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“Alto Astral” cita 30 anos da carreira de Claudia Raia, destaque da novela
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Nilson Xavier

Claudia Raia e Conrado Caputo (Foto: Reprodução)

Claudia Raia e Conrado Caputo (Foto: Reprodução)

Samanta Paranormal e Pepito são os maiores destaques de “Alto Astral''

Claudia Raia deve estar sorrindo de um canto a outro. No ano em que comemora 30 anos de carreira (pelo menos na televisão, já que a primeira novela foi “Roque Santeiro”, em 1985), a atriz é homenageada dentro da trama da novela das sete, da qual participa – “Alto Astral”, de autoria de Daniel Ortiz.

A bem da verdade, muito da boa repercussão que “Alto Astral” vem obtendo (e audiência, superior às duas tramas antecessoras no horário, “Além do Horizonte” e “Geração Brasil”) se deve à atriz e sua parceria com o ator Conrado Caputo. A impagável dupla Samanta Paranormal e Pepito foram responsáveis por vários dos melhores momentos da novela.

Realidade na ficção e vice-versa

Além de citar, ao longo de “Alto Astral”, várias personagens marcantes da carreira de Claudia Raia na TV (Ninon, Tancinha, Tonhão, Maria Escandalosa, Ângela Vidal, Ramona, Jacqueline, Lívia Marine), Samanta faz testes para um musical que vai homenagear os 30 anos da atriz “Maria Cláudia” – ou melhor, Maria Claudia Raia. O diretor do espetáculo é o próprio diretor da novela, Jorge Fernando. As sequências têm ainda a participação de Jarbas Homem de Mello, namorado de Raia, que cita na novela o seu espetáculo real “Chaplin, o Musical”, com estreia prevista para maio, em São Paulo.

A metalinguagem não para por aí. Com essa sequência, Jorge Fernando e Claudia Raia revivem uma passagem da novela “Rainha da Sucata” (1990), de Silvio de Abreu, em que a personagem da atriz (naquela novela), Adriana Ross (a “bailarina da coxa grossa”), se submetia a uma audição com Jorge Fernando (numa participação, também diretor da novela) para um musical.

Vale lembrar ainda que a última personagem cômica de Claudia Raia na TV – Jaqueline no remake de “Ti-ti-ti” (2010), de Maria Adelaide Amaral e Vincent Villari – passou a trama inteira fazendo uma ponte com a memória afetiva do telespectador, ao citar e referenciar várias novelas e personagens de sucesso do passado.

Saaaabe!

Claudia Raia começou “Alto Astral” meio cambaleando com sua personagem Samanta Paranormal. A atriz levou um tempo até encontrar o tom certo para a vidente de araque. Até o corte de cabelo foi trocado nesse ínterim. De vilã cômica, Samanta acabou se tornando uma das personagens mais queridas da novela, graças ao timing perfeito da atriz e ao bom texto de Daniel Ortiz. E o melhor de tudo: Samanta em nada lembra a Jaqueline de “Ti-ti-ti“.

O sucesso se deve também à parceria e à química com Conrado Caputo. Samanta Paranormal, talvez, não seria 75% do que é sem seu comparsa peruano. As situações engraçadas pelas quais a dupla passa é quase uma novela – ou um seriado – dentro da trama de “Alto Astral”. Uma espécie de “Shazan e Xerife” modernos, Samanta e Pepito agradam e fazem rir com uma comicidade quase singela, ideal para o horário das sete. Merecia até um spin-off, um seriado próprio fora da novela.


Falta a “Babilônia” o que “Sete Vidas” tem de sobra
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Nilson Xavier

Thiago Rodrigues com as crianças Milena Mello e Gabriel Palhares (Foto: Divulgação/TV Globo)

Thiago Rodrigues com as crianças Milena Mello e Gabriel Palhares (Foto: Divulgação/TV Globo)

Em meu último texto, afirmei que a novela “Babilônia” precisa de mais emoção para cativar audiência – LEIA AQUI. A novela vinha, até então, mostrando uma realidade muito fria, em detrimento da emoção, que todo folhetim demanda.

Pois o que falta a “Babilônia”, tem de sobra em “Sete Vidas”, a trama do horário das seis, de autoria de Lícia Manzo. A novelista, em parceria com o diretor Jayme Monjardim, já havia mostrado um ótimo trabalho na novela anterior da dupla, “A Vida da Gente” (2011-2012).

Sete Vidas” parte de uma premissa das mais modernas: novas configurações familiares formadas com o encontro de meios-irmãos gerados a partir de um doador anônimo. A autora traz à baila uma discussão muito pertinente nos dias atuais. Seu grande mérito é o texto delicado e sutil ao abordar um tema que pode ser de difícil entendimento para o público em geral – particularmente o tradicional público do horário das seis.

Também é discutido o preconceito contra famílias formadas com uniões homoafetivas. Regina Duarte vive uma lésbica que criou os filhos com sua parceira, já falecida. Nesta semana, a novela exibiu uma sequência muito interessante em que o filho dela, Luís (Thiago Rodrigues), mostra para os seus filhos pequenos, através de um livro infantil, como uma criança pode ser criada por dois pais ou duas mães. Tudo muito didático (como pede a situação, já que envolve crianças), mas muito bonito, bem dirigido e com um texto cuidadoso.

