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Texto de “Sete Vidas” é sutil até nos barracos
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Nilson Xavier

Cyria Coentro e Cláudio Jaborandy em "Sete Vidas" (Foto: reprodução)

Cyria Coentro e Cláudio Jaborandy em “Sete Vidas'' (Foto: reprodução)

Sete Vidas” é mesmo uma novela de sutilezas. Nada é dissonante. Os personagens amam e sofrem na medida do ser humano. Não é à toa que Lícia Manzo – a autora – já foi chamada de “substituta de Manoel Carlos”. O novelista do cotidiano imprimiu sua marca por abordar o dia a dia de forma atraente, quase apaixonante. Todavia, existe um pormenor que distancia Lícia de Maneco.

Manoel Carlos tem fortes raízes na escola latina de dramaturgia. Seu melodrama só não é rasgado por conta de seu texto de altíssimo bom gosto. Mas percebam que estão todos lá os ingredientes que fazem a festa dos apreciadores de dramalhões. E isso, nem um pouco, deprecia o valor de seu trabalho. Falo especificamente das discussões acaloradas, acertos de conta ansiados, bate-bocas no café da manhã familiar, surras de cinto e arremesso de personagens em piscina. Trocando em miúdos: um bom barraco! Ah, como Maneco escrevia bem os seus barracos!

Lícia Manzo é mais comedida. Sua ação não resvala no alto impacto. Mesmo assim, o clímax não deixa de ser bem saboreado. A famosa “torta de climão” que a autora serve é igualmente deliciosa. Sua maior qualidade é manter-se fiel à sua proposta sem precisar apelar para estratagemas fáceis para chamar a atenção do público. Mesmo quando tem em mãos uma personagem como a desbocada e impulsiva Laila (Maria Eduarda Carvalho), um tipo que facilmente rende nessa situação.

Nesta semana, vimos, finalmente, uma sequência há tempo ansiada: o folgado Durval (Cláudio Jaborandy) ser desmascarado ante a mulher, Marlene (Cyria Coentro). Os capítulos criaram todo o suspense necessário para manter o público fisgado no entrecho. O gancho de quarta (22/05) para quinta-feira foi esse. E Marlene finalmente pôs o escroque para fora de sua vida (pelo menos, por enquanto).

Mas nada de “babado, confusão e gritaria”, ou “tiro porrada e bomba”. Marlene – a sempre ótima Cyria Coentro – apenas derramou algumas lágrimas. Tirou Durval de sua casa de forma educada, sem exaltação. Quem esperava um barraco daqueles, se decepcionou? Acho que não. Afinal, não houve o anticlímax: a autora apenas priorizou o sentimento e a dor da personagem.

Boas histórias podem ser contadas de várias formas. Para o público, um barraco pode funcionar como uma válvula de escape da realidade. É bom quando é bem feito, bem escrito, bem dirigido e bem interpretado, sem apelação ou exageros. Maneco e Lícia escrevem cada qual a seu modo, sem perder o contexto de suas histórias. Um texto de qualidade faz toda a diferença. E o público brasileiro é tão tarimbado nas nossas telenovelas que sabe reconhecer um.


Inesquecível como vovô, Elias Gleizer também viveu vários padres em novelas
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Nilson Xavier

Elias Gleizer como o Vovô Pepe em "Era uma Vez" (Foto: Divulgação/TV Globo)

Elias Gleizer como o Vovô Pepe em “Era uma Vez'' (Foto: Divulgação/TV Globo)

Mais uma perda irreparável para a televisão neste ano: faleceu – neste sábado, 16/05, no Rio de Janeiro – o ator Elias Gleizer. Ele sofreu complicações após fraturar cinco costelas e perfurar o pulmão em uma queda.

Gleizer era uma das figuras mais carismáticas e queridas da TV. Filho de judeus poloneses, nasceu em São Paulo em 4 de janeiro de 1934. No final dos anos 1950, começou a atuar na TV Tupi, onde esteve em 22 novelas, entre 1959 e 1979, entre elas, “Os Rebeldes” (1967), “Antônio Maria” (1968), “Nino, o Italianinho” (1969), “A Fábrica” (1971), “O Machão”, (1974) e “Xeque-Mate” (1976). Com o fim da Tupi, passou pela Bandeirantes e SBT.

