Blog do Nilson Xavier

Novela “Vitória” é bem escrita, mas mal realizada nas cenas de ação
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Nilson Xavier

O delegado Ramiro (Jonas Bloch) fantasiado de neonazista (Foto: Reprodução)

O delegado Ramiro (Jonas Bloch) fantasiado de neonazista (Foto: Reprodução)

É evidente o empenho da novelista Cristianne Fridman em mostrar um bom trabalho em sua novela “Vitória”, na Record. A trama é movimentada, já teve várias reviravoltas, parece que sempre se renova. Isso é essencial para o folhetim nos dias de hoje, em que o público precisa ser fisgado. “Vitória” ainda dosa bem romance, humor e ação. Mesmo assim, a novela pouco repercute.

A parte folhetinesca está na trama central, que aborda as disputas e interesses familiares envolvendo o casal romântico principal, Arthur (Bruno Ferrari) e Diana (Thaís Melchior). As tramas paralelas de maior destaque são duas: a dos desempregados que tiram a roupa para ganhar algum dinheiro – que traz leveza à atração, a parte da comédia – e a trama envolvendo os neonazistas – o lado mais “pesado” da novela.

É aí que “Vitória” derrapa. A história é bem conduzida, mas mal realizada quando exige mais além do trivial. Difícil vislumbrar se é um problema de direção ou de produção. Ou os dois. As sequências com mais ação, envolvendo confrontos entre a polícia e os vilões, deixam a desejar. Como a do capítulo desta quinta-feira (16/10), em que o delegado Ramiro (Jonas Bloch) se “fantasiou” de neonazista para infiltrar-se em um bar frequentado pelos bandidos.

Descoberto pelos neonazistas, ele acionou os policiais do lado de fora, que invadiram o local e iniciaram o tiroteio, numa sequência das mais fakes já vistas na Teledramaturgia moderna. Socos e marcação dos atores tão improváveis quanto o sangue cenográfico usado na cena. Não foi a primeira sequência de ação que não convenceu. “Vitória” merecia um cuidado maior. Fridman teve mais sorte com suas novelas anteriores na Record, “Chamas da Vida” (2008-2009) e “Vidas em Jogo” (2011-2012).


Novela “A Padroeira” recontou a história de Nossa Senhora Aparecida
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Nilson Xavier

Silvana (Laura Cardoso) ao receber a imagem da santa que apareceu no rio (Fonte: Reprodução)

Silvana (Laura Cardoso) ao receber a imagem da santa que apareceu no rio (Fonte: Reprodução)

No ano do 2001, a Globo exibiu, no horário das seis, a novela “A Padroeira”, de Walcyr Carrasco, que tinha dois pontos de partida: o romance histórico “As Minas de Prata”, de José de Alencar (que já havia rendido uma novela, de Ivani Ribeiro, na TV Excelsior, em 1966-1967), e a história da descoberta da imagem de Nossa Senhora Aparecida, a Padroeira do Brasil. Carrasco mesclou as tramas de forma que uma complementasse a outra.

A ideia era repetir a dobradinha Walcyr Carrasco (no roteiro) e Walter Avancini (na direção), responsáveis pelo sucesso de “O Cravo e a Rosa”, que havia terminado apenas três meses antes. Havia uma certa urgência em levar a nova produção ao ar, já que Avancini estava com sua saúde abalada. Mas, infelizmente, o diretor não chegou a ver sua obra concluída: Walter Avancini foi afastado um mês após a estreia de “A Padroeira”, vindo a falecer em 26 de setembro de 2001.

Na trama da novela, Carrasco remontou a história real da descoberta de uma imagem na região do Vale do Rio Paraíba, São Paulo, no ano de 1717, por três pescadores: Filipe Pedroso, João Alves e Domingos Garcia (na novela, interpretados por Isaac Bardavid, Cláudio Gabriel e Carlos Gregório, respectivamente). Não era época de pesca, mas os pescadores foram atrás de peixes para o banquete a ser servido ao Conde de Assumar (Antônio Marques), então governante da Capitania de São Paulo que estava de passagem pela cidade de Guaratinguetá.

apadroeira_logoOs pescadores jogaram a rede e tudo o que conseguiram foram o corpo da imagem de uma santa e, na sequência, a cabeça dessa imagem, que era negra. Os homens atribuíram a imagem à Virgem Maria, rezaram e foram agraciados com uma farta pesca. Levada para a cidadezinha, a cabeça da imagem foi colada ao corpo com cera, montada em um altar, que passou a reunir diariamente vários fieis para orações à Nossa Senhora que apareceu no rio.

