Blog do Nilson Xavier

Muito sincera, Laila é a personagem mais racional de “Sete Vidas”
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Nilson Xavier

Maria Eduarda Carvalho, a Laila de "Sete Vidas" (Foto: Reprodução)

Maria Eduarda Carvalho, a Laila de “Sete Vidas'' (Foto: Reprodução)

Já prestou atenção na personagem Laila da novela “Sete Vidas” – muito bem interpretada pela atriz Maria Eduarda Carvalho?! Laila é o ponto fora da curva na trama de Lícia Manzo. É a que destoa em meio a uma galeria de tipos sofridos, porém cordatos, educados, que não dão barraco ou vexame, que não levantam a voz nem mesmo em situações extremas, que engolem sapos, que escondem seus anseios e desejos.

Rodeada por um mundo de desencontros entre pessoas muito educadas, Laila é a ovelha negra, que fala o que pensa à hora que quer. Sem papas na língua, peita todo mundo, joga verdades na cara, expõe as mazelas e fraquezas dos demais sem medir palavras. Várias foram as situações em que ela criou saias justas sem pensar nas consequências. É a única personagem v1d4 l0k4 da novela.

Direta, franca e super sincera, ela fala o que todo mundo percebe, mas não tem coragem de expor. Laila é a “cota catarse” de “Sete Vidas”. É a personagem que se destaca em meio a uma trama que prima o diálogo, que parte da premissa de que tudo se resolve com uma boa conversa civilizada (entenda DR, “discussão de relação”).

eribertoMas Laila também funciona como um coringa nas mãos da autora Lícia Manzo. Como vimos no capítulo desta quinta-feira (02/07). Todos – principalmente o público – sempre estranharam a relação, no mínimo inusitada, entre a megera Marta (Gisele Fróes) e o “sensível” Eriberto (Fábio Herford, foto ao lado). Um casal por demais incomum, mas muito rico, dramaturgicamente falando, que poderia render (e até rendeu) bastante.

Entretanto, o casamento que tinha tudo para dar errado (e deu!) só foi cair na conta de Eriberto faltando uma semana para o término da novela. O que estava claro para todos, só ficou visível para ele com a mãozinha providencial de Laila. Numa cena divertida, após beber um pouco além da conta, ela arranca Eriberto do armário chique em que ele se encontrava.

Eriberto é um personagem interessante e tem a torcida pela sua amizade com o dentista Renan (Fernando Eiras) #Erinan, eu shippo! – como se fala nas redes sociais. E a autora usou Laila para o desfecho do personagem, a partir dessa luzinha que ela acendeu na cabeça dele. Tomara que nesta última semana, sobre bons desdobramentos para o fim da trama de Eriberto. Ainda que tenha soado precipitado fazer uso de Laila como a voz da razão de um personagem tão bom.

É isso! Laila é a voz dissonante da razão em “Sete Vidas”, diante de tantos personagens movidos por uma comedida emoção. E já foi assim com o papel da atriz na novela anterior de Lícia Manzo: a Nanda de “A Vida da Gente'' (2011-2012) divide muitas semelhanças com a Laila de “Sete Vidas“. Personagens coringa da autora e atriz idem.


“Babilônia”:Trama com personagem Wilma é igual a outra recentemente exibida
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Nilson Xavier

Cristina Galvão (com Tadeu Aguiar) (Foto: Fabiano Battaglin/Gshow)

Cristina Galvão (com Tadeu Aguiar) (Foto: Fabiano Battaglin/Gshow)

Curiosidade enviada pelo leitor Mr. Novela. Uma grande coincidência, digna de nota, que envolve dois trabalhos de Gilberto Braga e Ricardo Linhares.

Observe a premissa abaixo:

A atriz Cristina Galvão (foto acima) interpreta uma personagem de classe média baixa que sabe que alguém, de caráter duvidoso, não cometeu um crime de que está sendo acusado. Mas reluta em falar a verdade para a polícia. Tudo isso é determinante para a trama principal da novela. Sua personagem, até então secundária, tem a chave de um desenlace importante para a história.

