Blog do Nilson Xavier

Pirotecnia em “Dez Mandamentos” desviou atenção da fraca direção de elenco

Nilson Xavier

24/11/2015 09h13

Sidney Sampaio e Guilherme Winter. Foto divulgação/ Record

Sidney Sampaio e Guilherme Winter. Foto divulgação/ Record

O maior sucesso da dramaturgia da Record desde a retomada do setor (em 2004), a novela “Os Dez Mandamentos” chegou ao fim nesta segunda-feira, 23 de novembro. Sucesso este não esperado pela emissora, muito menos pelos profissionais envolvidos na produção.

A maior prova disto foi a falta de planejamento da Record e a “má administração do sucesso”. A novela foi sendo espichada à medida que o Ibope aumentava, o que prejudicou seu bom andamento, com tanta enrolação, e chegou a irritar alguns telespectadores. Sem uma substituta à altura (talvez outra trama bíblica inédita), a emissora preferiu protelar a estreia da sucessora (“Escrava-Mãe”, uma história ambientada no Rio de Janeiro do século 19) e pôs a reprise de uma minissérie bíblica em seu lugar (“Rei Davi”) – por sinal, com notável qualidade técnica inferior.

A Record ousou ao exibir “Os Dez Mandamentos” em formato de telenovela, uma história bíblica mundialmente conhecida que demanda muitos efeitos especiais e tem o famoso filme de Cecil B. DeMille (de 1956, com Charlton Heston) no inconsciente coletivo – uma referência que sempre gera comparações. Ousadia maior foi concorrer com os principais programas do horário nobre da Globo, o “JN” e a novela das nove.

E a emissora de Edir Macedo acertou em cheio. Pode-se dizer que “Os Dez Mandamentos” foi a novela certa no momento certo. Frente à crise econômica pela qual o país atravessa, com notícias desagradáveis diariamente nos telejornais, e a insistência da Globo em apostar em tramas ditas “realistas”, com violência, impunidade e favelas (“Babilônia” e “A Regra do Jogo”), parte do público preferiu o escapismo de uma história fantasiosa e bem distante da dura realidade brasileira.

Os Dez Mandamentos” fecha com uma média geral de 16 pontos no Ibope da Grande São Paulo. A audiência começou dentro do esperado pela emissora e foi crescendo com o passar do tempo. Encostou na Globo com as pragas do Egito, já em sua segunda metade. E bateu a concorrente com a travessia no Mar Vermelho, na reta final, para depois sofrer uma queda. Chamou a atenção até mesmo de quem era alheio a temas bíblicos, curioso com os efeitos especiais que a Record mandou fazer nos Estados Unidos, tanto para as pragas quanto para a travessia – a maioria, bons e eficientes.

Entretanto, tanta pirotecnia disfarçou um desajuste. A equipe de diretores, comandada por Alexandre Avancini, desviou as atenções para os efeitos especiais, mas deixou a desejar na direção de atores. Um texto bíblico, repleto de frases feitas e doutrinação, requer excelentes atores, bem dirigidos, para que tudo não soe como um jogral de igreja. Diante de um elenco numeroso, poucos nomes se destacaram, enquanto vários não passaram da declamação empostada. Faltou uma direção de atores mais criativa e menos preguiçosa, que fugisse do lugar comum, inclusive para tornar convincentes algumas interpretações do difícil texto bíblico.

No elenco, destacaram-se os excelentes Samara Felippo, Zé Carlos Machado, Denise Del Vecchio, Adriana Garambone, Giuseppe Oristânio e Petrônio Gontijo. Larissa Maciel, Vera Zimmermann, Heitor Martinez, Paulo Gorgulho e Floriano Peixoto também estiveram bem em seus personagens. O mesmo não se pode dizer de Guilherme Winter e Sérgio Marone, que interpretaram os protagonistas Moisés, o herói, e Ramsés, o vilão. Sem carisma, Winter viveu um Moisés frio e robótico, enquanto Marone foi a outro extremo, exagerando e pisando na falta de sutileza. Faltou da direção uma orientação para o meio termo correto entre os dois antagonistas.

Tecnicamente falando, a equipe de Alexandre Avancini está de parabéns. Tudo bem que os efeitos especiais são importados. Mas vale ressaltar também a cenografia e figurinos – ainda que perucas e barbas postiças continuem soando falsas. A fotografia corrigiu o colorido exagerado – mais escura, o Egito da novela escapou da comparação com o Egito de desfiles de escola de samba, como já visto em produções anteriores da emissora.

O sucesso provocou o alongamento e, para tanto, a edição abusou dos flashbacks, o que aumentou a sensação de embromação. Pior foi o último capítulo não exibir um fim da história para justificar uma “segunda temporada” em 2016. Já a autora, Vívian de Oliveira, conseguiu desenvolver um bom trabalho ao dosar o texto bíblico com uma linguagem mais próxima da telenovela (inclusive com boas tramas paralelas cômicas). Gostaria de ver Vívian escrevendo histórias contemporâneas, não-bíblicas.

Acima de tudo, com defeitos e qualidades – como qualquer outra produção, de qualquer canal -, “Os Dez Mandamentos” conseguiu um feito notável, destes que raramente acontecem na televisão brasileira. Conquistou o público com uma opção de entretenimento fora da Globo, no horário de maior faturamento da concorrente. Não é pouca coisa.

Mas a Record precisará de bem mais que histórias incríveis com efeitos especiais importados para continuar neste patamar. A concorrência poderá estar melhor munida na próxima vez, não só a Globo, mas também as demais emissoras. Nesta guerra deles, quem ganha é o público, com mais opções de entretenimento, independentemente do canal.

Leia também: Maurício Stycer “Terminar Os Dez Mandamentos sem mostrar o fim da história é caso de Procon”.

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Sobre o autor

Nilson Xavier é catarinense e mora em São Paulo. Desde pequeno, um fã de televisão: aos 10 anos já catalogava de forma sistemática tudo o que assistia, inclusive as novelas. Pesquisar elencos e curiosidades sobre esse universo tornou-se um hobby. Com a Internet, seus registros novelísticos migraram para a rede: em 2000 lançou o site Teledramaturgia (http://www.teledramaturgia.com.br/), cujo sucesso o levou a publicar o Almanaque da Telenovela Brasileira, em 2007.

Sobre o blog

Um espaço para análise e reflexão sobre a produção dramatúrgica em nossa TV. Seja com a seriedade que o tema exige, ou com uma pitada de humor e deboche, o que também leva à reflexão.

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