A novela é atual, emula a realidade com abordagens verossímeis. Mas, acima de tudo, é folhetim. E seus personagens são movidos pela emoção. As situações, conversas, discussões (entende-se DRs), são sempre exibidas de uma forma sensível. Não é exagero dizer que o texto de Lícia Manzo é emocionante. Os personagens têm alma, tem vida. Bem mais fácil, assim, para o público criar empatia, se envolver, se identificar, se emocionar.


“Babilônia” precisa emocionar o público
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Nilson Xavier

Camila Pitanga e Thiago Fragoso em "Babilônia" (Foto: Raphael Dias/Gshow)

Camila Pitanga e Thiago Fragoso em “Babilônia'' (Foto: Raphael Dias/Gshow)

Já estão no ar as mudanças pelas quais passa a novela “Babilônia” na tentativa desenfreada de fazer sua audiência reagir ante números tão abaixo do esperado. Sim, aqui vale a máxima “pior audiência no horário das 9 de todos os tempos” – ainda que “de todos os tempos” não queira dizer absolutamente nada, porque esse tipo de comparação não cabe quando se considera novelas de mais de quinze anos. Mas, pelo menos, “dos últimos tempos”, sim.

Não é a primeira vez que intervenções são necessárias em uma obra de Gilberto Braga que está começando (“Babilônia'' é escrita com a parceria de Ricardo Linhares e João Ximenes Braga). Já em 1981, o público torceu o nariz para a pretensiosa “Brilhante”. Em 1991, “O Dono do Mundo” esteve nos holofotes, negativamente. “Paraíso Tropical” (2007) e “Insensato Coração” (2011), mais recentes, também sofreram rejeição inicial.

Se a “Babilônia” mais palatável vai conquistar audiência, é cedo para saber. Talvez leve um tempo ainda. Mas as cenas de romance já foram intensificadas. As maldades diminuídas. E até uma vingança de Inês (Adriana Esteves) contra Beatriz (Glória Pires) foi adiantada. Pesquisas recentes constataram que, atualmente, o público não quer ver realidade e violência na novela das nove. E que os bons e batalhadores são os queridinhos, em detrimento aos vilões. Cai por terra, portanto, a teoria que reza que o público gosta mesmo é das vilãs. Adeus Carminhas, Nazarés, Bias Falcão e Odetes Roitman.

Semana passada fui questionado o porquê do público gostar tanto de uma novela como “O Rei do Gado” (de 1996), que faz sucesso à tarde, em sua segunda reprise no “Vale a pena Ver de Novo”, e não gostar de “Babilônia”. Incluiria aí também a atual novela das sete da Globo, “Alto Astral”, em sua reta final, com repercussão superior às suas antecessoras no horário.

São três novelas bem diferentes, em situações diferentes. “O Rei do Gado” é um novelão clássico, com o texto sempre emotivo de Benedito Ruy Barbosa e direção primorosa de Luiz Fernando Carvalho. O texto, continua atualíssimo. Aborda identidades desconhecidas, amor entre classes sociais diferentes, traições, mas também a corrupção política e reforma agrária.

Alto Astral”, do estreante Daniel Ortiz, é tão somente uma novela das mais despretensiosas que já vi. Repleta de clichês do folhetim (vilões maniqueístas, mistérios, amores impossíveis, sobrenatural), e com o humor nonsense que andava afastado do horário. Uma boa novela para relaxar.

Babilônia” começou forte. Lembrou “Torre de Babel” (1998), de Silvio de Abreu, que também afugentou o público no início. Tem a corrupção política presente em “O Rei do Gado”. Tem alguns clichês do folhetim, como toda novela. Mas falta emoção. Falta o público se identificar com algum drama para ter pelo que torcer. Ou rir, ou se emocionar, ou sofrer. Falta um tanto de humanidade a “Babilônia”.

Os telejornais já aprenderam essa lição faz tempo: a notícia ruim deve vir intercalada com notícias suaves, ou que apelem para o emotivo do público. A novela pode emular a realidade. Mas nunca destacá-la mais do que a emoção, sua essência.


Clássico dos anos 80, “Cambalacho” volta no canal Viva
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Nilson Xavier

Regina Casé como Tina Pepper (Foto: Divulgação/TV Globo)

Regina Casé como Tina Pepper (Foto: Divulgação/TV Globo)

Você já deve ter visto por aí uma imagem ou vídeo de Regina Casé, magrinha, com uma peruca de Tina Turner. TV Pirata? Poderia ser, mas não. É a personagem dela, Tina Pepper, na novela “Cambalacho”, de Silvio de Abreu, clássico da década de 80 que o canal Viva traz de volta, em agosto.

A personagem é uma das mais icônicas da galeria de tipos que a nossa Teledramaturgia já apresentou. Tina Pepper, ou melhor, Albertina Pimenta, era uma suburbana metida a gostosa que sonhava em ser uma cantora famosa. Achava que cantava e era fã de Tina Turner, que fazia muito, mas muito sucesso lá pelos meados dos anos 80. Tina, a Pepper, depois de muita artimanha, alcança o estrelato com o hit “Você Me Incendeia”, que chegou a apresentar no “Cassino do Chacrinha”.

Além de Tina, “Cambalacho” tinha a dupla de trambiqueiros Naná e Gegê, Fernanda Montenegro e Gianfrancesco Guarnieri, que aplicavam pequenos golpes para dar de comer a uma prole de crianças abandonadas. Naná se descobre herdeira de uma fortuna e tem que lidar com a perigosa Andréia Souza e Silva, viúva do pai rico que ela nem sabia que tinha. Natália do Valle também fez muito sucesso como a pérfida vilã, cujo tema musical repetia à exaustão “Perigoooooosaaaaaaaaaa!”.