Claro que o leitor já identificou a trama de “Babilônia” (escrita por Gilberto Braga, Ricardo Linhares e João Ximenes Braga), que se encaixa na descrição acima. A personagem de Cristina Galvão é Wilma, que trabalha na casa de Tereza e Estela (Fernanda Montenegro e Nathalia Timberg). Ela sabe que a pérfida Inês (Adriana Esteves) é inocente do crime pelo qual está presa. Mas, se revelar a verdade, compromete a filha de Estela, Beatriz (Glória Pires), a verdadeira culpada. O personagem de Tadeu Aguiar, o mordomo Xavier, seu confidente, a estimula a ficar de boca calada.

Todavia, a premissa acima também pode ser atribuída a um outro trabalho de Braga e Linhares: a novela “O Dono do Mundo”, escrita por eles mais Leonor Basséres, em 1991, reprisada pelo canal Viva até poucas semanas atrás.

cristina1Em “O Dono do Mundo”, a personagem de Cristina Galvão – Celeste – poderia testemunhar que o cirurgião vilão Felipe Barreto (Antônio Fagundes) não operou o irmão dela, o bandido Ladislau (Tuca Andrada), por dinheiro, e sim porque foi obrigado. Celeste seria a única pessoa a inocentar Felipe, mas não queria fazê-lo, por conta do que o vilão fez a seus amigos Márcia (Malu Mader) e Valter (ó Tadeu Aguiar aqui!).

Curiosamente, quando o Viva começou a exibir os momentos em que Celeste se torna determinante para a trama principal de “O Dono do Mundo”, foi o momento em que a personagem da atriz em “Babilônia”, Wilma, percebeu que Beatriz era a culpada do crime.

Duas histórias que foram escritas por Gilberto Braga e Ricardo Linhares (que tiveram problemas de audiência, diga-se de passagem) exibidas ao mesmo tempo (uma inédita e outra reprise). Há ainda a coincidência de elenco entre as duas novelas. Além de Cristina Galvão e Tadeu Aguiar: Fernanda Montenegro, Nathália Timberg, Glória Pires e Tuca Andrada.

Em tempo, Celeste revelou a verdade e livrou Felipe Barreto da cadeia. Será que Wilma livrará Inês do mesmo fim? A conferir!


“Verdades Secretas” se destaca pela direção primorosa
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Nilson Xavier

Camila Queiroz e Rodrigo Lombardi (Foto: Reprodução)

Camila Queiroz e Rodrigo Lombardi (Foto: Reprodução)

Que direção primorosa a da novela “Verdades Secretas”! E uma direção como essa faz toda a diferença, principalmente em se tratando de um texto de Walcyr Carrasco. A seu favor está o próprio formato: uma novela mais enxuta, com poucos núcleos, elenco menor, menos capítulos. Pode-se dar um acabamento mais sofisticado. O horário tardio também favorece as experimentações estéticas e as ousadias de roteiro.

Nos últimos anos, a Globo tem investido na plasticidade que o horário e uma produção mais curta permitem. Vide as minisséries “O Canto da Sereia” e “Amores Roubados“, a novela “O Rebu” e a série “Dupla Identidade”.

A direção de núcleo de “Verdades Secretas” é de Mauro Mendonça Filho, responsável também pelo último trabalho de Walcyr Carrasco, “Amor à Vida”, em que a direção acabou engolida pelo texto raso do autor nos longos oito meses de novela. Agora, Carrasco está mais comedido – um avanço e tanto! – o que resulta numa sintonia maior com a direção, que deita e rola em tomadas bonitas, favorecidas por muitas externas, fotografia estilosa e trilha sonora de bom gosto.

A equipe de Mauro Mendonça Filho em “Verdades Secretas”: Allan Fiterman, André Barros e Mariana Richard, com direção geral de André Felipe Binder e Natália Grimberg.

dupla-identidade_dvdMauro Mendonça Filho foi também foi o responsável pela aclamada série “Dupla Identidade”, de Glória Perez, exibida no ano passado, com Bruno Gagliasso vivendo um serial-killer. A área de licenciamento da Globo lançou a atração em DVD (já nas lojas). Os quatro discos trazem, além dos treze episódios, um material extra com entrevistas e depoimentos e um documentário. Em “Dupla Identidade”, a história de Glória Perez não teria tido o mesmo impacto não fosse o esmero estético da equipe de Mauro Mendonça Filho. O mesmo se percebe na atual “Verdades Secretas“.


