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“Os Dez Mandamentos” é formal demais para uma novela, mesmo sendo bíblica
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Nilson Xavier

Roger Gobeth e Samara Felippo e o pequeno Moisés recém-nascido (Foto: TV Record/Divulgação)

Roger Gobeth e Samara Felippo e o pequeno Moisés recém-nascido (Foto: TV Record/Divulgação)

Substituir a novela “Vitória” não parece tarefa fácil para “Os Dez Mandamentos”, a nova produção da Record que estreou nesta segunda-feira (23/03). “Vitória”, escrita por Cristianne Fridman (que tem no currículo bons trabalhos na emissora, como “Chamas da Vida” e “Vidas em Jogo”), amargou uma pífia audiência e pouca repercussão. Em várias ocasiões ficou em terceiro lugar, perdendo para o SBT.

Nem histórias interessantes – que abordavam neonazismo, alcoolismo e Mal de Alzheimer -, tampouco as interpretações marcantes de Juliana Silveira, Lucinha Lins e Beth Goulart, conseguiram despertar interesse no público. De nada adiantou alfinetar a concorrente no horário na Globo, “Em Família”, chamando-a de salada de chuchu sem gosto. Não que “Em Família” não fosse. Se ela fez feio, imagina “Vitória”!

Entretanto, a “primeira novela bíblica da TV”, como foi vendida “Os Dez Mandamentos”, chega com algumas vantagens. A primeira é o horário de exibição. Diferente de “Vitória”, que batia de frente com a principal novela da Globo, a nova atração começa mais cedo, às 20h30, após o jornalístico “Cidade Alerta”, herdando já a audiência dele.

A outra vantagem é a temática religiosa, que já faz parte do DNA da emissora. A Record tem seu público cativo de minisséries bíblicas, e apostar nesse filão em uma atração diária e de longa duração, como a telenovela, chega a ser uma vantagem em cima dos folhetins contemporâneos anteriores.

A autora é a experiente Vívian de Oliveira, que integrou a equipe de roteiristas das minisséries “A História de Ester”, “Rei Davi”, “José do Egito” e “Milagres de Jesus”, entre 2010 e 2014. O diretor é outro experiente: Alexandre Avancini. O elenco é bom, de atores conhecidos da casa. Para contar a saga de Moisés (Enzo Simi/Guilherme Winter) em formato de telenovela, a autora promete incorporar à história bíblica tramas folhetinescas, envolvendo conflitos familiares, luta pelo poder, traições, inveja, ódio e amores proibidos. Até aí, nenhuma novidade, já que a Bíblia está repleta de histórias assim, que dariam ótimas novelas. Não é exagero afirmar que as histórias bíblicas são os ancestrais dos folhetins.

O primeiro capítulo foi ágil, exibindo bonitos cenários. Samara Felippo destacou-se. A atriz vive Joquebede, a mãe biológica de Moisés nessa primeira fase. ZéCarlos Machado (de “Sessão de Terapia”) também, ele é o faraó Seti I, que quer dar cabo aos bebês hebreus. O problema foram os nomes egípcios pronunciados pelo elenco, de difícil compreensão neste primeiro momento.

Já que a proposta era distanciar das minisséries para aproximar das novelas, teria sido interessante a inserção de legendas na tela apresentando os nomes dos personagens. Deixava tudo menos formal. A formalidade está ainda nos diálogos, declamados, empostados. Remete aos melodramas antigos. Tudo bem que é uma produção bíblica, existe o caráter épico. Mas é novela – brasileira – acima de tudo. Quem sabe seja interessante trazer o texto (e a produção como um todo) para a informalidade da telenovela contemporânea. Claro que ninguém vai sair falando gírias modernas, não é isso!

Um puxão de orelha na Record: a primeira novela bíblica brasileira foi exibida em 1968, pela TV Tupi e se promovia da mesma forma que “Os Dez Mandamentos” da Record: por ser “a primeira novela bíblica da TV brasileira”. Era “O Rouxinol da Galileia”, escrita por Júlio Atlas, que estreou na Semana Santa de 1968 e encenou a Paixão de Cristo. No elenco, tinha Lima Duarte, Vida Alves, Laura Cardoso, Patrícia Mayo, Paulo Figueiredo, Wilson Fragoso, Rildo Gonçalves e outros.


Relembre a carreira de Cláudio Marzo, galã da era de ouro da televisão
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Nilson Xavier

marzo

Cláudio Marzo e Regina Duarte em “Véu de Noiva'', 1970 (Foto: Internet)

Perdemos mais um galã da era de ouro de nossas novelas (e da televisão). Cláudio Marzo recusava o título de galã, apesar dos vários papeis seguidos que o popularizaram como tal, entre 1965 e 1974, contracenando, principalmente, com Regina Duarte. E, de fato, Marzo era mais que um galã. Era ator dos bons. Por isso, tão requisitado. E, por isso, tão exigente com seus papeis. Conhecido pelo temperamento difícil, o ator cansou-se dos mocinhos de novelas e deixou uma lacuna na TV na segunda metade da década de 1970.