Exibida em 1986, com uma reprise no “Vale a Pena Ver de Novo” em 1991, “Cambalacho” foi um daqueles momentos felizes de nossa televisão, onde tudo atingiu a tônica certa: uma mistura certeira de dramalhão folhetinesco com a comédia mais rasgada que Silvio fazia tão bem no horário das sete naqueles tempos (em que não existia internet, ou redes sociais, tv a cabo, etc).

No elenco, também Susana Vieira, Cláudio Marzo, Edson Celulari, Débora Bloch, Consuelo Leandro, Oswaldo Loureiro, Rosamaria Murtinho, Roberto Bonfim, Emiliano Queiroz, Flávio Galvão, Louise Cardoso, Luiz Fernando Guimarães, Marcos Frota, Fábio Sabag, Jacqueline Laurence, Paulo César Grande, Maurício Mattar e outros.

O repeteco de “Cambalacho” atende a um velho pedido dos fãs do Viva: reprises de novelas mais, mais antigas. Volta dia 24 de agosto, às 14h30 (horário alternativo 1h45) em substituição a “Pedra Sobre Pedra”.

Saiba mais sobre “Cambalacho'' AQUI.


Ricardo Linhares, de Babilônia, já abordou a intolerância em Saramandaia
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Nilson Xavier

Dona Redonda (Vera Holtz) e Seu Encolheu (Matheus Nachtergaele) (Foto: Divulgação/TV Globo)

Dona Redonda (Vera Holtz) e Seu Encolheu (Matheus Nachtergaele) (Foto: Divulgação/TV Globo)

A intolerância foi um dos temas que Ricardo Linhares discutiu na adaptação da clássica novela de Dias Gomes.
O DVD chega no momento de boicote à sua nova novela, “Babilônia” (escrita com Gilberto Braga e João Ximenes Braga).

Por esta época, há dois anos, a Globo se preparava para lançar o remake de “Saramandaia”, novela originalmente criada por Dias Gomes (exibida em 1976), um marco do realismo fantástico na televisão brasileira. Dois anos depois, a Globo Marcas lança o DVD deste remake, um box com quatro discos, 12 horas de duração, alguns extras e até uma capa holográfica – já à venda nas lojas (preço sugerido R$ 99,99).

Nesta nova versão, adaptada por Ricardo Linhares, a obra de Dias Gomes ganhou uma estética “timburtoniana”, com um colorido e fotografia que remete à obra do cineasta Tim Burton – o que tem tudo a ver com o universo fantástico proposto pela novela. Além do charme da produção, os efeitos especiais – dignos de Hollywood – possibilitaram um acabamento que não era possível na versão original, já que os recursos disponíveis na época eram muito limitados.

Assim, a nova produção apresentou sequências com ótimo apuro técnico, como os voos de João Gibão (Sérgio Guizé); a união de Candinha e Tibério (Fernanda Montenegro e Tarcísio Meira), em que eles se transformam em árvore; a explosão de Dona Redonda (Vera Holtz), que foi aos ares por tanto comer; e as transformações do Professor Aristóbulo (Gabriel Braga Nunes) em lobisomem.

Linhares atualizou a obra de Dias. Não apenas pelas modernidades tecnológicas que não existiam em 1976 (como tablets, comunicação por e-mail, smartphones e redes sociais), mas também pela abordagem crítica. Dias usou a metáfora da mudança para, sutilmente, criticar o governo do Regime Militar (que, naquele tempo, ensaiava seus primeiros passos para a abertura política).

Na trama da novela, os conservadores poderosos – os Tradicionalistas, também opressores e censores do povo – eram contra a mudança do nome da pequena cidade de Bole-Bole para Saramandaia, um movimento liderado pelos Mudancistas, que sugeriram essa alteração através de voto popular, num plebiscito. Na nova novela, teve até manifestação popular, em um momento em que o povo brasileiro saiu às ruas na série de manifestações que aconteceram entre junho e julho de 2013.

Desta vez, Linhares abordou a trama da cidade dividida (entre os Tradicionalistas e os Mudancistas) como metáfora para a intolerância. Nada mais apropriado, uma vez que vários moradores de Bole-Bole possuíam algum tipo de “anormalidade” aos olhos do que a maioria estabelecia como “normal”. Aliás, uma das expressões mais usadas na novela era “sair do armário”, ainda que não houvesse nenhum personagem gay na novela. Para bom entendedor…

Os “esquisitões'' de Saramandaia: Zico Rosado (José Mayer) soltava formigas pelo nariz. Vitória Villar (Lília Cabral) se derretia – literalmente – de amores por Zico, enquanto Marcina (Chandelly Braz) pegava fogo quando excitada de paixão pelo amado, João Gibão, que, por sua vez, escondia de todos que possuía um par de asas. Seu Cazuza (Marcos Palmeira) ameaçava pôr o coração pela boca quando ficava nervoso. E Tibério (Tarcísio Meira) criou raízes em sua casa por não sair na rua há anos. Ah sim, e o Professor Aristóbulo (Gabriel Braga Nunes) virava lobisomem em noites de lua cheia.