Falta testosterona a “Sete Vidas”
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Nilson Xavier

Débora Bloch e Ângelo Antônio (Foto: Felipe Monteiro/Gshow)

Débora Bloch e Ângelo Antônio (Foto: Felipe Monteiro/Gshow)

O que seria da novela “Sete Vidas” não fossem as DRs (discussões de relação), as sessões de terapia camufladas nos diálogos e as personagens femininas fortes e dominadoras em contraponto com personagens masculinos fracos e dominados?

Desde “A Vida da Gente” (2011-2012), o último trabalho de Lícia Manzo, este tem sido o norte da autora: conduzir a história proposta embasando-se em mulheres que questionam os homens amados, e estes representados apenas como meros receptores ou espectadores deste universo (melo)dramático feminino.

Faltando pouco menos de um mês para o término de “Sete Vidas”, já é possível perceber que a trama não tem sustentação para mais tempo. “A Vida da Gente”, tinha mais história para render, diferente da atual novela, em que seus dramas já estão quase todos fechados.

Isso não é uma crítica. “Sete Vidas” foi idealizada para contar uma história em um período de tempo menor (quatro meses), portanto, é mais enxuta. E fez bem a sua trajetória, com uma direção e produção de muito bom gosto e um texto inspirado, com foco nas relações humanas.

Mas as tramas de Lícia Manzo ainda carecem de personagens masculinos mais, digamos, fortes, assim como já são as mulheres de suas novelas. Seu mestre, Manoel Carlos, de quem herdou muitas características, também escrevia muito bem personagens femininas. Mas elas nunca sobrepujavam os masculinos.

Se “Sete Vidas” tivesse tido um tanto mais de testosterona (além da doação de sêmen, ponto de partida da história…), quem sabe essa relação ficasse melhor equilibrada. E assim, naturalmente, diminuiria a quantidade de DRs.

Leia também: Maurício Stycer – TOP 10 personagens masculinos mais vacilões de “Sete Vidas''.


20 personagens que Marieta Severo poderia ter vivido enquanto foi D. Nenê
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Nilson Xavier

Marieta Severo finalmente se livrou de Dona Nenê, sua simpática personagem na série “A Grande Família“, que viveu durante 13 anos (de 2001 a 2014). Atualmente a atriz é Fanny Richard, dona da agência de modelos da novela “Verdades Secretas“.

Agora, imagine se Marieta não tivesse sido a Dona Nenê por esse tempo todo? Ela poderia ter interpretado várias personagens bacanas em novelas. Veja abaixo 20 papeis que poderiam ter sido dela!


“Caminho das Índias” substitui “O Rei do Gado” no Vale a Pena Ver de Novo
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Nilson Xavier

 

Juliana Paes e Rodrigo Lombardi (Foto: Divulgação/TV Globo)

Juliana Paes e Rodrigo Lombardi (Foto: Divulgação/TV Globo)

A Globo divulgou essa tarde a novela substituta de “O Rei do Gado'' no Vale a Pena Ver de Novo, sua faixa vespertina de reprises. Em julho, volta “Caminho das Índias“, de Glória Perez, originalmente exibida em 2009, a primeira novela brasileira vencedora do Emmy Internacional (melhor telenovela de 2009).

A novidade de''Caminho das Índias“, e seu maior atrativo, foi tratar da cultura indiana e suas características em seu entrecho. Assim como fizera em “O Clone'' (2001-2002) – que mostrou do mundo islâmico – Glória Perez fez um apanhado dos costumes e tradições de uma cultura bem diferente da ocidental – desta vez a indiana. Foram abordados temas como o sistema de castas, a casamento arranjado, a longa preparação para um casamento, a questão dos intocáveis, além de danças e festas tradicionais e festivais folclóricos, etc.

