos por seus respectivos pais ausentes.

Amor à Vida” está bem mais adiantada que “Joia Rara”, então vamos desconsiderar que Félix deixou de ser vilão e regenerou-se, e vamos nos ater ao início de Amor à Vida e sua trama original.

Tanto Manfred quanto Félix são vilões obcecados pelo poder, capazes de tudo para se apoderarem do negócio de suas famílias. Ambos trabalhavam nas empresas e superfaturavam a compra de materiais através de contratos fraudulentos. Ou seja, Manfred e Félix roubavam dentro das empresas. Manfred sempre quis a presidência da joalheria, e conseguiu, destituindo seu pai. Ernest, do cargo. Igualzinho a Félix, que também chegou a tomar o hospital das mãos de César.

José de Abreu (Ernest Hauser) e Carmo Dalla Vecchia (Manfred) em "Joia Rara" (Foto: Divulgação/TV Globo)

José de Abreu (Ernest Hauser) e Carmo Dalla Vecchia (Manfred) em “Joia Rara” (Foto: Divulgação/TV Globo)

Ernest Hauser e César Khoury têm seus filhos prediletos: Franz Hauser (Bruno Gagliasso) e Paloma Khoury (Paolla Oliveira), o que enchia de inveja seus respectivos irmãos malvados, Manfred e Félix, que fizeram o possível para se apossar das heranças deles. Franz e Paloma se casaram com pessoas de classe social inferior, a contragosto de seus pais: Franz casou-se com Amélia (Bianca Bin) e Paloma casou-se com Bruno (Malvino Salvador). Ambos os casais tiveram uma filha: Pérola (Mel Maia em “Joia Rara”) e Paulinha (Klara Castanho em “Amor à Vida”) – ainda que Paulinha não seja filha biológica de Bruno. Parentes de Bruno (mãe e irmão) trabalham no hospital dos Khoury, enquanto o irmão de Amélia trabalhava na joalheria da família Hauser.

Ernest e César escondem mistérios nebulosos que causaram tragédias no passado. Por causa desses acontecimentos, as belas Silvia (Nathalia Dill em “Joia Rara”) e Aline (Vanessa Giácomo em “Amor à Vida”) se infiltraram nas famílias Hauser e Khoury, atrás da máscara de boas moças, com o objetivo de vingar seus algozes. Silvia quer vingança pela morte de seu pai, cujo responsável foi Ernest – ela chegou a casar-se com Franz para entrar para a família Hauser. E Aline quer vingar a morte da mãe e responsabiliza César – por isso o seduziu e casou-se com ele.

Vale lembrar que a dupla Thelma Guedes e Duca Rachid (as autoras de “Joia Rara”) e Walcyr Carrasco (autor de “Amor à Vida“), já trabalharam juntos. Elas foram colaboradoras dele em algumas de suas novelas (“O Cravo e a Rosa”, “A Padroeira”, “Chocolate com Pímenta”, “Alma Gêmea”). E ele supervisionou a primeira novela solo da dupla, “O Profeta” (também escrita com Júlio Fischer).

COMENTE: Você consegue ver mais semelhanças entre “Amor à Vida” e “Joia Rara”?


Félix é o novo Crô
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Nilson Xavier

Crô (Marcelo Serrado) e Félix (Mateus Solano) (Foto: Divulgação/TV Globo)

Crô (Marcelo Serrado) e Félix (Mateus Solano) (Foto: Divulgação/TV Globo)

A novela “Fina Estampa” (de Aguinaldo Silva, exibida entre 2011 e 2012) tinha uma protagonista (Griselda/Lília Cabral) e uma antagonista (Tereza Cristina/Christiane Torloni) maniqueístas e bem populares. Mas, talvez, o grande responsável pelo sucesso deste folhetim tenha sido um personagem coadjuvante: o mordomo Crodoaldo Valério, o Crô, vivido magistralmente por Marcelo Serrado. Crô era um homossexual afetado, espirituoso, com um linguajar e um modo de vestir muito peculiares. E bem caricato. A típica caricatura do gay de programas humorísticos populares. Crô caiu nas graças do público, que o adorava, por ele ser carismático, “do bem”, inteligente, queridinho e engraçado. Era um gay fofo. O sucesso do personagem foi tanto que lhe rendeu um filme, atualmente em cartaz.