Algumas personagens e tramas novas foram criadas. O núcleo da família Villar, liderado por Vitória (Lília Cabral) era representado pela família Tavares em 1976, liderada por Tenório (Sebastião Vasconcelos), inimigo político da família Rosado. Ricardo Linhares, através de Vitória, criou uma paixão do passado mal resolvida (entre Zico Rosado e ela). Também o personagem Tibério Villar (Tarcísio Meira), o avô, que não existia em 1976, que havia sido o amor de adolescência de Candinha Rosado (Fernanda Montenegro).

Curioso notar que o DVD de “Saramandaia” chega às lojas exatamente no momento em que Ricardo Linhares enfrenta a rejeição do público pela sua nova novela, “Babilônia” (escrita com Gilberto Braga e João Ximenes Braga), e em que lideranças religiosas pedem boicote por causa, particularmente, do casal de lésbicas, vividas por Fernanda Montenegro e Nathalia Timberg. Será que os Tradicionalistas não aprovaram?

Manteve-se a essência da obra de Dias Gomes, em que cidadezinhas fictícias (Bole Bole, Sucupira, Asa Branca) representam um microcosmo do Brasil. Qualquer semelhança entre ficção e realidade não terá sido mera coincidência. Por mais fantástica que sejam a ficção e a realidade.


Rejeição a “Babilônia” vai além do casal de lésbicas
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Nilson Xavier

Nathalia Timberg e Fernanda Montenegro em cena com Chay Suede (Foto: Divulgação/TV Globo)

Nathalia Timberg e Fernanda Montenegro em cena com Chay Suede (Foto: Divulgação/TV Globo)

Já pipocam na Internet teorias sobre a rejeição que a novela “Babilônia” vem sofrendo por parte do público. A audiência está muito abaixo do esperado. Os mais ferrenhos apontam o casal de lésbicas idosas – vividas por Fernanda Montenegro e Nathalia Timberg – como o grande responsável pela celeuma. Também vou apresentar minhas teorias. E vão além de Teresa e Estela.

Sim, o público foi pego de surpresa quando, no primeiro capítulo, as duas velhas senhoras trocaram um beijo longo e afável. E não parou por aí. Teresa, repetidamente, se refere a Estela como “meu amor”. Vez ou outra troca carícias com ela. Os mais conservadores, não familiarizados, até sabem que existem casais “assim”, mas não querem ver. Compreensível. Levou muito tempo para a Globo liberar um beijo gay na “sagrada novela das nove” – essa instituição da cultura brasileira. Talvez seja necessário mais tempo para avançar esta questão, digamos, polêmica.

Mas não é só isso. O segundo capítulo exibiu a bofetada que Alice (Sophie Charlotte) deu em sua mãe Inês (Adriana Esteves). Isso choca tanto quanto as “lésbicas beijoqueiras”. Maria de Fátima – a malvada personagem de Glória Pires na clássica “Vale Tudo” – sequer ousou levantar a mão para a mãe Raquel (Regina Duarte), nos famosos embates que mãe e filha tiveram naquela novela, também de autoria de Gilberto Braga. Em outro capítulo, na mesma semana de estreia de “Babilônia”, foi Bruno Gissoni quem ameaçou o pai, Cássio Gabus Mendes.

A tradicional família brasileira deve estar de cabelo em pé com a “nociva novela da Globo”! Tudo bem, nem todo mundo quer ver realidade na novela. Para isso, existem os noticiários. Em contrapartida, vejo outro fator importante para a torcida de nariz. Existe concorrência! E isso é muito bom! As outras emissoras estão se mexendo dessa vez e apresentam opções “diferenciadas” – para quem não quer ver gay ou filho batendo em pai na novela global!

Quem prefere a inocência de uma novela infantil, bem “família”, tem a reprise de “Carrossel” no SBT (sucesso de 2012-2013). O que, fatalmente, remete ao embate “O Dono do Mundo x Carrossel” de 1991, quando o público preferiu endossar a novelinha mexicana em detrimento à “imoral” novela de Gilberto Braga – em que uma virgem entregou-se a um mau caráter na noite de núpcias dela, provocando, indiretamente, a morte de seu noivo. “Chocante, não?!” Observação: na verdade, “Carrossel” batia de frente com “O Dono do Mundo” por no máximo dez minutos.

E a Record, tirando proveito da polêmica acerca da novela global, se vale disso para promover sua novela bíblica “Os Dez Mandamentos” (que estreou na semana passada), também chamada de “novela da família” – a cristã, no caso, já que é baseada na Bíblia. Só que a novela da Record concorre diretamente com “Babilônia” por no máximo quinze minutos. Diante dos fracassos de seus últimos folhetins, exibidos juntamente com a principal novela da Globo, a emissora de Edir Macedo sabiamente apresenta “Os Dez Mandamentos” antes da atual trama global.

Thiago Fragoso e Camila Pitanga (Foto: Divulgação/TV Globo)

Thiago Fragoso e Camila Pitanga (Foto: Divulgação/TV Globo)

Temos, então, concorrência saudável e abordagens que as famílias conservadoras não querem ver. Mas “Babilônia” tem outras culpas. Uma das principais reclamações é a chatice da mocinha Regina, bem defendida por Camila Pitanga. Ela faz o tipo “pobre batalhadora”. Mas é barraqueira, sofredora e sem classe. O público também não perdoa um tipo assim, mesmo que Regina tenha uma moral ilibada. Paradoxal, não? Talvez, ainda não deu tempo para o telespectador gostar da personagem. E, convenhamos, Regina não está ajudando muito! Também é ingrato “ser do bem”!