A inserção de palavras estrangeiras nas falas dos personagens indianos da novela fez com que termos e expressões, repetidos à exaustão, se tornassem bordões populares, como “firanghi estrangeira'' (expressão usada erroneamente, um pleonasmo, já que a palavra “firanghi'' já quer dizer “estrangeira''), “arrastar o sári no mercado'', “as lamparinas do juízo'', “are baba!'' (ai meu Deus!, puxa vida!), “baguan keliê'' e “arebaguandi'' (meu Deus!), “tchalô'' (vamos!), “atchá'' (expressão de satisfação) e “namastê'' (saudação).

A produção foi criticada pela liberdade criativa ao retratar a caracterização de personagens indianos – como mulheres no dia-a-dia vestidas e maquiadas como se estivessem indo para uma festa tradicional, ou núcleos familiares inteiros dançando por qualquer motivo. Também por uma abordagem pouco condizente à Índia contemporânea, como a questão dos intocáveis (dálits) ou o sistema de castas. Tudo isto contribuiu para que a Índia mostrada na novela soasse um tanto quanto fake, ou como se a Índia representada fosse a do início do século XX.

Um dos maiores problemas da produção foi a inversão do mocinho da novela, Bahuan, interpretado por Márcio Garcia, que viu seu personagem se esvair ainda no início da trama. De mocinho protagonista, Bahuan tornou-se o antagonista, a partir do momento em que o público viu maior empatia entre a mocinha Maya (Juliana Paes) e seu marido forjado Raj (Rodrigo Lombardi). Falou-se até em “falta de química'' entre Márcio Garcia e Juliana Paes. Mas o fato é que Bahuan foi cada vez mais perdendo espaço na novela, e o público cada vez mais torcendo por um final feliz entre Maya e Raj.

Parelelo à história central indiana, vale destacar a trama da família Cadore, que chegou a mobilizar a novela por um período: o drama de Raul Cadore (Alexandre Borges), que forjou sua morte ante a família e fugiu do país, para depois ser enganado por sua cúmplice Yvone (Letícia Sabatella). Ainda a abordagem à esquizofrenia, através do personagem Tarso, vivido por Bruno Gagliasso.

No elenco, também Tony Ramos, Lima Duarte, Débora Bloch, Humberto Martins, Christiane Torloni, Laura Cardoso, Eliane Giardini, Osmar Prado, Nívea Maria, Marjorie Estiano, Caco Ciocler, Elias Gleizer, Tânia Khalil, Dira Paes, Anderson Müller, Stênio Garcia, Vera Fischer, Maitê Proença, Antônio Calloni, Ana Beatriz Nogueira, Totia Meirelles, Ísis Valverde, Cléo Pires, Danton Mello, Caio Blat, Murilo Rosa, Betty Gofman e outros.

Saiba mais sobre “Caminho das Índias no site Teledramaturgia.


“I Love Paraisópolis” conseguiu reunir um timaço de coadjuvantes
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Nilson Xavier

Olívia Araújo (Melodia) e Frank Menezes (Júnior) (Foto: Raphael Dias/Gshow)

Olívia Araújo (Melodia) e Frank Menezes (Júnior) (Foto: Raphael Dias/Gshow)

Elogios devem ser feitos a Bruna Marquezine – que vive Marizete, a protagonista de “I Love Paraisópolis”. Ela é uma Cinderela moderna, que briga pelo que quer. De uma beleza brasileira e natural, Bruna dispensa todos aqueles truques que fazem uma atriz parecer um ser inalcançável. Ou que fazem Marizete soar como uma personagem de novela mexicana. Bruna Marquezine é talentosa e carismática, e se vale apenas disso para interpretar sua heroína. E esbanja química com seus pares Grego (Caio Castro) e Benjamim (Maurício Destri).

Contudo, o que seria de “I Love Paraisópolis” sem o timaço de coadjuvantes que Wolf Maya (o diretor de núcleo) e Alcides Nogueira e Mário Teixeira (os autores) conseguiram reunir! Alguns, desconhecidos do grande público, mas com larga experiência. É novela das sete horas e, de acordo com a fórmula, o humor é imprescindível.

