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Blog do Nilson Xavier

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Público aprovou alterações em “Torre de Babel”, inicialmente rejeitada

Nilson Xavier

27/05/2015 08h58

Silvia Pfeifer e Christiane Torloni, como as lésbicas rejeitadas de

Silvia Pfeifer e Christiane Torloni, como as lésbicas rejeitadas de "Torre de Babel" (Foto: Divulgação)

Há 17 anos – em 25 de maio de 1998 -, estreava no horário nobre da Globo a novela "Torre de Babel", de Silvio de Abreu. Muito mais do que sua história, que abordou um shopping center que explodiu, está a história por trás dessa explosão.

A novela afugentou os telespectadores logo na primeira semana de exibição. Vendida nas chamadas como "forte, verdadeira, emocionante", a trama espantou o público ao mostrar um Tony Ramos – o sempre bom moço de nossas novelas – matando a mulher e o amante dela com uma pá. Também uma família de classe média-alta com um filho drogado (personagem de Marcello Antony), violência doméstica através do tipo vivido por Juca de Oliveira, e um casal de lésbicas bem sucedidas que dividiam uma cama (Christiane Torloni e Silvia Pfeifer).

Qualquer semelhança com "Babilônia" – até o título é parecido – terá sido mera coincidência.

Claro que "Babilônia" e "Torre de Babel" não foram os únicos casos nesses 50 anos de TV Globo: "Anastácia, a Mulher Sem Destino" (aquela em que Janete Clair provocou um terremoto que matou a maioria dos personagens para que ela recomeçasse a história do zero), "Espelho Mágico" e "Os Gigantes" (problemáticas novelas de Lauro César Muniz), "O Dono do Mundo" e "Pátria Minha" (ambas de Gilberto Braga, um dos autores de "Babilônia"), e muitas outras.

Entretanto, é bom lembrar que a salvação, às vezes, vem. Detectados os problemas de "Torre de Babel", Silvio de Abreu fez uma mexida substancial para ajustar a sua obra ao gosto do público. A explosão do shopping foi providencial: serviu para eliminar alguns dos personagens rejeitados, como o rapaz drogado, o casal de lésbicas, e o violento personagem de Juca de Oliveira.

Silvio mudou o perfil de José Clementino, o personagem de Tony Ramos. A princípio, ele continuou com sentimentos ruins de vingança, mas foi se redimindo ante o público pois descobrira o amor nos braços de Clara (Maitê Proença). Aos poucos, ficou claro para o telespectador a redenção (e salvação) de José Clementino – pelo amor.

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O autor também deixou claro quem era o vilão maniqueísta da novela (no caso, a personagem de Claudia Raia), e investiu mais no romance e no humor, em tipos que cariam nas graças do público – como a nova rica Bina Colombo (Claudia Gimenez), a dupla Johnny Percebe e Boneca (Oscar Magrini e Ernani Moraes), o deficiente mental Jamanta (Cacá Carvalho), e a periguete vilã Sandrinha (Adriana Esteves).

No fim das contas, após os ajustes, "Torre de Babel" conquistou a audiência e tornou-se mais um sucesso na carreira do autor.

Dezessete anos depois, a história se repete. Porém, dessa vez, ao que parece, sem final feliz. "Babilônia" pena na audiência. Tanto se mexeu que acabou transformada num arremedo de novela. Uma "novela zumbi", como bem chamou Maurício Stycer em seu texto (LEIA AQUI).

A grande diferença com "Torre de Babel" foi a ineficácia dos autores de "Babilônia" em dar um prumo à história. Alterar o perfil dos personagens rejeitados acabou descaracterizando-os. Veja o álbum abaixo. Antes tivessem explodido a empresa Souza Rangel (um dos cenários da trama). Ou, quem sabe, um terremoto, para recomeçar essa história do zero.

Saiba mais sobre "Torre de Babel" no site Teledramaturgia.

Sobre o autor

Nilson Xavier é catarinense e mora em São Paulo. Desde pequeno, um fã de televisão: aos 10 anos já catalogava de forma sistemática tudo o que assistia, inclusive as novelas. Pesquisar elencos e curiosidades sobre esse universo tornou-se um hobby. Com a Internet, seus registros novelísticos migraram para a rede: em 2000 lançou o site Teledramaturgia (http://www.teledramaturgia.com.br/), cujo sucesso o levou a publicar o Almanaque da Telenovela Brasileira, em 2007.

Sobre o blog

Um espaço para análise e reflexão sobre a produção dramatúrgica em nossa TV. Seja com a seriedade que o tema exige, ou com uma pitada de humor e deboche, o que também leva à reflexão.