Quando estreou, em maio, “Amor à Vida” causou espanto, principalmente pela direção inspirada, aliada a uma fotografia escura, em cenas clipadas e nervosas. Mas o que chamou a atenção mesmo foi o vilão Félix, o personagem de Mateus Solano. Cruel, vil, invejoso, ele não pensou duas vezes em jogar a sobrinha recém-nascida em uma caçamba de lixo, pois aquela criança poderia ser um empecilho para sua futura escalada de poder dentro do hospital da família. Tão mau quanto Carminha (Adriana Esteves), que abandonou a pequena Rita (Mel Maia) no lixão de “Avenida Brasil”. Tanto que Félix chegou a ser comparado a Carminha. E ganhou um apelido: Bicha Má.

A Bicha Má de “Amor à Vida” em nada lembrava o Crô, a não ser pela língua ferina. A novela foi avançando e, lá pela metade, Félix já havia tomado o lugar dos protagonistas da trama no interesse do público. Paloma e Bruno têm uma relação insossa. Os atores – Paolla Oliveira e Malvino Salvador – têm pouca química em cena, não empolgam. Nem dá para torcer por eles. Félix continuou sua escalada de maldades: entre outras atrocidades, planejou o sequestro da sobrinha Paulinha (Klara Castanho), com a ajuda de Ninho, o pai biológico e desmiolado da menina.

Após Félix ter saído do armário diante da família, notou-se uma mudança brusca no perfil do personagem. A Bicha Má trouxe à tona o drama do filho desprezado pelo pai homofóbico (César/Antônio Fagundes). Se a intenção do autor, Walcyr Carrasco, era fazer o público se apiedar de Félix, conseguiu a contento. Afinal, suas maldades eram justificáveis? Félix passou então a travar uma ferrenha luta contra o pai pelo poder dentro do Hospital San Magno. Foi quando se deflagrou o segundo golpe duro para o personagem: todos ficaram sabendo que ele havia jogado Paulinha bebê na caçamba de lixo.

Escorraçado da família Khoury, odiado por todo mundo, renegado pela própria mãe (Pilar/Susana Vieira), Félix comeu o pão que ele mesmo amassou. Foi quando o personagem encontrou o apoio de Márcia (Elizabeth Savalla), que o levou consigo para vender “hot-dogs” na rua 25 de Março. De repente, diante de tanto sofrimento, o personagem parece ter caído em si, foi mostrando seu lado afetuoso. E quanto mais bonzinho se mostrava, mais engraçadinho e mais caricato. Hoje, Félix usa um shortinho vermelho justíssimo, uma flor no cabelo e desmunheca para vender os “hot-dogs” de Márcia.

Nos últimos capítulos, o filho de criação de Félix, Jonathan (Thales Cabral), tentou abrir os olhos de Pilar para a mudança e regeneração do pai. Pegando pesado no melodrama familiar, o autor tenta convencer o telespectador de que Félix mudou, tornou-se uma alma boa, e que merece perdão. Para aumentar ainda mais o amor do público pela “bicha divertida” da novela das nove, Carrasco cria um envolvimento amoroso entre a ex-Bicha Má e Niko (Thiago Fragoso), até então, o único gay bonzinho da novela.

O mais curioso é perceber que Félix, que um dia foi capaz de jogar um bebê no lixo, está se apaixonando por Niko, que, durante toda a trama, acalentou o desejo de ser pai. Sim, eu também acho tudo muito bonito e cor-de-rosa. Não fosse o fato de Félix não ter pago pelas suas maldades – mesmo tendo se regenerado aos olhos do público.

O que tem Crô a ver com tudo isso? Nada. A não ser o fato de Walcyr Carrasco ter decidido fazer com que Félix trilhasse o mesmo caminho que o personagem de Aguinaldo Silva: o da figura gay caricata, carismática e engraçada, querida por todos. Aguardem por “Félix, o Filme”.

Nisso tudo, vejo um lado bem positivo: diferente de Aguinaldo, que não ousou revelar a identidade do amante de Crô, Carrasco expõe a vida amorosa de Félix, criando assim um casal gay caricato e fofo. O mais interessante de tudo: o público está torcendo por Félix e Niko enquanto não está nem aí para Paloma e Bruno, o casal hétero normativo protagonista de “Amor à Vida“. Isso sim é inédito em novelas.


Para garantir audiência, “Amor à Vida” usa barracos e humor popularesco
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Nilson Xavier

Mateus Solano em "Amor à Vida" (Foto: reprodução)

Félix no hotel barato – Mateus Solano em “Amor à Vida” (Foto: reprodução)

Gancho”, no jargão novelístico, é aquele momento clímax ao final do capítulo que aguça a curiosidade do telespectador e o leva a continuar a acompanhar aquela história, no capítulo seguinte. Reza a cartilha que, para sobreviver ao longo de sete, oito meses, uma novela precisa de bons ganchos diários. É assim desde os folhetins do século XIX.

