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Apesar da bela produção, “Joia Rara” exagerou no melodrama e nos clichês
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Nilson Xavier

José de Abreu, Mel Maia e Caio Blat (Foto: Divulgação/TV Globo)

José de Abreu, Mel Maia e Caio Blat (Foto: Divulgação/TV Globo)

É sabido que todo folhetim é calcado no melodrama e no clichê, recursos fáceis para fisgar o público. O problema é a dosagem. E “Joia Rara” foi fundo.

Nem sempre uma bela embalagem revela um conteúdo à altura. E nem sempre um conteúdo promissor satisfaz no final. São sentenças que se aplicam a “Joia Rara”, a novela das seis da Globo que terminou nesta sexta, 4 de abril. Uma produção de encher os olhos, lançada envolta a um ar de novidade, o folhetim foi se revelando pouco original ao longo dos meses, pegando pesado no melodrama e resvalando nos mais velhos e batidos clichês de nossas novelas.

Produção impecável, a trama recriou as décadas de 1930 e 1940 – tanto no Rio de Janeiro quanto no Nepal – de maneira belíssima, em cenários, figurinos e direção de arte. Fotografia caprichada e cinematográfica, direção segura da experiente Amora Mautner, trilha sonora bonita e ótimo elenco, em interpretações marcantes. Tecnicamente falando, “Joia Rara” era uma joia mesmo.

As primeiras notícias sobre a produção despertaram curiosidade: uma novela que tinha o Budismo como pano de fundo, em que uma menina era a reencarnação de um mestre budista. Nossa TV nunca havia ido aos Himalaias para mostrar essa cultura tão exótica aos olhos do brasileiro médio. Uma novidade e tanto! Ainda mais vindo do trio Thelma Guedes e Duca Rachid (no roteiro) e Amora Mautner (na direção), as responsáveis pelo sucesso da ótima “Cordel Encantado”, em 2011. Havia, sim, uma boa expectativa.

Entretanto, com o passar do tempo, “Joia Rara” foi se revelando um mais do mesmo. Muito bem feito, muito bem produzido, claro. E amparado em um elenco de primeira e alguns personagens carismáticos. Mas a trama de reviravoltas e joguinhos de gato e rato entre mocinhos e vilões foi cansando ao longo dos meses. E, parece, foi pouco para empolgar o telespectador. A novela fecha com uma média final de 18 pontos, empatando com “Lado a Lado” (do mesmo período no ano passado), a menor já registrada para o horário das seis. “Flor do Caribe”, a trama anterior, fechou com 21, e “Cordel Encantado”, havia alcançado 26 pontos em 2011 (números do Ibope da Grande São Paulo).

José de Abreu e Carmo Dalla Vecchia (Foto: Divulgação/TV Globo)

José de Abreu e Carmo Dalla Vecchia (Foto: Divulgação/TV Globo)

Apesar de ficar claro que “Joia Rara” não tinha a pretensão de difundir a doutrina budista – apenas usá-la como pano de fundo -, a novela não teve como escapar das frases feitas, de autoajuda, piegas, muitas vezes declamadas. Sensação talvez intensificada por conta do maniqueísmo dos personagens: de um lado, vilões extremamente maus, e do outro, mocinhos bons demais. Também não houve outra saída para os vilões senão a regeneração – Ernest (José de Abreu) e Silvia (Nathalia Dill) – ou a loucura – Manfred (Carmo Dalla Vecchia). Somado a isso, o excesso de melodrama na trama fez tudo soar exagerado, vários tons acima. Manfred que o diga.

A novela também foi criticada por fugir de sua cronologia. Músicas fora da época retratada foram cantadas no Cabaré Pacheco Leão. O comportamento extremamente contemporâneo de alguns personagens (principalmente femininos), também não condizia com a época da trama. Ainda que o público de hoje encontrasse respaldo em algumas temáticas atuais – como os direitos trabalhistas às mulheres -, as autoras sentiram-se à vontade para usar referências modernas em nome da liberdade criativa. “É preciso voar!”, diria Glória Perez.

Todavia, há de se destacar a direção e a garra do elenco, que conseguiram dar alguma dignidade aos exageros do roteiro. A novela teve excelentes sequências dramáticas envolvendo Bianca Bin, José de Abreu, Carolina Dieckmann, Nathalia Dill, Ana Cecília Costa e Carmo Della Vecchia – este último, quando não exagerava nas caretas de seu vilão Manfred.

Se o melodrama pesou e prejudicou a história de “Joia Rara”, por outro lado, o humor sobressaiu-se positivamente. Foi aí que brilharam Marcelo Médici e Luana Martau (impagáveis como a dupla Joel e Cléo), Mariana Ximenes e Letícia Spiller (as rivais Aurora e Lola), Cristiane Amorim (como Zefinha) e vários outros personagens dos núcleos do Cabaré Pacheco Leão e da pensão de Dona Conceição (Cláudia Missura).