Em 1984, fez seu primeiro trabalho na Globo: “Livre Para Voar”, de Walther Negrão, novelista que lhe deu vários outros papeis posteriormente. De lá para cá, foram 32 participações em novelas, minisséries e séries da Globo, com destaque para suas atuações como o português Manel em “Direito de Amar” (1987), Donato em “Fera Radical” (1988), Jairo, o dono da Marinete, em “Tieta” (1989), Vitório em “Despedida de Solteiro” (1992), o investigador Rosalvo na minissérie “Agosto” (1993), Tio Zé em “Sonho Meu” (1993), Canequinha em “Anjo de Mim” (1996), Pepe em “Era uma Vez” (1998), Frei José em “Sinhá Moça” (2006), Seu Cadore em “Caminho das Índias” (2009) e Diógenes em “Passione” (2010), fazendo uma dupla divertida com Cleyde Yáconis.

O jeito bonachão o levou a interpretar vários avôs e padres (e religiosos em geral) em novelas. Já foi o Padre Lara (“Rosa dos Ventos”, Tupi, 1973), Padre Inácio (“Xeque-Mate”, Tupi, 1976), Padre Rosendo (“Meu Pé de Laranja Lima”, Band, 1980), Padre Ferndenuto (seriado “Dona Santa”, Band, 1981), Padre Nazareno (“Salomé”, Globo, 1991), Padre Olavo (“Terra Nostra”, Globo, 1999), outro padre na minissérie “Um Só Coração” (Globo, 2004), bispo em “Bang Bang” (Globo, 2005) e Frei José (“Sinhá Moça”, Globo, 2006).

Todavia, foi no papel de vovô que Elias Gleizer mais encantou o público, com seu olhar carinhoso e jeitão alegre, em papeis como Vitório em “Despedida de Solteiro”, Tio Zé em “Sonho Meu”, Pepe em “Era uma Vez” e Cadore em “Caminho das Índias”. Outro personagem inesquecível foi em “Tieta”, como Jairo, o motorista que levava os viajantes a Santana do Agreste em sua Marinete, uma kombi velha caindo aos pedaços. O português Manel de “Direito de Amar” e o deficiente mental Canequinha de “Anjo de Mim”, são outros tipos marcantes de sua carreira.

A última aparição na TV foi em uma participação no primeiro capítulo de “Boogie Oogie“, no ano passado, vivendo outro padre. A partir do próximo mês, Elias Gleizer poderá ser visto na reprise de “Despedida de Solteiro'' no canal Viva, em que interpretou um de seus avôs mais queridos: Vitório.

Leia mais sobre o falecimento do ator AQUI.


“I Love Paraisópolis” tem boa estreia mas o excesso de agilidade confundiu
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Nilson Xavier

Tatá Werneck, Bruna Marquezine e Maurício Destri (Foto: Rodrigo Dau/Gshow)

Tatá Werneck, Bruna Marquezine e Maurício Destri (Foto: Rodrigo Dau/Gshow)

Estreou nessa segunda-feira (11/05), às sete horas, o novo conto de fadas da Globo, “I Love Paraisópolis”, de autoria de Alcides Nogueira e Mário Teixeira, com direção de núcleo de Wolf Maya. Os autores buscaram referência em Cinderela, na história da menina pobre Marizete (Bruna Marquezine), moradora da comunidade de Paraisópolis, São Paulo, que se apaixona logo no primeiro capítulo pelo príncipe da história, Benjamim (Maurício Destri), que vive no reino, digo, no bairro vizinho, o abastado Morumbi.

A trama das nove, “Babilônia”, também tem uma mocinha “batalhadora” moradora de uma favela (ou melhor, comunidade), Regina, de Camila Pitanga. A diferença entre elas e as duas novelas está exatamente no tom que cada trama adota. Enquanto “Babilônia” se propõe realista, “I Love Paraisópolis” idealiza o dia a dia mostrando o que a comunidade paulistana tem de bonito, sua gente batalhadora e sonhadora, e os demais tipos, nem tanto batalhadores.

Mas tudo bem idealizadinho, porque o povo quer sonhar à sete da noite e a novela das nove deu com os burros n´agua com sua proposta realista. Um exemplo é Grego, que na vida real seria uma espécie de bandido temido, chefe do tráfico e dono da favela, mas que na novela é o galã Caio Castro caracterizado de “mano”.

A opção pela idealização também explica o título: Marizete e sua fiel escudeira coprotagonista Danda (Tatá Werneck) vão parar em Nova York para “tentar a América”, passar por uma alguma dificuldade, cair na real e descobrirem que amam mesmo é Paraisópolis, where they belong.

