Blog do Nilson Xavier

O ano em que a Globo se arrependeu de não transmitir o Carnaval carioca

Nilson Xavier

13/02/2018 07h00

Foi em 1984. Era a inauguração do Sambódromo da Marquês de Sapucaí. A Globo decidiu não transmitir os desfiles das escolas de samba do Rio de Janeiro quebrando uma tradição de nove anos – a emissora os transmitia desde 1974. Problemas internos, falta de interesse pelo Sambódromo e até questões políticas foram cogitadas. Boni, José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, então superintendente da Globo, explicou em seu “Livro do Boni“:

“Em 1983, o governador (do Rio) Leonel Brizola decidiu pela construção do Sambódromo. O sociólogo e apaixonado pela educação Darcy Ribeiro (então vice-governador) era um homem extrovertido, preparado, mas confuso. Ele inventou duas coisas malucas no carnaval: uma foi a Praça da Apoteose, projetada a seu pedido e que, na cabeça dele, permitiria que cada escola desse uma volta no final, fazendo um círculo e passando por dentro dela mesma – num desconhecimento total do que é uma escola de samba, com seus carros alegóricos, alas e bateria; a outra invenção foi o Super Campeonato, que só existiu uma vez porque não fazia o menor sentido. Nas reuniões preliminares, fui contra essas propostas e começou a se criar um ambiente delicado de entendimento, entre o Darcy, representado pelo Carlos Imperial, e a Globo. Por outro lado, o governo, com o Sambódromo na mão, assumiu as negociações dos direitos de transmissão, anteriormente discutidos com a Associação das Escolas de Samba. A coisa foi engrossando e, pressionado, achei uma saída: combinei com o Moisés Weltman, da TV Manchete, que ele compraria o carnaval sozinho e depois repassaria a minha parte.”

“Ficamos fora do carnaval. No Rio, a Manchete deitou e rolou na audiência, mas no resto do Brasil, sem carnaval, a programação da Globo cresceu em relação aos anos anteriores. Essa é a verdade completa da história. O Brizola, de forma demagógica, tentou inventar que a Globo quis boicotar o Sambódromo. Uma infantilidade. Não iríamos perder o evento por causa disso.”

A também carioca TV Manchete – que completava um ano de vida em 1984 – saiu à frente e exibiu os desfiles da Sapucaí. Com direção de Maurício Sherman e comentários de Paulo Stein e Fernando Pamplona, as transmissões daquele Carnaval pela emissora de Adolpho Bloch chegaram ao primeiro lugar no Ibope, alcançando uma média de 70% na audiência. A Estação Primeira de Mangueira, com o enredo “Yes, Nós Temos Braguinha“, e a Portela, com o enredo “Contos de Areia“, sagraram-se as campeãs do Carnaval de 1984.

Foi a primeira vez, em onze anos de existência, que o “Fantástico” (seguido do então inédito filme “Bonnie e Clyde, uma Rajada de Balas”) – no domingo – perdia no Ibope. Na segunda e terça-feira foi a vez da novela das oito levar bomba. Era “Champagne”, de Cassiano Gabus Mendes, com direção geral de Wolf Maya.

Tony Ramos e Irene Ravache em “Champagne” (Foto: Acervo Globo)

Por uma estratégia equivocada, a Globo havia convocado Cassiano – tradicional autor de comédias das sete horas – para escrever uma novela no horário nobre. Em 1983, a emissora estava desfalcada de novelistas das oito, já que Janete Clair, sua principal escritora, estava adoentada (ela faleceu em novembro daquele ano). A solução foi “subir” um autor das sete – Cassiano, que apresentou um trabalho morno. “Champagne” até tinha um bom elenco (encabeçado por Tony Ramos, Antônio Fagundes e Irene Ravache), mas a história era fraca demais para uma trama das oito horas.

O Carnaval de 1984, pela Manchete, venceu a Globo no Ibope. Como poucas vezes visto na história da TV, a Vênus Platinada perdeu para uma concorrente no horário nobre – a Manchete seria novamente uma pedra em seu sapato em 1990, com a novela “Pantanal”. Cassiano Gabus Mendes retornou para o horário que o consagrou: depois de “Champagne” escreveu sucessos como “Ti-ti-ti” (1985-1986), “Brega e Chique” (1987) e “Que Rei Sou Eu?” (1989). Ele voltou a escrever uma novela para as oito da noite em 1990, “Meu Bem Meu Mal“, dessa vez com repercussão maior que em “Champagne“.

A Globo, por sua vez, nunca mais deixou de transmitir os desfiles das escolas de samba cariocas direto do sambódromo da Marques de Sapucaí.

Fontes: “O Livro do Boni“, José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, Casa da Palavra;
Rede Manchete, Aconteceu, Virou História“, Elmo Francfort, Imprensa Oficial do Estado de São Paulo.

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Sobre o autor

Nilson Xavier é catarinense e mora em São Paulo. Desde pequeno, um fã de televisão: aos 10 anos já catalogava de forma sistemática tudo o que assistia, inclusive as novelas. Pesquisar elencos e curiosidades sobre esse universo tornou-se um hobby. Com a Internet, seus registros novelísticos migraram para a rede: em 2000 lançou o site Teledramaturgia (http://www.teledramaturgia.com.br/), cujo sucesso o levou a publicar o Almanaque da Telenovela Brasileira, em 2007.

Sobre o blog

Um espaço para análise e reflexão sobre a produção dramatúrgica em nossa TV. Seja com a seriedade que o tema exige, ou com uma pitada de humor e deboche, o que também leva à reflexão.

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