Blog do Nilson Xavier

“Império” levanta o horário nobre da Globo, mas ainda não para o Brasil
Comentários 29

Nilson Xavier

Lília Cabral (Maria Marta) e Alexandre Nero (José Alfredo) (Foto: Divulgação/TV Globo)

Lília Cabral (Maria Marta) e Alexandre Nero (José Alfredo) (Foto: Divulgação/TV Globo)

Há cinco meses no ar, a novela “Império” já tem um grande mérito: ter levantado a moral do horário nobre da Globo. Sua audiência na Grande São Paulo segue boa. Não tem um excelente Ibope, como a última do autor Aguinaldo Silva, “Fina Estampa” (de 2011-2012). Nem é um fenômeno de repercussão, como “Avenida Brasil” (de 2012). Mas, em alguns aspectos, “Império” é superior aos folhetins que vieram depois: “Salve Jorge”, “Amor à Vida” e “Em Família”. Todavia, é lógico que as antecessoras não são parâmetro para justificar ou compensar os problemas de “Império”.

Pode-se reclamar de tudo da trama de Aguinaldo. Menos dos erros crassos de roteiro e direção de “Salve Jorge”, do texto pobre de “Amor à Vida” ou do marasmo de “Em Família”. “Império” é uma boa novela. Mas seria melhor se a trama central fosse mais poderosa, daquelas de perder o fôlego, que prendem o telespectador, que fazem com que o público não fique sem perder um capítulo. O barraco familiar envolvendo Cora e o clã do Comendador (neste sábado, 13/12) pode ter passado batido para muitos. Mas, fisgar o espectador diariamente é uma tarefa cada vez mais difícil nos dias de hoje. Nós, o público, estamos mais e mais exigentes. O arroz com feijão diário já não é mais o suficiente para agradar.

Cena do capítulo de sábado, 13/12 (Foto: Divulgação/TV Globo)

Cena do capítulo de sábado, 13/12 (Foto: Reprodução)

O autor vai cozinhando uma trama aqui e outra ali, enquanto outra ganha os holofotes. Em meio a isso, destacam-se ótimos atores em suas performances. Nos últimos capítulos, vimos Marjorie Estiano substituir Drica Moraes no papel de Cora – duas excelentes atrizes em uma personagem complexa. Já reclamei AQUI que a Cora entregue não era a que havia sido vendida. Mas, a expectativa frustrada é compensada por uma personagem que vai se revelando mais densa. Sinceramente, espero que a Cora de Marjorie traga de volta a sobriedade amarga que a atriz deu à personagem na primeira fase. Muito mais interessante que a Cora cômica que solta pum – como já vimos Aguinaldo obrigar Drica Moraes a fazer.

Zezé Polessa e Tato Gabus também tiveram, nos últimos capítulos, sequências dignas de nota. O casal trambiqueiro, que parecia raso, ganha profundidade com a interpretação dos atores. Suzy Rêgo e José Mayer também têm seus grandes momentos. Alexandre Nero, Lília Cabral, Leandra Leal, Paulo Betti, Aílton Graça, Othon Bastos, Elizângela… “Império” tem um ótimo elenco, bem dirigido, com o bom texto de Aguinaldo, sempre com uma pegada popular. Talvez este seja o maior trunfo da novela: a união do bom texto do autor com a boa direção (núcleo de Rogério Gomes) e o elenco. Só falta a trama parar o Brasil. Isso ainda não aconteceu.


Relembre casos de atores substituídos durante as novelas, como Drica Moraes
Comentários 37

Nilson Xavier

Marjorie Estiano e Drica Moraes em "Império" (Foto: Divulgação/TV Globo)

Marjorie Estiano e Drica Moraes em “Império'' (Foto: Divulgação/TV Globo)

Por ser uma obra aberta, que vai se desenvolvendo conforme os acontecimentos, toda novela, durante o seu percurso, está sujeita a acidentes pelo caminho. O afastamento de um ator, que vive um dos principais papeis na trama, pode ser traumático para a produção. O novelista vai precisar de muito jogo de cintura para driblar uma situação como essa. Quanto mais dependente do personagem está a novela, mais difícil para o autor, já que isso pode comprometer sua história.

A Globo oficializou, nesta sexta-feira (05/12), o afastamento de Drica Moraes de “Império”, por motivos de saúde (AQUI matéria completa na coluna de Flávio Ricco). Coube a Aguinaldo Silva descascar este abacaxi. Sua solução foi das mais inusitadas: Marjorie Estiano, que viveu Cora jovem, substitui Drica. Motivo? Cora faz uma cirurgia plástica e rejuvenesce! Estranho? Não! Em nossa Teledramaturgia, isso já aconteceu. Bastante!

No início da novela “Transas e Caretas” (1984), a personagem de Eva Wilma (a atriz foi envelhecida para viver uma velha senhora), fez uma plástica e reapareceu vinte anos mais nova – no caso, a própria atriz com a idade que tinha na época. O que dizer de “Brega e Chique” (1987), em que o personagem de Jorge Dória dava um golpe envolvendo muito dinheiro e ressurgia com outra identidade, após uma plástica, no corpo de… Raul Cortez! O próprio Aguinaldo Silva já se valeu deste recurso anteriormente: em “Duas Caras” (2007-2008), Adalberto Rangel, para fugir da polícia, passa por uma cirurgia e ressurge sob nova identidade: Marcone Ferraço – ambos Dalton Vigh.

