Blog do Nilson Xavier

Novelas antigas de Manoel Carlos eram mais vibrantes que “Em Família”
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Nilson Xavier

Julia Lemmerttz e Natália do Valle em "Em Família" (Foto: Divulgação/TV Globo)

Julia Lemmerttz e Natália do Valle em “Em Família” (Foto: Divulgação/TV Globo)

Passada a fase de estranhamento com as idades equivocadas do elenco, já se percebe um maior ritmo na novela das nove da Globo, “Em Família”. Há quase três meses no ar, a trama de Manoel Carlos vem capengando na audiência. E, se permanecer nesse patamar, não vai escapar da pecha de “menor Ibope da história entre as novelas das nove da emissora”. Mas, será que uma agilidade maior nos acontecimentos da trama será o suficiente para despertar a audiência adormecida do horário?

Atualmente está em reprise no canal Viva outra novela de Manoel Carlos, mais antiga: “História de Amor”, originalmente exibida entre 1995 e 1996, no horário das seis. Considerado um dos melhores trabalhos de Maneco – com Regina Duarte vivendo uma das melhores Helenas do autor – “História de Amor” é um primor de novela, seja pela narrativa, pela trama, pela direção, ou por tudo isso. E a comparação com “Em Família” é inevitável. Apesar de injusta, uma vez que os tempos são outros, a audiência se comporta diferente do que era na década de 1990, e não se deve comparar uma novela inteira que ficou na memória afetiva do público com outra que está apenas começando. Mas, o autor é o mesmo.

Diferente da atual novela, “História de Amor” dá gosto de acompanhar. Algumas tramas são até parecidas, mas a maneira como são conduzidas e levadas ao público é bem diferente. Nem parecem histórias do mesmo autor. Os personagens de “História de Amor” são mais humanos que os de “Em Família” – logo, mais fácil para gerar identificação com o público. A Helena de Regina Duarte não tem nada de sofisticada. Pelo contrário, é uma mulher simples, quase desprovida de vaidade, comum. Os personagens mais pobres vivem de forma natural os dramas cotidianos da sua classe.

Esse naturalismo sempre foi a marca indelével do autor. O preço do chuchu na feira já foi citado pela Helena de Regina Duarte e pela Helena de Júlia Lemmertz. Mas quanta diferença! As Helenas de Manoel Carlos atingiram um grau de glamorização tão alto que não dá para acreditar que elas façam feira. Aliás, a Helena de “Em Família” parece ter sido plantada naquela feira para justificar o estilo do autor. Assim como Helena, os demais personagens parecem sem alma, frios, de plástico. Ou não são de fato frios, mas são conduzidos dessa forma.

Regina Duarte e Carla Marins em "História de Amor" (Foto: Divulgação/TV Globo)

Regina Duarte e Carla Marins em “História de Amor” (Foto: Divulgação/TV Globo)

Neste início de “História de Amor” (a reprise estreou no Viva há pouco mais de dois meses), duas tramas centrais se destacam: a gravidez prematura de Joice (Carla Marins), que ela e a mãe Helena (Regina Duarte) tentam esconder do pai severo, Assunção (Nuno Leal Maia); e o casamento desajustado de Carlos (José Mayer) e Paula (Carolina Ferraz), que, apesar deles serem recém-casados, já está em crise por conta da imaturidade da moça.

São dramas até corriqueiros para uma novela, mas conduzidos de forma magistral. Não tem como não vibrar ou torcer pelos personagens, que agem de forma humana, errando e metendo os pés pelas mãos, como todo mundo, sem maniqueísmos. Vale salientar aqui a direção de Ricardo Waddington, que imprime com maestria toda essa naturalidade que o texto de Manoel Carlos pede, mas com ritmo, agilidade. A novela não cansa nem é monótona. Essa mesma condução seria percebida nas tramas seguintes do autor dirigidas pelo diretor: “Por Amor” (1997-1998), “Laços de Família” (2000-2001) e “Mulheres Apaixonadas” (2003).

Jayme Monjardim, o diretor de “Em Família”, conduz a novela de forma mais contemplativa. Só que, essa direção, aliada ao texto de Maneco, resulta preguiçosa na tela, quase blasé. Também já se percebeu isso nas novelas do autor dirigidas por Jayme que vieram depois de “Mulheres Apaixonadas”: “Páginas da Vida” (2006-2007) e “Viver a Vida” (2009-2010) – por acaso, com menos repercussão que as anteriores, dirigidas por Waddington. Ou, não por acaso.

Falta carisma aos personagens de “Em Família”. Falta torcer pelos seus dramas. E falta uma mão firme para conduzir essa trama de forma mais vibrante, mais dinâmica. “Em Família” está insossa, sem graça. Fica difícil até torcer pela novela, quanto mais pelos personagens e suas histórias.


“Meu Pedacinho de Chão” pode fazer a Globo retomar sua programação infantil
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Nilson Xavier

Geytsa Garcia (Pituca) e Tomás Sampaio (Serelepe) em "Meu Pedacinho de Chão" (Foto: Divulgação/TV Globo)

Geytsa Garcia (Pituca) e Tomás Sampaio (Serelepe) em “Meu Pedacinho de Chão” (Foto: Divulgação/TV Globo)

ou Pequena História da Telenovela Infantil Brasileira

Contrariando o que se alardeou há dois anos, quando se discutia o sucesso da novela “Carrossel” no SBT, a Globo investe em programação infantil sim. É só voltar os olhos para a novela “Meu Pedacinho de Chão“, a estreia dessa semana. Por conta da inesperada repercussão de “Carrossel” (entre 2012 e 2013), chegou a ser dito, na época, que a Globo não se interessava mais por esse filão e que deixara a programação infantil para os canais pagos, já que havia tirado a “TV Globinho” de sua grade diária e estreado o canal Gloob na TV por assinatura. O SBT, um canal com tradição em programação para crianças, segue firme e forte com a substituta de “Carrossel“: o remake de “Chiquititas“, há quase um ano ar. Teledramaturgia infantil existe desde a inauguração da TV no Brasil, lá na década de 1950, seja na forma de teleteatros (como o “Teatrinho Trol“) ou seriados voltados para o universo infantil, como “Falcão Negro“, “Capitão 7” e o “Sítio do Picapau Amarelo” (de Júlio Gouveia e Tatiana Belinky).