Os personagens deste núcleo de “A Padroeira” são reais, reconhecidos pela Igreja Católica. Além dos três pescadores, destacaram-se também a beata Silvana (Laura Cardoso), mãe de João Alves, e Atanásio (Jackson Antunes), filho de Filipe Pedroso, que, juntamente com o vigário de Guaratinguetá, ergueu a primeira capela a Nossa Senhora Aparecida, por volta do ano de 1734.

A história da santa, dentro da novela, se funde com as demais tramas de “A Padroeira” quando cresce o preconceito com relação à adoração pela imagem da santa negra, o que divide os camponeses e fidalgos da região. Este preconceito cai por terra quando acontece o terceiro milagre atribuído à santa: a menina cega Marcelina (Renata Nascimento), filha do fidalgo Dom Lourenço de Sá (Paulo Goulart), começa a enxergar quando é levada para rezar junto à imagem. O capítulo de “A Padroeira” com esta sequência foi ao ar no dia 12 de outubro de 2001.

Inicialmente, “A Padroeira” teve rejeição do público, que estranhou sua estética sombria e pesada. Com a morte de Avancini, o diretor Roberto Talma assumiu a novela e, por conta dos baixos índices de audiência, a reformulou por completo. A direção de arte mudou o tom sóbrio da produção em cenários, figurinos e caracterização dos personagens, e parte do elenco original saiu e novos personagens foram criados para dar mais “vida'' à história.

Saiba mais sobre “A Padroeriano site Teledramaturgia.


Pretensiosa, “Geração Brasil” revelou-se uma novela com poucos atrativos
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Nilson Xavier

Murilo Benício e Renata Sorrah em "Geração Brasil" (Foto: Divulgação/TV Globo)

Murilo Benício e Renata Sorrah em “Geração Brasil'' (Foto: Divulgação/TV Globo)

Um manancial de boas ideias. Assim se podia definir a novela das sete da Globo, “Geração Brasil”, à época de sua estreia (começo de maio), com promessa de muitas ações de transmídia, interatividade com o público e repercussão nas redes sociais. Todavia, logo veio o primeiro golpe: a Copa do Mundo, que atrapalhou tudo na novela, do horário de exibição alterado à duração de capítulos limitada a drops diários de cinco minutos entre um boletim de Copa e outro.

Perto de seu fim, concluímos que “Geração Brasil” não resistiu à Copa. O reality-show dentro da história, promovido por Jonas Marra (Murilo Benício) para encontrar um sucessor para seu império, era o grande chamariz da trama de Filipe Miguez e Izabel de Oliveira. O problema foi que esse apelo esgotou-se antes mesmo da Copa começar. Com o fim do campeonato, pouco de interessante havia sobrado.

O segundo golpe veio com o Horário Político, que mexeu novamente com a grade. Entretanto, a essa altura, pouco restava do folhetim que prometeu balançar as redes sociais com temas de interesse aos mais antenados (tecnologia, nerds, etc). Outro grande apelo que “Geração Brasil” se valeu foi de ser a novela seguinte da dupla de autores que fez um sucessão em 2012 com “Cheias de Charme” (a novela das Empreguetes), inclusive com parte de seu elenco.

Próxima do fim, “Geração Brasil” esvaiu-se em uma trama das mais convencionais, sem mais realities e aplicativos, pouca interação com o público e, pior, pouca repercussão. Das boas ideias iniciais, sobraram alguns bons personagens, interpretações corretas e uma produção caprichada. Sobrou pretensão para repetir o sucesso de “Cheias de Charme”, mas faltou história e fôlego para administrar as intempéries de 2014.