A trama ainda bebe em “Hamlet”, na relação do herói Benjamim com a mãe Soraya (Letícia Spiller), que uniu-se ao cunhado (Henri Castelli) após a morte do marido. Como na história shakespeariana, o casal tem sede de poder e o mocinho odeia o tio e ama/odeia a mãe. Letícia Spiller está mais para vilã de novela mexicana, propositalmente exagerada nos gestos e frases. Vejo aí outra referência: Soraya Montenegro, uma das maiores vilãs das novelas xicanas (de “Maria do Bairro”). Marizete seria a nossa Maria do Bairro… Paraisópolis, no caso.

A estreia foi boa mas movimentada em excesso. A edição pecou por querer mostrar agilidade e acabou atropelando a história e confundindo. Até os atores estavam com pressa em dizer suas falas. As primeiras palavras de Tatá Werneck em cena ficaram incompreensíveis. Mas acredito que esse é um problema que já deve se resolver a partir do segundo capítulo, quando o ritmo cair no normal. Não vi problemas com sotaque, mas é bom lembrar que é preferível ouvir um “mêishmo” carioca em Paraisópolis do que um falso paulistanês da Mooca.

Os que esperavam “a menor audiência do horário das sete da história” se surpreenderam: a estreia cravou 28 pontos em São Paulo. Sinal de que a Globo fez uma excelente campanha de lançamento e nomes como Bruna Marquezine, Tatá Werneck e Caio Castro têm peso. Mérito também da trama anterior, “Alto Astral”, que passou o bastão lá em cima.

Os clichês de favela estavam todos lá, inclusive a mulher barraqueira. Marizete já mostrou na estreia que é uma gata borralheira das ariscas. Tomara que menos chorosa que a Maria do bairro mexicano.

No vídeo abaixo, um resumo do que falei acima!

“I Love Paraisópolis'' tem referências à “Gata Borralheira'' e “Hamlet''


Trama simples de “Alto Astral” levanta o moral do horário das sete da Globo
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Nilson Xavier

Sérgio Guizé e Nathalia Dill (Foto: Raphael Dias/ Gshow)

Sérgio Guizé e Nathalia Dill (Foto: Raphael Dias/ Gshow)

E “Alto Astral”, hein? Quem diria! Uma novela despretensiosa – que começou meio assim, como quem não quer nada, pedindo permissão para entrar – foi comendo pelas beiradas e acabou conquistando o público.

Repleta dos mais batidos clichês do folhetim: personagens maniqueístas, vilões doentios que se deram mal no final, amores impossibilitados, vinganças, duplas identidades, segredos do passado, disfarces, mistérios, a luta do bem contra o mal, vida além da morte. Só não teve o malfadado “quem matou?”. A bem da verdade, sem novidade alguma, ou pretensão de inovar. Nada além de tudo que já vimos e esperamos de uma novela.

Contudo, bem produzida e dirigida (Jorge Fernando e equipe), elenco bom, e roteiro com um humor que – levemente – remeteu aos áureos tempos do horário na década de 1980. Uma novela simples que teve lá o seu sucesso. Prova de que um arroz com feijão bem feitinho também agrada.

E a Globo não podia errar! Preferiu não apostar no duvidoso (entende-se ousadias como “Além do Horizonte” e “Geração Brasil”, as duas tramas anteriores) e andou por caminhos já conhecidos. Acabou que “Alto Astral” levantou o Ibope (e o moral) das sete horas em 3 pontos. Veja:

Sangue Bom” (2013) – média final 25 pontos
Além do Horizonte” (2013-2014) – 20
Geração Brasil” (2014) – 19
Alto Astral” (2014-2015) – 22 (colaboração de Fábio Dias)

Parece pouco se considerarmos que as duas últimas novelas ficaram abaixo do esperado pela emissora. Mas é bastante, já que “Alto Astral” enfrentou o pior período para uma estreia: início do horário de verão + festas de final de ano + verão, época em que – comumente – todas as audiências da televisão despencam. E ainda desbancou a trama das nove, “Babilônia” – na realidade, isso nem é um mérito de “Alto Astral”, mas um demérito de “Babilônia”.

E assim, o novato Daniel Ortiz estreou na Globo com o pé direito. Ele tem experiência com novelas na América Latina e Oriente Médio, foi colaborador de Silvio de Abreu em “Passione” (2010) e no remake de “Guerra dos Sexos” (2012-2013). E Silvio supervisionou seu texto em “Alto Astral”, trama escrita a partir de uma sinopse deixada por Andrea Maltarolli (1962-2009).

