Blog do Nilson Xavier

“O Rebu” funciona melhor na teoria do que na prática
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Nilson Xavier

Mais um assassinato marcou a semana em "O Rebu" (Foto: Pedro Curi / TV Globo)

Mais um assassinato marcou a semana em “O Rebu'' (Foto: Pedro Curi / TV Globo)

Perdi o fio da meada de #ORebu :(

Cada vez mais leio essa frase nas redes sociais. “O Rebu”, uma trama de mistério, pautada em uma investigação de assassinato, requer atenção redobrada. Caso contrário, perde-se o “fio da meada” mesmo. Sua cronologia que vai-e-vem-e-volta não é para os negligentes, para os que deixam a TV ligada e vão fazer outra coisa ou os que assistem dia sim, dia não. Só os atenciosos entenderão.

Não que todos os que acompanham um “quem matou” estejam realmente ávidos em colher pista a pista no roteiro para descobrir a identidade do assassino. Isso pode ser mais recorrente em uma trama com cronologia linear. Mas não em “O Rebu”, onde a falta de unidade temporal na narrativa não só confunde quem aprecia histórias de mistério, como também corre o risco de provocar o desinteresse no telespectador. O que, a princípio, parece um jogo atraente, pode acabar se tornando algo maçante.

A novela também não cumpre com o seu maior charme prometido: “a festa cintilante da alta sociedade”. Nas chamadas e nos primeiros capítulos (antes de a polícia chegar, na manhã seguinte à festa), a maioria das cenas mostrava que o “rebu” do título era a festa em si, com personagens bêbados ou drogados ultrapassando todos os seus limites, embalados por uma trilha sonora de qualidade. A primeira sequência da novela, em que a câmera segue alguns personagens e capta suas atitudes e reações, definia bem o “rebu” que estava por vir.

Com a chegada da polícia, a festa, como cenário principal, deixou de ser o foco, que deu lugar aos antecedentes dos personagens, o que os levaram à mansão de Ângela Mahler (Patrícia Pillar) e suas motivações para matar Bruno Ferraz (Daniel de Oliveira). Com isso, “O Rebu” perdeu muito do seu brilho, de seu apelo – ainda que o objetivo do roteiro seja o avanço da investigação policial.

Com uma proposta das mais originais e qualidade de produção inquestionável (direção, elenco, texto, fotografia, trilha, arte), “O Rebu” tem mostrado que funciona melhor na teoria do que na prática. É de encher os olhos. Contudo, para uma história seriada, requer disciplina do público. Em tempos em que a TV aberta concorre com tantos ruídos externos, é necessário um apelo hercúleo para manter o telespectador diariamente fisgado na história – ainda mais em um horário ingrato e variável, e em que há uma interrupção às quartas-feiras e fins de semana.

O Rebu” talvez funcione melhor “on demand”, para se assistir no DVD, no horário em que se esteja realmente disponível para a novela.


Trama ágil e bons ganchos são as melhores qualidades de “Boogie Oogie”
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Nilson Xavier

Ísis Valverde, Marco Pigossi e Deborah Secco em "Boogie Oogie" (Foto: Divulgação/TV Globo)

Ísis Valverde, Marco Pigossi e Deborah Secco em “Boogie Oogie'' (Foto: Divulgação/TV Globo)

Costuma-se dizer que a receita para uma boa novela é a soma de vários fatores. Uma boa produção, um bom elenco, uma boa direção e um bom texto são muito importantes e ajudam bastante. Mas uma boa história ainda é imprescindível. E nem precisa ser “inovadora”. Bastaria o novelista dominar a carpintaria da telenovela e desenvolver sua trama de forma a manter o interesse do público ao longo dos meses em que a história seriada vai ao ar.

Uma regra básica para se obter sucesso nessa façanha é a construção de bons ganchos – o momento clímax ao final de cada capítulo, que vai despertar a curiosidade e o interesse do telespectador em continuar acompanhando aquela história no dia seguinte. Um capítulo pode, inclusive, fazer uso deles antes de cada intervalo comercial. E, manter-se com bons ganchos ao longo de sete, oito meses, é uma tarefa nada fácil, e vai refletir em uma trama ágil, dinâmica e, muitas vezes, carregada de reviravoltas.

Em sua terceira semana no ar, “Boogie Oogie”, de Rui Vilhena, já merece elogios pelo dinamismo com o qual sua história é contada. É uma novela de cenas curtas, rápidas, com diálogos objetivos. O autor não perde tempo para contar suas historinhas, bem alinhavadas e com núcleos que conversam entre si. Ainda que algumas situações forcem a barra: foi difícil de engolir, na semana passada, a sequência em que Márcia (a ótima Christiana Guinle) se deixou sequestrar por Inês (Deborah Secco, também ótima) – e a personagem nem estava bêbada, como de costume.