A seguir vários outros casos!

Laura Cardoso se ausentou de “Gutierritos, o Drama dos Humildes” (Tupi, 1964/1965) por problemas de saúde e foi substituída por Wanda Kosmo. Assustada com a repercussão negativa de sua personagem (uma vilã) em “A Pequena Karen” (Excelsior, 1966), a atriz Tereza Rachel pediu para ser afastada da novela, sendo substituída por Lídia Costa. A própria atriz Lídia Costa iria, novamente, entrar no meio de uma trama em substituição a outra atriz. Foi em “As Minas de Prata” (Excelsior, 1966/1967), no lugar de Glória Menezes, que fora realocada para a nova produção da emissora: “O Grande Segredo”.

Durante a novela “Passo dos Ventos” (Globo, 1968), o ator Mário Lago foi preso por motivos políticos. Seu personagem era importante na trama, e não se podia aguardar pelo retorno do ator. Para dar continuidade à novela, o próprio diretor, Régis Cardoso, substituiu Mário Lago – aparecendo de costas!

E o que dizer deste caso! Durante a novela “A Gata de Vison” (Globo, 1968/1969), a autora Glória Magadan apaixonou-se pelo ator Geraldo Del Rey (trinta anos mais jovem), que vivia o vilão da trama. Tarcísio Meira era o mocinho da história e seu personagem foi perdendo importância para o vilão. Descontente com os rumos de seu personagem, Tarcísio deu um ultimato à produção: “Ou grava a minha morte essa semana, ou meu personagem pega o próximo trem e não volta!'' Magadan não teve dúvida: o capítulo terminou com Tarcísio entrando num trem e, no capítulo seguinte, é o ator Milton Rodrigues quem está em seu lugar, vivendo o mesmo personagem!

Dez Vidas” (1969) foi o último trabalho de Regina Duarte na TV Excelsior. Ela deixou a novela logo no início, descontente com os salários atrasados da emissora. Foi então substituída na novela por Leila Diniz. Regina foi para a Globo atuar em “Véu de Noiva”. Nesta novela, aconteceu outra substituição: a atriz Mirian Pires entrou no lugar de Mary Daniel na interpretação da personagem Mariana.

Geórgia Gomide vivia uma das protagonistas de “As Pupilas do Senhor Reitor” (Record, 1970/1971), mas deixou a novela em seu terceiro mês de exibição, sendo substituída por Maria Estela. Na mesma novela, aconteceu outra troca: Lucy Meirelles por Célia Rodrigues. Já a atriz Márcia Maria fazia uma participação em “A Viagem” (Tupi, 1975/1976) mas ficou doente sendo substituída por Kate Hansen. No capítulo em que Kate aparece pela primeira vez, o diretor Carlos Zara narrou o motivo da mudança de atriz.

A atriz Maria Ferreira, em “O Meu Pé de Laranja Lima” (Bandeirantes, 1980/1981), deixou a novela pela metade, sendo substituída por Ivanice Sena. Pela mesma época, na mesma emissora, o ator Oscar Felipe faleceu enquanto participava da novela “A Deusa Vencida”. Foi substituído por Felipe Levy.

Sérgio Cardoso foi substituído por Leonardo Villar em "O Primeiro Amor". E Jorge Dória se transforma em Raul Cortez em "Brega e Chique" (Fotos: Internet)

Sérgio Cardoso foi substituído por Leonardo Villar em “O Primeiro Amor''. E Jorge Dória se transformou em Raul Cortez em “Brega e Chique'' (Fotos: Internet)

Djenane Machado viveu Bebel no primeiro ano do seriado “A Grande Família” (a primeira versão, dos anos 70), mas não quis continuar no programa. Foi então substituída, de um episódio para outro, por Maria Cristina Nunes. Durante esse episódio, a única alusão à substituição foi a fala irônica de um personagem que achou Bebel “um pouco diferente“.

Na minissérie “O Quinto dos Infernos” (Globo, 2002), o ator Ewerton de Castro chegou a gravar cenas que foram ao ar, mas pediu demissão da Globo por não concordar com o andamento de seu personagem. Foi substituído por Flávio Galvão. O seriado humorístico “Meu Cunhado”, do SBT, foi gravado em 2003, mas só foi ao ar um ano depois. Guilhermina Guinle foi substituída a partir do vigésimo episódio pela colega Luiza Thiré, porque foi fazer a novela “Mulheres Apaixonadas”, na Globo. Para justificar a troca de atrizes, a personagem Simone passa por uma cirurgia plástica que se desdobra por cerca de três episódios.

