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Blog do Nilson Xavier

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Plágio? Trama de "Segundo Sol" lembra novela mexicana e filme americano

Nilson Xavier

15/05/2018 22h30

Beto Falcão (Emílio Dantas), Karola (Deborah Secco) e Remy (Vladimir Brichta) (foto: divulgação/TV Globo)

Houve quem enxergasse semelhanças entre a trama central de "Segundo Sol" e a novela "Roque Santeiro" (1985-1986). O cantor Beto Falcão (Emílio Dantas), dado como morto, vira mito após sua suposta morte. Como o santeiro Roque vivido por José Wilker nos anos 80. Quem quer lucrar com a falsa morte é a "viúva" do ídolo, Karola (Deborah Secco), de conluio com o amante, Remy (Vladimir Brichta). Claro que são Porcina e Sinhozinho Malta, personagens de Regina e Lima Duarte. Seria uma releitura moderna e interessante. Mas as semelhanças terminam aí. Roque não era cantor e sequer conhecia Porcina, a viúva que "era sem nunca ter sido".

"Oficialmente", as referências do autor João Emanuel Carneiro para sua novela são cantores famosos cujas mortes causaram grande comoção popular, como Michael Jackson, Cristiano Araújo e o grupo Mamonas Assassinas (vítima de um desastre aéreo, como supostamente aconteceu a Beto Falcão). A trama central também remete a outra novela sua, "Da Cor do Pecado" (2004). Entretanto, já chegaram até mim (ah as redes sociais unem as pessoas e nada passa despercebido, não é mesmo!) duas outras fontes que poderiam fortemente ter inspirado a trama de João Emanuel Carneiro.

Em "Segundo Sol", Beto Falcão, cantor que já não fazia mais tanto sucesso, é anunciado como vítima fatal de um acidente aéreo. A grande emoção nacional com a tragédia valoriza a sua obra. Quem ganha com isso é a namorada Karola e o empresário e irmão Remy. Não por acaso, Karola e Remy são amantes e a dupla fatura com os direitos sobre a música de Beto. Mas o cantor estava vivo. Remy e Karola bolam então o plano perfeito: Beto mantem a farsa da morte, mudando-se para um lugar remoto com outra identidade. Enquanto isso, todos enchem o bolso, já que o artista vale mais morto do que vivo.

O filme norte-americano "Póstumo" (uma coprodução com a Alemanha, lançado em 2014, disponível na Netflix), tem uma trama muito semelhante. A presumida morte de um artista plástico "incompreendido" valoriza sua obra. Percebendo o bom retorno financeiro, ele e seu marchand sustentam o mal-entendido.

̶B̶e̶t̶o̶ ̶F̶a̶l̶c̶ã̶o̶,̶ ̶K̶a̶r̶o̶l̶a̶ ̶e̶ ̶R̶e̶m̶y̶, digo, José Wilker, Regina Duarte e Lima Duarte (Foto: Acervo/TV Globo)

Já a novela mexicana "Zacatillo, un lugar en tu corazón", produzida pela Televisa em 2010 (inédita no Brasil), tem uma trama mais parecida com a de "Segundo Sol". A vilã, empresária de uma cantora famosa, arma para que ela morra prevendo lucrar com sua morte. Seu paralelo em "Segundo Sol" é Laureta (Adriana Esteves), que alia-se a Remy e Karola. A cantora da trama mexicana, que para todos os efeitos está morta, assume a identidade de uma prima e observa de longe a comoção que sua morte causou no povo da cidadezinha de Zacatillo (do título).

O mais sensacional é perceber o quanto a história de "Zacatillo" remete a… "Roque Santeiro"! Além de a cidade mexicana que dá nome à novela ser uma espécie de Asa Branca, repleta de tipos curiosos e divertidos, uma equipe de cinema chega ao local para filmar a vida da tal cantora que todos acham que morreu. Tal qual em "Roque".

Plágio? Claro que não! Arquétipos, inspiração ou mera coincidência. Existe em dramaturgia a máxima de que novela é a arte de contar uma mesma história, só que de maneira diferente. Essa cadeia de mesclas, referências e inspirações levanta a questão do que é realmente original. Existe ainda uma história que não foi contada?

Em tempo, a trama do filme "Póstumo" também remete à novela "Selva de Pedra" (de 1972), na parte em que a artista plástica Simone (Regina Duarte), dada como morta, reaparece sob o disfarce de uma irmã. Mas a própria "Selva de Pedra" não era uma ideia original, foi inspirada no filme "Um Lugar ao Sol" (de 1951). Que por sua vez foi inspirado no romance "Uma Tragédia Americana" (publicado em 1925). E por aí vai.

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Sobre o autor

Nilson Xavier é catarinense e mora em São Paulo. Desde pequeno, um fã de televisão: aos 10 anos já catalogava de forma sistemática tudo o que assistia, inclusive as novelas. Pesquisar elencos e curiosidades sobre esse universo tornou-se um hobby. Com a Internet, seus registros novelísticos migraram para a rede: em 2000 lançou o site Teledramaturgia (http://www.teledramaturgia.com.br/), cujo sucesso o levou a publicar o Almanaque da Telenovela Brasileira, em 2007.

Sobre o blog

Um espaço para análise e reflexão sobre a produção dramatúrgica em nossa TV. Seja com a seriedade que o tema exige, ou com uma pitada de humor e deboche, o que também leva à reflexão.