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Por que um remake de “Saramandaia”?
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Nilson Xavier

A Globo já bateu o martelo: a próxima atração da faixa das onze da noite, a estrear ano que vem, será o remake de Saramandaia, novela que Dias Gomes escreveu em 1976. Outra trama que estava no páreo era um remake de Dancin´ Days, mas a Globo preferiu deixar esta para 2014, para que Gilberto Braga, o autor, pudesse se recuperar por completo de seu problema de saúde (no ano passado, ele sofreu um AVC durante uma cirurgia no coração). A adaptação de Saramandaia ficará a cargo de Ricardo Linhares.

“Tranquila, agitada, festiva, absurda… Saramandaia! Realidade fantástica de Dias Gomes!”
(chamada de estreia, em 1976).

A novela original foi ao ar entre maio e dezembro de 1976, no horário das dez da noite da Globo, e tornou-se um clássico de nossa teledramaturgia. Sua maior contribuição foi ter incorporado o realismo fantástico às novelas brasileiras, com alusões ao romance “Cem Anos de Solidão” (1967), de Gabriel García Márquez, e ao filme “Amarcord” (1973), de Fellini.

Saramandaia ficou famosa por sua galeria de personagens bizarros em situações inusitadas:  João Gibão (Juca de Oliveira) possuía asas; Zico Rosado (Castro Gonzaga) soltava formigas pelo nariz; Dona Redonda (Wilza Carla) explodiu de tanto comer; Seu Cazuza (Rafael de Carvalho) cuspia o coração toda vez que se emocionava; Marcina (Sônia Braga), quando excitada, ficava em brasa, queimando tudo ao redor; e o Professor Aristóbulo (Ary Fontoura), além de virar lobisomem, há anos que não dormia, tendo em suas andanças noturnas se encontrado com vultos históricos.

Mas o próprio Dias Gomes rejeitava o rótulo de fantástico para seus estranhos personagens. Certa vez, em entrevista ao Jornal do Brasil, declarou:
Não vejo nada de fantástico nisso. Há gente que não dorme há muito mais tempo. Outros nunca acordaram. O meu chamado realismo fantástico não tem nada de sofisticado. O próprio ponto de partida popular elimina essa hipótese, pois me baseei na literatura de cordel nordestina.”

Dias já usara personagens pitorescos anteriormente: tal qual João Gibão de Saramandaia, o Zelão das Asas, vivido por Milton Gonçalves em O Bem Amado (1973), também voava no último capítulo da novela. Mais tarde, em Roque Santeiro (1985-1986), também houve um lobisomem – Professor Astromar, interpretado por Rui Rezende.

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Mas foi Aguinaldo Silva quem levou a fórmula adiante – ele mesmo um dos roteiristas de Roque Santeiro. Em Tieta (1989-1990), havia a figura da misteriosa Mulher de Branco, que abusava sexualmente de homens desprevenidos em noites de lua cheia. Outro personagem semelhante foi o Cadeirudo, de A Indomada (1997), que atacava mulheres indefesas. Na mesma novela, havia o delegado que caiu num buraco e foi parar no Japão. Em Pedra Sobre Pedra (1992), a flor de Jorge Tadeu (Fábio Jr.) enlouquecia as mulheres que a comiam, enquanto Sérgio Cabeleira (Osmar Prado) se sentia atraído pela lua cheia. Em Fera Ferida (1993-1994) havia a moça que dormia há anos; e o casal de amantes que inflamava a cama quando fazia amor – o que lembra o casal João Gibão e Marcina de Saramandaia.

Independente de Aguinaldo Silva ter esgotado a fórmula, a nova Saramandaia deve gerar curiosidade por conta de suas esquisitices, mesmo porque, já há mais de uma década Aguinaldo não abusa do realismo fantástico em suas novelas. E também porque hoje em dia os recursos tecnológicos para criar cenas incríveis estão avançados, quando comparados com os recursos da década de 1970 – cogita-se inclusive a utilização de 3D para este remake. Em vídeos de Saramandaia, percebe-se que a cena da explosão de Dona Redonda é simplória, mas sem deixar de ser impactante. O chromakey (recurso de sobreposição de imagens) usado numa sequência em que Seu Cazuza vomita o próprio coração é primário, tosco, mas hoje em dia, pode ficar bastante interessante. Por causa de seu apelo surreal, Saramandaia deve despertar a curiosidade do público, pelo que já se conhece dela.

Aferir o sucesso da Saramandaia original unicamente ao realismo fantástico chega a ser leviano. A novela tem a assinatura de Dias Gomes, um mestre na crítica social – que, naqueles anos de ditadura do Regime Militar, era velada. Afora isso, a direção sempre inovadora e perfeccionista de Wálter Avancini e um elenco de primeira. Além dos já citados: Antônio Fagundes (em sua estreia na Globo), Dina Sfat, Yoná Magalhães, Milton Moraes, Sebastião Vasconcelos, Eloísa Mafalda, José Augusto Branco, e outros. Também as participações de Elza Gomes, Carlos Eduardo Dolabella e os dois maiores galãs de novelas da época, Tarcísio Meira e Francisco Cuoco – que viveram D. Pedro I e Tiradentes, personagens históricos que se encontraram com o Professor Aristóbulo (Ary Fontoura) em suas andanças noturnas.

O cantor cearense Ednardo gravou a música Pavão Mysteriozo no início dos anos 1970, e desde então permanecia no ostracismo. Mas a música foi escolhida para a abertura de Saramandaia, tornando-se um grande sucesso popular e fazendo Ednardo conhecido do norte ao sul do país. Impossível não associar a música à novela.

Apesar de sua aura mítica, Saramandaia não chegou a ser um “grande sucesso arrebatador”, tal qual outras novelas das 22 horas anteriores, como Gabriela, um ano antes, ou a própria O Bem Amado, de Dias Gomes. Passada a novidade e a curiosidade sobre os personagens e situações surreais, lá pela metade a novela se arrastou até seu término. Talvez por isso nunca tenha sido reprisada.  Mas é inegável a sua importância dentro da história da TV brasileira.

Agora vamos aguardar as notícias de escalação de elenco. Já existe uma expectativa: quem viverá Dona Redonda? Veja a enquete acima.

Saiba mais sobre Saramandaia no site Teledramaturgia.