O capítulo deste sábado (23/11) de “Amor à Vida” revela muito sobre a novela. Começou com um gancho, digamos no mínimo, fraco: Félix (Mateus Solano) recebe a conta do restaurante chique onde jantou e conclui que não tem como pagá-la. O que isso tem a ver com a trama central da novela? Absolutamente nada. A não ser que tal situação iria render mais uma performance cômica do personagem.

E assim foi: Félix ligou para a mãe, que mandou um motorista com o dinheiro, que, por sua vez, levou Félix para dormir em um hotel barato e sujo – com direito a um escândalo por causa de uma barata no quarto (irc!). Engraçado? Até é. Mateus Solano deita e rola no personagem. E os esquetes escritos por Walcyr Carrasco arrancam um riso aqui, outro ali, graças ao ótimo desempenho do ator.

E assim foi o resto do capítulo, com situações envolvendo Valdirene (Tatá Werneck) e sua trupe, Amarylis (Danielle Winits) “e seus dois maridos”, e Pilar (Susana Vieira), divagando sobre um possível romance com um rapaz mais jovem. Relevante para a trama central da novela, apenas a ameaça de Valentim (Marcelo Schmidt) sobre Félix, o que levou ele, ao final, a procurar Márcia (Elizabeth Savalla) – este sim, um bom gancho.

Amor à Vida” tem uma história central até interessante, calcada na luta pelo poder no Hospital San Magno e em segredos obscuros do passado da família Khoury, como a vingança pessoal de Aline (Vanessa Giácomo) e o laço que une Márcia a Félix. Enquanto cozinha sua novela até o final de janeiro, Carrasco vai “enchendo linguiça” com lágrimas de Niko (Thiago Fragoso) e pastelão digno de um humorístico de qualidade duvidosa.

Barriga”, no jargão novelístico, é aquele momento da novela em que o autor – com prazo longo para cumprir e sem muitas histórias ainda para render – vai enrolando a trama.

O capítulo de sábado foi um exemplo de como “Amor à Vida” tem um alicerce frágil. É uma novela baseada em alguns eventos “bombásticos” (como os barracos da família Khoury), soltos em alguns capítulos durante a semana com o intuito de despertar a audiência. Foi ótimo o capítulo em que Paloma (Paolla Oliveira) descobriu que Félix jogou sua filha recém-nascida numa caçamba. Na quarta-feira (20/11), a surra de cinto que Félix levou do pai mereceu uma chamada especial, mas não passou de uma sequência constrangedora e sem sentido. E, assim, Carrasco vai causando algum alarde com seus barracos – que só não são dignos de “Casos de Família” (programa popularesco do SBT) porque tem um verniz de novela global.

Fora isso, o autor insiste em um humor popularesco e pouco condizente com a proposta realista da novela e com seu horário de exibição. Pouco condizente inclusive com a ótima direção. Sorte de “Amor à Vida” ter uma ótima direção (geral de Mauro Mendonça Filho). Ainda: pelo fato do capítulo de sábado anteceder o “Zorra Total”, fica a impressão de que o batidíssimo humorístico é uma extensão da novela – como já anuncia a chamada do programa nos intervalos de “Amor à Vida”: “Sábado à noite a novela continua, e vai ser uma Zorra Total!”.

E dizer que Nina foi enterrada viva em um capítulo de sábado!…

PS: Uma sequência deste capítulo merece elogio: Linda ganhou uma bicicleta. Bruna Linzmeyer está excelente no papel. A direção realizou uma cena curtinha, mas emocionante.


Walcyr Carrasco em alta: “Caras e Bocas” volta no “Vale a Pena Ver de Novo”
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Nilson Xavier

Denis (Marcos Pasquim) e o chipanzé Xico em "Caras e Bocas" (Foto: Divulgação/TV Globo)

Denis (Marcos Pasquim) e o chipanzé Xico em “Caras e Bocas” (Foto: Divulgação/TV Globo)

Walcyr Carrasco anda mesmo em alta na Globo. No ar com “Amor à Vida”, a atual trama das nove, o autor também é visto à tarde, no “Vale a Pena Ver de Novo”, com o re-repeteco de “O Cravo e a Rosa” – produção de 2000-2001, já reprisada em 2003.