Em “O Clone'' (2001-2002), Débora Falabella ficou doente e sua irmã, Cíntia, também atriz e parecida com ela, entrou em seu lugar por alguns capítulos. E, mais recentemente, no seriado humorístico “Pé na Cova'' (2014), o autor, Miguel Falabella, promoveu a substituição de Karin Hills por Mary Sheila, nos dois últimos episódios, já que Karin saiu para estrelar sua nova atração, “Sexo e as Negas“.

Um dos casos mais traumáticos aconteceu na novela “O Primeiro Amor“, da Globo, em 1972, por conta do falecimento de Sérgio Cardoso, que vivia o protagonista da trama. Faltavam apenas 28 capítulos para a novela terminar. O ator foi substituído por Leonardo Villar. A troca foi feita com todo o elenco reunido no estúdio. Sérgio Cardoso aparecia saindo por uma porta em sua última aparição na novela. Depois, com a cena congelada no vídeo, um texto lido por Paulo José explicava o que acontecera e relembrava a trajetória do ator. Por fim, batia-se à porta e, quando a cena recomeçava, entrava Leonardo Villar, sendo recebido pelo elenco.

Outro caso de substituição por morte aconteceu na minissérie “O Sorriso do Lagarto”, em 1991. Chiquinho Brandão havia gravado cerca de vinte capítulos quando morreu num acidente automobilístico. Para ocupar o seu lugar, os roteiristas providenciaram um primo do personagem, que foi vivido por Stepan Nercessian.

Fonte: meu livro “Almanaque da Telenovela Brasileira'' (Panda Books)

Troca de atores é bastante comum no universo ficcional de entretenimento. Várias séries americanas já passaram por situações assim. Em novelas importadas, que costumam ter menor compromisso com a realidade, isso é até bastante corriqueiro. Independentemente das razões do afastamento, a substituição do ator pode movimentar a trama. Ou, pelo menos, gerar curiosidade no público, o que sempre ajuda na audiência – o tal “buzz” (burburinho).


Com trama tradicional “Alto Astral” tenta reconquistar o público do horário
Comentários 17

Nilson Xavier

Marcos(Thiago Lacerda), Laura ( Nathalia Dill) e Caíque Sérgio Guizé) Crédito: Globo/João Miguel Júnior

Marcos  -Thiago Lacerda-, Laura -Nathalia Dill- e Caíque -Sérgio Guizé- Crédito: Globo/João Miguel Júnior

Um mês no ar e se confirmam minhas primeiras impressões sobre “Alto Astral”, a novela das sete da Globo. Com muito romantismo, o autor, Daniel Ortiz (com a supervisão de Silvio de Abreu), trafega por caminhos conhecidos do folhetim. O amor do herói Caíque (Sérgio Guizé, ótimo no papel) pela mocinha Laura (Nathalia Dill), prejudicado pelas armações do vilão Marcos (Thiago Lacerda). Nada mais folhetinesco e tradicional. O ponto de partida da trama é baseada em uma sinopse deixada por Andrea Maltarolli (1962-2009).

A razão é clara: apagar do telespectador a ideia de “renovação” (ou “inovação”) proposta pelas duas tramas anteriores no horário. “Além do Horizonte” e “Geração Brasil” foram pontos fora da curva que mais afugentaram do que atraíram público. Desta vez, nada de aventura na selva ou universo tecnológico. Não que “experimentações” não sejam bem vindas. Sempre são e as duas novelas tiveram suas qualidades. Mas o bom de nossa Teledramaturgia é isso: trazer variedade para seu público.

E “Alto Astral” começou pisando firme no conhecido. Aos poucos, o autor vai recheando a trama com mais e mais humor. E, convenhamos, a novela está repleta de possibilidades neste sentido. A direção de Jorge Fernando é uma grife que remete à comicidade nos folhetins. Assim como a presença de Cláudia Raia no elenco.

A temática fantasiosa, que aborda fantasmas e espíritos (sem pretensões doutrinárias, isso já está bem claro), é um prato cheio para atores como Raia, Marcelo Médici (ainda muito comedido), Sérgio Guizé, Conrado Caputto (o peruano Pepito), Mônica Iozzi, Mariana Armelini e Débora Olivieri. Alguém só precisa alertar Elizabeth Savalla que ela não está em um pastelão de Walcyr Carrasco, e que é covardia concorrer no grito com Leopoldo Pacheco.

Alto Astral” me lembrou uma novela antiga de Silvio de Abreu: “Jogo da Vida”, de 1981. Ela vinha de um fracasso (“O Amor é Nosso”), começou melodramática (era baseada em um argumento de Janete Clair), e terminou divertidíssima. Tomara que “Alto Astral” siga por esse caminho.


“O Rei do Gado” já tem data para voltar no “Vale a Pena Ver de Novo”
Comentários 28

Nilson Xavier

Patrícia Pillar como a boia-fria Luana (Foto: Reprodução/Internet)

Patrícia Pillar como a boia-fria Luana (Foto: Reprodução/Internet)

A sessão “Vale a Pena Ver de Novo” já tem data para a substituta de “Cobras e Lagartos”, sua atual atração. A novela “O Rei do Gado” volta no dia 12 de janeiro de 2015. A escolha por um dos maiores sucessos da Teledramaturgia nacional tem uma razão: faz parte das comemorações do cinquentenário da TV Globo – apesar de ter sido reprisada recentemente, no canal a cabo Viva (em 2011). Também não é a primeira vez do repeteco da novela no “Vale a Pena Ver de Novo”: ela foi reexibida em 1999.