No cinema foram 35 filmes, entre eles “Se Segura Malandro”, “A Dama do Lotação”, “Pra Frente Brasil”, “Parahyba Mulher Macho”, “Fonte da Saudade”, “Fulaninha”, “Perfume de Gardênia”, “O Homem Nu”, “A Casa da Mãe Joana”. Na TV foram quase quarenta participações entre novelas e minisséries. Marzo foi um dos primeiros atores contratados pela recém criada TV Globo, em 1965. O primeiro papel foi Augusto na versão televisiva do romance “A Moreninha”, de Joaquim Manuel de Macedo, com Marília Pêra no papel principal. Seguiram-se os heróis galantes das novelas rocambolescas comandadas por Glória Magadan na Globo: “Eu Compro Esta Mulher”, “O Sheik de Agadir”, “A Rainha Louca”, “Sangue e Areia”, “A Grande Mentira” e “A Última Valsa”, entre 1966 e 1969.

Véu de Noiva”, escrita por Janete Clair entre 1969 e 1970, foi a primeira novela da emissora carioca a explorar a realidade brasileira e mostrar o Rio de Janeiro contemporâneo. Marcou o rompimento com os melodramas de Magadan. Marzo protagonizou a história com Regina Duarte, que estreava na Globo. Ele era o piloto de corridas Marcelo Montserrat. A Fórmula 1 começava a ter amplo destaque pela mídia na época e seu personagem ajudou a popularizar o esporte.

Naqueles tempos, os atores emendavam um trabalho no outro. Marzo e Regina, após o grande êxito de “Véu de Noiva”, atuaram, na sequência, em “Irmãos Coragem”, também de Janete Clair, e “Minha Doce Namorada”, de Vicente Sesso. Ele foi um os irmãos Coragem, Duda, o jogador do Flamengo, cartada certeira de Janete em pleno ano em que a seleção brasileira conquistou o tricampeonato no México. Marzo e Regina saíram antes do término da novela para estrelar a nova produção das sete, “Minha Doce Namorada”, em que ele viveu o estudante Renato.

Procurando já um caminho diferente para sua imagem de galã romântico, Cláudio Marzo apareceu cabeludo e barbudão, todo sujo, como o mecânico Demétrius, o Grego, na novela “O Bofe” (1972), incompreendida tentativa de Bráulio Pedroso de mexer com os alicerces da teledramaturgia. Em seguida, voltaria à linha romântica em “Carinhoso”, de Lauro César Muniz, em que viveu o sério empresário Humberto, que disputou o amor da doce Regina Duarte com o irmão playboy, vivido por Marcos Paulo.

​Em “O Espigão” (1974), de Dias Gomes, foi o ecologista Léo Simões, numa época em que Ecologia era uma palavra restrita aos meios acadêmicos e científicos. Dias Gomes pôs o assunto na ordem do dia através do personagem de Marzo. Na adaptação do romance “Senhora” (1975), de José de Alencar, ele foi o dúbio Fernando Seixas, o anti-herói que se vende – literalmente – à mulher que pagar o melhor dote de casamento. Em 1976 foi escalado para viver um psicanalista que comandava terapia de casais na novela “Despedida de Casado”, de Walter George Durst, que não chegou a ir ao ar pois fora vetada pela censura do Regime Militar, por ter sido considerada “atentatória à moral e bons costumes da família brasileira“.

Foi quando Cláudio Marzo desligou-se da Globo. Retornou à novelas em 1978, na Tupi de São Paulo, para participar da inexpressiva “Roda de Fogo” (não confunda com a novela da Globo da década de 80). Passou pelo menos quatro anos longe do apelo global. Para quem emendou uma novela na outra, por mais de dez anos, isso era bastante tempo.

Em 1980, Cláudio Marzo retornou à Globo para ficar por mais dez anos. “Olhai os Lírios do Campo”, de Geraldo Vietri, às seis horas, “Plumas e Paetês”, de Cassiano Gabus Mendes, às sete, e “Brilhante”, de Gilberto Braga, às oito, que ele fez seguidas, marcaram sua volta. Em 1982, viveu um de seus melhores papeis na televisão: Jorge, que vê seu casamento com Alice (Marília Pêra) desmoronar até terminar em um crime passional, na minissérie “Quem Ama Não Mata”, de Euclydes Marinho (que o autor adaptou recentemente, exibida pela Globo como “Felizes Para Sempre?”).

Seguiram-se as novelas “Pão Pão Beijo-Beijo”, “Partido Alto”, “Cambalacho” e “Bambolê”, e a minissérie “Tenda dos Milagres” (entre 1983 e 1988). Em 1989, Marzo mudou-se para a TV Manchete, atuando em “Kananga do Japão”, para, no ano seguinte, viver outro personagem inesquecível de sua carreira: Zé Leôncio, o protagonista de “Pantanal”, de Benedito Ruy Barbosa, um dos trabalhos que mais gostou. Lembra do Velho do Rio?

Cláudio Marzo só retornou à TV em 1993, de volta à Globo (em “Fera Ferida”, de Aguinaldo Silva), de onde não desligou-se mais. Entre as décadas de 1990 e 2000, os bons personagens foram minguando. Mas a presença sempre marcante de Marzo garantiu bons trabalhos, independentemente do tamanho do papel: “Irmãos Coragem” (o remake de 1995), “Vira-lata”, “A Indomada”, “Era uma Vez”, “Andando nas Nuvens”, “Coração de Estudante”, “Mulheres Apaixonadas”, “A Lua me Disse” e “Desejo Proibido”, a última novela, em 2008. O último trabalho na TV foi uma participação na série “Guerra e Paz”, de Carlos Lombardi, em 2008.