A produção, a direção e o elenco de “Boogie Oogie” ajudam bastante – ainda que acusada de não ser fiel à época retratada (final da década de 1970). O texto é bom, e a história bem conduzida – ainda que extremamente folhetinesca, sem novidade alguma e sem a pretensão de inovar nada. É uma novela ágil e agradável de assistir. E possui a ótima qualidade de terminar cada capítulo com ganchos interessantes. Rui Vilhena faz direitinho e mostra a que veio. “Boogie Oogie” começou bem. Reviravoltas na história estão prometidas. Agora, resta torcer para que a novela mantenha-se nesse patamar e a trama tenha fôlego para os meses vindouros.


Há algo de “Tieta” em “Império”
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Nilson Xavier

Cora (Drica Moraes) de "Império" carrega algumas semelhanças com Perpétua (Joana Fomm) de "Tieta" (Foto: Divulgação/TV Globo)

Cora (Drica Moraes) de “Império'' carrega semelhanças com Perpétua (Joana Fomm) de “Tieta'' (Foto: Divulgação/TV Globo)

E algo de “Suave Veneno”, de “Senhora do Destino”, de “Fina Estampa”, e até de “A Indomada”.

As semelhanças de “Império'' com “Tieta'' e outras tramas de Aguinaldo Silva

Não é raro um novelista se referenciar ou requentar antigas tramas e perfis de personagens já usados em trabalhos anteriores. Todos os grandes já bateram em uma mesma tecla mais de uma vez, de Ivani Ribeiro a Janete Clair, de Cassiano Gabus Mendes e Benedito Ruy Barbosa. Com Aguinaldo Silva, nem poderia ser diferente – ele, um dos mais populares autores de novelas de nossa televisão.

E Aguinaldo o faz abertamente. Vimos em “Fina Estampa” (2011-2012), sua última novela, a vilã Nazaré Tedesco – personagem de Renata Sorrah criada para “Senhora do Destino” (2004-2005) – ser citada mais de uma vez, inclusive com direito a morte na escada, o método criminoso preferido da malvada loura.

Tieta” – que completou 25 anos de sua estreia no dia 14 de agosto – foi o primeiro grande sucesso com assinatura de Aguinaldo Silva – por mais que ele tivesse escrito a novela com a parceria de Ricardo Linhares e Ana Maria Moretzsohn, e por mais que ele já tivesse escrito outros sucessos anteriormente – como “Roque Santeiro” (1985-1986), sinopse de Dias Gomes, escrita com ele, e “Vale Tudo” (1988), sinopse de Gilberto Braga, escrita com ele e Leonor Bassères. “Tieta” é considerada pelo próprio Aguinaldo como sua melhor novela, com o que concordo totalmente. Uma daquelas obras que marcaram a história de nossa TV.

Como um autor que revisita sua obra, Aguinaldo Silva traz em “Império” a releitura de uma personagem de “Tieta”: Perpétua, imortalizada na televisão por Joana Fomm. Tirando a caracterização circense (sempre de roupa preta a cobrir totalmente o corpo, um penteado característico, xale e guarda-chuva em punho), tem muito da vilã Perpétua na megera-mor de “Império”, Cora, vivida por Drica Moraes. Ambas são mulheres amargas, egoístas, desprovidas de empatia, mal amadas, secas por dentro, e que se escondem atrás de um verniz religioso para destilar veneno sem culpa.

Outra semelhança que lembrei: o personagem Téo Pereira (Paulo Betti), o blogueiro fofoqueiro de “Império“, tinha em “Tieta'' uma equivalente: Assuntinha Ferreira (Iara Jamra), a colunista fofoqueira dona do bordão “Assuntou assuntou, Assuntinha comentou!“.

Sinto também um cheiro de “Senhora do Destino” em “Império”, mais diretamente na figura dos protagonistas dessas novelas. Tanto Maria do Carmo (Susana Vieira) quanto José Alfredo (Alexandre Nero) construíram um “império” do nada, diante das adversidades da vida – ainda que os métodos de Zé Alfredo não tenham sido dos mais ortodoxos. Ambos chegaram ao alto da escalada social através de trabalho, que valorizam muito diante da prole que formaram, Maria do Carmo com quatro filhos e Zé Alfredo com três – todos muito diferentes entre si.