O Rei do Gado” foi escrita por Benedito Ruy Barbosa, com direção geral de Luiz Fernando Carvalho, originalmente apresentada entre junho de 1996 e fevereiro de 1997. A primeira fase (que durou sete capítulos) fez muito sucesso e narrou os antecedentes das famílias Berdinazzi e Mezenga, na década de 1940, tendo como destaque o ódio entre as duas famílias e o amor proibido dos jovens Enrico Mezenga (Leonardo Brício) e Giovanna Berdinazzi (Letícia Spiller). Participaram desta etapa também Tarcísio Meira, Eva Wilma, Antônio Fagundes, Vera Fischer, Marcello Antony e Caco Ciocler, entre outros.

A segunda fase teve vários cenários que distribuíam diferentes núcleos, de São Paulo e Ribeirão Preto a Brasília e a região do rio Araguaia. Bruno Mezenga (Antônio Fagundes), filho de Enrico e Giovanna (já falecidos), tornou-se um dos maiores pecuaristas do país, conhecido como o “rei do gado”. Em crise em seu casamento com Léa (Silvia Pfeifer), ele se encanta pela humilde boia-fria Luana (Patrícia Pillar), uma moça desmemoriada.

Antônio Fagundes (Bruno Mezenga) e Raul Cortez (Jeremias Berdinazzi) (Fonte: Reprodução/Internet)

Antônio Fagundes (Bruno Mezenga) e Raul Cortez (Jeremias Berdinazzi) (Fonte: Reprodução/Internet)

Do outro lado, está o tio que Bruno não conhece, Jeremias Berdinazzi (Raul Cortez), irmão de Giovanna. Jeremias é um velho solitário que enriqueceu depois que roubou a família. Ele está em busca da única parente que acredita viva, a filha desaparecida de um irmão, que naturalmente herdará sua fortuna. É quando aparece a misteriosa Rafaela (Glória Pires), que diz ser sua sobrinha. Na verdade, a sobrinha desaparecida de Jeremias é Luana, que uniu-se a Bruno Mezenga, descendente da família que ele odiou no passado.

A Reforma Agrária, a vida dos trabalhadores do Movimento dos Sem Terra (MST) e a luta pela posse de terras – representados pelos núcleos de Regino (Jackson Antunes) e do Senador Caxias (Carlos Vereza) – foram amplamente discutidos na novela e tiveram grande repercussão na mídia e na sociedade em geral. E a primeira trilha sonora é a recordista de vendas da Som Livre: o disco “O Rei do Gado 1” vendeu mais de um milhão e meio de cópias (entre LPs e CDs).

No elenco, também Fábio Assunção, Lavínia Vlasak, Stênio Garcia, Bete Mendes, Guilherme Fontes, Oscar Magrini, Walderez de Barros, Mariana Lima, Ana Rosa, Ana Beatriz Nogueira, Almir Satrer, Sérgio Reis e outros.

O Rei do Gado” volta no “Vale a Pena Ver de Novo” dia 12 de janeiro de 2015, às 16h30.

Saiba mais sobre “O Rei do GadoAQUI.


Gilberto Braga errou ao retratar pobres como idiotas em “O Dono do Mundo”
Comentários 35

Nilson Xavier

Malu Mader e Antônio Fagundes, protagonistas de "O Dono do Mundo" (Foto: Internet)

Malu Mader e Antônio Fagundes, protagonistas de “O Dono do Mundo'' (Foto: Reprodução/Internet)

Em entrevista a Arnaldo Jabor, para a Folha de São Paulo, em junho de 1991, o novelista Gilberto Braga declarou: “Eu não aguentava mais ver tanta impiedade por parte das elites brasileiras em relação aos miseráveis. Pensei em fazer uma novela questionando a falta de carinho dos ricos pelos pobres. (…) Fiz uma novela sobre o egoísmo, a bondade e a maldade.

Ele se referia ao seu folhetim “O Dono do Mundo”, recém estreado na época – em reprise atualmente no canal a cabo Viva. A história do rico cirurgião plástico Felipe Barreto (Antônio Fagundes), que apostou (uma caixa de champanhe importado) que era capaz de levar uma noiva virgem – Márcia (Malu Mader) – para a cama, antes do noivo, em plena noite de núpcias. Claro que Felipe atingiu seu intento e claro que a noiva, ultrajada e renegada por todos, iniciou uma batalha por vingança contra seu algoz.

Márcia não foi renegada apenas na ficção. O país inteiro torceu o nariz para a heroína torta de “O Dono do Mundo”. Felipe, o sedutor canalha, não fez nada à força. Seduzida e completamente apaixonada, foi a própria virgem que lhe bateu à porta se oferecendo. O público não perdoava o fato de Márcia ter tão facilmente cedido ao cirurgião. Mais que a questão da virgindade, o que afugentou a simpatia do telespectador foi a falta de lealdade de Márcia com seu noivo.