Aliás, taí um ator que não cabia “papel pequeno”. Cláudio Marzo era uma presença grandiosa e marcante demais para passar despercebido. Poucos galãs têm essa qualidade.


Capítulo de estreia de “Babilônia” é uma verdadeira aula de roteiro
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Nilson Xavier

Glória Pires e Adriana Esteves (Foto: Divulgação/TV Globo)

Glória Pires e Adriana Esteves (Foto: Divulgação/TV Globo)

O primeiro capítulo de uma novela sempre tem a intenção de cativar o público de imediato. E quase nunca se consegue. Reza uma aula de Janete Clair que a novela só pega quando o mocinho der o beijo na mocinha em um determinado número de capítulo. Bem, assim era até a década de 70.

Hoje em dia, para uma novela pegar, depende de muito mais do que o primeiro beijo romântico na terceira semana de novela. E não existe regra. O primeiro capítulo de “Amor à Vida” causou uma verdadeira comoção. Mas a novela que se viu duas semanas depois em nada mais lembrava a estreia. A trama de Walcyr Carrasco só foi cair no gosto do público quando o vilão Félix (Mateus Solano) foi transformado num personagem cômico.

Salve Jorge”, de Glória Perez, teve em sua estreia uma brincadeirinha de voltar no tempo. Mas acabou por revelar-se uma novela das mais lineares. “Em Família”, de Manoel Carlos, perdeu toda a empolgação inicial quando passou das primeiras fases para a definitiva. Antes tivesse ficado na segunda fase. E “Império”, de Aguinaldo Silva, já vendia nas chamadas uma vilã que desbancaria Carminha (Adriana Esteves em “Avenida Brasil”). Mas Cora (Drica Moraes/Marjorie Estiano) minguou e virou uma vilã pé de chinelo.

Babilônia”, a estreia dessa segunda (16/03) – escrita por Gilberto Braga, Ricardo Linhares e João Ximenes Braga – também contou com um arsenal de atrativos com o intuito de fisgar o público. Tudo fluiu perfeitamente em um capítulo intenso e de tirar o fôlego. O público já sabe que a trama será pautada no embate entre duas vilãs: Beatriz (Glória Pires), a chique com ares de poderosa, e Inês (Adriana Esteves), a pé de chinelo rancorosa.

O que impressionou nesse primeiro capítulo foi a trama bem amarrada, bem urdida, uma verdadeira aula de roteiro, de como apresentar os principais personagens, suas características e suas histórias num primeiro capítulo. Mas nada disso teria o efeito que teve se não fosse a ótima produção (núcleo de Dennis Carvalho), como já era de se esperar, e a atuação das atrizes protagonistas, Glória Pires e Adriana Esteves.

Ouso dizer que não via Glória Pires tão bem em uma personagem desde Raquel, a gêmea vilã de “Mulheres de Areia” (de 1993). Adriana Esteves ainda carrega os tiques de Carminha? Pode ser. Mas está diferente. Não é a mesma Carminha, mesmo urrando como Carminha. Talvez ainda fosse cedo para Adriana retornar ao vídeo? Talvez. Mas vislumbro algo de diferente e conto com isso!

O restante do elenco teve pouco destaque. Camila Pitanga ainda não disse a que veio. Também é protagonista, Regina, moça humilde e honesta – claro, ascensão social e diferenças entre classes é Gilberto Braga puro. Aliás, o capítulo todo é um Gilberto Braga legítimo!

Também vimos as sempre unanimidades Fernanda Montenegro e Nathalia Timberg, com ótimas personagens, que, inclusive, escondem um segredo sobre o passado das rivais Beatriz e Inês. Mas, muito mais do que isso, formam um casal lésbico que já deixou para o público um longo e delicado beijo. Sem firulas ou falsas expectativas. Assim, na cara da sociedade. Continua desse jeito, “Babilônia”. Não faça como suas antecessoras!


Bom elenco e direção não conseguiram livrar “Império” da trama irregular
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Nilson Xavier

Comendador é morto no último capítulo (Foto: Ellen Soares/ Gshow)

Comendador é morto no último capítulo (Foto: Ellen Soares/ Gshow)

Uma novela irregular. Assim “Império” poderá ser lembrada no futuro. Aguinaldo Silva montou sua trama de altos e baixos repleta de apelos que despertaram curiosidade no público. Personagens complexos, bem dirigidos e bem interpretados (a maioria), com histórias que tinham tudo para render ótimos entrechos, enlaces e ganchos. Alguns conseguiram. Outros ficaram na promessa ou decepcionaram.

Império” terminou nesta sexta-feira, 13 de março, com o desfecho da trajetória do Comendador José Alfredo, o grande protagonista da trama. Uma brilhante caracterização de Alexandre Nero, que cumpriu a contento a missão de protagonizar, pela primeira vez, a principal novela da Globo – e produto de maior audiência da TV aberta brasileira.