pequenaorfaA primeira novela diária infantil de grande repercussão foi “A Pequena Órfã(foto ao lado), de Teixeira Filho, exibida na TV Excelsior entre 1968 e 1969, com a então menina Patrícia Aires como protagonista. O sucesso foi tanto que até as outras emissoras passaram a investir no gênero. Foi quando houve um boom de novelas infantis na TV brasileira, entre o final da década de 1960 e início da década de 1970: “Sozinho no Mundo” (Tupi, 1968, com Guto Franco), “Ricardinho, Sou Criança, Quero Viver” (Bandeirantes, 1968, com Dimitri Orico), “O Doce Mundo de Guida” (Tupi, 1969, com Maria Guida), “Tilim” (Record, 1970-1971, com Júlio César Cruz), “O Meu Pé de Laranja Lima” (Tupi, 1970-1971, com Haroldo Botta), “Pingo de Gente” (Record, 1971, com Elisa D´Agostino), “O Príncipe e o Mendigo” (Record, 1972, com Kadu Moliterno e Nádia Lippi).

A Tupi continuou investindo em novelas infantis nos anos 1970: “O Velho, o Menino e o Burro” (1975-1976, com Douglas Mazola), “Papai Coração” (1976, com a então menina Narjara Turetta) e “Cinderela 77” (1977, com Ronnie Von e Vanusa). A Band também explorou o apelo infantil em novelas como “Meu Pé de Laranja Lima” (duas novas versões, em 1980 e 1998), “Braço de Ferro” (1983) e “Floribella” (2005-2006). No SBT, a primeira versão de “Chiquititas“, exibida entre 1997 e 2001, foi um sucesso. Isso sem patotafalar nas novelas infantis importadas (como “Chispita“, “Vovô e Eu“, a “Carrossel” original, “Carinha de Anjo“, “Alegrifes e Rabujos” e outras).

Com o fechamento da TV Excelsior, a Globo reprisou “A Pequena Órfã“, em 1971, às 18 horas, inaugurando esse horário com novelas. Na sequência, lançou sua primeira produção própria para as seis, “Meu Pedacinho de Chão“, de Benedito Ruy Barbosa (uma coprodução com a TV Cultura de São Paulo), aproveitando no elenco a garota Patrícia Aires, a pequena órfã (na verdade, ela era filha do ator Percy Aires). Patrícia foi a Pituca da “Meu Pedacinho” original, e o garoto Aires Pinto era o Serelepe. A Globo continuou investindo em produção infantil para as seis horas naquele início da década de 1970: as novelas “Bicho do Mato” (1972) e “A Patota” (1972-1973, de Maria Clara Machado), e o seriado “Shazan, Xerife e Companhia” (reprisado às seis da tarde entre 1973 e 1974, com Paulo José e Flávio Migliaccio). Só a partir de 1975 que emissora dedicou o horário das seis para novelas adultas, com adaptações de romances clássicos da literatura brasileira.

mundodaluaA produção de dramaturgia infantil na Globo continuou com o “Sítio do Picapau Amarelo” – exibido entre 1977 e 1986, antes da novela das seis. Nesta versão do “Sítio“, Benedito Ruy Barbosa foi o roteirista responsável pelas histórias dos dois primeiros anos. Novelas com forte apelo infantil fizeram sucesso na emissora durante a década de 1980, como as de Ivani Ribeiro: “Amor com Amor se Paga” (1984, a novela do Nonô Correia, vivido por Ary Fontoura) e “A Gata Comeu” (1985). Durante a década de 1990, foram ao ar as séries “Caça Talentos” e “Flora Encantada“, estreladas por Angélica, dentro de seu programa matinal “Angel Mix“. Na sequência, veio “Bambuluá“, entre 2000 e 2001, e a nova versão do “Sítio do Picapau Amarelo“, exibida entre 2001 a 2007.

Teledramaturgia infantil de qualidade sempre existiu na TV brasileira. A TV Cultura que o diga – responsável pelos premiados “Mundo da Lua (foto acima) e “Castelo Rá-Tim-Bum“. O sucesso de “Carrossel” no SBT, entre 2012 e 2013, veio provar que as crianças estão órfãs de programas para elas no horário nobre da TV aberta. “Meu Pedacinho de Chão” pode ser um passo importante para a retomada da Globo neste segmento.


“Meu Pedacinho de Chão” estreia com proposta estética inovadora
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Nilson Xavier

Bruna Linzmeyer, a "prefessorinha" Juliana da novela (Foto: Divulgação/TV Globo)

Bruna Linzmeyer, a “prefessorinha” Juliana da novela (Foto: Divulgação/TV Globo)

Esqueçam as referências a Tim Burton, Fellini, Cao Hamburguer, Monteiro Lobato, Júlio Verne e até Dias Gomes. Quem conhece a obra do diretor Luiz Fernando Carvalho na televisão bem sabe que inovação estética parece ser sempre sua meta. Já em “Renascer” – do próprio Benedito Ruy Barbosa, de 1993 – o apuro visual fez toda a diferença. Depois vieram trabalhos como “Hoje é Dia de Maria”, “A Pedra do Reino”, “Capitu”, “Afinal, o Que Querem as Mulheres?” e “Suburbia”.