Cláudia Raia e Conrado Caputo (Foto: Reprodução)

Cláudia Raia e Conrado Caputo (Foto: Reprodução)

O texto de “Alto Astral” não seria o suficiente para cativar, não fosse o bom elenco. Destaque para os veteranos Leopoldo Pacheco, Elizabeth Savalla, Christiane Torloni  e Silvia Pfeifer. Ainda Sérgio Guizé, como o protagonista Caíque, um herói romântico com jeito de bobalhão, um tipo que poderia não convencer, não fosse vivido por um ótimo ator. Outro caso semelhante: o estreante Gabriel Godoy, como Afeganistão, um bronco que falava errado. Já tivemos vários outros personagens semelhantes em nossas novelas (Tancinha de “Sassaricando”, Tony Carrado de “Mandala”), mas a aposta no talentoso Gabriel foi certeira.

Mônica Iozzi, de apresentadora de TV a atriz. E ela surpreendeu, outra boa revelação da novela. Sua Scarlet/Cidinha transitava facilmente entre o drama e a comédia. Ainda bem que aquela caracterização horrível e mal feita de Scarlet, de quando a personagem surgiu, foi por pouco tempo. Uma peruca loura das mais fakes que fez a gente preferir a Scarlet disfarçada de Cidinha.

“Pelo brilho da lhama dourada, saaabe!”

E a impagável dupla Samanta Paranormal e Pepito – Cláudia Raia e Conrado Caputo, que mostraram uma química perfeita. Tanto que pareciam uma série, dentro da novela, isolada da trama principal. Ainda que Claudia Raia tenha demorado para “entrar na personagem”. Mas quando engrenou, fez bonito. Samanta em nada lembrou a Jaqueline de “Ti-ti-ti” (2010), a última personagem cômica da atriz. Caricata? Sim, mas essa era a ideia. E Samanta não seria ninguém sem o peruano deslumbrado Pepito – Conrado Caputo, outra boa revelação da novela.

Ainda que a proposta de “Alto Astral” tenha sido cursar pela simplicidade e a despretensão, a novela acabou por afastar o público mais “exigente”, que torceu o nariz para o seu roteiro propositalmente “clichezento” e a considerou “bobinha demais”. No desfecho da trama (exibido nesta sexta-feira, 08/05) o autor exibiu um festival de “clichês de último capítulo de novela'' de fazer Glória Magadan chorar.

Bem… ainda bem que existe novela para todos os gostos, saaaabe!

Abaixo, um resumo do que comentei acima.

Trama simples e elenco afinado de “Alto Astral'' levantam a moral do horário


Após um mês e meio no ar, trama de “Babilônia” finalmente começa
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Nilson Xavier

Adriana Esteves e Glória Pires em "Babilônia" (Foto: Divulgação/TV Globo)

Adriana Esteves e Glória Pires em “Babilônia'' (Foto: Divulgação/TV Globo)

Lembra quando a Globo apresentou as três protagonistas de “Babilônia” nas primeiras chamadas da novela? Um mês e meio de história no ar (parece que foi há mais tempo!) e, hoje, uma está na cadeia, outra está de cama, e a terceira corre atrás da verdade dos fatos. E “Babilônia” dá os primeiros sinais de ter começado definitivamente.

Em meu primeiro texto sobre ela, escrito logo após sua estreia, enalteci um primeiro capítulo de tirar o fôlego, fazendo votos de que a novela se mantivesse neste ritmo. LEIA AQUI. Mas, após o terceiro dia, a trama assinada por Gilberto Braga, Ricardo Linhares e João Ximenes Braga, foi se diluindo num marasmo que afugentou o público e gerou uma das maiores crises do horário nobre da Globo que se tem notícia.

Nem chamadas que prometiam “um capítulo bombástico” pareciam despertar a audiência. Pior: chegou-se a anunciar um capítulo eletrizante mas que, ao final das contas, nada aconteceu. Tiro no pé. Também a revelação dos motivos do rancor de Inês (Adriana Esteves) contra Beatriz (Glória Pires) não foram o suficiente. Ou a mudança do perfil de Alice (Sophie Charlotte), que acabou se transformando na mocinha chorosa gata borralheira da história.

