Blog do Nilson Xavier

Desfigurada e retalhada, “A Lei do Amor” termina como uma “novela Frankenstein”

Nilson Xavier

 

Tenho muita admiração por Maria Adelaide Amaral e Vincent Villari, consagrados por textos de qualidade em novelas e minisséries aplaudidas, como “A Muralha”, “Os Maias”, “Sangue Bom” e os remakes de “Ti-ti-ti” e “Anjo Mau”. Vincent foi ainda colaborador em “Da Cor do Pecado”, “Cobras e Lagartos” e “A Favorita”, e Maria Adelaide assinou “A Casa das Sete Mulheres”, Um Só Coração” e “JK”, entre outras. Não resta dúvida de que são profissionais gabaritados, de alto prestígio dentro da televisão, haja vista seus currículos invejáveis.

Essa introdução não foi para “limpar minha barra” pelas críticas que faço sobre “A Lei do Amor” desde que ela começou – novela assinada pela dupla que terminou nesta sexta-feira, 31/03. Acho que muitos fatores externos além da responsabilidade dos autores contribuíram para o resultado que se viu na tela.

Acredito que ainda é possível uma novela fazer uma grande fatia do público deixar de lado Netflix, games, redes sociais e até vida social para se prender a uma boa trama diária entre as 21h e 22h30 (como acontece hoje às 18h e 19h). Por ora, vou desconsiderar esse período de crise que passa o horário das nove da Globo, há mais de dois anos sem uma novela de sucesso – entenda, sem atingir a média (final) de 30 pontos no Ibope da Grande SP (“Babilônia”, “A Regra do Jogo”, “Velho Chico” e agora “A Lei do Amor”).

Entendo que toda novela deve ter uma trama central forte, que faça render história durante o tempo de duração a que se propõe (4, 6, 8 meses). Quando “A Lei do Amor” começou, me incomodava o fato de não saber responder a pergunta “qual é a história da novela?”. Sempre tenho a impressão de que, se não está claro para o público do que se trata, o autor fica livre para levar a trama para qualquer lugar, sem rumo. É como se o próprio autor não soubesse o seu destino final.

A Lei do Amor” foi assim, uma trama desgovernada, como se tivesse perdido sua bússola e navegava de acordo com as intempéries, jogando ao mar os personagens que não lhe serviam mais (qualquer alusão à morte de Isabela é coincidência), resgatando alguns de acordo com a necessidade da viagem (do roteiro), e brincando de mocinho e bandido maculando seus perfis originais: agora você é mocinho, não, agora você é bandido!

Os problemas já começaram na primeira fase, que se revelou desnecessária. Pior: confundiu o público. Magnólia era Vera Holtz desde o começo, mas Tião (que regula a idade da personagem) era Thiago Martins e depois surgiu como José Mayer, para mais adiante aparecer uma Mag jovem em cenas de flashback. Outro problema: elenco inchado com muitos atores jovens e desconhecidos do público, o que causava confusão na hora de ligar os núcleos.

Enquanto isso: qual é a história da novela mesmo? Ah, é sobre um casal apaixonado que foi separado na juventude por uma intriga da vilã e se reencontra vinte anos depois. Isso rende uma novela? Talvez a trama central frágil justifique o gigantesco elenco de coadjuvantes.

Com o público perdido em meio ao elenco numeroso em uma trama confusa, vieram os grupos de discussão e o retalhamento de “A Lei do Amor”. Muda tudo! Já imaginei Maria Adelaide arrancando os cabelos curtinhos! Começou o enxugamento da história e elenco, com a saída de vários personagens para que a trama ficasse mais objetiva. E no afã de ajustar a obra ao gosto da audiência, aconteceu o pior: a mudança de personalidade de vários personagens. Desfigurada, “A Lei do Amor” virou um Frankenstein.

Diferente das duas produções anteriores, em que os autores não abriram concessões ao público (“A Regra do Jogo” e “Velho Chico”), aconteceu com “A Lei do Amor” o mesmo que “Babilônia”: acabou descaracterizada para atender a vontade da audiência. Não por coincidência, “Babilônia” e “A Lei do Amor” amargaram as piores médias da história no horário: 25 e 27 pontos, respectivamente.

A ideia de fazer um novelão tradicional saiu pela culatra. Toda boa novela do passado tem uma história central original que sustenta a produção por seis meses. Não era o caso de “A Lei do Amor”. O máximo de “novelão tradicional” foram as várias referências a antigas produções que mais soaram como reaproveitamento de entrechos batidos do que como homenagem – a mocinha sequestrada pela vilã na última semana foi a cereja do bolo!

Sinto por “A Lei do Amor” terminar tão melancólica. Honestamente, torcia pela novela. Apesar da direção pouco inventiva, ainda assim vale ressaltar o excelente trabalho de alguns nomes do elenco, que defenderam bravamente seus personagens com suas atuações: Vera Holtz, José Mayer, Claudia Abreu, Tarcísio Meira, Grazi Massafera, Thiago Lacerda, Camila Morgado e Regina Braga. Em papeis menores, merecem destaque Piérre Baitelli (Antônio), Raphael Ghanem (Gledson) e Marcelo Várzea (o delegado Celso).

Leia também: “5 tropeços que explicam a segunda pior audiência das 21h“.
Fotos: reprodução/@diogo_cc – divulgação/TV Globo.
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Sobre o autor

Nilson Xavier é catarinense e mora em São Paulo. Desde pequeno, um fã de televisão: aos 10 anos já catalogava de forma sistemática tudo o que assistia, inclusive as novelas. Pesquisar elencos e curiosidades sobre esse universo tornou-se um hobby. Com a Internet, seus registros novelísticos migraram para a rede: em 2000 lançou o site Teledramaturgia (http://www.teledramaturgia.com.br/), cujo sucesso o levou a publicar o Almanaque da Telenovela Brasileira, em 2007.

Sobre o blog

Um espaço para análise e reflexão sobre a produção dramatúrgica em nossa TV. Seja com a seriedade que o tema exige, ou com uma pitada de humor e deboche, o que também leva à reflexão.

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