De “Fina Estampa”, Aguinaldo tirou a caricatura do gay. O Crodoaldo Valério (o Crô), personagem de Marcelo Serrado, agora está na pele de Téo Pereira, vivido por Paulo Betti. Ambos, com todos os exageros que o tipo pode propiciar. De “A Indomada”, Aguinaldo tirou o sobrenome da vilã desta novela, Altiva, interpretada por Eva Wilma. Em “Império”, a pomposa Maria Marta (Lília Cabral) tem o sobrenome Mendonça e Albuquerque da malvada de Greenville, ainda que ambas não tenham nenhum grau parentesco.

Mas é “Suave Veneno” (1999) que carrega mais semelhanças com “Império”. Livremente inspirada em “O Rei Lear”, de Shakespeare, o protagonista de “Suave Veneno” era o nordestino Waldomiro Cerqueira (José Wilker), de origem humilde que enriquecera com a exploração de mármore – o que muito lembra o comendador José Alfredo de “Império”, de mesma origem, que ascendeu com o comércio e exploração de pedras preciosas. Assim como Zé Alfredo, Waldomiro também é pai de três filhos – filhas no caso – onde uma é a preferida e uma outra é a ambiciosa que deseja para si o domínio dos negócios do pai. E, assim como Zé Alfredo, Waldomiro tem uma filha bastarda, cuja existência ele desconhecia.

De “Tieta” para “Império”, Aguinaldo mudou seu estilo. A crônica de um Brasil muito regional, repleta de personagens carismáticos, deu lugar ao realismo de tramas urbanas. Foi uma década inteira se dedicando à mesma fórmula que deu certo em “Tieta” – vide “Pedra Sobre Pedra” (1992), “Fera Ferida” (1993-1994) e “A Indomada” (1997). Mas, apesar da mudança de cenário, Aguinaldo nunca deixou de ser, acima de tudo, um autor popular – vide o sucesso, também, de “Senhora do Destino” e “Fina Estampa”.

As semelhanças entre personagens e trama de “Império” com outras novelas de Aguinaldo Silva não param aqui. Cite outras!


Como um bom thriller policial, a tensão aumenta a cada capítulo de “O Rebu”
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Nilson Xavier

Bel Kowarick, Tony Ramos, Patrícia Pillar e Marcos Palmeira (Foto: Divulgação/TV Globo)

Bel Kowarick, Tony Ramos, Patrícia Pillar e Marcos Palmeira (Foto: Divulgação/TV Globo)

Uma cena de “O Rebu” me chamou a atenção no capítulo de segunda-feira (13/08): enquanto o “maluco” Oswaldo (Júlio Andrade) era preso, a mulher de Braga (Tony Ramos), Lídia (Bel Kowarick), parenta do rapaz – todos convidados da festa de Ângela Mahler (Patrícia Pillar) – reagiu de forma exasperada contra a anfitriã, desafeto de seu marido, jogando-lhe acusações.

Na trama da novela, a sequência ocorreu no dia seguinte ao “rebu”, o assassinato na festa. Mas, para nós, telespectadores, que estamos acompanhando a história há exatamente um mês, parece que aqueles personagens estão vivendo a tensão de uma investigação policial há mais tempo, reagindo ao estresse que a situação toda impõe. Apesar das idas e vindas cronológicas que embaralham a história, “O Rebu” tem o mérito de exibir uma tensão crescente a cada capítulo, como em um bom thriller policial.

“A cintilante festa da alta sociedade”, que culminou em um crime, deu lugar a uma sensação sui generis para cada um, convidado ou não, em que a idoneidade de todos vai sendo posta em dúvida à medida que avançam as investigações. É quando vemos cair a máscara e o verniz dos personagens, fazendo aflorar seus instintos mais primitivos, aqueles que as convenções sociais impedem de transparecer – ou por educação, ou por esconderem algo condenável pelo establishment.

A situação me remete ao filme mexicano “O Anjo Exterminador” (de 1962), de Luis Buñuel, em que os convidados de uma festa da alta sociedade se veem impossibilitados de deixar a mansão por portas “imaginárias” e começam a perder as estribeiras, passando a agir de forma primitiva ante a privação da liberdade, tensão, fome e sede. É quando afloram seus desejos mais reprimidos e o ser humano se mostra como realmente é em sua essência, sem amarras sociais.

O cenário em “O Rebu” difere uma vez que a festa de Ângela Mahler já havia ultrapassado a formalidade. O álcool e outras drogas despertaram nos convidados o “anjo exterminador” que cada um carrega dentro de si, permitindo assim aflorar a ambição pelo dinheiro, poder e fama ou os desejos sexuais mais reprimidos. Daí, quem sabe, motivos que levaram Bruno Ferraz (Daniel de Oliveira) à morte.

