Blog do Nilson Xavier

"Os Dias Eram Assim" erra ao citar novela censurada por abordar corrupção

Nilson Xavier

26/06/2017 08h57

Ana Miranda, Cássia Kiss e Luiz Felipe Mello (Foto: reprodução)

Cena do capítulo de sexta-feira (23/06) da supersérie “Os Dias Eram Assim“: Gustavo (Gabriel Leoni) chega em casa à noite e encontra a família assistindo televisão: a mãe Vera (Cássia Kiss), a empregada Dalva (Ana Miranda) e o sobrinho pequeno Valentim (Luiz Felipe Mello). A sequência, rápida e didática, serviu apenas para explicar a censura do Governo sobre a TV.

Gustavo: O que vocês estão vendo aí?
Dalva: Estamos assistindo a novela “Champagne”. Essa sua mãe gosta!
Vera: É. O autor está tendo problemas com a censura. A novela fala sobre corrupção no Brasil.
Valentim: O que é censura?
Dalva: Censura é quando cortam, tiram tudo o que não pode ser falado.
Gustavo: É que, quando se fala mal do Brasil, tem muita gente que não gosta. Entendeu?
Valentim: Entendi!

Essa cena, à primeira vista corriqueira, me chamou a atenção por dois motivos. Pela primeira vez a personagem Vera aparece assistindo uma novela, com a desculpa de que ela abordava a corrupção no país. E a novela em questão (“Champagne“), apesar de ter de fato sofrido a ação da censura, nem chegou perto de discutir a corrupção num sentido amplo – ou que pelo menos justificasse Vera gostar dela, como sugeriu o diálogo. Soou gratuito e deslocado.

A trama de “Os Dias Eram Assim” está em 1984, no momento em que a TV Globo exibia “Champagne” em seu horário nobre. A novela não passava de uma trama despretensiosa sobre o mistério de um assassinato ocorrido no passado, com doses de humor e casais em crise. Não fez sucesso, é pouco conhecida e pouco lembrada pela própria Globo (raramente aparece no “Vídeo Show“, por exemplo). Ou seja: apesar de ter liderado a audiência (como toda a grade da emissora), “Champagne” não marcou. Pelo contrário: é mais lembrada pelo vexame de ter perdido no Ibope para as transmissões do carnaval feitas pela TV Manchete em 1984 – único ano em que a Globo não exibiu o carnaval.

Por que Vera, pouco afeita às telenovelas, preferiria essa? Não me parece um produto que casasse com o seu perfil.

Marieta Severo e Cássio Gabus Mendes em “Champagne” (Foto: reprodução)

Na fala da empregada Dalva “Estamos assistindo a novela. Essa sua mãe gosta!“, ela destacou que a patroa Vera não via novela. E Vera se justificou: “A novela fala sobre corrupção no Brasil“. Vera é uma intelectual, dona de uma livraria. Os filhos herdaram dela (e do marido, falecido) a consciência política. A cena deixa claro que sua família não tem o hábito de assistir novela, enquanto a empregada, de forma subliminar, intensifica o clichê de que este é um produto para pessoas “intelectualmente inferiores”, socialmente falando (a patroa não gosta de novela, mas a empregada gosta). Dalva, por sua vez, acaba dando uma ótima definição de censura: “É quando cortam, tiram tudo o que não pode ser falado.” Apesar de assistir novela, teria Dalva, no convívio com a família de Vera, se tornado uma pessoa esclarecida? (contém ironia) Minha crítica, neste ponto, é ao esteriótipo de que a empregada vê novela e a patroa não.

Particularmente durante a década de 1970 (os Anos de Chumbo), a telenovela foi acusada por uma ala intelectual da sociedade de ferramenta de alienação das massas. Como as emissoras de televisão são uma concessão do Governo e eram alvo da Censura Federal, a telenovela era vista pelo meio intelectual como um produto que, ao promover o escapismo da realidade, indiretamente agia a favor do Governo. Acusação injusta, uma vez que vários intelectuais do teatro, incapacitados de trabalhar por causa do Regime, migraram para a TV, mesmo continuando vigiados (Dias Gomes, Lauro César Muniz, Jorge Andrade, Bráulio Pedroso e outros). Esse ranço de que pessoas “intelectualmente esclarecidas” não veem novela perdurou durante muito tempo, mas acabou se suavizando com o passar dos anos.

Cassiano Gabus Mendes, o autor de “Champagne“, desabafou na época: “Eles não querem que se mexa com a realidade, com o que vemos diariamente por ai!” Entre outras coisas, a Censura não gostou de um personagem que era advogado e ladrão – talvez daí a discussão sobre corrupção mencionada em “Os Dias Eram Assim“. Mas era tudo muito sutil e carregado no humor, nada além disso.

Lógico que a cena envolvendo Vera e a novela serviu tão somente para ilustrar e contextualizar a censura na televisão – embora “Champagne” estivesse longe de promover uma discussão acerca de corrupção no Brasil, como sugeriu a supersérie. Se o público torceu o nariz para a novela na época, imagina a intelectual Vera, que nem via novela!

AQUI tem tudo sobre a novela “Champagne“: trama, elenco, personagens, curiosidades, trilha sonora.
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Sobre o autor

Nilson Xavier é catarinense e mora em São Paulo. Desde pequeno, um fã de televisão: aos 10 anos já catalogava de forma sistemática tudo o que assistia, inclusive as novelas. Pesquisar elencos e curiosidades sobre esse universo tornou-se um hobby. Com a Internet, seus registros novelísticos migraram para a rede: em 2000 lançou o site Teledramaturgia (http://www.teledramaturgia.com.br/), cujo sucesso o levou a publicar o Almanaque da Telenovela Brasileira, em 2007.

Sobre o blog

Um espaço para análise e reflexão sobre a produção dramatúrgica em nossa TV. Seja com a seriedade que o tema exige, ou com uma pitada de humor e deboche, o que também leva à reflexão.

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