Para começo de conversa tem Tatá Werneck, e não se espera outra coisa, não é mesmo?! Danda, é estabanada, fala rápido e parece com o pensamento sempre avante da ação. O inglês macarrônico da personagem rende bastante. Frank Menezes, que vive o mordomo Júnior, é o que mais tem arrancado o riso. Seu bordão “favelaaaaaaada!” já é um sucesso. A dobradinha com a empregada Melodia (Olívia Araújo) é impagável. (Foto acima)

Não vou descrever as características e os méritos de cada um dos personagens/atores, porque são tantos e ficaria repetitivo. Mas como não se divertir também com Paula Cohen (Rosicler), Gil Coelho (Lindomar), Eduardo Dusek (Armandinho), José Dumont (Expedito), Mariana Xavier (Claudete), André Loddi (Paletó), Ilana Kaplan (Silvéria), Luana Martau (Mirela). Até Letícia Spiller rende sorrisos com sua vilã caricata Soraya.

O elenco de ótimos coadjuvantes se fecha com as demais interpretações, que mesclam o humor com o drama tão bem: Nicette Bruno (Izabelita), Fabíula Nascimento (Paulucha), Soraya Ravenle (Eva), Danton Mello (Cícero), Carol Abras (Ximena), Carolina Oliveira (Natasha), Françoise Forton (Isolda), Dani Ornellas (Deodora) e Paula Barbosa (Olga).

Poucas vezes se viu tantos bom talentos com personagens tão significativos e bem aproveitados em uma telenovela. Todos têm espaço na trama. Os tipos humanos muito ricos de “I Love Paraisópolis” nos fazem querer ser amigos desse povo todo. Criada a simbiose entre público e personagens, meio caminho andado está. A gente ri, torce e se emociona. Não é o que se espera de toda boa novela?


Em blocos bem diferentes, “Verdades Secretas” tem estreia equilibrada
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Nilson Xavier

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Grazi Massafera, Drica Moraes, Rodrigo Lombardi e Camila Queiroz (Foto: Divulgação/TV Globo)

Nenhuma pirotecnia para prender (ou enganar) o telespectador. O primeiro capítulo de “Verdades Secretas” – estreia das onze na Globo, nesta segunda, 08/06 – limitou-se a introduzir a história central e apresentar os principais personagens. Mas nada de correrias, ou acontecimentos estarrecedores. Para começar, uma novidade: os créditos não apareceram em uma abertura, mas em cima da primeira sequência, como nos filmes.

Carolina (Drica Moraes, a melhor atuação dessa estreia) descobriu a traição do marido e saiu de casa com a filha aspirante a modelo, Arlete (Camila Queiroz), que já foi apresentada ao novo colégio e à dona da agência de modelos, Fanny (Marieta Severo finalmente livre de Dona Nenê). Assim nasceu Angel, o novo nome de Arlete.

Diretores e autor apostaram no equilíbrio para apresentar a história e para dividir o seguimento da ação. O melhor e o pior do capítulo estavam separados em seus dois blocos. No primeiro, a ação foi toda centrada em Carolina e seu drama ao saber que o marido Rogério (Tarcísio Filho) tinha uma outra família. Inconformada, ela pega a filha e parte para São Paulo.

Drica, excelente, em nada lembra Cora, a vilã pé de chinelo que cheirava cuecas e soltava pum em “Império”. Em cenas bem dirigidas, também foi apresentado o personagem de Rodrigo Lombardi, o rico Alex, e seu envolvimento com modelos – ótima toda a sequência com a modelo Alessandra Ambrosio. Texto e direção (de núcleo de Mauro Mendonça Filho) excelentes.

No segundo bloco, a coisa foi bem diferente. No novo colégio, Arlete sofreu bullying das “mean girls” porque era do interior, porque não se vestia como as demais garotas e porque era da periferia. Também surgiu o gordinho com olhar carinhoso que lhe deu uma palavra amiga.