E Carrasco continuará às tardes – se a Globo não mudar em cima da hora, como já ocorreu. Em 2014, ele estará de volta em “Caras e Bocas”, originalmente exibida em 2009 – num caso raro no “Vale a Pena Ver de Novo”: novelas seguidas de um mesmo autor – ainda mais se considerarmos que “O Profeta”, que antecedeu “O Cravo e a Rosa”, teve supervisão de Carrasco.

Veja as últimas novelas do “Vale a Pena” (desde 2010) com as médias finais no Ibope na Grande São Paulo (cada ponto equivale a 62 mil domicílios):

Alma Gêmea” (2009-2010) >> 20 pontos >> de Walcyr Carrasco
Sinhá Moça” (2010) >> 15
Sete Pecados” (2010-2011) >> 13 >> de Walcyr Carrasco
O Clone” (2011) >> 17
Mulheres de Areia” (2011-2012) >> 16
Chocolate com Pimenta” (2012) >> 15 >> de Walcyr Carrasco
Da Cor do Pecado” (2012-2013) >> 13,5
O Profeta” (2013) >> 12 >> supervisão de Walcyr Carrasco
O Cravo e a Rosa” (2013-2014) >> 13 (até o capítulo 70) >> de Walcyr Carrasco

A Globo está mesmo preocupada com a audiência de suas tardes: mudou o logotipo do “Vale a Pena” e da “Sessão da Tarde“, vai revitalizar o “Vídeo Show” e até cogitou extinguir a “Sessão da Tarde“. Para a faixa de novelas vespertinas, optou por um sucesso popular: “Caras e Bocas” é considerada um dos maiores êxitos do horário das sete da década passada – chegou a ultrapassar a audiência da novela das nove da época, “Viver a Vida” (de Manoel Carlos). Fechou com uma média final de 31 pontos no Ibope, ainda não superada pelas suas sucessoras até hoje. Veja:

Sete Pecados” (2007-2008) >> 30 >> de Walcyr Carrasco
Três Irmãs” (2008-2009) >> 24
Caras e Bocas” (2009) >> 31 >> de Walcyr Carrasco
Tempos Modernos” (2010) >> 24
Ti-ti-ti” (2010-2011) >> 30
Morde e Assopra” (2011) >> 30 >> de Walcyr Carrasco
Aquele Beijo” (2011-2012) >> 25
Cheias de Charme” (2012) >> 30
Guerra dos Sexos” (2012-2013) >> 23
Sangue Bom” (2013) >> 25

Com forte apelo popular, a novela caiu – inclusive – no gosto do público infantil, que se encantou com as peripécias do chipanzé Xico, que pintava as telas que Denis (Marcos Pasquim) expunha como se fossem suas. Também agradou a personagem de Isabelle Drummond, Bianca, que formou uma carismática dupla adolescente com Felipe (Miguel Rômulo). O bordão de Bianca – “É a treva!” – fez sucesso.

Foi com “Caras e Bocas” que Marco Pigossi passou a ser reconhecido, por conta de seu personagem Cássio, um gay pra lá de afetado, por quem Léa (Maria Zilda Bethlem) se apaixonava. “Tô rosa chiclete!” foi uma das frases do personagem que ganharam as ruas. A repercussão foi tanta que Pigossi passou a receber papeis de maior destaque em seus trabalhos seguintes. Também fez sucesso o casal de nordestinos vivido por Suzana Pires e Fábio Lago – “Não me absorva Fabiano!”, era o bordão de Ivonete (Suzana Pires), se referindo ao marido.

A novela teve também uma atriz deficiente visual com um papel fixo do início ao fim: Danieli Haloten, que viveu a cega Anita. E a atriz Rachel Ripani teve sua cabeça raspada em cena, por conta do tratamento de quimioterapia de sua personagem, Tatiana – muito antes de Marina Ruy Barbosa recusar-se a perder os cabelos, em “Amor à Vida”.

Saiba mais sobre “Caras e Bocasno site Teledramaturgia.

Fonte dos dados do Ibope: blog “O Cabide Fala“.


Prolongamento de “Amor À Vida” faz o autor praticamente criar nova novela
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Nilson Xavier

Felix (Mateus Solano) dá as cartas no hospital na nova fase de “Amor À Vida” (Foto: Divulgação/ TV Globo)

Com ordens para espichar “Amor À Vida” – que ficará no ar até o final de janeiro -, a novela entra em uma nova fase em que o autor, Walcyr Carrasco, praticamente levantou uma outra novela – pelo menos nas tramas paralelas.

Infelizmente não foi adiante a ideia de transformar Valdirene (Tatá Werneck) em uma cantora gospel – o que seria um entrecho pra lá de interessante. A personagem começou uma nova fase com o nascimento de sua filha Mary Jane e o casamento com o ricaço Ignácio (Carlos Machado). Tatá e Beth Savalla continuam firmes, rendendo bons momentos.