A queda na audiência foi tamanha que, logo em seu primeiro mês de exibição, a novela de Braga passou por reformulações consistentes. O Viva exibiu nesta semana a cena em que a enfurecida Márcia parte para cima de Felipe e lhe arranca sangue da cara com um bisturi. E acaba presa. Esta foi uma das primeiras medidas tomadas para tentar fazer com o que o povo se apiedasse da protagonista.

De um lado, ricos arrogantes, do outro, pobres ingênuos (Foto: Reprodução/Internet)

De um lado, ricos arrogantes, do outro, pobres ingênuos (Foto: Reprodução/Internet)

Revendo estes primeiros capítulos com um afastamento de 23 anos, fica mais claro entender o que aconteceu. Gilberto Braga afirmou que não aguentava ver tanta impiedade das elites em relação aos pobres. E isso é evidente neste primeiro mês da novela. O autor carregou forte demais nas tintas para destacar os ricos dos pobres. Os abastados não eram só muitos ricos (da classe A), mas também muito arrogantes e preconceituosos com as classes “inferiores”. Neste contexto, destacam-se, além de Felipe Barreto, também a sua mãe, Constância Eugênia (Nathalia Timberg), e a socialite Karen (Maria Padilha).

Enquanto isso, os pobres eram retratados como antiquados, atrasados, incultos e ingênuos – verdadeiros imbecis. Além de Márcia, sua madrinha Nanci (Ana Rosa), seu tio Darci (Antônio Grassi), o taxista Vicente (Cláudio Corrêa e Castro) e sua mulher Almerinda (Beatriz Lyra), e toda a vizinhança do subúrbio. Os pobres mais “espertos” – vamos assim colocar – eram a prostituta Thaís (Letícia Sabatella), que escondia de todos sua condição, e Beija-Flor (Ângelo Antônio), um rapaz de bom coração, mas, neste início da trama, envolvido com marginais.

E não havia meio termo em “O Dono do Mundo”. Os personagens mais boas-praças – como a cafetina Olga (Fernanda Montenegro) ou a socialite Stela (Glória Pires) – estavam à margem desta discussão classista. De fato, era difícil para o telespectador mais humilde (a grande maioria do público da novela) se identificar com sua classe refletida daquele jeito na televisão. O tiro do autor saiu pela culatra. Pesando a mão ao mostrar as diferenças entre classes de uma forma extremista, Braga parecia zombar do povão.

Pretensiosa, “O Dono do Mundo” se propunha realista na discussão sobre o preconceito aos mais humildes. Mas errou feio ao traçar de forma maniqueísta o universo que separa ricos de pobres. Tanto que, entre as reformulações pelas quais a trama passou para conquistar audiência, estava a chegada de personagens de classe média e de pobres cômicos. Mais adiante, Braga vai brincar com a própria trama central através de uma nova personagem, a engraçada Teresinha (Tássia Camargo), que aposta um engradado de cerveja de que é capaz de levar para a cama o ricaço Júlio (Daniel Dantas).

Aos olhos de hoje, “O Dono do Mundo” soa interessante, como uma obra de ficção que se propunha a traçar um retrato de uma época – ainda que de maneira torta. De produção impecável e com um elenco grandioso, como folhetim, é um excelente entretenimento. Todavia, o Brasil de hoje é muito diferente daquele de 1991, economicamente falando. E se fosse produzida atualmente, a novela de novo sofreria rejeição. Com um maior poder aquisitivo, o povão também conquistou uma maior autoestima e orgulho por sua classe. Novamente não iria gostar de se ver retratado de forma tão pitoresca na televisão.


Para garantir audiência, “Boogie Oogie” carrega no melodrama despudorado
Comentários 22

Nilson Xavier

Fabíula Nascimento e Heloísa Périssé ótimas em "Boogie Oogie" (Foto: Divulgação/TV Globo)

Fabíula Nascimento e Heloísa Périssé ótimas em “Boogie Oogie'' (Foto: Divulgação/TV Globo)

Rui Vilhena, o autor da novela das seis da Globo, “Boogie Oogie”, não abre mão do melodrama rasgado para levar sua história adiante. Extremamente ágil, como poucas vezes se viu em nossa Teledramaturgia, a trama segue o seu ritmo alucinante, queimando cartuchos a cada leva de capítulos e, ao mesmo tempo, já engendrando outros. “Boogie Oogie” passa aquela sensação, cada vez mais rara entre os folhetins, de que, se perdeu um capítulo, perdeu muito. Este é o maior mérito do autor: apresentar uma trama que se renova sempre e, assim, manter o interesse do telespectador na atração.

Todavia, para tanto, Vilhena não tem pudor algum ao usar alguns recursos folhetinescos, disfarçados ou escancarados, que, ao meu ver, correm o risco de empobrecer a narrativa da novela. A repetição de palavras ou frases (primeiro “troca de bebês”, agora “segredo de Carlota”) para fixar uma ideia na cabeça do público. A fofoca entre os personagens, como um recurso fácil para desencadear acontecimentos, espalhar uma ideia ou um fato da história – Serginho (João Vithor Oliveira) tem se revelado um coadjuvante cuja única função na trama é espalhar segredos.