Quanto mais a história avança, mais cresce a tensão entre os convivas. E a novela faz isso bem, dentro de sua proposta sem sincronia temporal. Já presenciamos trocas de farpas entre convidados, acusações e até xingamentos. Em um instinto de autoproteção, cada um vai se defendendo como pode de possíveis suspeitas, já que a maioria tem motivos, se não para ter matado Bruno Ferraz, ao menos para esconder algo bem podre e proibido pelo decoro, a moral ou as convenções da sociedade, seja ela alta ou baixa.


Até que ponto o público perdoa furos e incoerências nas novelas?
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Nilson Xavier

Cora (Drica Moraes) é pega de surpresa em "Império" (Foto: Divulgação/TV Globo)

Cora (Drica Moraes) é pega de surpresa em “Império'' (Foto: Divulgação/TV Globo)

O capítulo de quinta-feira (07/08) da novela “Império” terminou assim: a vilã Cora (Drica Moraes) se infiltra na loja matriz do todo-poderoso José Alfredo (Alexandre Nero) a fim de deixar um álbum de recortes em sua sala. Já era noite, o expediente havia acabado, ela supunha que o local estivesse vazio e a sala do chefão aberta (!). Mas Cora não contava que José Alfredo ainda estivesse lá, cochilando em um sofá. Ao dar de cara com seu desafeto, ela tenta fugir, mas ele a encurrala. Cora acaba trancada em uma outra sala. Os dois trocam desaforos e o desfecho da cena aconteceu no capítulo de sexta, quando José Alfredo folheou o tal álbum.

Assim que Cora conseguiu chegar à sala de José Alfredo, não faltaram reclamações do público que acompanhava a trama pelas redes sociais. “Só em novela mesmo que uma zé-ninguém como Cora consegue burlar a segurança da loja (que, ao que parece, não existia) e entrar na sala do presidente sem ser vista!”. Faz sentido. Na vida real, isso seria praticamente impossível, se considerarmos que Cora não é uma espiã profissional, fez tudo sozinha e não obteve ajuda de alguém que facilitasse o seu acesso.

Entretanto, se não fosse por esse “deslize” (ou furo?), não teríamos esse ótimo gancho e uma das melhores sequências já armadas pelo autor Aguinaldo Silva em sua novela. José Alfredo chamando Cora de “cobra peçonhenta'', ou a reação dela, fugindo, pedindo para sair da sala onde ficou presa porque “era cardíaca”, refletem o excelente texto de Aguinaldo, irônico, com ótimas tiradas, em personagens tão bem construídos, como José Alfredo, Cora e vários outros, por situações dramáticas envolventes. “Império” vem cumprindo o papel da telenovela, que é entreter e estimular o telespectador a continuar vendo a trama no dia seguinte. Ou seja, segurar a audiência, seu público cativo, e gerar repercussão.

A atual novela das seis, “Boogie Oogie”, que estreou nessa semana, reacendeu uma velha discussão. Até que ponto uma telenovela, que se propõe “realista”, precisa refletir a realidade nua e crua? A trama de “Boogie Oogie” se passa no ano de 1978, no auge da Era Disco no Brasil. Mas não faltaram dedos a apontar furos em caracterizações (cenários, figurinos, penteados, etc.) e trilha sonora anacrônica. A proposta da novela é refletir fielmente o ano de 1978, ou apenas criar uma ambientação para que o telespectador se situe em tempo e espaço? E é possível simplesmente acompanhar a história e fechar os olhos para esses “furos e deslizes”?

Bianca Bin em "Boogie Oogie" (Foto: Divulgação/TV Globo)

Bianca Bin em “Boogie Oogie'' (Foto: Divulgação/TV Globo)

Em “Império”, pareceu um absurdo que Cora tenha conseguido facilmente entrar, sozinha, na loja de um rico empresário, a qual, aparentemente, não apresentava recursos de segurança, como alarmes, câmeras ou pessoal gabaritado. No entanto, este entrecho rendeu uma ótima sequência e um excelente desfecho de capítulo.

O público não é bobo, não gosta de ser subestimado. Exige coerência e verossimilhança. E, ao que parece, está cada vez mais exigente, ainda mais com as facilidades que temos hoje em checar informações pela Internet. Mas uma novela que se propõe refletir uma realidade – para ambientar o telespectador, ou com a qual ele se identifique – não precisa exatamente ser realista, afinal, é uma obra de ficção. Também cobro verossimilhança. Mas muito mais do que isso, é importante, pelo menos, haver uma lógica no roteiro, para não descambar para a fantasia deslavada, a que se distancia da realidade.

No caso de “Boogie Oogie”, me parece claro que a novela criou uma referência à Era Disco, com todos os seus elementos e signos, muito mais do que uma mera transposição da realidade do ano de 1978. “Boogie Oogie”, ao ambientar sua trama, parece ter optado pelo exagero, pela lente de aumento nas referências à Era Disco. É só comparar a novela com a reprise de “Dancin´ Days” (no canal Viva) – produzida em 1978 – para perceber as muitas diferenças.