Perséfone (Fabiana Karla), até então um núcleo “Zorra Total” da novela, ganhou novos contornos com o seu casamento com Daniel (Rodrigo Andrade). O autor abandonou os esquetes sem graça em que a personagem tentava perder a virgindade e a abordagem aos gordinhos agora será do ponto de vista do casamento – e não mais das dificuldades dela para arrumar um namorado, em meio a bullying e humilhações.

Gina (Carolina Kasting), a boa filha-empregada de vida nula com um dúbio sotaque italianado – quem diria – ganhou uma história só para ela, com a chegada de um novo personagem: Herbert (José Wilker). Assim, o autor criou uma nova trama paralela. Carrasco já descartou a hipótese de incesto nesta história. Vamos aguardar por quais conflitos passarão o novo casal.

O quadrilátero Guto-Patrícia-Michel-Silvia (Márcio Garcia, Maria Casadevall, Caio Castro e Carol Castro) continua lá, sem história consistente alguma, a não ser suas desventuras sexuais. Lamenta-se que o autor tenha perdido a chance de limá-los da novela nesta nova fase.

Amarylis (Daniele Winits) segue com uma das personagens mais odiosas de “Amor À Vida” – não tirando a responsabilidade de Eron (Marcello Antony), tão culpado quanto ela na trama da barriga solidária que rendeu a traição dele. E parece que Carrasco tem mesmo algum problema com cabelos. Como se não bastasse a polêmica inútil do raspa-não-raspa a cabeça de Marina Ruy Barbosa, agora o autor entrou em outro quiproquó capilar, desta vez por conta da cabeleira do órfão negro Jaiminho (Kayky Gonzaga). Reclamaram porque o autor pediu uma mudança no look do menino quando ele fosse adotado pelos pais brancos e ricos, o que incluía cortar seu cabelão black-power.

Até parece mesmo vingancinha do autor contra Marina Ruy Barbosa, que não aceitou raspar a cabeça em cena. A personagem Nicole mal aparece na novela mais e sua trama anda bem morna. O foco agora é a paraplegia de Leila (Fernanda Machado). E uma substituta para Nicole já entrou na novela: Natasha (Sophia Abrahão), uma suposta irmã da fantasminha.

Ao som de “I Have the Love”, interpretada pelo Simply Red, floresce o amor de terceira idade entre Lutero e Bernarda (Ary Fontoura e Nathalia Timberg), uma trama bonita, que vale a pena ser abordada. E recorrente na obra do autor: o próprio Ary Fontoura formou um par romântico de terceira idade com Nicette Bruno, numa abordagem semelhante, em outra trama de Carrasco: “Sete Pecados” (2007-2008).

A autista Linda finalmente – e felizmente – começa a ter sua história desenvolvida na novela. Bruna Linzmeyer está ótima na personagem, bem como todo seu núcleo, inclusive a mãe chata e repressora, interpretada por Sandra Coverloni. De quebra, o autor deu continuidade à participação de Rainer Cadete, o intérprete do advogado Rafael, que havia perdido função na novela, mas agora está apaixonado por Linda.

Como já comentei aqui no blog anteriormente, Ninho (Juliano Cazarré) teve sua personalidade alterada pela terceira vez por conta da necessidade de roteiro. O personagem começou como um tipo hippie-adicto-sedutor, que enlouqueceu de paixão a patricinha Paloma (Paolla Oliveira). Para raptar a filha Paulinha (Klara Castanho), Ninho se transformou num bobalhão, uma releitura de seu Adauto de “Avenida Brasil”. Na fase atual, para justificar novos entrechos, Ninho voltou de Nova York como um artista de certa repercussão. Agora Ninho é yuppie. Será que até o final de janeiro ele muda de novo?

Os temas médicos continuam pipocando na novela, ainda que superficialmente. Pelo menos para justificar o cenário do Hospital San Magno. A doente da vez é Vívian (Ângela Dip), dona do bar frequentado pelos personagens da novela. Alcoólatra, ela foi diagnosticada com cirrose. Ganha Ângela Dip, ótima atriz cujo talento vinha sendo desperdiçado.

O romance proibido entre os médicos Pérsio e Rebeca (Mouhamed Harfouch e Paula Braun) ganha ares de “Romeu e Julieta”, já que suas famílias não aceitariam o envolvimento entre o muçulmano e a judia. Mas é uma trama que só se desenrola agora, consequência de uma chantagem do vilão Félix (Mateus Solano).