Um anti-herói, amado e odiado, o Comendador foi um personagem cheio de nuances, qualidades e defeitos. Um dos melhores anti-heróis de nossa Teledramaturgia, desde Beto Rockfeller (Luiz Gustavo na novela homônima de 1968) e Carlão (Francisco Cuoco em “Pecado Capital“, 1975-1976). Pena que sua trama andou e desandou várias vezes ao longo da novela. Nas últimas semanas, o Comendador quase acabou enlouquecido, com mania de perseguição e medo da própria sombra.

Como apoio ao personagem de Nero, outra grande interpretação: Lília Cabral, que apaga de vez a sombra de Pereirão, a infeliz personagem que Aguinaldo Silva deu à atriz em “Fina Estampa”, seu trabalho anterior. Ainda que Maria Marta tivesse tido uma trajetória incerta: começou como uma dondoca arrogante e terminou bastante humanizada para quem desprezava os próprios empregados no início. Teve até reza! Mas o ótimo desempenho da atriz releva qualquer deslize no roteiro.

Infelizmente não pudemos ver Drica Moraes transformar Cora numa personagem memorável. Na pele da atriz, Cora ficou na promessa, e seu afastamento foi um corte brusco no prosseguimento da personagem. Marjorie Estiano (em substituição) trouxe uma Cora mais visceral, que, talvez, tivesse rendido bem mais se tivesse sido ela a intérprete desde o começo. No fim, Cora em nada lembra a megera das primeiras chamadas de “Império“. Apenas não morreu na praia literalmente.

Além de Maria Marta, outros personagens tiveram seguimentos que os distanciaram de suas personalidades iniciais. Ou cujos desfechos resultaram pouco coerentes com suas trajetórias. Téo Pereira (Paulo Betti), o jornalista fofoqueiro e maldoso, quem diria, fez seu mea-culpa e se transformou num “jornalista de respeito”. Enrico (Joaquim Lopez), o odioso homofóbico, passou a amar e a aceitar o pai gay, Cláudio (José Mayer), depois que este quase morreu – tudo muito repentinamente. Cláudio e Leonardo (Klebber Toledo) reataram no final – um desfecho forçado e incoerente para a história que eles haviam mostrado. Orville (Paulo Rocha), de escroque mau-caráter, regenerou-se e passou a ajudar o pintor que ludibriava (Salvador de Paulo Vilhena).

O casal de pilantras Magnólia e Severo (Zezé Polessa e Tato Gabus Mendes) parece ter se redimido depois de tantos golpes: nessa última semana, Magnólia revelou-se uma mulher até sábia (oi?), enquanto Severo, coitado, descobriu-se, de uma hora para outra, com Alzheimer. Xana (Aílton Graça), que suspirava por rapazes no início, lutou pela guarda de uma criança e, por fim, aceitou viver de boa com um casal. O mordomo Silviano (Othon Bastos), de discreto e servil, revelou-se o grande vilão da história, ensandecido em uma trama de vingança pessoal contra o Comendador que envolvia o próprio filho dele, José Pedro (Caio Blat) – a revelação de que José Pedro era o misterioso Fabrício Melgaço acabou por deixar pontas soltas e mal explicadas na trama e um desfecho bastante questionável.

Aguinaldo Silva teve muita sorte com “Império”. Trocou de diretor: deixou de lado a parceria com Wolf Maya, cujos últimos trabalhos foram pouco inspirados (“Fina Estampa”, “Lara com Z”, “Cinquentinha”, “Duas Caras”). O novo diretor de núcleo, Rogério Gomes, deu uma identidade mais sóbria à obra de Aguinaldo, que andava um tanto quanto carnavalesca. Um grande acerto.

Além da direção, o elenco foi outro fator importante para que “Império” não desandasse. Além de Alexandre Nero e Lília Cabral, merecem destaque os esforços de Leandra Leal, Drica Moraes, Marjorie Estiano, José Mayer, Suzy Rêgo, Zezé Polessa, Tato Gabus Mendes, Caio Blat, Othon Bastos e Dani Barros (a Lorraine). Paulo Betti, Paulo Vilhena e Aílton Graça dividiram opiniões. Muitos torceram o nariz para o histrionismo de Betti, como o fofoqueiro Téo Pereira, para os o exageros do pintor maluquinho Salvador (de Vilhena), e para a caracterização surreal de Aílton Graça, como Xana. Sou do time dos que defendem os três: não passam de personagens de ficção, e – guardadas as devidas proporções – até que bastante críveis.

Império” foi uma novela com uma boa direção e uma galeria de bons personagens nas mãos de um elenco afiado. Faltou um melhor desenvolvimento nas tramas desses personagens. Por isso chamá-la de irregular. Não é o Aguinaldo memorável de “Senhora do Destino”, onde quase tudo se encaixou perfeitamente. Mas, tampouco, o Aguinaldo de “Fina Estampa”, que nem o elenco conseguiu sustentar uma história tão estapafúrdia. “Império'' escapou por bem pouco.