Relembre os trabalhos de Hugo Carvana na televisão
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Nilson Xavier

1. Lineu Vasconcelos morto em "Celebridade". 2. Como Waldomiro Pena em "Plantão de Polícia". 3. Com Nívea Maria e Natalia Lage em "Gente Fina" (Foto: Divulgação/TV Globo)

1. Lineu Vasconcelos morto em “Celebridade''. 2. Como Waldomiro Pena em “Plantão de Polícia''. 3. Com Nívea Maria e Natalia Lage em “Gente Fina'' (Foto: Divulgação/TV Globo)

Acima de tudo, um homem de cinema. Hugo Carvana trabalhou em mais de 60 filmes. O primeiro papel de destaque foi em “Esse Rio Que Eu Amo” (1961). Esteve em longas importantes, como “Os Fuzis” (1963), “Terra em Transe” (1967), “O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro” (1968), “Macunaíma” (1969) e “Toda Nudez Será Castigada” (1973). Seu primeiro trabalho como diretor de cinema foi “Vai Trabalhar, Vagabundo” (1973). Seguiram-se outros, como “Se Segura Malandro” (1978), “Bar Esperança” (1982), “O Homem Nu” (1997) e “Casa da Mãe Joana” (2008).

O ator e diretor nos deixou neste sábado, 4 de outubro, aos 77 anos. Carioca, Hugo Carvana de Holanda nasceu em 4 de junho de 1937. Antes de estrear em televisão, já atuava em filmes e peças de teatro. Amigo pessoal de Daniel Filho, foi ele quem o levou para a TV Globo. Primeiro, uma breve participação na novela “Anastácia, a Mulher Sem Destino”, em 1967. Priorizando o cinema, Carvana voltaria à televisão quase dez anos depois, com um papel de destaque na novela “Cuca Legal” (1975), formando uma dupla com Francisco Cuoco. No mesmo ano, teve uma rápida aparição em “Gabriela”.

Mas Hugo Carvana dedicou a década de 1970 ao cinema. O retorno à telinha aconteceu apenas em 1979, no papel mais marcante de sua carreira na TV: o repórter policial investigativo Waldomiro Pena do seriado “Plantão de Polícia” (1979-1981), um programa de Daniel Filho que tinha entre os roteiristas o então iniciante Aguinaldo Silva. Em 1982, viveu outro personagem sob a direção de Daniel Filho: com a atriz Tânia Scher formou um dos vários casais da minissérie “Quem Ama Não Mata”, de Euclydes Marinho.

O retorno às novelas ocorreu em 1984. Em “Corpo a Corpo”, de Gilberto Braga, Carvana viveu o rico empresário Alfredo Fraga Dantas, homem autoritário e preconceituoso que não aceitava o namoro do filho (Marcos Paulo) com uma moça negra (Zezé Motta). Num lance folhetinesco digno de “O Direito de Nascer”, a moça salva a vida de seu algoz em uma transfusão de sangue. Seguiram-se “De Quina Pra Lua” (1985-1986), como o inescrupuloso Silva, e “Roda de Fogo” (1986-1987), como Paulo Costa, um dos sócios das empresas do protagonista Renato Villar (Tarcísio Meira).

1. Com Marcos Paulo e Malu Mader em "Corpo a Corpo". 2. Como um aviador em "Cuca Legal". 3. Com Susana Vieira em "Fera Ferida". (Foto: Divulgação/TV Globo)

1. Com Marcos Paulo e Malu Mader em “Corpo a Corpo''. 2. Como um aviador em “Cuca Legal''. 3. Com Susana Vieira em “Fera Ferida''. (Foto: Divulgação/TV Globo)

Após um breve hiato, Hugo Carvana retornou à televisão em 1990, na novela “Gente Fina”, em que viveu o protagonista Guilherme, casado com Joana (Nívea Maria), cuja família sofre com a derrocada financeira. Em seguida, um papel em “O Dono do Mundo”, de Gilberto Braga: o marceneiro Lucas. Foi também o delegado Lima da minissérie “As Noivas de Copacabana” (1992), e Agenor, na novela “De Corpo e Alma” (1992), que pagava faculdade para o filho (Guilherme Leme) sem saber que ele tirava a roupa no Clube das Mulheres.

Em 1993, Hugo Carvana viveu outro de seus bons papeis na TV: o político Numa Pompílio de Castro da novela “Fera Ferida”, inspirada na obra do escritor Lima Barreto. O personagem era traído pela mulher, Rubra Rosa (Susana Vieira), com seu inimigo político (José Wilker). Era ela quem escrevia seus discursos inflamados. Até o ano 2000, seguiram-se vários personagens em novelas e minisséries: Luiz Magalhães em “Agosto” (1993), Irmão Fidélis em “Engraçadinha” (1995), Aníbal em “Cara e Coroa” (1995-1996), Azevedo em “Corpo Dourado” (1998), Gouveia em “Chiquinha Gonzaga”, Wagner Macieira em “Andando nas Nuvens” (1999).