Quanto a ”Império”, o deslize (ou furo) pode ser perdoado, já que “os meios justificaram os fins”. Cabe, neste caso, citar a célebre frase de Glória Perez: “É preciso voar!“. A novela divertiu e fez esquecer a realidade.


“Boogie Oogie” une velhos clichês do folhetim a recursos de produção atuais
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Nilson Xavier

Ísis Valverde, a noiva do primeiro capítulo (Foto: Divulgação/TV Globo)

Ísis Valverde, a noiva do primeiro capítulo (Foto: Divulgação/TV Globo)

A nova novela das seis da Globo, “Boogie Oogie” (de Rui Vilhena, direção de núcleo de Ricardo Waddington, que estreou nesta segunda, 04/08), já despertou curiosidade nas bonitas chamadas, que apelaram para a nostalgia musical. A história se passa no mítico ano de 1978, em que as discotecas proliferaram Brasil afora como reflexo da repercussão do filme “Os Embalos de Sábado à Noite” e da novela “Dancin´ Days”. Uma época riquíssima em referências, que dá margem a infinitas possibilidades.

Não foi o primeiro folhetim contemporâneo que retratou a Era Disco para contar uma história: “Pecado Mortal” – que terminou na Record nem faz tanto tempo – também se passava em 1978. Os anos 1970 já haviam sido visitados na Teledramaturgia pela novela “Amor e Revolução” (2011), do SBT, e pela minissérie “Anos Rebeldes” (1992), na Globo. E para aumentar as comparações, a clássica “Dancin´ Days” está sendo reprisada no canal Viva.

Visando cativar o público de imediato nesta estreia, a produção de “Boogie Oogie” usou e abusou da trilha sonora para despertar o John Travolta adormecido em cada um. O primeiro capítulo pareceu um longo anúncio de disco da Som Livre: a cada cena, um pedacinho de algum grande hit da Era Disco. E melhor de tudo: em gravações originais. Vários personagens foram apresentados, com grande destaque para Alessandra Negrini, ótima já no pouco que se viu de sua personagem. Betty Faria também já “chegou chegando”. E Marco Pigossi e Ísis Valverde, pelo visto, vão exalar química pelos próximos seis, sete meses.

A estreia de “Boogie Oogie” deixou uma boa impressão, talvez embalada pela novidade. Entretanto, o que temos pela frente, não é nada novo: a novela promete um folhetim rasgado. Na trama central, o batidíssimo clichê da troca de bebês em maternidade. Remete aos novelões de antigamente, da década de setenta e de antes. O fato da história ser ambientada há quase quarenta anos, aumenta a sensação de trama requentada. Mas para agradar a todos os públicos, a novela usa recursos bem modernos de fotografia, edição e direção.

O primeiro capítulo ficou assim: uma cena de impacto, em que um acidente de avião vitima um noivo no dia de seu casamento. A ação volta no tempo, para os antecedentes do casório. Por fim, o capítulo culmina na cena inicial, da tragédia. Desperdiçou-se o gancho do acidente, afinal, pelas chamadas e releases, já sabemos que o noivo morre. O gancho para amanhã é a reação da noiva ao saber que não se casará mais, e os desdobramentos dessa tragédia em sua vida.

Travestida de antiga, fica claro que “Boogie Oogie” tenta juntar o velho ao novo. Os detalhistas de plantão já tomaram nota das discrepâncias de reconstituição de época: figurinos, cabelos e caracterizações que não condizem com 1978, bem como algumas músicas que foram lançadas depois deste ano. Nada disso compromete a história. Afinal, o importante não é a precisão da reconstituição da época, que percebe-se num primeiro contato – mas a trama a ser contada nos próximos meses. Já que esta promete ser uma salada de clichês, clichê por clichê: novela é novela, não é documentário.


“Meu Pedacinho de Chão” entra para a história por sua estética inovadora
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Nilson Xavier

Irandhir Santos (Zelão) e Bruna Linzmeyer (Juliana) (Foto: Divulgação/TV Globo)

Irandhir Santos (Zelão) e Bruna Linzmeyer (Juliana) (Foto: Divulgação/TV Globo)

Meu Pedacinho de Chão” – a novela das seis da Globo que terminou nesta sexta-feira, 01/08 – entra para a história de nossa Teledramaturgia por sua proposta estética inovadora. O diretor, Luiz Fernando Carvalho, já havia executado um trabalho semelhante na minissérie “Hoje É Dia de Maria”, em 2005. Mas nunca a Globo (ou nenhuma outra emissora) ousou apostar nesta novidade em uma telenovela.