“Sete Vidas” estreia sem atropelar o telespectador e sem fazê-lo dormir
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Nilson Xavier

Os meios-irmãos Júlia (Isabelle Drummond) e Pedro (Jayme Matarazzo) (Foto: Divulgação/TV Globo)

Os meios-irmãos Júlia (Isabelle Drummond) e Pedro (Jayme Matarazzo) (Foto: Divulgação/TV Globo)

Nada de ação e correria. A nova novela das seis, “Sete Vidas”, estreia dessa segunda (09/03), pontuou bem o tempo de suas histórias com uma apresentação comedida da trama central e principais personagens sem precisar apelar para reviravoltas mirabolantes.

De um lado, o drama de Lígia (a ótima Débora Bloch, destaque do elenco nesse primeiro capítulo), inconformada com o fim de sua relação com o esquivo Miguel (Domingos Montagner). Do outro, o casal jovem Pedro e Júlia (Jayme Matarazzo e Isabelle Drummond), que mal se conheceram e já se sentiram atraídos um pelo outro sem saberem que são meios-irmãos. Quando se apercebem do fato, corta para o capítulo de amanhã – um ótimo gancho.

A novela marca o retorno da dupla Lícia Manzo, no roteiro, e Jayme Monjardim, na direção, responsáveis pela elogiada “A Vida da Gente”, de 2011-2012. Neste trabalho anterior, a direção realista de Monjardim serviu como uma luva para o texto de Lícia. Da autora, já podemos esperar situações dramáticas complexas e profundas e muitos diálogos a dois (“personagens orelha”), pontuados pelo seu excelente texto.

Sem atropelamentos, “Sete Vidas” começa mostrando a que veio, seja pela temática (o encontro de meios-irmãos filhos de um mesmo pai, doador universal) ou pela carga dramática que esse encontro pode acarretar. As relações humanas serão o forte, e isso já ficou claro nessa estreia, no pouco que se viu do drama de Lígia e Miguel.

Sai a fantasia infanto-juvenil (“Meu Pedacinho de Chão”), sai a comédia romântica de ação (“Boogie Oogie”). É chegada a vez dos dramas humanos mais reflexivos. A julgar por “A Vida da Gente”, “Sete Vidas” promete emoção para os próximos meses. É a marca da autora. A estreia foi correta e discreta, marca do diretor – recentemente muito criticado pelo ritmo letárgico de “Em Família”, de Manoel Carlos. Contudo, Monjardim é excelente na direção de atores, principalmente quando estão em um texto inspirado e ritmado. “Sete Vidas” estreou bem: sem atropelar o telespectador e sem fazê-lo dormir.


“Boogie Oogie” disfarçou a trama batida com narrativa ágil e dinâmica
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Nilson Xavier

Bianca Bin (Vitória) e Marco Pigossi (Rafael) (Foto: Divulgação/TV Globo)

Bianca Bin (Vitória) e Marco Pigossi (Rafael) (Foto: Divulgação/TV Globo)

Rui Vilhena, o autor de “Boogie Oogie” – novela das seis que terminou nesta sexta-feira (06/03) -, estreou como autor-solo da Globo trilhando caminhos já bastante conhecidos nossos. Sua novela não trouxe absolutamente nada de novo. Pelo contrário: usou e abusou dos recursos e truques mais descarados da Teledramaturgia. Um festival sem fim de clichês folhetinescos.

Para dar suporte à batida história – que envolvia, entre outras tramas, troca de bebês na maternidade, amores não correspondidos, pais desconhecidos, diamantes roubados e segredos bombásticos – a Globo deu a “Boogie Oogie” um verniz de novidade. A novela se passava no mítico ano de 1978, em que as discotecas estouraram no país impulsionadas pelo sucesso do filme “Os Embalos de Sábado à Noite” e da novela “Dancin´ Days”. Tudo muito bonito, não fosse um certo anacronismo, com direito a músicas que nem haviam sido lançadas naquele período.

De fato, a Era Disco ficou apenas na ambientação, na trilha sonora nostálgica, em alguns carros, roupas, penteados e objetos de cena. Só. Os assuntos em voga daquele momento passaram ao largo. Não houve aprofundamento algum ao tratar a emancipação feminina, a ditadura do Regime Militar e a Anistia, ainda que a novela tivesse representantes entre os personagens: a submissa Beatriz (Heloísa Périssée), o militar Elísio (Daniel Dantas) e o jornalista Paulo (Caco Ciocler).

Como bem escreveu Maurício Stycer em seu texto sobre a novela (leia completo AQUI), “Boogie Oogie” podia se passar em qualquer época. O fato de ser ambientada no final dos anos 1970 fez parte da embalagem bonita que escondia uma trama batida e requentada.

Entretanto, Rui Vilhena teve um grande mérito: a capacidade de contar velhas histórias de forma extremamente ágil e dinâmica. A novela, repleta de diálogos rápidos e cenas curtas, foi se atropelando nos acontecimentos, mal dando tempo para o telespectador respirar. Um mérito e tanto se considerarmos que enfrentou as festas de fim de ano e todo o horário de verão (o que prejudica muito a audiência). E também que é necessário um certo malabarismo do novelista para manter o público preso à sua obra, diante de tantas outras opções de entretenimento ou da iminência de se trocar de canal ou desligar a TV.