Após participações nas novelas “Um Anjo Caiu do Céu” (2001) e “Desejos de Mulher” (2002), Hugo Carvana viveu outro personagem emblemático: o empresário Lineu Vasconcelos em “Celebridade” (2003-2004), de Gilberto Braga – que gerou o “quem matou Lineu?”. O personagem foi assassinado e virou o mistério da trama. Ao final, descobriu-se que a assassinada era a vilã Laura (Claudia Abreu). Do novelista Gilberto Braga, Carvana ainda interpretou personagens nas novelas “Paraíso Tropical” (2007, Belisário) e “Insensato Coração” (2011, Silveira).

Nos últimos dez anos, Hugo Carvana atuou nas seguintes novelas, séries e minisséries: “Como uma Onda” (2004), “JK” (2006), “Malhação” (temporadas de 2008 e 2009), “Três Irmãs” (2008), “Guerra e Paz” (2008), “Na Forma da Lei” (2010) e “O Brado Retumbante” (2012), sua última participação na TV. No cinema, os últimos trabalhos do veterano ator e diretor foram os filmes “Casa da Mãe Joana” (2008), “5 Vezes Favela, Agora por Nós Mesmos” (2010), “Não se Preocupe, Nada Vai Dar Certo!” (2011), “Giovanni Improta” (2013) e “Casa da Mãe Joana 2” (2013).

Poderemos conferir o trabalho de Hugo Carvana ainda este mês, na reprise da novela “O Dono do Mundo'' no canal Viva.

COMENTE: Quais os personagens de Hugo Carvana você mais gostou?


Nova produção da Record, “Plano Alto” promete, apesar do horário tardio
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Nilson Xavier

Milhem Cortaz, Gracindo Jr. e Bernardo Falcone em "Plano Alto" (Foto: Divulgação/TV Record)

Milhem Cortaz, Gracindo Jr. e Bernardo Falcone em “Plano Alto'' (Foto: Divulgação/TV Record)

A premissa de “Plano Alto” – a minissérie da Record que estreou nesta terça, 30/09 – é das mais interessantes. Três gerações de uma família ligada à Política: o avô lutou contra a Ditadura Militar, nos Anos de Chumbo, o pai foi cara pintada, no início da década de 1990, e o neto/filho participa das manifestações populares de 2013. Cai bem para um ano eleitoral como este. A produção estreia às vésperas do primeiro turno. Com apenas 12 capítulos (exibidos em três semanas), terminará antes do segundo turno.

Guido Flores (Gracindo Jr.) tornou-se governador. O filho, João Titino (Milhem Cortaz), com quem ele tem uma relação meramente política, é deputado federal. E Rico (Bernardo Falcone), criado longe do pai e do avô, é um estudante que vai se envolver com “black blocs”. Interessante notar que o autor, o experiente Marcílio Moraes, criou um distanciamento entre os personagens, apesar dos laços parentescos entre eles. O intuito é justamente dar ênfase ao jogo do poder político sobrepondo relações afetivas e familiares.

A minissérie pretende explorar uma faceta interessante da Política: a de que a dança do poder depende muito de qual lado se está. Contestadores na juventude – Guido como guerrilheiro e Titino como cara pintada –, os dois acabaram se rendendo ao sistema para chegar ao poder. O black bloc Rico terá o mesmo destino? Marcílio Moraes afirmou que, ao final da história, deixou uma brecha para que “Plano Alto” tivesse uma continuação (uma próxima temporada).

O autor ainda salientou que sua obra é totalmente apartidária e que não faz apologia a nenhum candidato neste ano de eleições. Nenhum partido real é mencionado. E a Brasília apresentada é cenográfica: a produção não conseguiu permissão para gravar em prédios do Governo – a não ser as tomadas da cidade, claro. O cara pintada Titino participou de manifestações pelo impeachment “de um certo presidente” no início dos anos 1990 – o nome de Fernando Collor não é citado na minissérie, apesar da referência óbvia.