Meu Pedacinho de Chão”, a novela das seis da Globo que estreou nesta segunda, dia 7, tem tudo o que Luiz Fernando já fez e um pouco mais. O resultado na tela é lindo. Tudo parece meticuloso, calculado, pensado. Desde a tela em cinemascope nas sequências que lembram o faroeste do cinema, até os cortes com desenho animado e as imagens propositalmente desfocadas, retorcidas ou saturadas. A princípio, o exagero de cores confunde os olhos pouco acostumados. É uma explosão colorida nunca vista antes em uma novela.

Por conta de tudo isso, essa aura de novidade e inovação para o formato. “Meu Pedacinho de Chão” soa como mais um experimento. E eles são sempre bem vindos. Foi experimentando que a teledramaturgia se firmou na década de 1970 – lembram das novelas do antigo horário das dez da Globo? Esse movimento às seis horas vem acontecendo desde “Cordel Encantado”, em 2011. Propostas estéticas diversas, que já alcançaram inclusive o horário das sete, com “Além do Horizonte”, ainda no ar. A televisão e os hábitos dos telespectadores vêm mudando mais rápido do que nunca. A TV se apressa para acompanhar e se reinventar.

Direção, produção e elenco impecáveis nesta estreia, com destaque para Bruna Linzmeyer, Rodrigo Lombardi, Osmar Prado, Juliana Paes e Paula Barbosa (a Gina), todos falando caipirês. E as graciosas crianças do elenco, Geytsa Garcia (a Pituquinha) e Tomás Sampaio (o Serelepe). Benedito Ruy Barbosa, já escreveu para crianças. É dele o roteiro da versão de 1977 do “Sítio do Picapau Amarelo”, a mais famosa de todas.

O texto original de “Meu Pedacinho de Chão”, de 1971, com seu realismo em preto e branco, foi deixado para trás. A nova novela é completamente diferente. A princípio, parece que o foco são as crianças, que, certamente vão se encantar com a atração. Mas a nova “Meu Pedacinho” suscita muito mais. Os problemas do homem do campo e os temas sérios da novela original agora têm contornos caricatos. Mas a mensagem é uma só e atemporal.


José Wilker, um ator “felomenal”
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Nilson Xavier

Como Giovanni Improta de "Senhora do Destino" (Foto: Divulgação/TV Globo)

Como Giovanni Improta de “Senhora do Destino” (Foto: Divulgação/TV Globo)

Triste. Muito triste. Tristíssimo!”, diria o personagem de Wilker na novela “Renascer” (1993). Na manhã deste sábado (05/04), fomos pegos de surpresa com a notícia da morte de José Wilker. Era novo ainda (66 anos) e não se sabia de doença grave. O ator foi vítima de um infarto fulminante.

Sua voz potente e seu jeito, olhar e sorriso cínicos conferiram a Wilker uma galeria de personagens marcantes, principalmente no cinema e na televisão. Foram quase 70 filmes (desde sua estreia em “A Falecida”, em 1965), com destaque para os memoráveis “Dona Flor e Seus Dois Maridos” (1976), “Bye Bye Brasil” (1979) e “O Homem da Capa Preta” (1985). Era notória a paixão de Wilker pela Sétima Arte.

Na TV, além de casos especiais e pequenas participações gerais, foram mais de 30 novelas e 10 minisséries. José Wilker é da geração que solidificou – lá na década de 1970 – o padrão de teledramaturgia que temos hoje. Desde jovem, já era chamado para papeis importantes, como em “Bandeira Dois” (1971, de Dias Gomes) e “Os Ossos do Barão” (1973, de Jorge Andrade). Seu primeiro grande personagem já exigia uma baita responsabilidade: Dr. Mundinho Falcão em “Gabriela”, de Jorge Amado, adaptada por Wálter George Durst e dirigida por Wálter Avancini, em 1975.

Conheci José Wilker em papeis de homem sedutor, galanteador, macho alfa, em novelas como “Plumas e Paetês” (de Cassiano Gabus Mendes, 1980-1981), “Brilhante” (de Gilberto Braga, 1981-1982), “Final Feliz” (de Ivani Ribeiro, 1982-1983) e “Transas e Caretas” (de Lauro César Muniz, 1984). Mas foi com “Roque Santeiro” (de Dias Gomes e Aguinaldo Silva, 1985-1986), que o ator entrou definitivamente para o imaginário brasileiro como o mítico personagem-título, o morto que foi sem nunca ter sido e que retorna à cidadezinha de Asa Branca para passar a limpo a sua vida. Dividiu com Regina Duarte (Viúva Porcina) e Lima Duarte (Sinhozinho Malta) os louros de um dos maiores sucessos da TV brasileira.

Como Roque Santeiro (Foto: Divulgação/TV Globo)

Como Roque Santeiro (Foto: Divulgação/TV Globo)

Após uma rápida passagem pela TV Manchete (entre 1987 e 1988), onde atuou nas novelas “Corpo Santo” e “Carmem”, Wilker voltou à Globo em outro personagem memorável: João Matos de “O Salvador da Pátria” (de Lauro César Muniz, 1989). Exercitou o cinismo como Fred na comédia “Mico Preto” (1990) e ganhou mais uma pá de personagens inesquecíveis pela década de 1990 – Demóstenes em “Fera Ferida”, Belarmino em “Renascer”, Marcelo em “A Próxima Vítima”, Tião Socó em “O Fim do Mundo”, Waldomiro em “Suave Veneno”.

É dessa época também sua participação em minisséries importantes, como “Anos Rebeldes” (1992) e “Agosto” (1993). Lembrando ainda “Bandidos da Falange” (1983), “O Quinto dos Infernos” (2002), “JK” (2006) – em que encarnou o presidente Juscelino Kubitschek -, “Amazônia, de Galvez a Chico Mendes” (2007), “O Bem Amado” (2011) – recriando Zeca Diabo – e “O Brado Retumbante” (2012).