E, de repente, nesta última semana, vimos a trama de “Babilônia” acelerar vertiginosamente. E não foi por causa de Alice, do casal de lésbicas idosas ou do romance juvenil entre Rafael e Laís (Chay Suede e Luísa Arraes). A trama está, tão simplesmente, “andando”. Fluindo. E com ótimos ganchos.

Além de ter conseguido colocar Beatriz, seu desafeto, na cadeia, Inês já fez estourar o maior segredo da história, que unia as duas vilãs e envolvia a terceira ponta desse triângulo de protagonistas: Regina (Camila Pitanga) ficou sabendo que Beatriz matou seu pai.

Um amigo até comentou na Internet, durante essa última enxurrada de capítulos nervosos: “Hoje foi ao ar o segundo capítulo de ‘Babilônia” – numa referência àquele eletrizante capítulo de estreia.

Essa epopeia para fazer acontecer a trama da novela me fez lembrar um comentário do diretor Daniel Filho em seu livro “O Circo Eletrônico” (Jorge Zahar Editor, 2001) sobre a clássica “Vale Tudo” (1988), também de Gilberto Braga (escrita com Leonor Bassères e Aguinaldo Silva):

“Na primeira sinopse, a filha (Fátima/Glória Pires) vendia a casa (da mãe Raquel/Regina Duarte) por volta do capítulo 40 ou 50. Lógico que outras histórias paralelas estariam acontecendo. Mas o tema central não deslanchava. Argumentei: 'Se a filha não vender a casa no primeiro capítulo e a mãe ficar na miséria, a novela não atingirá seu objetivo'. Ou seja, não deixaria claro seu tema.”

Por mais que “Babilônia” tenha espantado o público mais conservador na primeira semana (por conta de personagens maus ou imorais, ou por causa do beijo do casal de lésbicas), o fato é que, nas semanas subsequentes, a história foi se esvaindo em meio a personagens pouco carismáticos. Sem trama ou herói/vilão para torcer e se emocionar, não há audiência que resista. Daniel já ensinava isso na década de 1980 – em que a televisão aberta (principalmente a Globo) seguia onipresente, sem concorrência de todo tipo, diferente de hoje.

É certo que a novela sofreu alterações bruscas no intuito de se ajustar à audiência. Todavia, após quarenta capítulos, muito mais do que desvio de tramas ou personalidades de personagens, “Babilônia” apressa-se para levar ao público uma história verdadeiramente cativante, razão de ser da audiência. E uma trama que prenda deve vir com bons ganchos – só eles despertam no público a curiosidade em continuar seguindo aquela história no dia seguinte. Foi assim que a telenovela se fez no Brasil.

As “cenas dos próximos capítulos” foram abolidas das novelas lá no início dos anos 1990. Entretanto, seria interessante, neste momento, poder antever “as emoções que nos reserva ‘Babilônia’”. Ao menos para despertar a audiência adormecida. Desde que – realmente – tenha emoções por vir nessa história.


Mais lembrado como Ravengar, Abujamra foi também diretor na TV Tupi
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Nilson Xavier

Morreu, nesta terça-feira (28/04), Antônio Abujamra, grande nome do teatro brasileiro e grande mestre dos palcos. Há quase quinze anos apresentava o programa de entrevistas “Provocações”, na TV Cultura de São Paulo. Imortalizado em nossa teledramaturgia como o bruxo Ravengar – como esquecer aquela figura sinistra, de cabelo solto e olhar penetrante! – da novela “Que Rei Sou Eu?” (1989). Aposto que muitos fãs ainda o abordavam por “Ravengar”.

No cinema, foram 19 filmes, entre 1989 e 2012, como “Festa”, “Carlota Joaquina, Princesa do Brazil”, “Quem Matou Pixote?”, “Villa-Lobos, uma Vida de Paixão”, “Quanto Vale ou é por Quilo?”, “É Proibido Fumar” e “Assalto ao Banco Central”.

Como ator de novelas, foram 14 personagens, com destaque para “Cortina de Vidro” (1989), “Amazônia” (1991), “O Mapa da Mina” (1993), “A Idade da Loba” (1995), “Marcas da Paixão” (2000), “Começar de Novo” (2004), “Poder Paralelo” (2009). Sua última novela foi “Corações Feridos”, no SBT, em 2011.

O que muitos talvez não saibam é que, apesar de ser mais lembrado como o vilão bruxo da novela, Abujamra teve outro papel muito relevante em nossa teledramaturgia: foi um dos mais importantes diretores de novelas, seriados e teleteatros da TV Tupi, principalmente na década de 1960.