Além do roteiro, que promete, “Plano Alto” tem outras qualidades que ficaram visíveis neste primeiro capítulo. O elenco é excelente: também Jussara Freire, Paulo Gorgulho, Esther Góes, Mariah Rocha, Daniela Galli, André Mattos, Floriano Peixoto, Giuseppe Oristânio, Flávia Monteiro, Bia Montez, Bemvindo Siqueira e outros. A direção de Ivan Zettel mostrou um ótimo serviço nessa estreia: edição ágil e bem cortada, sonorização de qualidade, câmeras seguras, elenco bem dirigido.

Por enquanto, apenas duas ressalvas. Ter que esperar o fim do episódio diário de “A Fazenda” para assistir a minissérie significa horário tardio e incerto. “Plano Alto” merecia um espaço mais nobre na grade da Record – apesar da possibilidade de o reality entregar a minissérie com audiência razoável. E há de se prestar atenção na escalação de Carla Diaz para um papel importante na trama, a black bloc Lucrécia. O pouco que se viu da atriz nesta estreia destoou do resto. Tomara que seja apenas a primeira impressão.

No mais, “Plano Alto” promete ser uma excelente opção off-Globo. Temáticas políticas que exploram os bastidores do poder são raras na Teledramaturgia brasileira. E “Plano Alto” ainda carrega a grife Marcílio Moraes.

Leia também: Maurício Stycer “Plano Alto'' faz reflexão política inteligente mas estreia na data errada.


“Boogie Oogie” manterá sua trama ágil nos próximos meses?
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Nilson Xavier

Ísis Valverde (Sandra) e Marco Pigossi (Rafael) (Foto: Divulgação/TV Globo)

Ísis Valverde (Sandra) e Marco Pigossi (Rafael) (Foto: Divulgação/TV Globo)

Há quase dois meses no ar, pode-se acusar “Boogie Oogie” (a novela das seis da Globo) de tudo, menos de marasmo ou falta de dinamismo. De sua estreia (em 4 de agosto) para cá, um zilhão de coisas aconteceram na trama de Rui Vilhenaa história da moça que perdeu o noivo no dia do casamento porque ele tentou salvar a vida de um cara… que largou a namorada porque se apaixonou por essa noiva… que não sabe que foi trocada no dia nascimento pela namorada do sujeito salvo pelo noivo…

Enfim! “Boogie Oogie” é um emaranhado que justifica bem uma definição da mestra Janete Clair: “novela é um novelo que vai se desenrolando aos poucos”. No caso desta, um novelo que se desenrola vertiginosamente, ao sabor dos tempos modernos: em que o telespectador exige agilidade porque faz várias coisas ao mesmo tempo e ficar engessado a um horário fixo diariamente não é mais possível diante de tantas outras oportunidades que a rotina atual apresenta.

A história de “Boogie Oogie” se passa no remoto ano de 1978, um tempo distante em que a vida tinha um ritmo completamente diferente dos dias de hoje. E a televisão daquela época ilustrava bem isso. Basta dar uma espiada em “Dancin´ Days” – novela produzida em 1978, atualmente reprisada no canal Viva – para se deparar com diálogos longos em cenas arrastadas, impensáveis para os dias atuais. E olha que “Dancin´ Days” nem era uma novela das mais lentas.

A agilidade na trama de “Boogie Oogie” atende o público moderno. E, para manter o telespectador fisgado na história, o autor parece dar uma guinada na trama a cada bloco de capítulos. “Boogie Oogie” é uma das poucas novelas em que se tem a sensação de que perder um capítulo faz falta sim. Lógico que sabemos que, ao final, Rafael (Marco Pigossi) viverá feliz para sempre com Sandra (Ísis Valverde). Mas o miolo dessa história tem tantas reviravoltas que nos perguntamos por quantos percalços ainda passará o casal até o enlace final.

Claro que a trama central não se sustenta sozinha. Como em toda novela, para permanecer diariamente no ar por mais de seis meses, são necessárias outras histórias a rechear a trama principal. A vingança de Suzana (Alessandra Negrini) é outro fio condutor importante que definirá o destino do casal de pombinhos protagonistas. Resta torcer para que “Boogie Oogie” continue com este fôlego todo. Para se manter neste rimo pelos próximos meses, o autor precisará de muitos nós neste novelo.