Corta para a agência de modelos e a figura de um gay afetadíssimo pôs Crô, Téo Pereira e Félix no chinelo: Visky, vivido por Rainer Cadete, de língua afiadíssima a trocar impropérios com uma colega de trabalho, um desafeto. É aí que Walcyr Carrasco se entrega: na total falta de sutileza nos diálogos e nos tipos que cria. Dois blocos que parecem duas novelas diferentes. Eu ficaria no primeiro.


Séries como “Os Experientes” e “Amorteamo” dão mais prestígio que audiência
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Nilson Xavier

Arianne Botelho e Johnny Massaro em "Amorteamo" / João Côrtes e Beatriz Segall em "Os Experientes" (Fotos: Divulgação/TV Globo)

Arianne Botelho e Johnny Massaro em “Amorteamo'' / João Côrtes e Beatriz Segall em “Os Experientes'' (Fotos: Divulgação/TV Globo)

Claro que toda produção televisiva tem como propósito a audiência – indiretamente é o seu lucro. Entretanto, um programa mira um público alvo, que varia dependendo de vários fatores (idade, classe social, gênero, interesse, etc) e, nem sempre, as possibilidades de audiência são as melhores. A Globo tem reservado o difícil horário das 23h30 de sexta-feira – tradicionalmente de audiência menor quando comparado aos demais dias da semana – para produções “biscoito fino”.

Público “diferenciado”? Se considerarmos que o telespectador que está em casa mais tarde numa sexta à noite é diferenciado… Para um público assim, “opções diferenciadas”, de qualidade superior em termos de acabamento – trilha sonora e fotografia, por exemplo. Seria sexta-feira tarde da noite o “horário nobilíssimo” da TV?!

A excelente série “Dupla Identidade”, de Glória Perez, foi uma melhores produções da Globo dos últimos tempos. Encerrou a temporada de 2014 na faixa. Em 2015, estrearam “Os Experientes” e “Amorteamo” – está última teve seu derradeiro capítulo exibido ontem, 05/06.

Os Experientes” apresentou quatro episódios independentes – a não ser alguns personagens em comum, mas em histórias distintas – em que o fio condutor era um olhar bem original sobre a velhice. Uma coprodução com a O2 Filmes, dirigida por Fernando e Quico Meirelles, com roteiros de Antônio Prata e Márcio Alemão Delgado.

Elenco em atuações primorosas: Beatriz Segall, Juca de Oliveira, Othon Bastos, Karin Rodrigues, Dan Stulbach, Selma Egrey, Joana Fomm, Elcyr de Souza, João Côrtes, Otávio Augusto, Cecília Homem de Mello. Fica até chato citar alguns e não citar todos, tão bem dirigidos em um texto sensível. Ah, o elenco do episódio “Atravessadores do Samba”: Wilson das Neves, Goulart de Andrade, Germano Mathias, Zé Maria e Bibba Chuqui. E dizer, que essa joia estava engavetada na Globo! Vamos providenciar uma segunda temporada?

Amorteamo” exibiu uma fábula tétrica sobre a relação entre o amor e a morte. Com evidente alusão ao longa “A Noiva Cadáver” (de Tim Burton, 2004), a série emulou seu tema, estética e caracterização – principalmente a noiva morta-viva, interpretada por Marina Ruy Barbosa, e o noivo vivido por Johnny Massaro. O que os distanciava era o tempero brasileiro: com sotaque nordestino, a trama foi inspirada em lendas do Recife. O expressionismo alemão e o teatro e o circo do início do século XX também serviram de referência.

Com direção geral de Flávia Lacerda, roteiros de Cláudio Paiva, Guel Arraes e Newton Moreno – este último, idealizador do projeto – destacaram-se no elenco Tonico Pereira, como o coveiro, e Jackson Antunes (por que é tão subaproveitado em papeis menores nas novelas?). A cena final apresentou a síntese da história: os protagonistas jovens (Johnny Massaro e Arianne Botelho) trocam juras de amor no casamento enquanto a cena se mescla à lembrança do outro casal da trama (Jackson Antunes e Letícia Sabatella), que trocou as mesmas juras de amor na igreja, mas que acabou por ter um casamento infeliz.