Na Tupi, entre 1967 e 1971, dirigiu as séries “O Estranho Mundo de Zé do Caixão” e “Confissões de Penélope”, e as novelas “O Décimo Mandamento”, “Yoshico, um Poema de Amor”, “Nenhum Homem é Deus”, “O Homem que Sonhava Colorido”, “O Jardineiro Espanhol”, “O Pequeno Lord”, “Super Plá” e “A Gordinha”. Ainda “Salário Mínimo” e “Gaivotas”, entre 1978 e 1979.

Com o fim da Tupi, em 1980, Abujamra foi dirigir novelas no núcleo de dramaturgia da TV Bandeirantes (hoje Band): “Um Homem Muito Especial”, “Os Adolescentes”, “Os Imigrantes” e “Ninho da Serpente” – todas entre 1980 e 1982. Também dirigiu na Globo (a série “Obrigado Doutor”, em 1981) e no SBT (o remake da novela “Os Ossos do Barão”, 1997).

Entretanto, para o grande público, a despeito de toda sua importante obra no teatro, Antônio Abujamra será sempre o bruxo Ravengar, um dos personagens mais marcantes e representativos de nossa televisão.


“Alto Astral” cita 30 anos da carreira de Claudia Raia, destaque da novela
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Nilson Xavier

Claudia Raia e Conrado Caputo (Foto: Reprodução)

Claudia Raia e Conrado Caputo (Foto: Reprodução)

Samanta Paranormal e Pepito são os maiores destaques de “Alto Astral''

Claudia Raia deve estar sorrindo de um canto a outro. No ano em que comemora 30 anos de carreira (pelo menos na televisão, já que a primeira novela foi “Roque Santeiro”, em 1985), a atriz é homenageada dentro da trama da novela das sete, da qual participa – “Alto Astral”, de autoria de Daniel Ortiz.

A bem da verdade, muito da boa repercussão que “Alto Astral” vem obtendo (e audiência, superior às duas tramas antecessoras no horário, “Além do Horizonte” e “Geração Brasil”) se deve à atriz e sua parceria com o ator Conrado Caputo. A impagável dupla Samanta Paranormal e Pepito foram responsáveis por vários dos melhores momentos da novela.

Realidade na ficção e vice-versa

Além de citar, ao longo de “Alto Astral”, várias personagens marcantes da carreira de Claudia Raia na TV (Ninon, Tancinha, Tonhão, Maria Escandalosa, Ângela Vidal, Ramona, Jacqueline, Lívia Marine), Samanta faz testes para um musical que vai homenagear os 30 anos da atriz “Maria Cláudia” – ou melhor, Maria Claudia Raia. O diretor do espetáculo é o próprio diretor da novela, Jorge Fernando. As sequências têm ainda a participação de Jarbas Homem de Mello, namorado de Raia, que cita na novela o seu espetáculo real “Chaplin, o Musical”, com estreia prevista para maio, em São Paulo.

A metalinguagem não para por aí. Com essa sequência, Jorge Fernando e Claudia Raia revivem uma passagem da novela “Rainha da Sucata” (1990), de Silvio de Abreu, em que a personagem da atriz (naquela novela), Adriana Ross (a “bailarina da coxa grossa”), se submetia a uma audição com Jorge Fernando (numa participação, também diretor da novela) para um musical.

Vale lembrar ainda que a última personagem cômica de Claudia Raia na TV – Jaqueline no remake de “Ti-ti-ti” (2010), de Maria Adelaide Amaral e Vincent Villari – passou a trama inteira fazendo uma ponte com a memória afetiva do telespectador, ao citar e referenciar várias novelas e personagens de sucesso do passado.

Saaaabe!

Claudia Raia começou “Alto Astral” meio cambaleando com sua personagem Samanta Paranormal. A atriz levou um tempo até encontrar o tom certo para a vidente de araque. Até o corte de cabelo foi trocado nesse ínterim. De vilã cômica, Samanta acabou se tornando uma das personagens mais queridas da novela, graças ao timing perfeito da atriz e ao bom texto de Daniel Ortiz. E o melhor de tudo: Samanta em nada lembra a Jaqueline de “Ti-ti-ti“.

O sucesso se deve também à parceria e à química com Conrado Caputo. Samanta Paranormal, talvez, não seria 75% do que é sem seu comparsa peruano. As situações engraçadas pelas quais a dupla passa é quase uma novela – ou um seriado – dentro da trama de “Alto Astral”. Uma espécie de “Shazan e Xerife” modernos, Samanta e Pepito agradam e fazem rir com uma comicidade quase singela, ideal para o horário das sete. Merecia até um spin-off, um seriado próprio fora da novela.