Longe da polêmica, “Sexo e as Negas” é uma leve comédia de costumes
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Nilson Xavier

As "negas" Maria Bia, Lílian Valeska, Corina Sabbas e Karin Hils (Foto: Divulgação/TV Globo)

As “negas'' Maria Bia, Lílian Valeska, Corina Sabbas e Karin Hils (Foto: Divulgação/TV Globo)

Agora sim! Passados dois episódios de “Sexo e as Negas”, já se pode julgar o novo programa de Miguel Falabella. Acusado de racismo, sexismo, machismo, e outros ismos, o seriado gerou polêmica antes de sua estreia, vejam só, por causa de seu título. Sim, porque o conteúdo – o que deveria ser julgado – se conhecia apenas pelas chamadas ou o que era lançado pela mídia antes da estreia.

Isso tudo apesar de o título julgado ser uma alusão à conhecida série norte-americana “Sex and the City” – que você só nunca ouviu falar se passou os últimos quinze anos morando em Marte. Haja vista o tipo de programa e seu horário de exibição, o público alvo de “Sexo e as Negas” é, de fato, o público que já ouviu falar em “Sex and the City”, e não o que passou os últimos quinze anos em Marte. Muito menos os que julgaram o programa e afirmam orgulhosos que não possuem um aparelho de TV em casa. Falabella não faz programa de televisão para quem não assiste TV.

Como bem disse Maurício Stycer em sua coluna AQUI, “a acusação de racismo pautou o primeiro olhar sobre Sexo e as Negas”. Sim, fomos contaminados pelas acusações: as calientes cenas de sexo do primeiro episódio remeteram à polêmica toda. Mas não vi nada que maculasse a imagem, a autoestima, ou o orgulho da mulher negra. Não passam de quatro mulheres que, por acaso, são negras, cujo universo a série trata. Mas seus anseios e desejos são inerentes a qualquer ser humano. Tanto que há uma personagem branca (Jesuína de Cláudia Jimenez) que costura as histórias das quatro negras e compactua desses desejos.

Falabella e as atrizes em questão – Maria Bia, Lílian Valeska, Corina Sabbas e Karin Hils – vieram a público defender a atração. E o próprio autor reconheceu que foram feitos cortes pontuais, ajustes normais pelos quais os programas passam para se adequar, até mesmo para caber no permitido no horário de exibição. Com um humor mais leve do que o habitual em suas séries (como a última, “Pé na Cova”), aqui Falabella caminha mais sutilmente pela comédia dramática, a que tanto pode provocar o riso quanto emocionar.

O segundo episódio – que pautou sobre a relação entre a mulher, seu cabelo e o amor – só não foi leve porque os cenários, figurinos e caracterizações das “negas” impossibilitam qualquer leveza (e isso não é uma crítica). Mas bem que poderia ter passado no horário da tarde. Acima de tudo, pelo visto até agora, “Sexo e as Negas” se mostra uma interessante comédia de costumes. E ainda será preciso assistir ao resto da série para comprovar que nada no programa denigre a imagem ou o orgulho da brasileira afrodescendente.

Ops! A palavra “denegrir” ainda pode ser usada? Ou a patrulha já a aboliu do vocabulário?


Com boa estreia, “Dupla Identidade” promete nos próximos episódios
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Nilson Xavier

Bruno Gagliasso como o serial killer de "Dupla Identidade" (Foto: Divulgação/TV Globo)

Bruno Gagliasso como o serial killer de “Dupla Identidade'' (Foto: Divulgação/TV Globo)

O que se viu na estreia de “Dupla Identidade” – seriado de Glória Perez, nesta sexta-feira, 19/09 – foi muito pouco para um julgamento mais aprofundado. Mas deu vontade de quero mais, o que é um bom sinal. Ponto para o programa.

As referências às séries americanas que exploram o gênero são evidentes. Entretanto, “Dupla Identidade” exibe um Rio de Janeiro atual e carregado nas sombras da fotografia, que escondem o céu e o mar azuis da praia. Algo também raro nas produções que mostram a cidade. O Rio sem máscara confere brasilidade ao tema para quem acha que este é privilégio apenas da TV americana. Mais um ponto para o programa.