A Dr.ª Glauce (Leona Cavalli) aparece quando o autor lembra da personagem para alguma armação do mal. Será que ele lembra ainda do assassinato da enfermeira Elenice (Nathalia Rodrigues)?

Emílio Orciollo Netto segue fazendo figuração de luxo na novela. Mal aparece. E quando aparece, mal fala.

Enquanto isso segue a trama central de “Amor À Vida”, envolvendo a família Khoury e a ambição desmedida de Félix. O vilão mudou seu alvo. Primeiro queria afastar a irmã, que ameaçava seu poder no Hospital San Magno. Para tanto, cometeu atrocidades, como jogar a sobrinha recém-nascida em uma caçamba de lixo, e, mais tarde, planejar o sequestro dela. Hoje, Félix quer se vingar do pai César (Antônio Fagundes) e estancar a escalada de Aline (Vanessa Giácomo).

Tem muito pano pra manga a render até o final de janeiro. Disso não podemos reclamar de Walcyr Carrasco: ele sabe costurar tramas como ninguém, usando várias histórias paralelas. Diferente de “Salve Jorge”, que – com exceção da trama principal – teve uma gama enorme de subtramas desperdiçadas e mal desenvolvidas, do início ao fim.


“Amor À Vida” é uma novela de piadas velhas e infantis
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Nilson Xavier

Félix (Mateus Solano) chama César (Antônio Fagundes) de “Papi soberano” (Foto: Divulgação/TV Globo)

No capítulo deste sábado (21/09) de “Amor À Vida” não aconteceu absolutamente nada de relevante para a trama da novela, a não ser o fato de Silvia (Carol Castro) ter descoberto um câncer na mama. E a sequência foi aquele melodrama, potencializado por uma trilha sonora triste e muitas, muitas lágrimas de desespero.

Para uma novela que trata da luta pela vida através de uma série de doenças – daí o seu título -, o dramalhão exibido até que é bastante cabível em sua proposta. O que não cabe para um folhetim do horário das nove é a comicidade quase infantil com a qual Walcyr Carrasco tempera sua trama “medicodramática”.

Ocupando a maior parte de um bloco inteiro, esteve a periguete Valdirene (Tatá Werneck) a disputar uma batata frita com sua mãezoca Márcia (Elizabeth Savalla). Pareceu roteiro de desenho animado. Aliás, a dupla, em que uma se acha dotada de uma “inteligência pura”, faz lembrar os personagens “Pinky e Cérebro”, na ânsia em dominar o mundo – arrumar um marido rico, no caso. Alguém no Twitter comparou a cena com um esquete do “Chaves” do SBT- perfeito!

A total falta de sutileza na boca dos personagens de “Amor À Vida” também remete ao universo infantil. Criança diz cada uma!, já ensinava Pedro Bloch. Mas a novela de Carrasco é popular e tem dado boa audiência – superior à antecessora, “Salve Jorge”, mas ainda inferior às duas anteriores, “Avenida Brasil” e “Fina Estampa”.

Mas audiência sempre será um parâmetro perigoso quando se deseja medir qualquer coisa no horário nobre brasileiro – principalmente se considerarmos que, há pelo menos 43 anos, a novela das oito/nove da Globo é o produto de maior audiência da TV aberta, não importa o que a emissora leve ao ar.

Piada velha, ou requentada, também induz ao riso?
Mais uma vez Félix (Mateus Solano) chamou César (Antônio Fagundes) de ‘Papi soberano’, no que seu pai retrucou que detesta ser chamado daquele jeito. Pela repetição da situação, lembra um antigo esquete do humorístico “Zorra Total”, em que o personagem de Jorge Dória, um pai homofóbico, ficava desesperado quando seu filho gay, vivido por Lúcio Mauro Filho, o chamava de ‘Papi’. O “Zorra Total” também é popular e dá audiência. Não fosse assim, não estaria tanto tempo na grade da Globo.

Engraçado mesmo é que, aos sábados, o “Zorra” parece continuação da novela das nove, já que é exibido na sequência.


Sequestro de Paulinha movimenta “Amor À Vida”, mas revela-se um entrecho frágil
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Nilson Xavier

Paulinha (Klara Castanho) corta o cabelo de Ninho (Juliano Cazarré) em “Amor À Vida” (Foto: Divulgação/TV Globo)

Na última semana, o sequestro de Paulinha (Klara Castanho) tem movimentado a trama central de “Amor À Vida”. Mas, analisando bem, esse sequestro não faz o menor sentido e em nada contribui para a evolução da história central da novela. Aliás, nos últimos capítulos, a trama estacionou nas cenas do cativeiro da menina e não vai para frente. Nada de relevante tem acontecido. A única trama que tem andado é paralela: mais uma tentativa de Valdirene (Tatá Werneck) em se dar bem com um pretendente rico.