Para recontar essa antiga história de Benedito Ruy Barbosa (a versão original é de 1971-1972), o diretor usou e abusou do mais fartos recursos plásticos, cênicos e tecnológicos, com muito lirismo e referências nas mais variadas fontes que remetem ao imaginário popular, do universo infantil ao caipira, com pinceladas no mágico e no onírico. Um ponto a ressaltar: a novela não foi pensada exclusivamente para o público infantil.

Praticamente uma unanimidade, as qualidades artísticas de “Meu Pedacinho de Chão” são inquestionáveis. Os cenários, os figurinos, a direção de arte, as ambientações, os recursos de cena, os animais de brinquedo, o colorido da fotografia, tudo contribuiu para o tom de fábula que a produção propunha. Poderia se imaginar que tamanha minuciosidade estética se diluiria em uma produção extensa. Mas não: mesmo com tantos detalhes, a trama foi curta para os padrões atuais do horário – menos de 100 capítulos.

A direção de atores também foi um grande diferencial. O elenco enxuto – condizente com a duração da novela – foi escolhido a dedo, com atores em grandes momentos, cada qual dentro do universo, caracterização e proposta de seu personagem. Foi bom ver Antônio Fagundes em um papel menor dentro da trama (o vendeiro Giácomo), mas diferente de tudo que ele já fez na televisão. Diferentes também foram os tipos criados por/para Rodrigo Lombardi e Juliana Paes – duas gratas surpresas, pelo despojamento com o qual viveram Pedro Falcão e Madame Catarina.

Tomás Sampaio (Lepe) e Geytsa Garcia (Pituca) (Foto: Divulgação/TV Globo)

Tomás Sampaio (Lepe) e Geytsa Garcia (Pituca) (Foto: Divulgação/TV Globo)

Destacar o elenco de “Meu Pedacinho de Chão” é também salientar o amadurecimento profissional de Johnny Massaro e Paula Barbosa – irrepreensíveis como Ferdinando e Gina. Elogiar Osmar Prado, Irandhir Santos, Bruna Linzmeyer, Flávio Bauraqui, Emiliano Queiroz e Ricardo Blat nunca é demais. “Meu Pedacinho de Chão” também mostrou o talento de alguns novatos (como Bruno Fagundes e Dani Ornelas), e outros atores mais experientes que pouco ou nunca foram vistos na TV (como Inês Peixoto e Teuda Bara). E claro, o elenco infantil, tendo à frente a dupla Tomás Sampaio (o Lepe) e Geytsa Garcia (a Pituca).

Com toda a liberdade criativa e o foco no visual, a história só não ficou devendo porque os recursos cênicos ajudaram a contá-la. Os personagens eram muito ricos e a produção estética foi acompanhando as transformações pelas quais eles passavam – como nas mudanças de figurinos à medida que iam mudando de personalidade, ou na chegada do inverno, que, na trama, representou o sofrimento e afastamento de Zelão (Irandhir Santos).

O roteiro pulou de personagem em personagem exaltando, momentaneamente, alguma trama, sem se preocupar muito com uma linearidade narrativa. Afora isso, o texto emotivo de Benedito Ruy Barbosa foi percebido em vários momentos, em ótimas interpretações do elenco; os casais românticos eram bons e geraram torcida; e a abordagem ao analfabetismo, que na primeira versão soou apenas como merchandising social, aqui também serviu como mais um elemento a ilustrar a transformação do bronco herói Zelão.

Apesar de tantas qualidades, “Meu Pedacinho de Chão'' não foi campeã de audiência. É louvável que a Globo, sabendo do risco, tenha aprovado a proposta da novela. Mostra que a emissora está aberta ao novo, mesmo enfrentando tempos em que a audiência medida pelo Ibope vai diminuindo mais e mais. Esta abertura da emissora também pode ser percebida com a difícil, mas ótima, “O Rebu” (a trama das onze da noite). É sabido que produções que passam mais tarde têm menos chances de estourar na audiência e, de tempos em tempos, a Globo exibe projetos que lhe dão mais prestígio do que números. Parece que agora a emissora está expandindo esse raciocínio também para outros horários, mais visados. Oxalá, daqui algum tempo, números de Ibope não renderem mais notícia.

Saiba mais sobre “Meu Pedacinho de Chão'' no site Teledramaturgia.