O texto de Glória Perez é bom, apesar do didatismo na boca de Luana Piovani – explicando com frases de efeito – nas primeiras cenas. Com tomadas de câmera criativas, a direção (de núcleo) de Mauro Mendonça Filho valoriza o produto. A quase ausência de trilha sonora, contrastando com luz escura que esconde o rosto dos atores, cria o clima tenso que a produção tem a pretensão de passar.

Afastando-se de outra produção brazuca do gênero, a minissérie “As Noivas de Copacabana” (de 1992), ficou interessante essa junção de assassinatos em série com política, de serial killer com político. Ainda mais em ano eleitoral. Pouco se viu da atuação do elenco, a não ser uma Luana Piovani robótica em uma personagem importante. E Bruno Gagliasso fechou o episódio com cara de psicopata. Medinho que justifica acompanhar o segundo episódio.


O público votou e “Tropicaliente” é a próxima novela reprisada no Viva
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Nilson Xavier

Silvia Pfeifer e Herson Capri em "Tropicaliente" (Foto: Divlgação/TV Globo)

Silvia Pfeifer e Herson Capri em “Tropicaliente'' (Foto: Divlgação/TV Globo)

Após voltar atrás com a reprise de “Pecado Capital” (a versão de 1998), o canal Viva colocou uma enquete em seu site para que o público decidisse qual a próxima novela a substituir “História de Amor” na faixa da tarde. Entre as três opções disponíveis, a mais votada foi “Tropicaliente” que ganhou com 37% dos votos. As outras concorrentes eram “Lua Cheia de Amor” (ficou com 30% dos votos) e “Despedida de Solteiro” (33%).

Tropicaliente” foi originalmente exibida em 1994, no horário das seis, com uma reprise no “Vale a Pena Ver de Novo” em 2000. De autoria de Walther Negrão, com direção geral de Gonzaga Blota. Para esta trama, a Globo ambientou a história em paradisíacas praias do Ceará.

No elenco, Selton Mello viveu Victor Velazquez, um playboy com um amor doentio pela caiçara Açucena – primeiro papel de destaque de Carolina Dieckmann em novelas. Na trama central, o romance conturbado entre Letícia Velazquez (Silvia Pfeifer), mãe de Victor, e o pescador Ramiro (Herson Capri), pai de Açucena. Os dois se amaram na juventude mas, separados, cada um seguiu sua vida. Viúva, ela retorna ao Ceará e reencontra Ramiro casado com Serena (Regina Dourado). “Tropicaliente” foi a novela de estreia de Márcio Garcia, Daniela Escobar e Giovanna Antonelli.

Uma das melhores curiosidades de “Tropicaliente” vem do título que a novela ganhou na Rússia, quando foi exibida nesse país, onde fez um enorme sucesso – talvez pelas ambientações parecerem exóticas demais para o povo russo. Lá, “Tropicaliente” teve seu nome trocado para “Tropikanka” – “mulher tropical” em russo. A novela foi tão bem recebida pelos russos, que a trama substituta, “Mulheres de Areia”, foi batizada de “Sekret Tropikanki” – que significa “o segredo de uma mulher tropical” – ou “Tropikanka 2“. Só que uma novela não tem nada a ver com outra, a não ser a estética tropical, com praias e colônias de pescadores.

A música tema de abertura, “Coração da Gente”, cantada por Elba Ramalho, grudou como chiclete e foi parodiada no humorístico “Casseta e Planeta” na época: o comediante Cláudio Manoel, travestido de Elba, aparecia de cinco em cinco minutos cantando “Ô-ô-ô-ô Tropicaliente, ô-ô-ô-ô enluará o coração da gente…”.

No elenco, também Francisco Cuoco, Stênio Garcia, Ana Rosa, Carla Marins, Delano Avelar, Cássio Gabus Mendes, Victor Fasano, Paloma Duarte, Lúcia Alves, Edney Giovenazzi, Leila Lopes e outros. A data prevista para seu retorno é 10 de novembro, às 15:30 (com reprise à 1 da manhã).

Saiba mais sobre “Tropicaliente'' no site Teledramaturgia.