Na novela “Desejos de Mulher” (de Euclydes Marinho, 2002), viveu o divertido homossexual Ariel. Giovanni Improta foi outro marco em sua carreira. O bicheiro extravagante, que falava errado, apaixonado por Maria do Carmo (Susana Vieira) na novela “Senhora do Destino” (de Aguinaldo Silva, 2004-2005) fez tanto sucesso que foi parar nos cinemas. Vale lembrar que Wilker tinha uma química incrível com Susana Vieira, a atriz com quem mais contracenou (“Anjo Mau”, “Fera Ferida”, “A Próxima Vítima”, “Senhora do Destino”, “Duas Caras“).

Seus últimos trabalhos na TV foram em obras do autor Walcyr Carrasco. Na nova adaptação de “Gabriela” (2012) – vivendo outro personagem de Jorge Amado, o Coronel Jesuíno Mendonça -, o ator popularizou o bordão “vou lhe usar!”. Um coadjuvante que lhe rendeu uma grande interpretação. Diferente do Herbert de “Amor à Vida” (2013-2014), em que o ator entrou no meio da novela e seu personagem minguou inexpressivamente. Independentemente do tamanho do personagem (um Jesuíno ou um Herbert), José Wilker era um ator “felomenal” – diria Giovanni Improta.


Apesar da bela produção, “Joia Rara” exagerou no melodrama e nos clichês
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Nilson Xavier

José de Abreu, Mel Maia e Caio Blat (Foto: Divulgação/TV Globo)

José de Abreu, Mel Maia e Caio Blat (Foto: Divulgação/TV Globo)

É sabido que todo folhetim é calcado no melodrama e no clichê, recursos fáceis para fisgar o público. O problema é a dosagem. E “Joia Rara” foi fundo.

Nem sempre uma bela embalagem revela um conteúdo à altura. E nem sempre um conteúdo promissor satisfaz no final. São sentenças que se aplicam a “Joia Rara”, a novela das seis da Globo que terminou nesta sexta, 4 de abril. Uma produção de encher os olhos, lançada envolta a um ar de novidade, o folhetim foi se revelando pouco original ao longo dos meses, pegando pesado no melodrama e resvalando nos mais velhos e batidos clichês de nossas novelas.

Produção impecável, a trama recriou as décadas de 1930 e 1940 – tanto no Rio de Janeiro quanto no Nepal – de maneira belíssima, em cenários, figurinos e direção de arte. Fotografia caprichada e cinematográfica, direção segura da experiente Amora Mautner, trilha sonora bonita e ótimo elenco, em interpretações marcantes. Tecnicamente falando, “Joia Rara” era uma joia mesmo.

As primeiras notícias sobre a produção despertaram curiosidade: uma novela que tinha o Budismo como pano de fundo, em que uma menina era a reencarnação de um mestre budista. Nossa TV nunca havia ido aos Himalaias para mostrar essa cultura tão exótica aos olhos do brasileiro médio. Uma novidade e tanto! Ainda mais vindo do trio Thelma Guedes e Duca Rachid (no roteiro) e Amora Mautner (na direção), as responsáveis pelo sucesso da ótima “Cordel Encantado”, em 2011. Havia, sim, uma boa expectativa.

Entretanto, com o passar do tempo, “Joia Rara” foi se revelando um mais do mesmo. Muito bem feito, muito bem produzido, claro. E amparado em um elenco de primeira e alguns personagens carismáticos. Mas a trama de reviravoltas e joguinhos de gato e rato entre mocinhos e vilões foi cansando ao longo dos meses. E, parece, foi pouco para empolgar o telespectador. A novela fecha com uma média final de 18 pontos, empatando com “Lado a Lado” (do mesmo período no ano passado), a menor já registrada para o horário das seis. “Flor do Caribe”, a trama anterior, fechou com 21, e “Cordel Encantado”, havia alcançado 26 pontos em 2011 (números do Ibope da Grande São Paulo).

José de Abreu e Carmo Dalla Vecchia (Foto: Divulgação/TV Globo)

José de Abreu e Carmo Dalla Vecchia (Foto: Divulgação/TV Globo)

Apesar de ficar claro que “Joia Rara” não tinha a pretensão de difundir a doutrina budista – apenas usá-la como pano de fundo -, a novela não teve como escapar das frases feitas, de autoajuda, piegas, muitas vezes declamadas. Sensação talvez intensificada por conta do maniqueísmo dos personagens: de um lado, vilões extremamente maus, e do outro, mocinhos bons demais. Também não houve outra saída para os vilões senão a regeneração – Ernest (José de Abreu) e Silvia (Nathalia Dill) – ou a loucura – Manfred (Carmo Dalla Vecchia). Somado a isso, o excesso de melodrama na trama fez tudo soar exagerado, vários tons acima. Manfred que o diga.

A novela também foi criticada por fugir de sua cronologia. Músicas fora da época retratada foram cantadas no Cabaré Pacheco Leão. O comportamento extremamente contemporâneo de alguns personagens (principalmente femininos), também não condizia com a época da trama. Ainda que o público de hoje encontrasse respaldo em algumas temáticas atuais – como os direitos trabalhistas às mulheres -, as autoras sentiram-se à vontade para usar referências modernas em nome da liberdade criativa. “É preciso voar!”, diria Glória Perez.

Todavia, há de se destacar a direção e a garra do elenco, que conseguiram dar alguma dignidade aos exageros do roteiro. A novela teve excelentes sequências dramáticas envolvendo Bianca Bin, José de Abreu, Carolina Dieckmann, Nathalia Dill, Ana Cecília Costa e Carmo Della Vecchia – este último, quando não exagerava nas caretas de seu vilão Manfred.