E, por fim, o melodrama rasgado. Beatriz (Heloísa Périssé) é vítima da chantagem de Cris (Fabíula Nascimento), que exige que ela impeça o casamento de Sandra e Rafael (Ísis Valverde e Marco Pigossi) sob a ameaça de revelar ao seu marido Elísio (Daniel Dantas) a sua infidelidade: Elísio não é o pai biológico de Vitória (Bianca Bin), como ele acredita. Beatriz é praticamente uma mártir, enquanto Cris é a carrasca – com direito a humilhações de Cris contra Beatriz, enquanto esta última toma um comportamento completamente passivo ante as ameaças de sua algoz.

O autor carrega no maniqueísmo e usa de recursos, digamos, mais fáceis, para fazer sua história fluir. “Boogie Oogie” tem se revelado uma novela despudorada na tarefa de fidelizar audiência. Golpe baixo do autor? Talvez não, enquanto o público estiver curtindo.

PS: Há de se elogiar a performance de Heloísa Périssé e Fabíula Nascimento – interpretando muito bem tipos que o grande público não está acostumado a ver na pele das atrizes, Beatriz, a sofredora, e Cris, a megera.


Novela “Pedra Sobre Pedra”, de Aguinaldo Silva, é a próxima reprise do Viva
Comentários 19

Nilson Xavier

Maurício Mattar, Renata Sorrah e Lima Duarte em "Pedra Sobre Pedra" (Foto: Divulgação/TV Globo)

Maurício Mattar, Renata Sorrah e Lima Duarte em “Pedra Sobre Pedra'' (Foto: Divulgação/TV Globo)

O canal Viva bateu o martelo e já tem o título de sua próxima novela a ser reprisada: é “Pedra Sobre Pedra“, que entra no lugar de “A Viagem“, em janeiro. Escrita por Aguinaldo Silva, Ana Maria Moretzsohn e Ricardo Linhares, com direção de Paulo Ubiratan, Gonzaga Blota, Luiz Fernando Carvalho e Carlos Magalhães, o folhetim foi originalmente exibido entre janeiro e julho de 1992, e teve uma reprise no “Vale a Pena Ver de Novo'' em 1995.

Pedra Sobre Pedra'' foi uma coprodução com a RTP Portuguesa, que financiou 20% da novela. Algumas cenas foram gravadas em Lisboa, e dois atores portugueses vieram especialmente para o Brasil para fazer parte do elenco: Carlos Daniel e Suzana Borges.

A trama conta a história de duas famílias rivais em disputas políticas na fictícia cidade de Resplendor, na Chapada Diamantina: os Pontes, liderados por Murilo (Lima Duarte), e os Batistas, da qual se sobressai a figura de Pilar (Renata Sorrah). Amantes no passado, o amor dos dois se transformou em ódio. A aproximação dos filhos das duas famílias – Leonardo (Maurício Mattar), filho de Murilo, e Marina (Adriana Esteves), filha de Pilar – põe ainda mais lenha nesta fogueira.

Outras tramas se sobressaíram, como as artimanhas do vilão Cândido Alegria (Armando Bógus), a disputada flor do “retratista'' Jorge Tadeu (Fábio Jr.), que enlouquecia de desejo as mulheres solteiras e casadas de Resplendor, e o dia a dia de um acampamento cigano liderado por Yago (Humberto Martins) e sua irmã Vida (Luiza Tomé).

No elenco, também Eva Wilma, Eloósa Mafalda, Andréa Beltrão, Arlete Salles, Nelson Xavier, Paulo Betti, Carla Marins, Pedro Paulo Rangel, Tânia Alves, Lília Cabral, Osmar Prado, Marco Nanini, Elizângela, Cecil Thiré, Nívea Maria, Isadora Ribeiro, Míriam Pires, Selton Mello e outros.

Saiba mais sobre “Pedra Sobre Pedra'' no Teledramaturgia.

Curtiu a escolha do Viva? COMENTE!


Relembre as megeras de Joana Fomm que marcaram sua carreira na TV
Comentários 17

Nilson Xavier

Joana Fomm em "Boogie Oogie" (Foto: Divulgação/TV Globo)

Joana Fomm em “Boogie Oogie'' (Foto: Divulgação/TV Globo)

The bitch is back! (*)

A megera está de volta. Longe das novelas há oito anos (a última foi “Bang Bang”, em 2005-2006), a atriz Joana Fomm retornou aos folhetins vivendo novamente uma megera, o tipo que a consagrou na televisão. Em “Boogie Oogie”, a trama das seis da Globo, ela interpreta a intragável Odete – não por acaso, este é o nome de uma das maiores vilãs da Teledramaturgia nacional: a Roitman, vivida por Beatriz Segall em “Vale Tudo” (1988).