Já comentei anteriormente aqui no blog e repito: a grande sorte de “Joia Rara” foi a escalação da pequena Mel Maia para o papel da menina Pérola. Centralizar uma história de temática adulta em uma criança é um risco grande, ainda mais quando a personagem precisa propagar mensagens de amor sem parecer piegas. Pérola foi a responsável por trazer leveza ao exacerbado melodrama do roteiro. Parabéns à direção e ao elenco: tiraram leite dessa pedra.

Saiba mais sobre “Joia Rarano site Teledramaturgia.


“Joia Rara” tem sorte em ter a menina Mel Maia no elenco
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Nilson Xavier

Mel Maia como Pérola em "Joia Rara" (Foto: Divulgação/TV Globo)

Mel Maia como Pérola em “Joia Rara” (Foto: Divulgação/TV Globo)

Personagem criança em novela é sempre um perigo. O novelista precisa ficar atento, para não correr o risco de pôr frases de efeito na boca de personagens mirins que tornariam suas falas inverossímeis, ou, pior, declamadas, quando as crianças não sustentam uma boa interpretação. O maior erro são meninos e meninas de novelas que agem, pensam e falam como adultos. A não ser que a proposta seja exatamente essa, o roteirista tem que ter em mente que aquele texto teria que caber na boca de uma criança.

A menina Pérola da novela “Joia Rara” é um caso à parte. Afinal, consideramos que a personagem é um “ser evoluído”, a reencarnação de um mestre budista. Para quem é leigo no Budismo, fica difícil imaginar uma criança com tamanho discernimento de bondade e afeto e com tanta sintonia com sentimentos elevados, no que tange o amor entre os homens – por mais que a personagem tenha sido treinada por seus monges amigos, na trama. Na boca de uma criança qualquer, as falas de Pérola facilmente soariam piegas e inverossímeis.

Mas não na boca de sua intérprete, a pequena Mel Maia. O carisma da menina, aliado ao seu talento, são meio caminho andado para embarcar na história da personagem e acreditar em sua veracidade. Mel Maia já havia se destacado na primeira fase de “Avenida Brasil” (2012), como Ritinha, a menina abandonada no lixão por Carminha (Adriana Esteves). A princípio, poderia parecer mais um caso de criança “interpretando” ela mesma. Até pode ter sido isso naquele momento, mas esse julgamento não cabe aqui.

O fato é que, já em seu segundo trabalho na TV, Mel Maia demonstra um impressionante domínio na arte de representar. Pérola é bem diferente de Ritinha. Mel conseguiu apagar a ideia que tínhamos da menina abandonada à própria sorte do folhetim anterior. Super à vontade em cena, Mel Maia – que completa 10 anos no dia 3 de maio – esbanja carisma e talento dividindo cenas com feras como José de Abreu e Luiz Gustavo (seus avôs na trama). Sorte da novela em tê-la no elenco!


“Avenida Brasil” inicia nova fase com recorde de audiência
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Nilson Xavier

Quem não assistiu ao sétimo capítulo de Avenida Brasil nesta segunda-feira (02/04), perdeu o melhor capítulo da novela até agora: o que deixou para trás a primeira fase da trama – com fotografia escura – e deu lugar à segunda fase – com mais luminosidade e colorido, novas músicas da trilha sonora e novos atores do elenco. Rita e Batata (Mel Maia e Bernardo Simões) estão agora crescidos, mas separados e com novos nomes: Nina e Jorginho – interpretados por Débora Falabella e Cauã Reymond.

A menina Mel Maia – que surpreendeu a todos pela sua graça e talento na primeira semana de Avenida Brasil – deixou a novela com uma linda cena de despedida com Batata, quando sai do lixão e parte para a Argentina com sua nova família. Vai deixar saudades.

O capítulo foi surpreendente, pelos rumos que os personagens tomaram, por algumas revelações que foram feitas e outras dúvidas que o autor semeou no público: Batata é filho legítimo de Carminha e Max (Adriana Esteves e Marcello Novaes) e havia sido abandonado no lixão pela mãe, aos cuidados de Lucinda (Vera Holtz). Mas, qual o segredo que une Lucinda a Carminha, que impede a fada madrinha do lixão de delatar as maldades da bruxa? Só os próximos capítulos dirão.

Carminha e Tufão (Murilo Benício) se casaram. Carminha deu a luz a Ágata, e não escondeu o desagrado por ter sido uma menina. Já vimos que Carminha humilha a filha, já crescida (Ana Karolina Lannes): “Filha, você já não é bonita!”. A menina Rita foi adotada por uma rica família argentina e passou a ser chamada de Nina. Carminha voltou ao lixão para buscar Batata, mas não revelou a Tufão que ele era seu filho. Batata seguiu os passos – e os dribles – do pai adotivo, tornando-se um jogador de futebol, Jorginho.

Nina não esqueceu sua mágoa contra Carminha e planeja uma vingança contra a madrasta má. E o capítulo se encerrou com chave de ouro: Carminha promoveu um festão para celebrar o aniversário de casamento com Tufão – bem cafona, por sinal. Jorginho, bêbado, humilhou a mãe diante de todos os convidados. Uma sequência que lembrou as festas que Flora (Patrícia Pillar) dava em A Favorita.