O sequestro de Paulinha foi arquitetado por Félix (Mateus Solano) como mais uma tentativa do vilão em se livrar da menina. Ele convenceu Ninho (Juliano Cazarré), o pai biológico da garota, a sequestrá-la “para aproximar-se mais dela”. Oi? Isso não faria o menor sentido, não fosse o fato de, ultimamente, Ninho vir se comportando como um perfeito débil mental. Faz lembrar o Adauto, personagem de Cazarré em “Avenida Brasil“. Paulinha tem agido com mais inteligência e madureza que o próprio pai. Soa estranho, se considerarmos que, no início da novela, Ninho era um cara até safo, tentou traficar drogas e tudo.

Ao que tudo indica, Alejandra (Maria Maya), parceira de Ninho no sequestro, vai extorquir e chantagear Félix ao máximo por conta desse sequestro. Talvez isso tenha reflexos no futuro da história. Mas, por enquanto, o sequestro de Paulinha tem se mostrado ser apenas um entrecho ineficaz e frágil, desde a forma como Ninho convenceu a enfermeira Ciça (Neusa Maria Faro) a “dar um passeio com ele”, até a saída de Paulinha no meio de sua aula no colégio para entrar no carro de Ninho. Mas, como diria Glória Perez, “é preciso voar!”.  Um mínimo de coerência, pra quê?…

No outro lado, a mãe de Paulinha, Paloma (Paolla Oliveira), e o pai de criação, Bruno (Malvino Salvador), sossegadamente tomam café da manhã com o irmão de Alejandra, Valentin (Marcelo Schmidt), e os policiais que investigam o caso. Um dos policiais até paquera uma empregada… Bem, esperamos que o sequestro de Paulinha, no fim das contas, não tenha servido apenas para a menina cortar o cabelo de Ninho. Aliás – diga-se de passagem – Paulinha tem futuro como cabeleireira!

Aliás 2: teve até sopa na cabeça – na ausência de torta na cara, artifício recorrente em novelas de Walcyr Carrasco.


Elizabeth Savalla é destaque em “Amor À Vida”. Mas por que a atriz só trabalha com Walcyr Carrasco?
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Nilson Xavier

Elizabeth Savalla em “Amor À Vida” (Foto: Divulgação/TV Globo)

Sempre me perguntam por que a atriz Elizabeth Savalla só tem trabalhado em novelas do autor Walcyr Carrasco. Eu também gostaria de saber! Teorizo que talvez seja porque a atriz está sempre reservada para as tramas de Carrasco, o que não dá tempo para que outros novelistas e diretores a chamem ou lembrem-se dela. Desde a última década, Savalla só tem atuado nas novelas do autor: “A Padroeira” (2001-2002, como Imaculada), “Chocolate com Pimenta” (2003-2004, como Jezebel), “Alma Gêmea” (2005-2006, como Agnes), “Sete Pecados” (2007-2008, como Rebeca), “Caras e Bocas” (2009, como Socorro), “Morde e Assopra” (2011, como Minerva) e, agora, “Amor À Vida”. “Gabriela”, do ano passado, foi a única exceção. É sabido que Carrasco queria Savalla para o papel da cafetina Maria Machadão, mas a Globo preferiu chamar Ivete Sangalo.

Não que não seja ótimo para Elizabeth Savalla estar em evidência nas novelas de Walcyr Carrasco, sempre um autor muito requisitado. Mas a atriz tem uma trajetória de sucesso na história de nossas novelas, e passou por alguns hiatos longe da telinha. “Amor À Vida” é o seu retorno triunfal ao horário nobre da Globo, depois de 29 anos – a última novela das oito em que atuou foi “Partido Alto”, escrita por Glória Perez e Aguinaldo Silva, em 1984. É curioso perceber que, depois de um tempo afastada da TV, Savalla tenha retornado apenas em novelas de Carrasco.

Vinda do teatro paulista da década de 1970, Elizabeth Savalla foi estrela das novelas da Globo entre os anos 1970 e 1980, tendo ganhado notoriedade em tramas como “Gabriela” (1975), “Estúpido Cupido” (1976-1977), “O Astro” (1977-1978), “Pai Herói” (1979), “Plumas e Paetês” (1980-1981) e “Pão-Pão Beijo-Beijo” (1983). Em 1987, afastou-se da TV e retornou apenas em 1991. Desta nova fase em novelas, brilhou em “Quatro por Quatro”, em 1994-1995. Afastada novamente da telinha, voltou em 2001, para as novelas de Walcyr Carrasco.

