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Blog do Nilson Xavier

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50 anos da Pequena Órfã: traumatizada, atriz mirim teve que sair da novela

Nilson Xavier

02/07/2018 00h46

Patrícia Aires e Dionísio Azevedo no filme da Pequena Órfã

Há 50 anos, estreou um clássico da televisão: a novela "A Pequena Órfã", exibida pela TV Excelsior entre julho de 1968 e maio de 1969.

Você conhece essa história: menina órfã, carente e graciosa que é maltratada por uma megera e encontra carinho nos braços de um bondoso velhinho. Poderia ser mais uma novela infantil do SBT com texto mexicano importado. Mas é uma história brasileira, criada pelo novelista Teixeira Filho (1922-1984). A menina era Toquinho, vivida pela então garotinha Patrícia Aires (filha do ator Percy Aires). A malvada era Elza, papel de Riva Nimitz. E o velhinho, chamado de Gui, era o ator Dionísio Azevedo, que também dirigia a novela.

Essa história inspirou, pelo menos, duas novelas posteriores. Em 1993, a trama da menina carente foi adicionada à espinha dorsal da novela "Sonho Meu", produzida pela Globo, com Carolina Pavanelli (a menina), Nívea Maria (a megera) e Elias Gleizer (o velhinho). Em 2005, foi a vez da Record adaptá-la, dentro da novela "Prova de Amor": Júlia Magessi (a menina), Vanessa Gerbelli (a megera) e Rogério Fróes (o velhinho).

A repercussão de "A Pequena Órfã" foi tanta que levou a concorrência, na época, a investir no filão dramático da criança abandonada ou carente. No rastro do sucesso de Toquinho vieram: "Ricardinho, Sou Criança, Quero Viver" na Bandeirantes (em 1968); "Sozinho no Mundo", "O Doce Mundo de Guida" e "Meu Pé de Laranja Lima" na Tupi (entre 1968 e 1971); e "Tilim" e "Pingo de Gente" na Record (entre 1970 e 1971).

Patrícia Aires não foi até o fim da trama. Então com apenas cinco anos, a menina trabalhava cinco, seis dias por semana, quando o combinado inicial com seus pais era de dois dias semanais. Patrícia acabou desenvolvendo estafa e anemia e perdeu peso. Devido a isso, seus pais a tiraram da novela. Do passado nos estúdios de televisão, ela não guarda boas lembranças. Patrícia atuou em outras produções, mas ainda criança desistiu da carreira de atriz. Para o UOL, ela declarou em 2014: "A Pequena Órfã foi a novela que mais me traumatizou".

As outras versões: "Sonho Meu" na Globo e "Prova de Amor" na Record

De acordo com reportagem publicada na revista Veja de 25/09/1968, Percy Aires alegou que tirou a filha da novela pois estavam fazendo-a trabalhar além do estipulado pelo contrato e além disso a machucaram numa cena mais bruta, onde ela levou um tapa, caiu e machucou o rosto e a boca. O diretor Dionísio de Azevedo rebateu alegando que Percy tirou a filha da novela para assinar um contrato mais vantajoso em outra emissora (a Record, da qual Percy era contratado), e que ainda levou um automóvel Galaxie de brinde.

Para substituir Patrícia Aires na novela, foi chamada a garota goiana Marize Ney, parecida com a intérprete mirim, só que três anos mais velha que ela. O autor resolveu o problema com uma passagem de tempo.

Grande destaque para a atriz Riva Nimitz ao interpretar a vilã Elza, que maltratava Toquinho. As atitudes da megera eram risíveis: ela era meio maluca e seus dramas, na verdade, estavam ligados ao fato de não ser mãe. A atriz dizia que por muito tempo foi lembrada pela personagem. E que, na época da novela, o nome Elza virou jargão entre as mães: se os filhos não comiam ou eram irresponsáveis na escola, elas ameaçavam "Olha que eu te levo para a Dona Elza!"

A Globo reprisou "A Pequena Órfã" em 1971, após a extinção da TV Excelsior. Na nova abertura feita para esta reapresentação, podia-se ver a então menina Glória Pires (com 8 anos) em uma de suas primeiras aparições na televisão.

Em 1973, o cineasta Clery Cunha filmou a versão cinematográfica da novela da Excelsior, com o mesmo elenco base. Patricia aceitou fazer o filme se ganhasse um presente: "Quando eu tinha 9 anos me chamaram para fazer o filme da Pequena Orfã. O meu pai me perguntou se eu queria, e eu disse: 'Quero, mas só se eu ganhar um mini-bug'".

AQUI tem tudo sobre "A Pequena Órfã": trama, elenco, personagens e mais curiosidades.

Fotos: divulgação.
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Sobre o autor

Nilson Xavier é catarinense e mora em São Paulo. Desde pequeno, um fã de televisão: aos 10 anos já catalogava de forma sistemática tudo o que assistia, inclusive as novelas. Pesquisar elencos e curiosidades sobre esse universo tornou-se um hobby. Com a Internet, seus registros novelísticos migraram para a rede: em 2000 lançou o site Teledramaturgia (http://www.teledramaturgia.com.br/), cujo sucesso o levou a publicar o Almanaque da Telenovela Brasileira, em 2007.

Sobre o blog

Um espaço para análise e reflexão sobre a produção dramatúrgica em nossa TV. Seja com a seriedade que o tema exige, ou com uma pitada de humor e deboche, o que também leva à reflexão.