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Blog do Nilson Xavier

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"Sob Pressão" encerra a 2ª temporada como um dos melhores produtos da TV

Nilson Xavier

11/12/2018 07h00

Júlio Andrade e Marjorie Estiano (foto: reprodução)

Uma das produções artísticas mais bem realizadas de nossa televisão, a série "Sob Pressão" exibiu na terça-feira (11/12) o penúltimo episódio de sua segunda temporada. A qualidade do texto, direção, produção e atuação do elenco a põe em um patamar superior a muitas já feitas até aqui. Exibida em horário nobre na TV aberta, "Sob Pressão" é ainda um ótimo cartão de visitas do Globoplay. Não quer ficar preso aos episódios semanais na grade engessada? Dá para maratonar na plataforma on demand. E como vale a pena! Mesmo não sendo adepto do binge watching, eu "devorei" a segunda temporada em três dias.

Dava para citar separadamente cada uma das características que fazem "Sob Pressão" tão especial. Vou tentar colocar de uma forma, digamos, pessoal. Não sou da área de saúde. O pouco que conheço desse universo se restringe a uma realidade que nem é a mostrada na série. Fiquei, em muitos momentos, tocado com os dramas que vão se acumulando a cada episódio, com cada momento de desespero dos que vão parar naquele hospital tão carente. Mérito da série em conduzir tramas e personagens de forma envolvente.

Fernanda Torres (foto: reprodução)

Nesta temporada, o roteiro fez um contraponto entre os momentos de dor e a dedicação de profissionais heróis com o que podemos chamar de "lado negro da força", escancarado na corrupção presente na saúde pública, por meio de negociatas e interesses pessoais e financeiros que passam por cima de vidas humanas sem a menor cerimônia. Neste cenário, destacou-se Renata (Fernanda Torres como você nunca viu na televisão), que substituiu o bom e velho Dr. Samuel (Stepan Nercessian) na diretoria do hospital.

Em concordância com a proposta realista da direção, o texto de "Sob Pressão" não é nada maniqueísta. Mescla a dureza do dia a dia de uma emergência médica carente com a sutileza das histórias lá ambientadas. O arco dramático segue os dramas pessoais dos médicos Evandro (Júlio Andrade) e Carolina (Marjorie Estiano), heróis humanos, semideuses cheios de fraquezas, em concordância com os pacientes que eles atendem. Muito bonito o episódio da devolução das alianças.

Nem a vilã Renata é tão vilã assim. Ou, pelo menos, o roteiro não a entrega de forma tão mastigada. Renata vai se corrompendo gradativamente até desfalcar sua humanidade. A série desperta no telespectador a dúvida de Renata: só a Justiça ou quem é absolutamente incorruptível pode julgá-la friamente. O vilão, a bem da verdade, é o sistema. A engrenagem burocrática deveria existir para gerir vidas humanas, mas o diabinho da corrupção as negligencia em nome de interesses políticos e financeiros.

Foto: reprodução

A direção e produção de elenco estão de parabéns: um show de atuação, não só do elenco fixo (Júlio, Marjorie, Stepan, Fernanda, Pablo Sanábio, Bruno Garcia e outros), mas também dos atores que participam dos episódios isolados. Gosto de citar os responsáveis pelo texto e direção: de Jorge Furtado, "Sob Pressão" é produzida em parceria com a Conspiração, escrita por Lucas Paraizo, André Sirangelo, Antônio Prata e Marcio Alemão, com direção de Mini Kerti e Andrucha Waddington e direção artística de Andrucha Waddington.

"Sob Pressão" joga uma luz neste momento em que a Globo vislumbra um futuro de concorrência de igual para igual com as fortes do streaming (Netflix, HBO, Amazon, etc). É um produto ideal para fisgar o público ainda resistente à Globoplay. Claro que a emissora já apresenta um cardápio bastante variado em sua plataforma. Mas só poderá bater de frente com as aclamadas produções internacionais se dispor de produtos à altura, como este.

"Sob Pressão" tem o apelo das grandes séries de fora somado à algo que o público daqui consegue identificar. Não se trata de uma produção que copia um modelo estrangeiro ou feita para agradar os gringos. É um produto que dialoga com uma realidade que conhecemos, com a qual temos maior ou menor familiaridade.

Leia também: Stycer, "Sob Pressão pode terminar após a terceira temporada, em 2019".

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Sobre o autor

Nilson Xavier é catarinense e mora em São Paulo. Desde pequeno, um fã de televisão: aos 10 anos já catalogava de forma sistemática tudo o que assistia, inclusive as novelas. Pesquisar elencos e curiosidades sobre esse universo tornou-se um hobby. Com a Internet, seus registros novelísticos migraram para a rede: em 2000 lançou o site Teledramaturgia (http://www.teledramaturgia.com.br/), cujo sucesso o levou a publicar o Almanaque da Telenovela Brasileira, em 2007.

Sobre o blog

Um espaço para análise e reflexão sobre a produção dramatúrgica em nossa TV. Seja com a seriedade que o tema exige, ou com uma pitada de humor e deboche, o que também leva à reflexão.