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Relembre as beatas que marcaram as novelas, como Doroteia em “Gabriela”
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Nilson Xavier

Em Gabriela, Dona Doroteia (Laura Cardoso) é a líder das beatas de Ilhéus, e quer impedir a todo custo que as prostitutas do Bataclan participem da procissão na cidade.

Beatas, carolas, papa-hóstias, ratazanas de sacristia. Guardiãs da moral e dos bons costumes, elas geralmente são futriqueiras, adoram cuidar da vida alheia, julgam os demais e se julgam intocáveis. E por perder tanto tempos com os outros, não percebem o que acontece dentro de suas próprias casas. Frequentam todas as missas e cultos e se acham porta-vozes de Deus. Relembre as beatas que marcaram as novelas.

A irmãs Cajazeiras – Doroteia (Ida Gomes), Dulcineia (Dorinha Duval) e Judiceia (Dirce Migliaccio) – O Bem Amado (1973)

Vigilantes da moral de Sucupira, as irmãs Cajazeiras eram os cabos eleitorais oficiais do prefeito Odorico Paraguaçu (Paulo Gracindo). Mas todas tinham um xodó pelo prefeito, que se aproveitava do romantismo de cada uma, sem que as outras percebessem.

Mariana (Eloísa Mafalda em 1982-1983, Cássia Kis Magro em 2009) – Paraíso

Mãe da Santinha, a beata havia prometido a filha à vida religiosa, mas não se conformou quando ela trocou Jesus pelo Filho do Diabo.

Dona Pombinha (Eloísa Mafalda) – Roque Santeiro (1985-1986)

Devota de Roque Santeiro, lutou como pôde contra Matilde (Yoná Magalhães) e suas “meninas”, que levaram a boate Sexu´s a Asa Branca.

Perpétua, Amorzinho e Cinira (Joana Fomm, Lília Cabral e Rosane Gofman) – Tieta (1989-1990)

Perpétua fazia gato e sapato de suas pupilas Amorzinho e Cinira, duas carolas reprimidas sexualmente que acatavam a todas as ordens da “tribifu”.

Gioconda (Eloísa Mafalda) – Pedra Sobre Pedra (1992)

As beatas eram mesmo a especialidade da atriz Eloísa Mafalda. Gioconda implicou até com o novo padre de Resplendor, por ele ser negro.

Rosa, Brásia e Zefa (Míriam Mehler, Cláudia Mello e Ana Lúcia Torre) – As Pupilas do Senhor Reitor (1995)

As guardãs da moral e da vida alheia na aldeia portuguesa de Póvoa do Varzim.

Violante (Drica Moraes) – Xica da Silva (1996-1997)

A grande inimiga de Xica (Taís Araújo), tinha até a igreja ao seu lado na luta pessoal contra a Rainha do Tijuco.

Altiva (Eva Wilma) – A Indomada (1998)

Se dizia a dona de Greenville. Invocava Deus até em seu bordão: “Ó xente mai Gódi!”. Sua loucura acabou por consumi-la.

Imaculada (Elizabeth Savalla) – A Padroeira (2001)

Beata que tentava expiar os pecados da juventude através de sua filha, Isabel (Mariana Ximenes), que queria obrigar a abraçar a vida religiosa.

Eva (Eliane Gardini) – Cobras e Lagartos (2006).

Carola que fora casada com um ladrão de joias, tentava educar os três filhos com muita rigidez e religião. Em um determinado momento, passou a assumir outra identidade: a fogosa cigana Esmeralda.

Carminha (Adriana Esteves) – Avenida Brasil (2012)

Por fora, ela é uma mulher religiosa, devota que faz suas orações, preocupada com a comunidade e obras assistenciais. Mas por dentro… oi oi oi!

Cite outras beatas de novelas!