E que falta estava fazendo La Fomm em nossa telinha! Ela até foi vista nos últimos anos em pequenas participações – nas séries “As Cariocas”, em 2010, e, mais recentemente, em “As Canalhas”. O tom de voz, o olhar, o gestual, ainda são os mesmos de trabalhos na televisão que marcaram gerações. Até o mês passado, Joana Fomm era vista na reprise de “Dancin´ Days”, no Viva, como a interesseira Yolanda Pratini, papel que a tornou famosa em todo o país, em 1978.

Tudo bem que Joana já viveu mulheres boazinhas. Quem não lembra da mãezona Carmem Maura em “Vamp” (1991-1992), ou a simplória Rita de “Porto dos Milagres” (2001)?! Mas é que foram tantas personagens amargas, carreiristas, desaforadas, invejosas, mal amadas e arrogantes que não dá pra desassociar de sua carreira na TV. Vamos contar?

Em Dancin´Days, Corpo a Corpo, Bambolê, Tieta, Fera Ferida, As Pupilas do Sr.Reitor, Razão de Viver e Esplendor (Foto: Reprodução)

Em Dancin´Days, Corpo a Corpo, Bambolê, Tieta, Fera Ferida, As Pupilas do Sr.Reitor, Razão de Viver e Esplendor (Foto: Reprodução)

- Yolanda Pratini em “Dancin´ Days” (1978);
– Natália em “Elas por Elas” (1982);
– Lúcia Gouveia em “Corpo a Corpo” (1984-1985);
– Fausta em “Bambolê” (1987-1988);
– Perpétua em “Tieta” (1989-1990);
– Salustiana Maria em “Fera Ferida” (1993-1994);
– Eugênia Carlota em “As Pupilas do Senhor Reitor” (1995);
– Yara em “Razão de Viver” (1996);
– Olga Norman em “Esplendor” (2000).

Outro destaque na carreira da atriz foi Perpétua em “Tieta”, na qual Joana explorou a comédia, pesando na caricatura da bruxa e nos trejeitos exagerados. Impossível não lembrar da dobradinha com Betty Faria (a Tieta, irmã de Perpétua) quando vemos Joana Fomm contracenando com Betty em “Boogie Oogie”.

(*) “The Bitch is Back'' é o título de uma música gravada por Elton John na década de 1970.


DVDs “Vale Tudo” e “A Favorita” são boas opções de presentes de fim de ano
Comentários 11

Nilson Xavier

Beatriz Segall e Nathalia Timberg em "Vale Tudo" (Foto: Divulgação/TV Globo)

Beatriz Segall e Nathalia Timberg em “Vale Tudo'' (Foto: Divulgação/TV Globo)

Já nas lojas especializadas, duas boas opções de presentes de fim de ano: a Globo Marcas lançou os boxes de DVDs das novelas “A Favorita” e “Vale Tudo”.

A Favorita”, exibida entre junho de 2008 e janeiro de 2009, foi a estreia no horário nobre de João Emanuel Carneiro, autor também de “Avenida Brasil” (2012). A novela trouxe uma novidade para o horário das nove da Globo: ao invés do casal romântico protagonista, a trama era centrada em duas antagonistas, Donatela (Cláudia Raia) e Flora (Patrícia Pillar), que disputavam o amor da filha, Lara (Mariana Ximenes), herdeira de uma grande fortuna.

Com referências em filmes de suspense, tanto pela condução da história, quanto pela fotografia escura e cheia de sombras, “A Favorita” confundiu o público no início, que não sabia para quem torcer, pois o roteiro não deixava claro quem era a vilã da história, quem estava mentindo, se Flora, recém saída da cadeia, ou Donatela. Uma das duas matou o pai de Lara: Donatela, esposa dele, ou Flora, a amante, mãe de Lara. Flora foi presa pelo crime e deixou a filha sob a guarda de Donatela, que a criou com carinho. Ao sair da prisão, Flora luta para provar sua inocência e que havia sido Donatela a criminosa. Mas estaria Floria mentindo?

A novela teve uma reviravolta no capítulo 56, quando foi revelado que, de fato, Flora era a assassina. A partir daí, a vilã declarada conseguiu se infiltrar na família de Lara e deu-se início a um jogo de gato e rato com Donatela. Um grande sucesso, “A Favorita” cativou a audiência e tornou a personagem de Patrícia Pillar um hit. Até hoje, Flora é uma referência de vilã. E ainda trouxe de volta ao imaginário popular a música “Beijinho Doce”, criação de Nhô Pai, que na novela era interpretada pela antiga dupla sertaneja Faísca e Espoleta, formada por Donatela e Flora. A música fez tanto sucesso que ganhou remixes na internet, com batidas pop, dance e funk, e a inclusão de frases e bordões marcantes de Flora.

Patricia Pillar e Cláudia Raia (Foto: Divulgação/TV Globo)

Patricia Pillar e Cláudia Raia em “A Favorita'' (Foto: Divulgação/TV Globo)

DVD A Favorita: box com 15 discos, 44 horas de duração. Preço sugerido: 180 reais.
Direção geral de Ricardo Waddington. No elenco, também Murilo Benício, Cauã Reymond, Carmo Dalla Vecchia, Ary Fontoura, Giulia Gam, Mauro Mendonça, Glória Menezes, Tarcísio Meira, Lília Cabral, Jackson Antunes, José Mayer, Thiago Rodrigues, Deborah Secco e outros.