Se o melodrama pesou e prejudicou a história de “Joia Rara”, por outro lado, o humor sobressaiu-se positivamente. Foi aí que brilharam Marcelo Médici e Luana Martau (impagáveis como a dupla Joel e Cléo), Mariana Ximenes e Letícia Spiller (as rivais Aurora e Lola), Cristiane Amorim (como Zefinha) e vários outros personagens dos núcleos do Cabaré Pacheco Leão e da pensão de Dona Conceição (Cláudia Missura).

Já comentei anteriormente aqui no blog e repito: a grande sorte de “Joia Rara” foi a escalação da pequena Mel Maia para o papel da menina Pérola. Centralizar uma história de temática adulta em uma criança é um risco grande, ainda mais quando a personagem precisa propagar mensagens de amor sem parecer piegas. Pérola foi a responsável por trazer leveza ao exacerbado melodrama do roteiro. Parabéns à direção e ao elenco: tiraram leite dessa pedra.

Saiba mais sobre “Joia Rarano site Teledramaturgia.


Com pouca frente de capítulos, “Em Família” usa notícias quentes na trama
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Nilson Xavier

Virgílio (Humberto Martins) lê a notícia do jornal para Helena (Júlia Lemmertz) (Foto: Reprodução/Rede Globo)

Virgílio (Humberto Martins) lê a notícia do jornal para Helena (Júlia Lemmertz) (Foto: Reprodução/Rede Globo)

Quem assistiu ao capítulo deste sábado (29/03) de “Em Família” teve uma surpresa ao se deparar com uma cena inusitada: Virgílio (Humberto Martins) chamou a atenção de Helena (Júlia Lemmertz) para uma notícia no jornal – mas a nota em questão é real e muito, muito recente. É o resultado da pesquisa do IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) que revelou que 58,8% dos entrevistados brasileiros estão de acordo (total ou parcialmente) com a afirmação “Se as mulheres soubessem como se comportar, haveria menos estupros“. Esta pesquisa foi divulgada antes de ontem (quinta-feira, 27) e gerou, e continua gerando, muita polêmica na Internet.

A primeira reação do público com a cena apresentada poderia ter sido: “a novela está tão atrasada na frente de capítulos (capítulos prontos disponíveis para serem exibidos) que ela está praticamente sendo apresentada ao vivo!”. Exagero, claro! Mas não é novidade alguma que “Em Família” está com gravações, edições e finalizações de capítulos muito próximos de suas datas de exibição. Entretanto, essa frente pequena trabalha a favor da novela. Mas se engana quem vê algum ineditismo nisso. Os dois folhetins anteriores de Manoel Carlos – “Páginas da Vida” (2006-2007) e “Viver a Vida” (2009-2010) – também aproveitavam a pouca frente disponível para incluir fatos quentes a fim de incrementar a trama.

Além de vermos um acontecimento que ainda repercute sendo discutido na novela, a situação em si serviu de gancho para uma das tramas paralelas de “Em Família”: a personagem Neidinha (Jéssica Barbosa/Elina de Souza) fora estuprada na segunda fase da história. Deste estupro nasceu Alice (Érika Januza). A mãe sempre escondeu esse fato da filha, apesar da insistência da moça em querer saber sobre seu pai.

Na novela, Virgílio e Helena se mostram indignados com a notícia do jornal e criticam o resultado da pesquisa: “Sociedade machista e retrógrada. Eu tenho pena dessa geração da Luiza, que tem tanto acesso à tecnologia e é tão reacionária ao mesmo tempo. (…) E sexista também!“.

Há de se louvar a iniciativa e disponibilidade do autor em tratar na novela de assuntos atuais, trazendo a obra para mais perto da realidade. Aliás, esta é uma característica reconhecida de Manoel Carlos: suas tramas, apesar de folhetinescas, estão sempre fincadas no realismo e no dia a dia, mas nunca de forma ostensiva, como em um telejornal.

Aproveito para discorrer sobre duas novelas em que fatos reais e muito atuais foram inseridos em suas tramas: uma de forma proposital e outra através de uma coincidência.

A novela “Rainha da Sucata”, de Silvio de Abreu, estreou em abril de 1990 em plena efervescência do Plano Collor. Como esse fato interessava à trama da novela, várias cenas tiveram que ser regravadas às pressas para que essa situação fosse inserida no início da história – o que acabou gerando uma propaganda negativa para “Rainha da Sucata“, já que o público chegou a acreditar que a Globo sabia sobre o Plano Collor e não avisou os brasileiros, pois esses fatos estavam sendo mostrados na novela.

Morde e Assopra”, de Walcyr Carrasco, estreou em março de 2011, duas semanas depois de um terremoto devastar uma região do Japão. Na trama da novela, um terremoto acontecia no Japão quando alguns personagens visitavam o país. A sinopse original do folhetim já previa o tal terremoto, antes mesmo de ele acontecer na vida real. Apesar da terrível coincidência, a direção manteve o terremoto na história.

Leia também: “Manoel Carlos defende mulheres contra estupro e critica pensamento machista“.


Vista como chata, Helena de “Em Família” ainda não caiu no gosto do público
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Nilson Xavier

Júlia Lemmertz como a Helena de "Em Família" (Foto: Divulgação/TV Globo)

Júlia Lemmertz como a Helena de “Em Família” (Foto: Divulgação/TV Globo)

Passados quase dois meses de sua estreia, “Em Família” ainda não pegou, ou seja, não emplacou no gosto popular, nem em audiência nem em repercussão. Com primeira e segunda fases que só ficaram interessantes porque foram apressadas, a novela entrou na terceira parte da história na marcha lenta, quase marcha ré.  Focada na protagonista Helena nas duas primeiras partes da trama (vivida por Juliana Dalavia e, depois, por Bruna Marquezine), a história de “Em Família” agora cozinha sua personagem principal em banho-maria. Tudo o que a atual Helena (Júlia Lemmertz) faz é sofrer com a temeridade da aproximação do primo Laerte (Gabriel Braga Nunes), um amor do passado transformado em fantasma, que voltou para atormentá-la.