Falta a “Babilônia” o que “Sete Vidas” tem de sobra
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Nilson Xavier

Thiago Rodrigues com as crianças Milena Mello e Gabriel Palhares (Foto: Divulgação/TV Globo)

Thiago Rodrigues com as crianças Milena Mello e Gabriel Palhares (Foto: Divulgação/TV Globo)

Em meu último texto, afirmei que a novela “Babilônia” precisa de mais emoção para cativar audiência – LEIA AQUI. A novela vinha, até então, mostrando uma realidade muito fria, em detrimento da emoção, que todo folhetim demanda.

Pois o que falta a “Babilônia”, tem de sobra em “Sete Vidas”, a trama do horário das seis, de autoria de Lícia Manzo. A novelista, em parceria com o diretor Jayme Monjardim, já havia mostrado um ótimo trabalho na novela anterior da dupla, “A Vida da Gente” (2011-2012).

Sete Vidas” parte de uma premissa das mais modernas: novas configurações familiares formadas com o encontro de meios-irmãos gerados a partir de um doador anônimo. A autora traz à baila uma discussão muito pertinente nos dias atuais. Seu grande mérito é o texto delicado e sutil ao abordar um tema que pode ser de difícil entendimento para o público em geral – particularmente o tradicional público do horário das seis.

Também é discutido o preconceito contra famílias formadas com uniões homoafetivas. Regina Duarte vive uma lésbica que criou os filhos com sua parceira, já falecida. Nesta semana, a novela exibiu uma sequência muito interessante em que o filho dela, Luís (Thiago Rodrigues), mostra para os seus filhos pequenos, através de um livro infantil, como uma criança pode ser criada por dois pais ou duas mães. Tudo muito didático (como pede a situação, já que envolve crianças), mas muito bonito, bem dirigido e com um texto cuidadoso.

A novela é atual, emula a realidade com abordagens verossímeis. Mas, acima de tudo, é folhetim. E seus personagens são movidos pela emoção. As situações, conversas, discussões (entende-se DRs), são sempre exibidas de uma forma sensível. Não é exagero dizer que o texto de Lícia Manzo é emocionante. Os personagens têm alma, tem vida. Bem mais fácil, assim, para o público criar empatia, se envolver, se identificar, se emocionar.


“Babilônia” precisa emocionar o público
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Nilson Xavier

Camila Pitanga e Thiago Fragoso em "Babilônia" (Foto: Raphael Dias/Gshow)

Camila Pitanga e Thiago Fragoso em “Babilônia'' (Foto: Raphael Dias/Gshow)

Já estão no ar as mudanças pelas quais passa a novela “Babilônia” na tentativa desenfreada de fazer sua audiência reagir ante números tão abaixo do esperado. Sim, aqui vale a máxima “pior audiência no horário das 9 de todos os tempos” – ainda que “de todos os tempos” não queira dizer absolutamente nada, porque esse tipo de comparação não cabe quando se considera novelas de mais de quinze anos. Mas, pelo menos, “dos últimos tempos”, sim.

Não é a primeira vez que intervenções são necessárias em uma obra de Gilberto Braga que está começando (“Babilônia'' é escrita com a parceria de Ricardo Linhares e João Ximenes Braga). Já em 1981, o público torceu o nariz para a pretensiosa “Brilhante”. Em 1991, “O Dono do Mundo” esteve nos holofotes, negativamente. “Paraíso Tropical” (2007) e “Insensato Coração” (2011), mais recentes, também sofreram rejeição inicial.

Se a “Babilônia” mais palatável vai conquistar audiência, é cedo para saber. Talvez leve um tempo ainda. Mas as cenas de romance já foram intensificadas. As maldades diminuídas. E até uma vingança de Inês (Adriana Esteves) contra Beatriz (Glória Pires) foi adiantada. Pesquisas recentes constataram que, atualmente, o público não quer ver realidade e violência na novela das nove. E que os bons e batalhadores são os queridinhos, em detrimento aos vilões. Cai por terra, portanto, a teoria que reza que o público gosta mesmo é das vilãs. Adeus Carminhas, Nazarés, Bias Falcão e Odetes Roitman.

