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Blog do Nilson Xavier

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Cansativa como série, "Ilha de Ferro" teria sido um excelente filme de ação

Nilson Xavier

19/11/2018 23h02

Maria Casadevall e Cauã Reymond (foto: Raphael Dias/TV Globo)

"Ilha de Ferro", a nova série da Globoplay (primeiro episódio exibido na Tela Quente nesta segunda, 19/11), é um primor de técnica e direção. Mas sofre de dois males que têm origem no roteiro, muito comuns em séries (nacionais e estrangeiras).

Primeiro é a sensação de que não acaba nunca! São 12 longos episódios de 50 minutos de duração cada (em média) em que trama e personagens vão sendo maturados para tudo ser resolvido nos dois últimos capítulos. É o padrão de uma série, mas o roteiro precisa de fôlego para render tanto tempo. Essa crítica vale também a várias produções de fora (Netflix, HBO, Fox, etc). No caso de "Ilha de Ferro", o roteiro vai desenrolando histórias paralelas que pouco (ou nada) contribuem para a trama principal.

A trama: Dante (Cauã Reymond) e Júlia (Maria Casadevaal) trabalham em uma plataforma de petróleo em alto mar. Ela assume o posto de direção que ele almejava. O conflito maior está armado. Alguns trabalhadores da unidade têm tramas próprias, mostradas em episódios separados. O foco é sempre a hostilidade no ambiente inóspito, quase brutal, em contraponto com os dramas pesados que cada um traz de fora (da vida no continente).

Outro fator que contribui para a sensação de arrasto é a atmosfera pesada. "Ilha de Ferro" não é de fácil digestão. Não há alívio cômico ou romântico (Dante e Júlia até se pegam, mas a rivalidade é o mais importante). A tensão constante, o clima hostil e o terror psicológico a que os personagens são submetidos só dão alguma trégua ao espectador por meio dos devaneios imagéticos da direção, traduzidos nos sonhos, pesadelos e lembranças dos personagens e nas "viagens" de drogas e álcool .

Cauã Reymond, Sophie Charlotte e Klebber Toledo (foto: Raphael Dias/TV Globo)

O segundo problema de "Ilha de Ferro": as pirotecnias da direção, que ejetam algum alívio ao peso dos dramas dos personagens, também servem para camuflar a escassez do roteiro. Bem produzida, "Ilha de Ferro" tem uma proposta estética interessante, que remete a trabalhos "autorais" de consagrados diretores de cinema. Mas o roteiro parece não acompanhar tanto apuro estético. Fica parecendo que a direção tenta preencher os buracos da trama com algum exibicionismo técnico. Lembrei da novela "Deus Salve o Rei", recente produção da Globo: belíssima tecnicamente falando, mas com uma história que não se sustentava.

"Ilha de Ferro" foi criada por Max Mallmann (morto em 2016, com trabalho nas séries "Carga Pesada" e "A Grande de Família" e na novela "Coração de Estudante"), escrita por ele e Adriana Lunardi, com direção artística e geral do cineasta Afonso Poyart (dos filmes "Eu te Darei o Céu", "Dois Coelhos", "Presságios de um Crime" e "Mais Forte que o Mundo"), e direção de Roberta Richard e Guga Sander.

PS1: Os dois últimos episódios são eletrizantes, dignos das melhores produções de ação do cinema americano. Como série pretensamente dramática, "Ilha de Ferro" termina em um excelente filme ação. A segunda temporada está sendo gravada, como informa Flávio Ricco.

PS2: Entre tantos personagens-clichê de blockbusters hollywoodianos (Cauã Reymond e Maria Casadevaal são praticamente super-heróis do cinema), merece destaque o trabalho de Sophie Charlotte, como Leona, a mulher de Cauã na trama. Despida de qualquer vaidade (e ainda assim bela), Sophie tem aqui o seu melhor desempenho na televisão. Pena que não continuará na série.

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Sobre o autor

Nilson Xavier é catarinense e mora em São Paulo. Desde pequeno, um fã de televisão: aos 10 anos já catalogava de forma sistemática tudo o que assistia, inclusive as novelas. Pesquisar elencos e curiosidades sobre esse universo tornou-se um hobby. Com a Internet, seus registros novelísticos migraram para a rede: em 2000 lançou o site Teledramaturgia (http://www.teledramaturgia.com.br/), cujo sucesso o levou a publicar o Almanaque da Telenovela Brasileira, em 2007.

Sobre o blog

Um espaço para análise e reflexão sobre a produção dramatúrgica em nossa TV. Seja com a seriedade que o tema exige, ou com uma pitada de humor e deboche, o que também leva à reflexão.