Ainda que suplantada por outras personagens secundárias – como Juliana (Vanessa Gerbelli), Marina (Tainá Miller), Clara (Giovanna Antonelli), Shirley (Vivianne Pasmanter) e Chica (Natália do Valle), que têm tramas próprias bem mais avançadas – Helena não é um problema da atriz. Júlia Lemmertz está ótima ao passar, com muita competência, toda a angústia de sua personagem. A atriz já teve excelentes diálogos, em cenas perfeitas, tanto com Bruna Marquezine (Luiza, a filha) quanto com Humberto Martins (Virgílio, o marido).

Mas está sendo pouco para a personagem símbolo das tramas de Manoel Carlos ganhar o coração do público. “Em Família” ainda está no início, tem tudo para que este quadro se reverta, mas, cobra-se mais agilidade na trama da protagonista. O público só se mostrou apático desse jeito diante de uma Helena de Manoel Carlos uma vez antes: na última, a vivida por Taís Araújo em “Viver a Vida”, em 2009. Nesta novela, Helena perdeu o título de protagonista para uma coadjuvante, quando os olhos de todos voltaram-se para o drama de Luciana (Alinne Moraes), a bela modelo que ficou tetraplégica após um acidente.

Cada Helena do autor tinha um drama pessoal suficiente forte para puxar a novela. Vamos relembrá-los:

Baila Comigo” (1981): No passado, Helena (Lílian Lemmertz) viu-se obrigada a entregar um dos filhos gêmeos recém-nascidos para o pai dos bebês, Quim (Raul Cortez), que foi morar no exterior, enquanto ela criou o outro menino – segredo este nunca revelado a ninguém. Anos mais tarde, Quim retornou com seu filho, João Vitor, já adulto. A novela toda sustentava-se na iminência dos gêmeos João Vitor e Quinzinho (vividos por Tony Ramos) se encontrarem e Helena ser descoberta.

Felicidade” (1991-1992): Helena (Maitê Proença) engravidou de seu grande amor, Álvaro (Tony Ramos), mas não teve como lhe revelar isso: ele casou-se com outra mulher, Débora (Vivianne Pasmanter). Desiludida, ela criou a filha Bia (Tatyane Goulart) sozinha, sem revelar a ninguém a paternidade da menina. Anos depois, Helena se reencontrou com Álvaro ao trabalhar para a mãe dele, e não conseguiu evitar a aproximação da filha com o garoto Alvinho (Eduardo Caldas), filho de Álvaro e Débora.

História de Amor” (1995-1996): Solitária, Helena (Regina Duarte) sente o interesse do médico Carlos (José Mayer) e não resiste a essa nova paixão, apesar de ele ser um homem comprometido, em um casamento em crise com a possessiva Paula (Carolina Ferraz). Carlos também despertou o interesse da jovem Joice (Carla Marins), a filha rebelde de Helena. Mas a censura da época não permitiu que a mãe disputasse com a filha o mesmo homem, por causa do horário da novela – seis da tarde.

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Por Amor” (1997-1998): Helena (Regina Duarte), num gesto extremo de abdicação à filha, Eduarda (Gabriela Duarte), entrega o filho recém-nascido para ela criar como se fosse o seu próprio, sem que ela saiba, já que o bebê de Eduarda, nascido na mesma hora e maternidade, estava morto. Assim, Helena vê seu filho sendo criado pela filha e é obrigada a tratá-lo como neto. Isso custou também sua relação com Atílio (Antônio Fagundes), pai do menino, que acreditou que o bebê nascera morto.

Laços de Família” (2000-2001): Primeiro Helena (Vera Fischer) abdica de sua paixão por Edu (Reynaldo Gianecchini) em prol da filha, Camila (Carolina Dieckmann), que apaixonou-se por ele (Manoel Carlos leva adiante nesta novela a trama primeiramente pensada para “História de Amor”). Depois, Helena, já vivendo um novo romance com outro homem, Miguel (Tony Ramos), abdica novamente de um amor por causa da filha, ao descobrir que Camila tem leucemia e que apenas uma doação compatível a salvaria: Helena decide engravidar do pai de Camila, Pedro (José Mayer), para que seu bebê possa ser o doador da filha. Isso lhe custa sua relação com Miguel.

Mulheres Apaixonadas” (2003): Helena (Christiane Torloni) começa a questionar seu casamento com Téo (Tony Ramos) quando descobre o paradeiro de uma antiga paixão, César (José Mayer). Para complicar ainda mais o casamento em crise, Helena começa a desconfiar de um caso de Téo com Fernanda (Vanessa Gerbelli). Na verdade, não há mais nada entre os dois, mas Lucas (Victor Curgula), filho adotivo de Helena e Téo, é fruto desse antigo caso, fato que Helena desconhecia.

Páginas da Vida” (2006-2007): A médica Helena (Regina Duarte) não consegue salvar a jovem Nanda (Fernanda Vasconcellos) em seu parto. Apenas os bebês gêmeos sobrevivem, A avó das crianças, Marta (Lília Cabral), leva o menino mas rejeita a menina, por ela ser portadora de Síndrome de Down. Helena resolve ela mesma criar a pequena Clara (Joana Mocarzel) como se fosse sua filha. Os anos passam e Helena terá que travar uma batalha na justiça pela guarda da garota, já que o pai dela, Léo (Thiago Rodrigues) vem reclamar a paternidade.