Malvina de “Gabriela” / Lili de “O Astro” / Carina de “Pai Herói” / Auxiliadora de “Quatro por Quatro” (Foto: Reprodução)

Já há algum tempo o núcleo de sua personagem em “Amor À Vida” tem chamado a atenção. A vendedora de hot-dog Márcia do Espírito Santo – a ex-chacrete Tetê Para-Choque Para-Lama – não é nenhum poço de virtude: carreirista, incita a filha a arrumar um marido rico. As próprias ex-chacretes da vida real não gostaram da maneira como foram retratadas. A dobradinha da personagem com a filha Valdirene (Tatá Werneck) é um dos pontos altos da novela. Somam-se Carlito (Anderson Di Rizzi), o namorado “palhaço” da filha, e a trama de Gentil/Atílio (Luís Mello), o marido que a engana. Todos os atores excelentes em cena – apesar de incomodar a história de Valdirene se repetir constantemente, como numa esquete de programa de humor.

No capítulo desta quinta-feira (15/08) de “Amor À Vida”, Elizabeth Savalla “divou”, como se diz na internet. A atriz deu um verdadeiro show de interpretação na cena em que descobre que seu marido Gentil é, na verdade, o rico executivo Atílio, e que ele já era casado com outra mulher, Vega (Christiane Tricerri). Detalhe: Luís Mello já havia passado pela mesma situação de bigamia em outra trama de Carrasco: “O Cravo e a Rosa”, de 2000-2001, atualmente reprisada no “Vale a Pena Ver de Novo”.

Não desmerecendo outros atores em ótimas interpretações, no elenco e “Amor À Vida”, Elizabeth Savalla se sobressai com uma personagem forte, sofrida, carismática e, acima de tudo, humana. Principalmente se considerarmos o texto teatral de Carrasco, em que é necessário ser um excelente ator para que se passe alguma verdade e emoção sem que facilmente se caia na pieguice ou vire tudo uma piadinha sem graça – como temos visto em outros núcleos da novela.

Demais trabalhos de Elizabeth Savalla na TV: as novelas “O Grito” (1975-1976), “O Homem Proibido” (1982), “De Quina Pra Lua” (1985-1986), “Hipertensão” (1986-1987) e “Quem É Você” (1996), e as minisséries “Meu Marido” (1991) e “Sex Appeal” (1993), além de casos especiais e participações diversas em outros programas.


“Amor À Vida” é uma excelente novela mexicana brasileira
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Nilson Xavier

Marina Ruy Barbosa e Ricardo Tozzi em cena de “Amor À Vida” (Foto: Divulgação/TV Globo)

Ainda bem que Marina Ruy Barbosa não teve seu cabelo cortado! Se o corta/não corta já gerou esse buchicho todo, imagina se tivesse ido às vias de fato! Já basta o melodrama fácil que Walcyr Carrasco impôs à personagem da atriz. No capítulo desta quinta-feira (08) de “Amor À Vida”, Nicole partiu desta para uma pior: o espírito atormentado da pobre menina rica vai vampirizar seus algozes Thales (Ricardo Tozzi) e Leila (Fernanda Machado). Sofrimento pouco é bobagem. E haja odor de rosas e “Clair de Lune” para embalar a tragédia da vida/morte da personagem.

Amor À Vida” é uma ótima novela ruim. Ótima porque o autor sabe prender o público. Carrasco tem a manha, conhece todos os segredos do folhetim, gênero que originou a telenovela. Todos os clichês do melodrama (ou quase todos) estão lá. Embalados por uma trilha sonora pontual, a interpretação over dos atores e o texto mais over ainda do autor. O diferencial de “Amor À Vida”, e seu maior atrativo, é exatamente este: é uma telenovela deslavada, sem medo de fazer aflorar – muitos tons acima – as emoções mais fáceis do ser humano. Isso a torna “menor”? Claro que não! Haja vista o sucesso das novelas mexicanas pelo mundo. “Amor À Vida” é uma excelente novela mexicana brasileira.

Claro que a comicidade forçada – digna de um programa de humor de gosto duvidoso -, o texto teatral demais e alguns personagens chatos e outros tantos bem caricatos, desabonam a novela. Mas são inerentes à sua proposta e, portanto – talvez – até passíveis de se relevar.