Lamenta-se apenas a irritante repetição de frases nos diálogos (reiteração), como recurso fácil para fixar uma ideia no telespectador, o que empobrece a narrativa. E a perda de agilidade na trama a partir do quinto mês. A história inicial de “Boogie Oogie” já havia sido contada, restando apenas a enrolação do tal “segredo de Carlota”, que transformou a novela num pastiche policial. Acabou acontecendo o que se temia no início: o autor não teve fôlego para manter o ritmo ágil inicial por sete meses seguidos. É de se questionar se a novela foi mal planejada, o que fez com que o autor gastasse todos os cartuchos nos primeiros cinco meses, deixando pouco para os últimos. Ou se já está na hora de nossos folhetins serem mais curtos.

No elenco, o casal romântico central – Ísis Valverde e Marco Pigossi – exalou química em cena. Bianca Bin, a antagonista, conseguiu dar personalidade à sua Vitória, seja pelo gestual ou caracterização. Fabíula Nascimento (a megera Cristina) e Heloísa Périssé (a “amélia” Beatriz) também merecem citação, por tipos inéditos em suas carreiras na televisão. Do elenco jovem, o grande destaque foi Giovanna Rispoli, como a espevitada Cláudia.

Giulia Gam viveu a sua maior vilã na TV – ainda que “problemas de bastidores” a tenham mantido afastada por um tempo. Foi quando a atriz foi substituída por Joana Fomm, que andava sumida da televisão. Foi ótimo revê-la, assim como os veteranos Francisco Cuoco, Betty Faria e Pepita Rodriguez. Lamenta-se apenas um papel tão insignificante para Zezé Motta.

Uma embalagem atraente, um bom elenco, um texto afiado (ainda que repetitivo), cenas rápidas e agilidade na narrativa disfarçaram bem uma trama que parecia mais uma homenagem ao gênero telenovela, tamanha a quantidade de clichês folhetinescos. Ou, pelo menos, disfarçaram por algum tempo. Uns cinco meses.


Novela “Fera Ferida” substitui “O Dono do Mundo” no canal Viva
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Nilson Xavier

José Wilker, Juca de Oliveira e Lima Duarte em "Fera Ferida" (Foto: Divulgação/TV Globo)

José Wilker, Juca de Oliveira e Lima Duarte em “Fera Ferida'' (Foto: Divulgação/TV Globo)

O canal Viva já tem uma substituta para “O Dono do Mundo”, na faixa da meia-noite. Depois de anunciar a volta de “Despedida de Solteiro”, no lugar de “Tropicaliente” (em julho, às 15h30), a nova reprise será “Fera Ferida”, que estreia em junho, à meia-noite. Novamente uma trama de Aguinaldo Silva, já que atualmente (às 14h30) vai ao ar “Pedra Sobre Pedra”, também do autor. Tanto “Despedida de Solteiro” quanto “Fera Ferida” haviam sido opções em enquetes anteriormente promovidas pelo site do canal.

Fera Ferida” foi ao ar, originalmente, entre novembro de 1993 e julho de 1994, com uma reprise no “Vale a Pena Ver de Novo” entre 1997 e 1998. Baseada na obra do escritor Lima Barreto (1811-1922), a novela foi escrita por Aguinaldo Silva com a parceria de Ana Maria Moretzsohn e Ricardo Linhares, e direção geral de Dennis Carvalho e Marcos Paulo.

Na trama, Feliciano Júnior (Edson Celulari) retorna à cidadezinha de Tubiacanga para se vingar dos responsáveis pela morte de sua família, no passado, quando era criança. Seus pais morreram ao serem escorraçados da cidade por conta de uma intriga política envolvendo os poderosos do lugar.

Feliciano, já adulto, esconde-se na pele do alquimista Raimundo Flamel e aguça a cobiça dos mandachuvas de Tubiacanga ao prometer transformar ossos em ouro. Lembra das “camisas Flamel”, de manga comprida, sem gola? Usadas pelo personagem de Edson Celulari, elas ganharam as ruas e viraram moda em 1993.

Os autores criaram uma gama de personagens caricatos e atraentes, ora cômicos ora dramáticos, que caíram no gosto do público, em histórias envolventes e com apelo surreal, típico da obra de Aguinaldo Silva na época. Entre eles, a fogosa Rubra Rosa (Susana Vieira) casada com o vereador Numa Pompílio de Castro (Hugo Carvana) mas de caso com o prefeito Demóstenes (José Wilker), inimigo político de seu marido. Eram de autoria dela os discursos inflamados do prefeito atacando a oposição.

Ganhou destaque também a cômica Ilka Tibiriçá, vivida por Cássia Kis Magro (ainda Cássia Kiss), uma solteirona sensível, cheia de trejeitos engraçados, de visual anos sessenta, com fixação pelo filme “O Candelabro Italiano” (1962, de Delmer Daves), sempre embalada pela canção “Al Di Lá”, tema do filme e da personagem na novela. Ilka vai tentar ajudar o namorado Ataliba Timbó (Paulo Gorgulho) a resolver o seu probleminha de impotência sexual com receitas de pratos exóticos – uma atração à parte dentro da novela.