Semana passada fui questionado o porquê do público gostar tanto de uma novela como “O Rei do Gado” (de 1996), que faz sucesso à tarde, em sua segunda reprise no “Vale a pena Ver de Novo”, e não gostar de “Babilônia”. Incluiria aí também a atual novela das sete da Globo, “Alto Astral”, em sua reta final, com repercussão superior às suas antecessoras no horário.

São três novelas bem diferentes, em situações diferentes. “O Rei do Gado” é um novelão clássico, com o texto sempre emotivo de Benedito Ruy Barbosa e direção primorosa de Luiz Fernando Carvalho. O texto, continua atualíssimo. Aborda identidades desconhecidas, amor entre classes sociais diferentes, traições, mas também a corrupção política e reforma agrária.

Alto Astral”, do estreante Daniel Ortiz, é tão somente uma novela das mais despretensiosas que já vi. Repleta de clichês do folhetim (vilões maniqueístas, mistérios, amores impossíveis, sobrenatural), e com o humor nonsense que andava afastado do horário. Uma boa novela para relaxar.

Babilônia” começou forte. Lembrou “Torre de Babel” (1998), de Silvio de Abreu, que também afugentou o público no início. Tem a corrupção política presente em “O Rei do Gado”. Tem alguns clichês do folhetim, como toda novela. Mas falta emoção. Falta o público se identificar com algum drama para ter pelo que torcer. Ou rir, ou se emocionar, ou sofrer. Falta um tanto de humanidade a “Babilônia”.

Os telejornais já aprenderam essa lição faz tempo: a notícia ruim deve vir intercalada com notícias suaves, ou que apelem para o emotivo do público. A novela pode emular a realidade. Mas nunca destacá-la mais do que a emoção, sua essência.


Clássico dos anos 80, “Cambalacho” volta no canal Viva
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Nilson Xavier

Regina Casé como Tina Pepper (Foto: Divulgação/TV Globo)

Regina Casé como Tina Pepper (Foto: Divulgação/TV Globo)

Você já deve ter visto por aí uma imagem ou vídeo de Regina Casé, magrinha, com uma peruca de Tina Turner. TV Pirata? Poderia ser, mas não. É a personagem dela, Tina Pepper, na novela “Cambalacho”, de Silvio de Abreu, clássico da década de 80 que o canal Viva traz de volta, em agosto.

A personagem é uma das mais icônicas da galeria de tipos que a nossa Teledramaturgia já apresentou. Tina Pepper, ou melhor, Albertina Pimenta, era uma suburbana metida a gostosa que sonhava em ser uma cantora famosa. Achava que cantava e era fã de Tina Turner, que fazia muito, mas muito sucesso lá pelos meados dos anos 80. Tina, a Pepper, depois de muita artimanha, alcança o estrelato com o hit “Você Me Incendeia”, que chegou a apresentar no “Cassino do Chacrinha”.

Além de Tina, “Cambalacho” tinha a dupla de trambiqueiros Naná e Gegê, Fernanda Montenegro e Gianfrancesco Guarnieri, que aplicavam pequenos golpes para dar de comer a uma prole de crianças abandonadas. Naná se descobre herdeira de uma fortuna e tem que lidar com a perigosa Andréia Souza e Silva, viúva do pai rico que ela nem sabia que tinha. Natália do Valle também fez muito sucesso como a pérfida vilã, cujo tema musical repetia à exaustão “Perigoooooosaaaaaaaaaa!”.

Exibida em 1986, com uma reprise no “Vale a Pena Ver de Novo” em 1991, “Cambalacho” foi um daqueles momentos felizes de nossa televisão, onde tudo atingiu a tônica certa: uma mistura certeira de dramalhão folhetinesco com a comédia mais rasgada que Silvio fazia tão bem no horário das sete naqueles tempos (em que não existia internet, ou redes sociais, tv a cabo, etc).

No elenco, também Susana Vieira, Cláudio Marzo, Edson Celulari, Débora Bloch, Consuelo Leandro, Oswaldo Loureiro, Rosamaria Murtinho, Roberto Bonfim, Emiliano Queiroz, Flávio Galvão, Louise Cardoso, Luiz Fernando Guimarães, Marcos Frota, Fábio Sabag, Jacqueline Laurence, Paulo César Grande, Maurício Mattar e outros.

O repeteco de “Cambalacho” atende a um velho pedido dos fãs do Viva: reprises de novelas mais, mais antigas. Volta dia 24 de agosto, às 14h30 (horário alternativo 1h45) em substituição a “Pedra Sobre Pedra”.

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