Pró-TV lança livro sobre a “memória televisiva através do canal Viva”
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Nilson Xavier

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Acontece em São Paulo, neste sábado (02/08), o lançamento do livro “A Memória Televisiva como Produto Cultural: um estudo de caso das telenovelas do canal Viva”, escrito por Julio Cesar Fernandes. A obra, fruto de um trabalho acadêmico, tem prefácio de José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, que comandou a TV Globo por décadas. O lançamento é da Pró-TV – Associação dos Pioneiros da TV em parceria com a Editora In House, .

Julio Cesar Fernandes é graduado em Comunicação Social com habilitação em Rádio e TV e tem experiência em produção e roteiro em rádio e televisão. Desde 2009, atua na TV Globo, atualmente no cargo de coordenador de operações de Jornalismo. Em 2013, obteve o título de mestre em Comunicação, com ênfase em memória televisiva, pela Universidade Metodista de São Paulo. O livro é uma adaptação de sua dissertação, aprovada com nota máxima.

O trabalho se propõe a estudar a memória televisiva como parte da memória social e coletiva. O objetivo geral da pesquisa é analisar a memória televisiva recuperada e construída pelo canal Viva (canal por assinatura pertencente ao grupo Globosat), por meio das telenovelas antigas da Globo nele exibidas, verificando, assim, suas características como produto cultural. Além de entender o lugar dessa memória televisiva na trama das mediações culturais e das interações sociais.

capa_memoria_televisivaA pesquisa desenvolve um estudo de caso dividido em três etapas: pesquisa documental, entrevistas guiadas (realizadas com profissionais da equipe do Viva) e entrevistas com telespectadores do canal, que relataram suas experiências a respeito de hábitos de televisão, telenovelas e o canal Viva. Além disso, a pesquisa traz uma retrospectiva histórica da TV e a da telenovela brasileira, assim como uma análise da trajetória do Viva. O livro sugere uma reflexão sobre a memória televisiva e a importância para a sociedade da sua preservação, não somente como fim mercadológico, mas também como um elemento ativo na produção cultural.

A Pró-TV – Associação dos Pioneiros da TV lançou seu próprio selo de linha editorial, a Coleção Pró-TV, em parceria com a Editora In House. Os livros têm parte de suas rendas revertidas aos trabalhos da associação, para sua manutenção e auxílio na criação do futuro Museu da Televisão Brasileira. A coleção lança trabalhos sobre as emissoras, vida dos artistas e histórias relevantes sobre a memória da comunicação brasileira. Este livro é o terceiro desta coleção e inaugura a série “Acadêmica”, que transforma estudos universitários em obras literárias voltadas à comunicação e artes.

Acadêmicos sobre a obra:

“A importância da telenovela na sociedade brasileira já foi apontada por pesquisadores brasileiros e estrangeiros. Entretanto, a memória televisiva como produto cultural não havia sido ainda pesquisada. (…) Julio Cesar Fernandes sinaliza a importância da preservação da memória televisiva brasileira, como uma forma de se compreender não só a memória social como também a memória coletiva.”
Profa. Dra. Anamaria Fadul – Intercom/Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares de Comunicação

“Usamos as mídias como veículos de memória, talvez nunca tanto como agora. Por isso, mais que uma modalidade de memória coletiva, a memória televisiva vem ocupando uma posição central na memória coletiva do país. E especificamente, dentro dessa mídia, a telenovela se destaca como criadora de um repertório compartilhado e um lugar onde representações e imaginários sobre o modo de vida de uma época são depositados podendo depois ser reapropriados pelas pessoas. Por isso, a telenovela é lugar de memoria e documento de época, arquivo e identidade. Impressiona a capacidade dessa narrativa em conectar dimensões temporais diversas e em criar uma “memória midiática” dentro da nação. Por isso, estudar as relações entre telenovela e memória, como faz o presente trabalho, é contribuir para uma dimensão vital de ambos os estudos, da televisãoe da memória.”
Profa. Dra. Maria Immacolata Vassallo de Lopes – ECA-USP

Título: “A memória televisiva como produto cultural: um estudo de caso das telenovelas no Canal Viva“, Julio Cesar Fernandes (Coleção Pró-TV: Acadêmica, Editora In House)

Tarde de autógrafos neste sábado, 02 de agosto de 2014, às 15 horas, no MIS – Museu da Imagem e do Som de São Paulo.


Tramas de humor em “Geração Brasil” disfarçam história central insuficiente
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Nilson Xavier

Murilo Benício como o sisudo Jonas Marra (Foto: Divulgação/TV Globo)

Murilo Benício como o sisudo Jonas Marra (Foto: Divulgação/TV Globo)

Geração Brasil” (a novela das sete da Globo), entrou num desestimulante círculo vicioso: o das historinhas que “enchem linguiça” para disfarçar uma trama central que não sai do lugar. As tramas paralelas são apresentadas como esquetes, dignos de programas de humor. Uma barriga que vai revelando que não sobrou muito da história principal da novela.