Viver a Vida” (2009-2010): Helena (Taís Araújo) é uma top model que largou a carreira no auge para casar-se com Marcos (José Mayer), separado de Tereza (Lília Cabral), que não se conforma com a separação. Quem também não aceita essa união é Luciana (Alinne Moraes), filha de Marcos, aspirante a modelo, rival de Helena na profissão. Em uma viagem no exterior, um acidente vitima Luciana, que interrompe o sonho de ser modelo porque ficou tetraplégica. Mas Helena se sente culpada pela tragédia, pois Tereza havia lhe confiado tomar conta de sua filha.

Em Família” (2014): Helena (Bruna Marquezine) era apaixonada desde a adolescência pelo primo, Laerte (Guilherme Leicam), que disputava a moça com Virgílio (Nando Rodrigues), também apaixonado por ela. Acusado de matar Virgílio, Laerte é preso no dia de seu casamento com Helena, mas logo inocentado, porque Virgílio é encontrado ainda com vida. Desiludida, Helena se casa com Virgílio enquanto Laerte vai embora para o exterior. Os anos passam e Laerte (Gabriel Braga Nunes) agora está de volta na vida de Helena (Júlia Lemmertz), já que ficou amigo de Luiza (Bruna Marquezine), filha dela e Virgílio (Humberto Martins). Helena nunca perdoou o primo pelo sofrimento causado no passado, e não o perdoará por esse interesse pela sua filha.

Ou seja, tudo o que a Helena de “Em Família” tem feito nessa terceira e definitiva fase é reclamar de Laerte – quando não está servindo de “escada” para os dramas dos outros personagens, como os papos com a mãe Chica (Natália do Valle) e com a irmã Clara (Giovanna Antonelli), ou a surra de cinto no irmão alcoólatra Felipe (Thiago Mendonça). De tanto alertar a filha Luiza (Bruna Marquezine) sobre Laerte, Helena já ganhou a antipatia do público.

Helena chata assim, só a de Taís Araújo em “Viver a Vida”, que passou a novela despercebida e perdeu o posto de protagonista para uma coadjuvante.


Com trama central morna, “Em Família” se destaca com as histórias paralelas
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Nilson Xavier

Vivianne Pasmanter (Shirley) e Júlia Lemmertz (Helena) (Foto: Divulgação/TV Globo)

Vivianne Pasmanter (Shirley) e Júlia Lemmertz (Helena) (Foto: Divulgação/TV Globo)

Vejo algumas semelhanças entre “Em Família” e “Mulheres Apaixonadas”, novela também de Manoel Carlos, escrita em 2003. Pelo menos no ponto em que está – com pouco mais de um mês no ar -, “Em Família” é um folhetim de tipos humanos, em detrimento a uma história central forte. Explico melhor tomando “Mulheres Apaixonadas” como exemplo. Nesta novela, Maneco estruturou-se a partir de uma trama central frágil – a que envolvia Helena (Christiane Torloni), sua relação com o marido Téo (Tony Ramos) e o retorno de uma antiga paixão, César (José Mayer). Também em “Em Família”, a atual Helena (Júlia Lemmertz) vê ressurgir um amor do passado, Laerte (Gabriel Braga Nunes), formando um triângulo com seu marido Virgílio (Humberto Martins). A diferença é que, a princípio, a presença de Laerte incomoda Helena, enquanto que a Helena de 2003 se sentia totalmente inebriada com a aparição de César.

Todavia, muito mais do que essa pequena semelhança entre suas tramas centrais, está o foco nas histórias paralelas e seus tipos humanos muito ricos. “Mulheres Apaixonadas” foi uma novela que valorizou as tramas que circundavam o núcleo principal, de Helena. Em vários momentos, o autor deu maior ênfase aos outros núcleos da novela, que acabaram despertando maior interesse no público do que a própria história da protagonista. O principal motivo talvez fosse a ótima construção de personagens variados e ricos em dramas em que o público se identificava mais.

E foram muitos os tipos de “Mulheres Apaixonadas” que fizeram o público esquecer Helena: a professora Raquel (Helena Ranaldi), que apanhava de raquete do ex-parceiro Marcos (Dan Stulbach); a neurótica Heloísa (Giulia Gam), inconformada com a separação do marido Sérgio (Marcelo Antony); a garota Dóris (Regiane Alves), que maltratava os avós; o drama de Hilda (Maria Padilha), diagnosticada com um câncer de mama; o drama da alcoólatra Santana (Vera Holtz); as dificuldades de Fernanda (Vanessa Gerbelli) em criar a pequena Salete (Bruna Marquezine), filha que teve com Téo; Lorena (Susana Vieira), uma mulher madura que se apaixona por um rapaz bem mais jovem (Rafael Calomeni); o amor lésbico juvenil de Clara (Alinne Moraes) e Rafaela (Paula Picarelli); o amor impossível de Stella (Lavínia Vlasak) por um padre, Pedro (Nicola Siri); etc.

Ângela Vieira (Branca) e Herson Capri (Ricardo) (Foto: Divulgação/TV Globo)

Ângela Vieira (Branca) e Herson Capri (Ricardo) (Foto: Divulgação/TV Globo)

Talvez seja cedo para fazer esse tipo de avaliação, mas vejo a trama principal de “Em Família” ainda muito morna, ou frágil – pelo menos no que tange o interesse do público pela história de Helena (Júlia Lemmertz). O que se sobressai na novela – por enquanto – são alguns poucos personagens secundários carismáticos e seus dramas paralelos. Atualmente, afora o interesse amoroso da fotógrafa Marina (Tainá Muller) por Clara (Giovanna Antonelli), estão em voga três personagens femininas que prometem movimentar “Em Família”: Branca (Ângela Vieira), Shirley (Vivianne Pasmanter) e Juliana (Vanessa Gerbelli).