Entre as qualidades de “Babilônia”, está o texto afiadíssimo dos autores, com tiradas e frases de efeito inspiradas. Digamos que é um texto acima da média, que permeia a crítica social, leva à reflexão. Como no ótimo núcleo do prefeito corrupto Aderbal Pimenta (Marcos Palmeira), um falso moralista e hipócrita, uma releitura da clássica figura de Odorico Paraguaçu.

Ao mesmo tempo, tem núcleo desnecessário, cuja principal função seria o alívio cômico. Só que não! Falo do trio vivido por Gabriel Braga Nunes, Marcos Veras e Ígor Angelkorte. Já foi apelidado nas redes sociais de “núcleo do Cadinho”, numa referência ao chato personagem de Alexandre Borges em “Avenida Brasil”. É digno de trocar de canal mesmo!

Finalizando: cadê a explosão entre as vilãs vividas por Glória Pires e Adriana Esteves, que vimos no capítulo de estreia? As duas agora são aliadas, e em nada lembram as víboras que queriam se picar no primeiro capítulo. As atrizes continuam ótimas, cada qual com sua vilã. Mas a novela prometeu bons embates e o que se viu foi uma esfriada na trama delas. “Babilônia” precisa pegar fogo novamente. Caso contrário, até quem não se sente parte da “tradicional e conservadora família brasileira” troca de canal.


“Os Dez Mandamentos” é formal demais para uma novela, mesmo sendo bíblica
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Nilson Xavier

Roger Gobeth e Samara Felippo e o pequeno Moisés recém-nascido (Foto: TV Record/Divulgação)

Roger Gobeth e Samara Felippo e o pequeno Moisés recém-nascido (Foto: TV Record/Divulgação)

Substituir a novela “Vitória” não parece tarefa fácil para “Os Dez Mandamentos”, a nova produção da Record que estreou nesta segunda-feira (23/03). “Vitória”, escrita por Cristianne Fridman (que tem no currículo bons trabalhos na emissora, como “Chamas da Vida” e “Vidas em Jogo”), amargou uma pífia audiência e pouca repercussão. Em várias ocasiões ficou em terceiro lugar, perdendo para o SBT.

Nem histórias interessantes – que abordavam neonazismo, alcoolismo e Mal de Alzheimer -, tampouco as interpretações marcantes de Juliana Silveira, Lucinha Lins e Beth Goulart, conseguiram despertar interesse no público. De nada adiantou alfinetar a concorrente no horário na Globo, “Em Família”, chamando-a de salada de chuchu sem gosto. Não que “Em Família” não fosse. Se ela fez feio, imagina “Vitória”!

Entretanto, a “primeira novela bíblica da TV”, como foi vendida “Os Dez Mandamentos”, chega com algumas vantagens. A primeira é o horário de exibição. Diferente de “Vitória”, que batia de frente com a principal novela da Globo, a nova atração começa mais cedo, às 20h30, após o jornalístico “Cidade Alerta”, herdando já a audiência dele.

A outra vantagem é a temática religiosa, que já faz parte do DNA da emissora. A Record tem seu público cativo de minisséries bíblicas, e apostar nesse filão em uma atração diária e de longa duração, como a telenovela, chega a ser uma vantagem em cima dos folhetins contemporâneos anteriores.

A autora é a experiente Vívian de Oliveira, que integrou a equipe de roteiristas das minisséries “A História de Ester”, “Rei Davi”, “José do Egito” e “Milagres de Jesus”, entre 2010 e 2014. O diretor é outro experiente: Alexandre Avancini. O elenco é bom, de atores conhecidos da casa. Para contar a saga de Moisés (Enzo Simi/Guilherme Winter) em formato de telenovela, a autora promete incorporar à história bíblica tramas folhetinescas, envolvendo conflitos familiares, luta pelo poder, traições, inveja, ódio e amores proibidos. Até aí, nenhuma novidade, já que a Bíblia está repleta de histórias assim, que dariam ótimas novelas. Não é exagero afirmar que as histórias bíblicas são os ancestrais dos folhetins.

O primeiro capítulo foi ágil, exibindo bonitos cenários. Samara Felippo destacou-se. A atriz vive Joquebede, a mãe biológica de Moisés nessa primeira fase. ZéCarlos Machado (de “Sessão de Terapia”) também, ele é o faraó Seti I, que quer dar cabo aos bebês hebreus. O problema foram os nomes egípcios pronunciados pelo elenco, de difícil compreensão neste primeiro momento.

Já que a proposta era distanciar das minisséries para aproximar das novelas, teria sido interessante a inserção de legendas na tela apresentando os nomes dos personagens. Deixava tudo menos formal. A formalidade está ainda nos diálogos, declamados, empostados. Remete aos melodramas antigos. Tudo bem que é uma produção bíblica, existe o caráter épico. Mas é novela – brasileira – acima de tudo. Quem sabe seja interessante trazer o texto (e a produção como um todo) para a informalidade da telenovela contemporânea. Claro que ninguém vai sair falando gírias modernas, não é isso!

Um puxão de orelha na Record: a primeira novela bíblica brasileira foi exibida em 1968, pela TV Tupi e se promovia da mesma forma que “Os Dez Mandamentos” da Record: por ser “a primeira novela bíblica da TV brasileira”. Era “O Rouxinol da Galileia”, escrita por Júlio Atlas, que estreou na Semana Santa de 1968 e encenou a Paixão de Cristo. No elenco, tinha Lima Duarte, Vida Alves, Laura Cardoso, Patrícia Mayo, Paulo Figueiredo, Wilson Fragoso, Rildo Gonçalves e outros.