“O Rebu” não agradou a todos, mas trouxe prestígio à Globo
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Nilson Xavier

Sophie Charlotte e Daniel de Oliveira foram destaques no elenco de "O Rebu" (Foto: Divulgação/TV Globo)

Sophie Charlotte e Daniel de Oliveira, destaques no elenco de “O Rebu'' (Foto: Divulgação/TV Globo)

Assim como em sua primeira versão (em 1974), a novela “O Rebu” não foi um sucesso popular. E o motivo pode ter sido o mesmo: causou confusão no público, muito acostumado às tramas mastigadinhas das novelas convencionais e alheio a histórias policiais mais elaboradas. A narrativa não linear requer atenção redobrada. Os autores (George Moura e Sérgio Goldenberg) contavam com o fato de o telespectador atual estar familiarizado com filmes e séries americanas que dispensam a linearidade temporal dos acontecimentos.

Talvez, o formato telenovela, para este tipo de narrativa, não tenha funcionado. Depois de seus 35 capítulos, concluímos que “O Rebu” poderia ter sido ainda mais enxuta (na novela original de Bráulio Pedroso, o mistério foi contado em 112 capítulos). A grade variável também prejudicou: além de pular um dia da semana (quarta-feira não havia exibição), a trama começava mais cedo às segundas. Para o público tradicional (para o qual a medição de audiência interessa), novela é hábito: mais fácil fidelizar se estiver em uma grade horizontal (todos os dias no mesmo horário). Por esses motivos, a história de “O Rebu'' pode ser melhor assimilada se acompanhada pelo DVD (ou outro meio) à hora que se quer.

O ápice da confusão foi o telespectador perguntar por que, depois de dois meses de novela, os personagens não trocavam de roupa. Ou afirmar que “perdeu o fio da meada da história” após ter deixado de assistir algum capítulo – como que para justificar a falta de entendimento. “O Rebu” também perdeu muito de seu charme ao fazer da festa da trama um mero coadjuvante. Não era o que vendiam as chamadas. Teria sido um apelo a mais se a maior parte da ação tivesse acontecido durante essa festa.

Ainda: diferente da novela de 1974, na qual, além do “quem matou”, se perguntava também “quem morreu”, a versão de 2014 optou por revelar logo de cara a identidade do morto. Esperava-se algum entrecho mirabolante que compensasse essa opção. Mas não, a novela atual apenas distanciou-se ainda mais da antiga.

Em contrapartida, “O Rebu” se firma como um produto de altíssima qualidade da Globo – técnica e artística. Era o que se esperava da tríade George Moura (no roteiro), José Luiz Villamarim (na direção) e Walter Carvalho (na fotografia), que já havia feito “O Canto da Sereia” (2013) e “Amores Roubados” (2014) – por sinal, com mais repercussão que “O Rebu”, que termina com média final de 15 pontos no Ibope da Grande São Paulo (a mesma de “Saramandaia”, o folhetim das onze do ano passado).

O elenco, escalado a dedo, que misturava rostos conhecidos do grande público com outros nem tanto, proporcionou grandes momentos, com destaque para as atuações de Patrícia Pillar (Ângela Mahler), Tony Ramos (Braga), Cássia Kis Magro (Gilda), Sophie Charlotte (Duda), Camila Morgado (Maria Angélica), Jesuíta Barbosa (o “bandidinho” Alain), Júlio Andrade (o “maluco” Oswaldo), Bel Kowarick (Lídia, mulher de Braga), César Farrario (o cozinheiro Adão) e Cláudio Jaborandy (o garçon falastrão Severino).

Também merecem citação Vera Holtz, José de Abreu, Dira Paes, Marcos Palmeira, Daniel de Oliveira, Maria Flor, Pablo Sanábio, Elcir de Souza, Mariana Lima, Elea Mercúrio, Cyria Coentro e Jean-Pierre Noher.

Pelo seu valor artístico, “O Rebu”, como produto final, se aproxima muito de outra produção recente da Globo, “Meu Pedacinho de Chão” – que, igualmente, não agradou a todos os públicos. A novela das onze talvez não tenha superado a repercussão desejada pela emissora, mas, com certeza, lhe dá prestígio. Com direção e edição criativas, fotografia cinematográfica e trilha sonora de qualidade, “O Rebu” é mais uma prova da tentativa da emissora em experimentar novos caminhos para a telenovela, aproximando-a da narrativa do seriado americano e da estética do cinema. Ainda que não tenha atingido todos públicos, vale como experimentação e uma opção diferenciada e de qualidade.

E no último capítulo, guardadas as devidas proporções, o final é equivalente ao final da primeira versão da novela. Mahler mata por ciúmes.