Fera Ferida” foi a primeira novela de Murilo Benício, Camila Pitanga e Carolina Dieckmann, então jovens atores desconhecidos na época. No elenco, também Giulia Gam, Lima Duarte, Joana Fomm, Juca de Oliveira, Vera Holtz, Cláudio Marzo, Arlete Salles, Cláudia Ohana, Marcos Winter, Luiza Tomé, Otávio Augusto, Cláudia Alencar, Deborah Evelyn, Ewerton de Castro, Giuseppe Oristânio e outros.

Fera Ferida” volta no Viva em junho, à meia-noite (com reprise no dia seguinte, às 13h30).

Saiba tudo sobre “Fera Feridano site Teledramaturgia.


Sucesso de “O Rei do Gado” aponta opção do público por novelões clássicos
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Nilson Xavier

Patrícia Pillar como a sem-terra Luana em "O Rei do Gado" (Foto: Divulgação/TV Globo)

Patrícia Pillar como a sem-terra Luana em “O Rei do Gado'' (Foto: Divulgação/TV Globo)

O Rei do Gado”, quem diria, está fazendo o maior sucesso no “Vale a pena Ver de Novo”. É de se espantar se considerarmos que esta é a sua terceira reprise e a última foi há apenas quatro anos. A novela foi originalmente exibida entre 1996 e 1997, e reprisada em 1999 e em 2011 (esta última, no canal Viva).

Os índices de audiência à tarde fizeram com que a Globo espremesse as demais atrações vespertinas (“Vídeo Show” e “Sessão da Tarde”) para aumentar o tempo de duração do capítulo. A novela repercute inclusive nas redes sociais. A sessão “Vale a Pena Ver de Novo” vinha sofrendo com baixos resultados. A tão esperada (e pedida) reprise de “Cobras e Lagartos” (a atração anterior) decepcionou.

Há quatro anos, a Globo entendeu o que o SBT já sabia há tempos. As pessoas gostam de ver de novo e de novo. A “re-reprise” era um recurso pouco usado no “Vale a Pena Ver de Novo”. Com o sucesso dos repetecos das novelas “xicanas” à tarde no SBT, a Globo resolveu fazer o mesmo: exibir tramas que já haviam sido reprisadas.

Nos últimos quatro anos, a volta de “O Clone”, “Mulheres de Areia”, “Chocolate com Pimenta”, “Da Cor do Pecado” e “O Cravo e a Rosa” foram relativamente bem. Mas a única que havia chegado perto do bom Ibope atual de “O Rei do Gado” foi “Mulheres de Areia” (re-reprisada entre 2011 e 2012).

Traçando um paralelo entre “O Rei do Gado” e “Mulheres de Areia”, pode-se concluir porque o público não se cansa de rever essas tramas. Nem entro no mérito de serem produções de primeira linha, com elencos estelares e textos inspirados. Também não engrosso o coro batido de que “as novelas antigas eram melhores” – produções boas e ruins houve em todos os tempos.

Entretanto, além de serem mais antigas, estas são “novelões” por excelência. Clássicos da teledramaturgia nacional, são histórias que povoam o nosso imaginário coletivo. E são de um tempo em que a televisão ainda reinava absoluta na preferência de entretenimento barato do brasileiro.

Explicando o sucesso atual de “O Rei do Gado”, Luiz Fernando Carvalho, o diretor, comentou nessa ótima entrevista concedida a Maurício Stycer.

“O público prefere uma grande história e bem contada, contextualizada. Não seria isso que eles estão sinalizando? O tema não importa tanto assim, mas que seja contado com sensibilidade e excelência.”
“(…) antes uma boa história de anos atrás do que uma novinha em folha com gosto de café requentado.”

Leia AQUI a entrevista completa.

Enquanto os saudosistas matam a saudade, os mais novos ficam conhecendo histórias que ouviam falar desde sempre. Assim como um conto de fadas, nossas novelas são universais e atemporais. Isso explica também o sucesso do canal Viva, especializado no acervo da TV Globo.

No ano de 2015, a emissora comemora seu Cinquentenário. A volta de “O Rei do Gado” foi anunciada como parte da festividade. Tomara que a Globo entenda essa repercussão toda e estenda por mais tempo a celebração, trazendo de volta outros títulos consagrados como “Vale Tudo”, “Tieta”, “O Salvador da Pátria”, “Baila Comigo”, “Pai Herói”…

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“Boogie Oogie” chega ao fim sem conseguir manter a agilidade inicial
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Nilson Xavier

Giulia Gam e o "segredo de Carlota" (Foto: Divulgação/TV Globo)

Giulia Gam e o “segredo de Carlota'' (Foto: Divulgação/TV Globo)

Aconteceu o que tanto se temia. A novela “Boogie Oogie” termina em três semanas sem conseguir manter o pique do início, com o qual levou a história até mais da metade. A trama de Rui Vilhena começou causando alvoroço, pelo ritmo dinâmico com o que o autor imprimia os acontecimentos. Tinha-se a impressão de que, a cada semana, ou blocos de capítulos, a novela dava uma guinada e virava de pernas pro ar.