Relembre a carreira de Cláudio Marzo, galã da era de ouro da televisão
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Nilson Xavier

marzo

Cláudio Marzo e Regina Duarte em “Véu de Noiva'', 1970 (Foto: Internet)

Perdemos mais um galã da era de ouro de nossas novelas (e da televisão). Cláudio Marzo recusava o título de galã, apesar dos vários papeis seguidos que o popularizaram como tal, entre 1965 e 1974, contracenando, principalmente, com Regina Duarte. E, de fato, Marzo era mais que um galã. Era ator dos bons. Por isso, tão requisitado. E, por isso, tão exigente com seus papeis. Conhecido pelo temperamento difícil, o ator cansou-se dos mocinhos de novelas e deixou uma lacuna na TV na segunda metade da década de 1970.

No cinema foram 35 filmes, entre eles “Se Segura Malandro”, “A Dama do Lotação”, “Pra Frente Brasil”, “Parahyba Mulher Macho”, “Fonte da Saudade”, “Fulaninha”, “Perfume de Gardênia”, “O Homem Nu”, “A Casa da Mãe Joana”. Na TV foram quase quarenta participações entre novelas e minisséries. Marzo foi um dos primeiros atores contratados pela recém criada TV Globo, em 1965. O primeiro papel foi Augusto na versão televisiva do romance “A Moreninha”, de Joaquim Manuel de Macedo, com Marília Pêra no papel principal. Seguiram-se os heróis galantes das novelas rocambolescas comandadas por Glória Magadan na Globo: “Eu Compro Esta Mulher”, “O Sheik de Agadir”, “A Rainha Louca”, “Sangue e Areia”, “A Grande Mentira” e “A Última Valsa”, entre 1966 e 1969.

Véu de Noiva”, escrita por Janete Clair entre 1969 e 1970, foi a primeira novela da emissora carioca a explorar a realidade brasileira e mostrar o Rio de Janeiro contemporâneo. Marcou o rompimento com os melodramas de Magadan. Marzo protagonizou a história com Regina Duarte, que estreava na Globo. Ele era o piloto de corridas Marcelo Montserrat. A Fórmula 1 começava a ter amplo destaque pela mídia na época e seu personagem ajudou a popularizar o esporte.

Naqueles tempos, os atores emendavam um trabalho no outro. Marzo e Regina, após o grande êxito de “Véu de Noiva”, atuaram, na sequência, em “Irmãos Coragem”, também de Janete Clair, e “Minha Doce Namorada”, de Vicente Sesso. Ele foi um os irmãos Coragem, Duda, o jogador do Flamengo, cartada certeira de Janete em pleno ano em que a seleção brasileira conquistou o tricampeonato no México. Marzo e Regina saíram antes do término da novela para estrelar a nova produção das sete, “Minha Doce Namorada”, em que ele viveu o estudante Renato.

Procurando já um caminho diferente para sua imagem de galã romântico, Cláudio Marzo apareceu cabeludo e barbudão, todo sujo, como o mecânico Demétrius, o Grego, na novela “O Bofe” (1972), incompreendida tentativa de Bráulio Pedroso de mexer com os alicerces da teledramaturgia. Em seguida, voltaria à linha romântica em “Carinhoso”, de Lauro César Muniz, em que viveu o sério empresário Humberto, que disputou o amor da doce Regina Duarte com o irmão playboy, vivido por Marcos Paulo.

​Em “O Espigão” (1974), de Dias Gomes, foi o ecologista Léo Simões, numa época em que Ecologia era uma palavra restrita aos meios acadêmicos e científicos. Dias Gomes pôs o assunto na ordem do dia através do personagem de Marzo. Na adaptação do romance “Senhora” (1975), de José de Alencar, ele foi o dúbio Fernando Seixas, o anti-herói que se vende – literalmente – à mulher que pagar o melhor dote de casamento. Em 1976 foi escalado para viver um psicanalista que comandava terapia de casais na novela “Despedida de Casado”, de Walter George Durst, que não chegou a ir ao ar pois fora vetada pela censura do Regime Militar, por ter sido considerada “atentatória à moral e bons costumes da família brasileira“.

Foi quando Cláudio Marzo desligou-se da Globo. Retornou à novelas em 1978, na Tupi de São Paulo, para participar da inexpressiva “Roda de Fogo” (não confunda com a novela da Globo da década de 80). Passou pelo menos quatro anos longe do apelo global. Para quem emendou uma novela na outra, por mais de dez anos, isso era bastante tempo.

Em 1980, Cláudio Marzo retornou à Globo para ficar por mais dez anos. “Olhai os Lírios do Campo”, de Geraldo Vietri, às seis horas, “Plumas e Paetês”, de Cassiano Gabus Mendes, às sete, e “Brilhante”, de Gilberto Braga, às oito, que ele fez seguidas, marcaram sua volta. Em 1982, viveu um de seus melhores papeis na televisão: Jorge, que vê seu casamento com Alice (Marília Pêra) desmoronar até terminar em um crime passional, na minissérie “Quem Ama Não Mata”, de Euclydes Marinho (que o autor adaptou recentemente, exibida pela Globo como “Felizes Para Sempre?”).