No aniversário de Aguinaldo Silva, relembre sua obra na televisão
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Nilson Xavier

Aguinaldo Silva no programa Roda Viva em março de 2012

O novelista Aguinaldo Silva completa 69 anos nesta quinta-feira, 7 de junho. Ele se autodenomina uma das cinco últimas ararinhas azuis do horário nobre da Globo, ou seja, um dos novelistas veteranos remanescentes do prime-time global (os demais são Gilberto Braga, Glória Perez, Manoel Carlos e Silvio de Abreu).

Natural de Carpina, interior de Pernambuco, de família humilde, Aguinaldo frequentou ótimos colégios no Recife até se tornar jornalista, publicar livros e se mudar para o Rio de Janeiro, aonde chegou a atuar no jornal O Globo, como repórter policial. Foi por causa de sua experiência nas páginas policiais que foi convidado a integrar a equipe de roteiristas do seriado Plantão de Polícia, em 1979 – seu primeiro trabalho na TV.

Em 1982, foi ao ar a primeira minissérie brasileira, Lampião e Maria Bonita, que Aguinaldo assinou com Doc Comparato. Dirigida por Paulo Afonso Grisolli e Luís Antônio Piá, a minissérie tinha Nelson Xavier e Tânia Alves como protagonistas e narrava a vida do rei do cangaço.

Em 1983, o submundo do crime foi retratado na minissérie Bandidos da Falange, nova parceria com Doc Comparato, direção de Luís Antônio Piá e Jardel Mello. A minissérie trouxe o problema da criminalidade urbana, os envolvimentos da polícia e a organização secreta de bandos dentro das penitenciárias em conexão com o crime organizado fora delas. Essa minissérie deveria ter estreado em agosto de 1982, mas teve problemas com a censura e só foi liberada cinco meses depois, picotada.

Novamente com Doc Comparato, Aguinaldo abordou a vida do Padre Cícero nesta minissérie, apresentada em 1984, tendo Stênio Garcia no papel-título, dirigida por Paulo Afonso Grisolli e José Carlos Piéri.

A estreia de Aguinaldo em telenovelas aconteceu em 1984, quando a Globo decidiu unir dois então novos roteiristas da casa para uma novela do horário nobre. Com Glória Perez, Aguinaldo começou a escrever Partido Alto, com direção geral de Roberto Talma. A falta de sintonia entre Aguinaldo e Glória fez com que a dupla fosse desfeita. Aguinaldo abandonou a novela e Glória a concluiu. No elenco, Cláudio Marzo, Elizabeth Savalla, Raul Cortez, Betty Faria, Glória Pires e outros.

Aguinaldo deixou Partido Alto para se dedicar a uma nova minissérie, uma adaptação do romance Tenda dos Milagres, de Jorge Amado, apresentada no segundo semestre de 1985. Com direção geral de Paulo Afonso Grisolli, tinha novamente Nelson Xavier e Tânia Alves como protagonistas.

Entre 1985 e 1986, foi ao ar Roque Santeiro. Aguinaldo foi chamado para escrever a novela com Dias Gomes, o autor da sinopse. Dos 209 capítulos da trama, Dias escreveu 99: os 51 iniciais e os 48 finais. Aguinaldo escreveu os 110 do miolo. Roque Santeiro tornou-se um marco da teledramaturgia nacional. Marcílio Moraes e Joaquim Assis colaboraram no texto e a direção ficou a cargo de Gonzaga Blota, Marco Paulo, Jayme Monjardim e Paulo Ubiratan. No elenco grandioso, José Wilker, Regina Duarte e Lima Duarte viveram os protagonistas Roque, Viúva Porcina e Sinhozinho Malta.

Em 1987, Aguinaldo apresentou uma trama urbana: O Outro, com Francisco Cuoco vivendo os sósias Denizard de Mattos e Paulo Della Santa na história em que um – desmemoriado – assumia a identidade do outro, dado como desaparecido. Direção geral de Gonzaga Blota, Ricardo Waddington e Antônio Rangel. No elenco, também Yoná Magalhães, Natália do Valle, Malu Mader e outros.