O capítulo movimentou as redes sociais. Várias hashtags referentes à novela estiveram entre os TTs do Twitter (os assuntos mais comentados). E o capítulo foi o recordista de audiência – da novela, até agora, e o maior ibope do sétimo capítulo entre as novelas dos últimos cinco anos.

Audiência do sétimo capítulo:
Avenida Brasil: 40
Fina Estampa: 37
Insensato Coração: 33
Passione: 33
Viver a Vida: 39
Caminho das Índias: 31
A Favorita: 36
Duas Caras: 37
Paraíso Tropical: 39

Durante a primeira semana, a audiência de Avenida Brasil esteve abaixo da primeira semana de Fina Estampa, mas acima das novelas anteriores. Vamos aguardar os próximos capítulos para ver se a novela finalmente fisgou o telespectador, depois deste bombástico sétimo capítulo.


“Avenida Brasil” convida as classes elitizadas a dançar o Kuduro
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Nilson Xavier

De nada adiantou João Emanuel Carneiro afirmar que Avenida Brasil não foi concebida visando estrategicamente o público da “nova classe C”. Com a novela no ar, nada seria mais representativo. Do que foi mostrado até agora, do perfil dos protagonistas às ambientações dos principais núcleos, tudo remete a essa emergente classe social. A abertura – que ainda não disse ao que veio – e seu o tema musical – uma versão do “Kuduro” – só vem intensificar essa premissa.

Mas já se percebe uma diferença fundamental quando Avenida Brasil é comparada com Fina Estampa (a “trama nova classe C” anterior): a assinatura sempre elitista de João Emanuel Carneiro (o autor) e Ricardo Waddington (o diretor). Fotografia, roteiro, direção e interpretação de atores independem da classe social da audiência. O pano de fundo pode ser um bairro pobre do subúrbio carioca e os personagens podem ser do “povão”. Mas a estética e o tratamento dado à produção denotam um capricho digno de produções digamos, “mais elitizadas”.

Os personagens principais de Avenida Brasil são clássicos, universais, atemporais. Os dramas se desenrolam no subúrbio carioca, com gente simples. Mas poderiam ser no Leblon de Manoel Carlos. Indo mais longe: a história poderia ser ambientada no interior da Rússia de Dostoievski, de quem João Emanuel já afirmou ter buscado inspiração para sua novela.

O autor disse em entrevista: “A novela é uma fábula do século 19, não tem pretensão sociológica.” Além da referência a Dostoievski, em personagens e dramas, é fácil também se lembrar da história de Branca de Neve, a princesinha abandonada na floresta pelo caçador a mando da madrasta má. Mas, como novela das nove precisa carregar no drama, essa princesa não tem a mesma sorte de encontrar sete bondosos anões.

Os dois primeiros capítulos se apresentaram em cores fortes, emocionantes, de intensa carga dramática, com sequências alucinantes e de tirar o fôlego. A direção e o elenco mostram que não estão de brincadeira. O núcleo principal que o diga: Adriana Esteves – a vilã Carminha -, Tony Ramos – o marido enganado Genésio – e Mel Maia – a pequena órfã Rita, maltratada pela madrasta e entregue à própria sorte.

A menina Mel Maia passa em cena uma expressividade poucas vezes vista em atores mirins. Na sequência em que Rita é abandonada no lixão, deu aquela vontade de correr lá para salvar a garota. Adriana Esteves pesa a mão na interpretação na medida certa para admirarmos o talento da atriz e odiarmos (ou não!) a personagem.

O Tufão de Murilo Benício é aquele personagem criado para gerar a identificação imediata com a nova classe C: um suburbano craque do futebol que enriqueceu e não quis sair do subúrbio, rodeado de todos os tipos clássicos e possíveis que estereotipam o “povão”.  É a Griselda da vez.

Para dar o refresco entre as cenas pesadas e dramáticas, foi apresentado o núcleo cômico de Cadinho (Alexandre Borges), o mulherengo atrapalhado que tem duas famílias e ainda se envolve com uma terceira mulher. Era para ser engraçado, mas nem a sonoplastia de desenho animado está ajudando. O que se viu de bom neste núcleo, por enquanto, foram as presenças espirituosas de Débora Bloch e Carolina Ferraz, lindas e com o texto afiado do autor na ponta da língua.

Esta, aliás, é uma lição que João Emanuel Carneiro aprendeu com Aguinaldo Silva: a nova classe C gosta de ver os ricos da zona sul carioca fazendo papel de bobos. Reza a cartilha da mais nova teledramaturgia que os dramas têm que ficar com os pobres e o humor, com os ricos. Tereza Cristina que o diga.

A audiência, ao que parece, não vem correspondendo à altura da atração: o ibope dos dois primeiros capítulos de Avenida Brasil esteve abaixo dos dois primeiros capítulos de Fina Estampa. Esqueceram de avisar para João Emanuel Carneiro e Ricardo Waddington que a nova classe C demanda um tempo para acostumar-se com uma proposta nova, diferente da qual estava bitolada.


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