Seguiram-se as novelas “Pão Pão Beijo-Beijo”, “Partido Alto”, “Cambalacho” e “Bambolê”, e a minissérie “Tenda dos Milagres” (entre 1983 e 1988). Em 1989, Marzo mudou-se para a TV Manchete, atuando em “Kananga do Japão”, para, no ano seguinte, viver outro personagem inesquecível de sua carreira: Zé Leôncio, o protagonista de “Pantanal”, de Benedito Ruy Barbosa, um dos trabalhos que mais gostou. Lembra do Velho do Rio?

Cláudio Marzo só retornou à TV em 1993, de volta à Globo (em “Fera Ferida”, de Aguinaldo Silva), de onde não desligou-se mais. Entre as décadas de 1990 e 2000, os bons personagens foram minguando. Mas a presença sempre marcante de Marzo garantiu bons trabalhos, independentemente do tamanho do papel: “Irmãos Coragem” (o remake de 1995), “Vira-lata”, “A Indomada”, “Era uma Vez”, “Andando nas Nuvens”, “Coração de Estudante”, “Mulheres Apaixonadas”, “A Lua me Disse” e “Desejo Proibido”, a última novela, em 2008. O último trabalho na TV foi uma participação na série “Guerra e Paz”, de Carlos Lombardi, em 2008.

Aliás, taí um ator que não cabia “papel pequeno”. Cláudio Marzo era uma presença grandiosa e marcante demais para passar despercebido. Poucos galãs têm essa qualidade.


Capítulo de estreia de “Babilônia” é uma verdadeira aula de roteiro
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Nilson Xavier

Glória Pires e Adriana Esteves (Foto: Divulgação/TV Globo)

Glória Pires e Adriana Esteves (Foto: Divulgação/TV Globo)

O primeiro capítulo de uma novela sempre tem a intenção de cativar o público de imediato. E quase nunca se consegue. Reza uma aula de Janete Clair que a novela só pega quando o mocinho der o beijo na mocinha em um determinado número de capítulo. Bem, assim era até a década de 70.

Hoje em dia, para uma novela pegar, depende de muito mais do que o primeiro beijo romântico na terceira semana de novela. E não existe regra. O primeiro capítulo de “Amor à Vida” causou uma verdadeira comoção. Mas a novela que se viu duas semanas depois em nada mais lembrava a estreia. A trama de Walcyr Carrasco só foi cair no gosto do público quando o vilão Félix (Mateus Solano) foi transformado num personagem cômico.

Salve Jorge”, de Glória Perez, teve em sua estreia uma brincadeirinha de voltar no tempo. Mas acabou por revelar-se uma novela das mais lineares. “Em Família”, de Manoel Carlos, perdeu toda a empolgação inicial quando passou das primeiras fases para a definitiva. Antes tivesse ficado na segunda fase. E “Império”, de Aguinaldo Silva, já vendia nas chamadas uma vilã que desbancaria Carminha (Adriana Esteves em “Avenida Brasil”). Mas Cora (Drica Moraes/Marjorie Estiano) minguou e virou uma vilã pé de chinelo.

Babilônia”, a estreia dessa segunda (16/03) – escrita por Gilberto Braga, Ricardo Linhares e João Ximenes Braga – também contou com um arsenal de atrativos com o intuito de fisgar o público. Tudo fluiu perfeitamente em um capítulo intenso e de tirar o fôlego. O público já sabe que a trama será pautada no embate entre duas vilãs: Beatriz (Glória Pires), a chique com ares de poderosa, e Inês (Adriana Esteves), a pé de chinelo rancorosa.

O que impressionou nesse primeiro capítulo foi a trama bem amarrada, bem urdida, uma verdadeira aula de roteiro, de como apresentar os principais personagens, suas características e suas histórias num primeiro capítulo. Mas nada disso teria o efeito que teve se não fosse a ótima produção (núcleo de Dennis Carvalho), como já era de se esperar, e a atuação das atrizes protagonistas, Glória Pires e Adriana Esteves.

Ouso dizer que não via Glória Pires tão bem em uma personagem desde Raquel, a gêmea vilã de “Mulheres de Areia” (de 1993). Adriana Esteves ainda carrega os tiques de Carminha? Pode ser. Mas está diferente. Não é a mesma Carminha, mesmo urrando como Carminha. Talvez ainda fosse cedo para Adriana retornar ao vídeo? Talvez. Mas vislumbro algo de diferente e conto com isso!

O restante do elenco teve pouco destaque. Camila Pitanga ainda não disse a que veio. Também é protagonista, Regina, moça humilde e honesta – claro, ascensão social e diferenças entre classes é Gilberto Braga puro. Aliás, o capítulo todo é um Gilberto Braga legítimo!

Também vimos as sempre unanimidades Fernanda Montenegro e Nathalia Timberg, com ótimas personagens, que, inclusive, escondem um segredo sobre o passado das rivais Beatriz e Inês. Mas, muito mais do que isso, formam um casal lésbico que já deixou para o público um longo e delicado beijo. Sem firulas ou falsas expectativas. Assim, na cara da sociedade. Continua desse jeito, “Babilônia”. Não faça como suas antecessoras!


Bom elenco e direção não conseguiram livrar “Império” da trama irregular
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Nilson Xavier

Comendador é morto no último capítulo (Foto: Ellen Soares/ Gshow)

Comendador é morto no último capítulo (Foto: Ellen Soares/ Gshow)

Uma novela irregular. Assim “Império” poderá ser lembrada no futuro. Aguinaldo Silva montou sua trama de altos e baixos repleta de apelos que despertaram curiosidade no público. Personagens complexos, bem dirigidos e bem interpretados (a maioria), com histórias que tinham tudo para render ótimos entrechos, enlaces e ganchos. Alguns conseguiram. Outros ficaram na promessa ou decepcionaram.