Produções sofisticadas como “Os Experientes” e “Amorteamo”, podem não dar grande audiência à Globo (a média final do Ibope da Grande São Paulo  ficou em torno de 12, 13 pontos, o esperado para o dia e horário). Mas enchem os olhos do público, fazem refletir, e, certamente, dão prestígio à emissora.


Público aprovou alterações em “Torre de Babel”, inicialmente rejeitada
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Nilson Xavier

Silvia Pfeifer e Christiane Torloni, como as lésbicas rejeitadas de "Torre de Babel" (Foto: Divulgação)

Silvia Pfeifer e Christiane Torloni, como as lésbicas rejeitadas de “Torre de Babel'' (Foto: Divulgação)

Há 17 anos – em 25 de maio de 1998 -, estreava no horário nobre da Globo a novela “Torre de Babel”, de Silvio de Abreu. Muito mais do que sua história, que abordou um shopping center que explodiu, está a história por trás dessa explosão.

A novela afugentou os telespectadores logo na primeira semana de exibição. Vendida nas chamadas como “forte, verdadeira, emocionante”, a trama espantou o público ao mostrar um Tony Ramos – o sempre bom moço de nossas novelas – matando a mulher e o amante dela com uma pá. Também uma família de classe média-alta com um filho drogado (personagem de Marcello Antony), violência doméstica através do tipo vivido por Juca de Oliveira, e um casal de lésbicas bem sucedidas que dividiam uma cama (Christiane Torloni e Silvia Pfeifer).

Qualquer semelhança com “Babilônia” – até o título é parecido – terá sido mera coincidência.

Claro que “Babilônia” e “Torre de Babel” não foram os únicos casos nesses 50 anos de TV Globo: “Anastácia, a Mulher Sem Destino” (aquela em que Janete Clair provocou um terremoto que matou a maioria dos personagens para que ela recomeçasse a história do zero), “Espelho Mágico” e “Os Gigantes” (problemáticas novelas de Lauro César Muniz), “O Dono do Mundo” e “Pátria Minha” (ambas de Gilberto Braga, um dos autores de “Babilônia“), e muitas outras.

Entretanto, é bom lembrar que a salvação, às vezes, vem. Detectados os problemas de “Torre de Babel”, Silvio de Abreu fez uma mexida substancial para ajustar a sua obra ao gosto do público. A explosão do shopping foi providencial: serviu para eliminar alguns dos personagens rejeitados, como o rapaz drogado, o casal de lésbicas, e o violento personagem de Juca de Oliveira.

Silvio mudou o perfil de José Clementino, o personagem de Tony Ramos. A princípio, ele continuou com sentimentos ruins de vingança, mas foi se redimindo ante o público pois descobrira o amor nos braços de Clara (Maitê Proença). Aos poucos, ficou claro para o telespectador a redenção (e salvação) de José Clementino – pelo amor.

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O autor também deixou claro quem era o vilão maniqueísta da novela (no caso, a personagem de Claudia Raia), e investiu mais no romance e no humor, em tipos que cariam nas graças do público – como a nova rica Bina Colombo (Claudia Gimenez), a dupla Johnny Percebe e Boneca (Oscar Magrini e Ernani Moraes), o deficiente mental Jamanta (Cacá Carvalho), e a periguete vilã Sandrinha (Adriana Esteves).

No fim das contas, após os ajustes, “Torre de Babel” conquistou a audiência e tornou-se mais um sucesso na carreira do autor.

Dezessete anos depois, a história se repete. Porém, dessa vez, ao que parece, sem final feliz. “Babilônia” pena na audiência. Tanto se mexeu que acabou transformada num arremedo de novela. Uma “novela zumbi”, como bem chamou Maurício Stycer em seu texto (LEIA AQUI).

A grande diferença com “Torre de Babel” foi a ineficácia dos autores de “Babilônia” em dar um prumo à história. Alterar o perfil dos personagens rejeitados acabou descaracterizando-os. Veja o álbum abaixo. Antes tivessem explodido a empresa Souza Rangel (um dos cenários da trama). Ou, quem sabe, um terremoto, para recomeçar essa história do zero.

Saiba mais sobre “Torre de Babel'' no site Teledramaturgia.