Em minha lista de melhores novelas de todos os tempos, “Vale Tudo” ocupa a primeira posição. As qualidades são muitas, desde o elenco de primeira, bem dirigido, com personagens carismáticos, ao roteiro, que em momento algum fez com que o público perdesse o interesse na história. Levando ao telespectador a reflexão: “Vale a pena ser honesto no Brasil?”, “Vale Tudo” era uma novela crítica e – o mais incrível – sua temática continua atual, depois de 28 anos.

Escrita por Gilberto Braga, Aguinaldo Silva e Leonor Bassères, e dirigida por Denis Carvalho e Ricardo Waddington, “Vale Tudo” foi ao ar entre maio de 1988 e janeiro de 1989. O Brasil parou para assistir ao último capítulo da novela, para saber a identidade do assassino da vilã Odete Roitman. A pergunta “Quem matou Odete Roitman?” ecoa até hoje, tamanha foi a repercussão que “Vale Tudo” teve. Entre 2010 e 2011, foi exibida no canal Viva, causando um verdadeiro frisson nas redes sociais. Personagens emblemáticos como Maria de Fátima (Glória Pires), Odete Roitman (Beatriz Segall) e Heleninha (Renata Sorrah), são velhos conhecidos dos brasileiros, inclusive dos que nunca haviam tido a oportunidade assistir à novela.

kit-dvd

DVD Vale Tudo: box com 13 discos, 37 horas de duração. Entre os extras, uma reportagem especial sobre os bastidores da gravação da cena da morte de Odete Roitman e entrevistas com os principais atores sobre a importância da novela. Preço sugerido: 165 reais.

No elenco, além de Glória Pires, Beatriz Segall e Renata Sorrah, também Regina Duarte, Antônio Fagundes, Carlos Alberto Riccelli, Reginaldo Faria, Cássio Gabus Mendes, Lídia Brondi, Nathalia Timberg, Adriano Reys, Cássia Kiss, Cláudio Corrêa e Castro, Pedro Paulo Rangel, Lília Cabral e outros.

Também à venda, o kit com almofada e/ou caneca das novelas.


“Alto Astral” promete ser o que as novelas das 7 anteriores não conseguiram
Comentários 40

Nilson Xavier

Sérgio Guizé e Nathalia Dill (Foto: Pedro Paulo Figueiredo/TV Globo)

Sérgio Guizé e Nathalia Dill (Foto: Pedro Paulo Figueiredo/TV Globo)

Depois de tramas pretensiosas no horário das sete (“Além do Horizonte” e “Geração Brasil”), chegou a ser um alívio assistir à estreia da nova novela, “Alto Astral”. À primeira vista, ela é tudo o que as suas antecessoras não conseguiram ser: simples e folhetinesca, com vários elementos já conhecidos do público de novelas.

Já sabemos que Thiago Lacerda e Débora Nascimento formam um casal vilão, o contraponto do casal romântico central vivido por Sérgio Guizé e Nathalia Dill. Caíque, o personagem de Guizé, sempre desenhou, desde criança, o rosto de uma mulher que ele não conhecia. Até encontrá-la ao final do primeiro capítulo – ótimo gancho em uma cena muito bonita. Só ficou estranho o fato deles não se conhecerem, já que ela é noiva do irmão dele.

As chamadas deixaram claro que o Espiritismo funciona na novela como um pano de fundo, uma alegoria. A produção não tem a menor intenção de discutir a filosofia kardecista. Não passa da história de um rapaz que vê gente morta – a “gente morta”, no caso, o médico vivido por Marcelo Médici e a menina que acompanha Caíque, personagem da graciosa Nathalia Costa.

Alto Astral” é tão somente uma comédia romântica. Na parte da humor está uma histriônica Claudia Raia – loura inclusive – que dá vida à vidente Samantha. Sua primeira aparição já foi digna de nota, ao alertar o povo sobre uma ponte que estava prestes a cair (e caiu, a partir de uma armação da personagem). Tecnicamente falando, “Alto Astral” é bem produzida, e já mostrou, além da cena da ponte, um acidente aéreo e uma derrapagem numa pedra. A direção geral é de Jorge Fernando. A trilha sonora e a abertura são ótimas.

Poços de Caldas, em Minas Gerais, e Pedra Azul, no Espírito Santo, foram algumas locações dessa estreia. A fictícia cidade de Maltarolli é uma homenagem a Andrea Maltarolli, novelista morta em 2009, autora da sinopse original na qual “Alto Astral” é baseada. Daniel Ortiz estreia como autor solo, tendo seu mestre Silvio de Abreu (com quem já trabalhou) como supervisor de texto.

Alto Astral” promete leveza em um horário que vem sofrendo bastante com a baixa aceitação do público. Parece seguir a receita da última boa novela da faixa, “Sangue Bom” (2013). Não traz nada de diferente, nada além do já visto inúmeras vezes antes. Talvez, por isso, possa agradar. Inovação é sempre bem-vinda. O trivial também.