E não é por acaso que o texto de Maneco é mais afiado justamente nas bocas delas – principalmente as espirituosas Branca e Shirley. Quando aparecem na tela, parece que “Em Família” desperta de um sono letárgico. Com certeza, podem render muito ainda. Bem mais do que meras mulheres apaixonadas, Juliana, Branca e Shirley carregam características de outras personagens de Maneco que ainda povoam a memória do público: Heloísa/Giulia Gam de “Mulheres Apaixonadas”, Sheyla/Lília Cabral de “História de Amor”, Branca/Susana Vieira de “Por Amor”, Laura/Vivianne Pasmanter de “Por Amor”, Débora/Vivianne Pasmanter de “Felicidade”, Clara/Regiane Alves de “Laços de Família”. Mulheres apaixonadas com uma ponta de desequilíbrio emocional sempre rendem dramas movimentados e alguns barracos.


Paulo Goulart, grandioso no porte e no talento
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Nilson Xavier

Paulo Goulart como Gino em "Plumas e Paetês", com Eva Wilma (Foto: Divulgação/TV Globo)

Paulo Goulart como Gino em “Plumas e Paetês”, com Eva Wilma (Foto: Divulgação/TV Globo)

Morreu Paulo Goulart, uma das figuras mais queridas de nossa televisão. Com Nicette Bruno, formou um casal que atravessou décadas de vida em comum, estampada nos palcos e nas telas da TV e do cinema. Deixou três filhos, também atores talentosos: Bárbara, Beth e Paulo Filho. O tipo bonachão e o sorriso largo cativaram gerações de telespectadores que se acostumaram com sua presença constante e marcante em nossa Teledramaturgia, não importava o tamanho que tivesse seu personagem.

Falando em tamanho, Paulo era um atorzão, no porte e no talento. O timbre grave da voz o ajudava na construção de vilões maquiavélicos, como o Seu Donato, um pescador ganancioso em “Mulheres de Areia” (1993). Ou na severidade de Altino Flores, em “Fera Radical” (1988), o patriarca austero e amargurado por viver preso a uma cadeira de rodas. Ao mesmo tempo, Goulart pendia para a comédia e nos arrancava o riso ao criar um tipo como o segurança Gino, de “Plumas e Paetês” (1980-1981), um carcamano romântico e desajeitado. Seu Mariano, de “América” (2005), foi outra marcante criação, um homem simplório e honesto, de princípios rígidos e coração frágil.

Paulo Goulart como Donato em "Mulheres de Areia" (Foto: Divulgação/TV Globo)

Paulo Goulart como Donato em “Mulheres de Areia” (Foto: Divulgação/TV Globo)

Donato, Altino, Gino e Mariano são apenas quatro exemplos de tipos diferentes vividos por Paulo Goulart e que atestam toda a sua grandiosidade e versatilidade como ator. Mas a lista é enorme! Eu contei quase 50 personagens só na televisão. Além destes, foram mais de 25 filmes e outras tantas peças de teatro em mais de 60 anos de serviços prestados à arte de representar.

Acho que a lembrança mais longínqua que tenho do ator é da novela “Papai Coração”, da TV Tupi, em 1976, em que ele contracenava com sua família. Lá estavam também Nicette, Bárbara, Beth e Paulinho – este, então um garoto. Desta mesma época, lembro também de Paulo em um comercial de sabão em pó, em que ele convocava as freguesas a experimentar o produto e conferir o resultado na janela. Tudo isso para dizer que eu cresci com a figura carismática de Paulo Goulart em minha TV. Assim como eu, outras gerações de telespectadores.

Grande Paulo! Vai fazer uma baita falta – culpa de seu enorme talento e simpatia.


“Joia Rara” tem sorte em ter a menina Mel Maia no elenco
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Nilson Xavier

Mel Maia como Pérola em "Joia Rara" (Foto: Divulgação/TV Globo)

Mel Maia como Pérola em “Joia Rara” (Foto: Divulgação/TV Globo)

Personagem criança em novela é sempre um perigo. O novelista precisa ficar atento, para não correr o risco de pôr frases de efeito na boca de personagens mirins que tornariam suas falas inverossímeis, ou, pior, declamadas, quando as crianças não sustentam uma boa interpretação. O maior erro são meninos e meninas de novelas que agem, pensam e falam como adultos. A não ser que a proposta seja exatamente essa, o roteirista tem que ter em mente que aquele texto teria que caber na boca de uma criança.

A menina Pérola da novela “Joia Rara” é um caso à parte. Afinal, consideramos que a personagem é um “ser evoluído”, a reencarnação de um mestre budista. Para quem é leigo no Budismo, fica difícil imaginar uma criança com tamanho discernimento de bondade e afeto e com tanta sintonia com sentimentos elevados, no que tange o amor entre os homens – por mais que a personagem tenha sido treinada por seus monges amigos, na trama. Na boca de uma criança qualquer, as falas de Pérola facilmente soariam piegas e inverossímeis.

Mas não na boca de sua intérprete, a pequena Mel Maia. O carisma da menina, aliado ao seu talento, são meio caminho andado para embarcar na história da personagem e acreditar em sua veracidade. Mel Maia já havia se destacado na primeira fase de “Avenida Brasil” (2012), como Ritinha, a menina abandonada no lixão por Carminha (Adriana Esteves). A princípio, poderia parecer mais um caso de criança “interpretando” ela mesma. Até pode ter sido isso naquele momento, mas esse julgamento não cabe aqui.

O fato é que, já em seu segundo trabalho na TV, Mel Maia demonstra um impressionante domínio na arte de representar. Pérola é bem diferente de Ritinha. Mel conseguiu apagar a ideia que tínhamos da menina abandonada à própria sorte do folhetim anterior. Super à vontade em cena, Mel Maia – que completa 10 anos no dia 3 de maio – esbanja carisma e talento dividindo cenas com feras como José de Abreu e Luiz Gustavo (seus avôs na trama). Sorte da novela em tê-la no elenco!