Rui conseguiu manter esse ritmo por pelo menos quatro meses – o que já é um feito e tanto. Vieram as festas de fim de ano e, naturalmente, a história deu uma desacelerada. Voltou com força em janeiro, mas logo perdeu o dinamismo. Hoje a trama capenga para terminar e “Boogie Oogie” em nada lembra a novela ágil de quatro meses atrás.

Segredo de Carlota blá-blá-blá segredo de Carlota blá-blá-blá segredo de Carlota
Tudo o que sobrou da história desemboca no malfadado “segredo de Carlota” – a megera interpretada por Giulia Gam. Poucas são as tramas paralelas que ainda interessam, ou que não citam “segredo de Carlota” em suas falas. Aliás, não se fala em outra coisa. É bom que o tal “segredo de Carlota” seja algo realmente contundente para justificar tanta repetição e não decepcionar o público. “Segredo de Carlota“, ponto.

Queimou na largada?
Boogie Oogie” é um ótimo exemplo de uma questão há tempos levantada por profissionais de televisão: a de que as telenovelas deveriam ser mais curtas. Rui Vilhena conseguiu contar sua história de forma satisfatória em cinco meses. A impressão que ficou é que o autor teve que espichar a trama para render um tempo a mais. Ou gastou munição: planejou mal sua estratégia, desperdiçando muito história no início.


Minisséries aproximam a TV do cinema, enquanto falta ousadia nas novelas
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Nilson Xavier

Paolla Oliveira no último capítulo de "Felizes Para Sempre?" (Foto: Divulgação/TV Globo)

Paolla Oliveira no último capítulo de “Felizes Para Sempre?'' (Foto: Divulgação/TV Globo)

A minissérie “Felizes Para Sempre?” – que terminou nesta sexta (06/02) – apresentou ao público do horário uma proposta diferenciada se considerarmos a tradicional produção televisiva. A parceria com a O2 Filmes – por consequência, a direção do cineasta Fernando Meirelles – rendeu uma atração que aproxima a TV do cinema.

Nunca foi novidade. A direção cinematográfica inspira a televisão desde a década de 1960 (por exemplo, nas superproduções da TV Excelsior, como as novelas “A Muralha” e “As Minas de Prata”). Entretanto, nas últimas décadas, com o HDTV e as novas tecnologias, temos visto crescer o número de séries e minis que buscam no cinema referências estéticas e de direção. A série americana, claro, também é “fonte inspiradora”.

O trabalho de quem dirige com o de quem escreve, em que um interfere na proposta artística do outro, tem funcionado muito bem. Haja vista que “o filme é do diretor” e “a novela é do autor”, são produtos de curta duração – as séries e minisséries – que têm apresentado resultados mais interessantes. Talvez pelo formato, que possibilita um melhor acabamento, estética e artisticamente falando.

Veja os títulos: “A Vida Como Ela É…”, em 1997, “Luna Caliente”, em 1999, “Cidade dos Homens”, em 2002, “Carandiru, Outras Histórias” e “Hoje é Dia de Maria”, em 2005, “Antônia”, em 2006, “Capitu” e “Ó Paí Ó”, em 2008, “Som e Fúria” e “Força Tarefa”, em 2009, “A Cura” e “Afinal, O Que Querem as Mulheres?”, em 2010, “Amor em Quatro Atos”, em 2011, “O Brado Retumbante” e “Subúrbia”, em 2012, “O Canto da Sereia” em 2013, “Amores Roubados”, “A Teia”, “O Caçador”, “Dupla Identidade” e “Eu Que Te Amo Tanto”, em 2014.

Na história das telenovelas, tivemos diretores que ousaram, deixaram suas influências, imprimiram suas marcas, muitas vezes inspirados no cinema. Walter Avancini fugiu do obvio e apresentou tomadas de câmera criativas na novela “Gabriela” (1975). Daniel Filho interferia diretamente no texto de Janete Clair: foi dele a decisão de matar o protagonista Carlão (Francisco Cuoco) no último capítulo de “Pecado Capital” (1976). Jayme Monjardim fez o Brasil se encantar com as belezas do pantanal mato-grossense, em tomadas lentas e bucólicas – em “Pantanal” (1990).

Luiz Fernando Carvalho casou bem sua criatividade estética com o texto emotivo de Benedito Ruy Barbosa, em novelas como “Renascer” (1993) e “Meu Pedacinho de Chão” (2014). Também cito Amora Mautner e José Luiz Villamarim, os diretores de “Avenida Brasil” (2012). Amora já havia apresentado “Cordel Encantado” (2011) e Villamarim levou para a novela “O Rebu” (2014) a parceria cinematográfica com os roteiristas George Moura e Sérgio Goldemberg e o fotógrafo Walter Carvalho, que havia rendido a mini “Amores Roubados”.

A telenovela, por ser um produto muito tradicional, ainda carece de ousadia. Os exemplos citados são bem sucedidos casos em que a mão (e a ótica) do diretor não só traduziu o texto do roteirista, como também agigantou sua ideia. Muito mais do que meros administradores de uma linha de produção, os diretores podem imprimir sua marca na obra do autor.

Desde que seja um casamento feliz. Independentemente de proposta artística ou estética, fico imaginando o que seria de “Em Família” se Manoel Carlos tivesse confiado sua novela a uma direção menos letárgica. Ou de “Império“, nas mãos de outro diretor.