Após todo o auê em cima do reality-show “Concurso Geração Brasil”, Jonas Marra (Murilo Benício) encontrou seu sucessor – dois, no caso, Davi e Manuela (Humberto Carrão e Chandelly Braz). E agora, o que sobrou da trama central? Restaram os desencontros amorosos entre o quadrilátero Jonas, Pamela, Herval e Verônica (Benício, Cláudia Abreu, Ricardo Tozzi e Taís Araújo), e algum mistério envolvendo o passado de Jonas e Sandra (Susana Ribeiro).

Enquanto isso, as “traminhas” paralelas vão empurrando a novela: novos reality-shows da Parker TV, Megan (Isabelle Drummond) tentando embolar o romance entre Davi e Manuela, o varejão do Barata (Leandro Hassum), as sandices de Brian Benson (Lázaro Ramos), os arranca-rabos entre Gláucia Beatriz (Renata Sorrah) e Marisa (Titina Medeiros), a (chata) relação entre Shin Soo (Rodrigo Pandolfo) e Lara (Elisa Pinheiro), etc.

O excesso de tecnologia – sim! – também incomoda. “Geração Brasil”, que prometia agradar a todos, revelou-se uma “novela de nicho”, já que continua centrada demais na tecnologia e no universo corporativo. O foco no ambiente de trabalho na Marra Brasil passa aquela (ruim) sensação de que saímos do trabalho e, ao chegar em casa, continuamos nele através da novela das sete. E, para piorar, o protagonista Jonas Marra (Murilo Benício) é frio e sisudo, e lembra aquele chefe chato.

Existe o respiro cômico através das tramas paralelas. Mas esses núcleos, desconexos da trama central, não garantem a fidelidade do público, porque parecem jogados dentro da novela, apresentados como esquetes de programa de humor – como citei acima – que vão variando a cada dia ou semana.

Geração Brasil“, que prometia uma reviravolta após a Copa, decepcionou. É como se sua história já tivesse se esgotado e não restasse mais tanto para contar. Poderia terminar na próxima sexta-feira sem alarde e sem muito mais a revelar.


Com boa estreia, “Império” promete ser um típico novelão
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Nilson Xavier

Marjorie Estiano e Vanessa Giácomo (Foto: Divulgação/TV Globo)

Marjorie Estiano e Vanessa Giácomo (Foto: Divulgação/TV Globo)

Aguinaldo Silva prometeu um novelão ao estilo dos grandes folhetins do passado. Se vai cumprir ou não, é cedo para afirmar. Entretanto, a julgar pela estreia de “Império” (nesta segunda, 21/07), já dá para ter uma ideia do que vem por aí. Um primeiro capítulo que pôs “Em Família”, sua antecessora, no chinelo, por tantos acontecimentos e reviravoltas, amores à primeira vista e armações de vilões – dignos do bom e velho folhetim.

Aguinaldo é experiente e não parece o tipo do autor acomodado. Conhece os meandros que mexem com o imaginário popular. Mesmo que, para isso, tenha que recorrer a velhas fórmulas rocambolescas, que muitos apregoam ultrapassadas. Não vejo como risco, mas um caminho conhecido, mais seguro.

A seu favor, o autor tem a direção sempre motivadora de Rogério Gomes, tanto pelas tomadas quanto pelos atores (direção geral de Pedro Vasconcellos e André Felipe Binder em núcleo de Rogério Gomes). Elenco afiado, com grande destaque para Marjorie Estiano, a vilã Cora da história, que já mostrou do que é capaz para defender os seus interesses. Vanessa Giácomo e Chay Suede seguraram bem as cenas em que Estiano comandou a ação dramática.

Trilha sonora pop com várias músicas requentadas de outras novelas. Seria uma homenagem de “Império” ao gênero? Fotografia bonita como sempre se vê em novelas de Rogério Gomes. É bom ter Aguinaldo com um novo diretor. É sempre um olhar diferente ao universo do novelista. Revezamento de diretores deveria ser uma prática mais constante.

Também percebe-se um cuidado maior com o realismo nos cenários. Como há muito tempo não se via em novelas, a casa do núcleo pobre realmente lembra uma “casa pobre”. A abertura tem uma música bonita (“Lucy in the sky with diamonds”), mas parece destoar das imagens exibidas.

Uma boa estreia, que repercutiu positivamente – pelo menos pelo que pude acompanhar no Twitter. “Império” tem um nome pomposo. Como que para deixar claro a que veio, teve até Regina Duarte de peruca fechando o capítulo! Que faça jus à proposta do autor, em fazer o público voltar a vibrar com uma boa história.