Império” terminou nesta sexta-feira, 13 de março, com o desfecho da trajetória do Comendador José Alfredo, o grande protagonista da trama. Uma brilhante caracterização de Alexandre Nero, que cumpriu a contento a missão de protagonizar, pela primeira vez, a principal novela da Globo – e produto de maior audiência da TV aberta brasileira.

Um anti-herói, amado e odiado, o Comendador foi um personagem cheio de nuances, qualidades e defeitos. Um dos melhores anti-heróis de nossa Teledramaturgia, desde Beto Rockfeller (Luiz Gustavo na novela homônima de 1968) e Carlão (Francisco Cuoco em “Pecado Capital“, 1975-1976). Pena que sua trama andou e desandou várias vezes ao longo da novela. Nas últimas semanas, o Comendador quase acabou enlouquecido, com mania de perseguição e medo da própria sombra.

Como apoio ao personagem de Nero, outra grande interpretação: Lília Cabral, que apaga de vez a sombra de Pereirão, a infeliz personagem que Aguinaldo Silva deu à atriz em “Fina Estampa”, seu trabalho anterior. Ainda que Maria Marta tivesse tido uma trajetória incerta: começou como uma dondoca arrogante e terminou bastante humanizada para quem desprezava os próprios empregados no início. Teve até reza! Mas o ótimo desempenho da atriz releva qualquer deslize no roteiro.

Infelizmente não pudemos ver Drica Moraes transformar Cora numa personagem memorável. Na pele da atriz, Cora ficou na promessa, e seu afastamento foi um corte brusco no prosseguimento da personagem. Marjorie Estiano (em substituição) trouxe uma Cora mais visceral, que, talvez, tivesse rendido bem mais se tivesse sido ela a intérprete desde o começo. No fim, Cora em nada lembra a megera das primeiras chamadas de “Império“. Apenas não morreu na praia literalmente.

Além de Maria Marta, outros personagens tiveram seguimentos que os distanciaram de suas personalidades iniciais. Ou cujos desfechos resultaram pouco coerentes com suas trajetórias. Téo Pereira (Paulo Betti), o jornalista fofoqueiro e maldoso, quem diria, fez seu mea-culpa e se transformou num “jornalista de respeito”. Enrico (Joaquim Lopez), o odioso homofóbico, passou a amar e a aceitar o pai gay, Cláudio (José Mayer), depois que este quase morreu – tudo muito repentinamente. Cláudio e Leonardo (Klebber Toledo) reataram no final – um desfecho forçado e incoerente para a história que eles haviam mostrado. Orville (Paulo Rocha), de escroque mau-caráter, regenerou-se e passou a ajudar o pintor que ludibriava (Salvador de Paulo Vilhena).

O casal de pilantras Magnólia e Severo (Zezé Polessa e Tato Gabus Mendes) parece ter se redimido depois de tantos golpes: nessa última semana, Magnólia revelou-se uma mulher até sábia (oi?), enquanto Severo, coitado, descobriu-se, de uma hora para outra, com Alzheimer. Xana (Aílton Graça), que suspirava por rapazes no início, lutou pela guarda de uma criança e, por fim, aceitou viver de boa com um casal. O mordomo Silviano (Othon Bastos), de discreto e servil, revelou-se o grande vilão da história, ensandecido em uma trama de vingança pessoal contra o Comendador que envolvia o próprio filho dele, José Pedro (Caio Blat) – a revelação de que José Pedro era o misterioso Fabrício Melgaço acabou por deixar pontas soltas e mal explicadas na trama e um desfecho bastante questionável.

Aguinaldo Silva teve muita sorte com “Império”. Trocou de diretor: deixou de lado a parceria com Wolf Maya, cujos últimos trabalhos foram pouco inspirados (“Fina Estampa”, “Lara com Z”, “Cinquentinha”, “Duas Caras”). O novo diretor de núcleo, Rogério Gomes, deu uma identidade mais sóbria à obra de Aguinaldo, que andava um tanto quanto carnavalesca. Um grande acerto.

Além da direção, o elenco foi outro fator importante para que “Império” não desandasse. Além de Alexandre Nero e Lília Cabral, merecem destaque os esforços de Leandra Leal, Drica Moraes, Marjorie Estiano, José Mayer, Suzy Rêgo, Zezé Polessa, Tato Gabus Mendes, Caio Blat, Othon Bastos e Dani Barros (a Lorraine). Paulo Betti, Paulo Vilhena e Aílton Graça dividiram opiniões. Muitos torceram o nariz para o histrionismo de Betti, como o fofoqueiro Téo Pereira, para os o exageros do pintor maluquinho Salvador (de Vilhena), e para a caracterização surreal de Aílton Graça, como Xana. Sou do time dos que defendem os três: não passam de personagens de ficção, e – guardadas as devidas proporções – até que bastante críveis.

Império” foi uma novela com uma boa direção e uma galeria de bons personagens nas mãos de um elenco afiado. Faltou um melhor desenvolvimento nas tramas desses personagens. Por isso chamá-la de irregular. Não é o Aguinaldo memorável de “Senhora do Destino”, onde quase tudo se encaixou perfeitamente. Mas, tampouco, o Aguinaldo de “Fina Estampa”, que nem o elenco conseguiu sustentar uma história tão estapafúrdia. “Império'' escapou por bem pouco.