No ano seguinte, Aguinaldo uniu-se a Gilberto Braga e Leonor Bassères para juntos escreverem outro grande sucesso de nossa teledramaturgia: Vale Tudo – direção de Denis Carvalho e Ricardo Waddington. Com uma galeria de personagens memoráveis – Odete Roitman (Beatriz Segall), Fátima (Glória Pires), Heleninha (Renata Sorrah), Solange (Lídia Brondi), Marco Aurélio (Reginaldo Faria), César (Carlos Alberto Riccelli), Raquel  (Regina Duarte), e outros – Vale Tudo fez o país parar no último capítulo para o desfecho de um dos “quem matou?” mais notórios de nossa TV: quem matou Odete Roitman?
Leia AQUI o post especial que escrevi sobre Vale Tudo.

Tieta (1989-1990) foi outro grande êxito de nossa TV, considerada pelo próprio Aguinaldo como sua melhor novela. Adaptação do romance Tieta do Agreste de Jorge Amado, escrita com Ana Maria Moretzsohn e Ricardo Linhares, com direção geral de Paulo Ubiratan. O grandioso elenco escalado foi um dos fatores para o sucesso, com personagens na maioria caricatos e inesquecíveis. Destaque para a brilhante atuação de Joana Fomm como a vilã Perpétua. Dois mistérios aguçaram a curiosidade do público: o conteúdo de uma caixa que Perpétua escondia, e a identidade da “Mulher de Branco”, uma figura sinistra que atacava – sexualmente – homens nas noites de lua cheia. No elenco, também Betty Faria, José Mayer, Reginaldo Faria, Lídia Brondi, Yoná Magalhães, Arlete Salles e outros.

Em 1990 foi ao ar a minissérie Riacho Doce que Aguinaldo escreveu com Ana Maria Moretzsohn, adaptada do romance homônimo de José Lins do Rêgo. Com direção geral de Paulo Ubiratan, a minissérie apresentou belas paisagens de Fernando de Noronha. Os protagonistas foram vividos por Fernanda Montenegro, Vera Fischer e Carlos Alberto Riccelli.

Aguinaldo, Ana Maria Moretzsohn e Ricardo Linhares se uniriam novamente para mais um novela com direção geral de Paulo Ubiratan: Pedra Sobre Pedra, sucesso do ano de 1992, com Lima Duarte, Renata Sorrah e Armando Bógus nos papeis centrais. O realismo fantástico, que o autor usara discretamente em Roque Santeiro e Tieta, teve aqui o seu ápice com uma série de personagens surreais: o morto que voltava para as mulheres que ele seduziu em vida, quando elas comiam uma flor; o homem atraído pela lua cheia; e a mulher com mais de cem anos e com uma memória prodigiosa. No elenco, ainda Eva Wilma, Maurício Mattar, Adriana Esteves, Eloísa Mafalda, Fábio Jr. e outros.

A trama seguinte, Fera Ferida (1993-1994) apresentou mais um leque de personagens curiosos e tramas por vezes absurdas de Aguinaldo Silva. Desta vez ele usou como ponto de partida os personagens e histórias de Lima Barreto. O realismo fantástico também esteve presente, no homem que prometia transformar ossos humanos em ouro; na personagem que entrou em sono profundo e dormiu anos a fio; no coveiro que falava com os mortos e sabia os segredos das famílias da cidade (Tubiacanga); e nas cenas de sexo dos amantes Demóstenes e Rubra Rosa (José Wilker e Susana Vieira), que pegavam fogo, literalmente. Novamente escrita com a coautoria de Ana Maria Moretzsohn e Ricardo Linhares. Direção geral de Denis Carvalho e Marcos Paulo. No elenco, também Edson Celulari, Giulia Gam, Lima Duarte, Hugo Carvana, Joana Fomm, Juca de Oliveira, Arlete Salles, Cassia Kiss e outros.

A Indomada - de 1997, escrita com a parceria de Ricardo Linhares e direção geral de Marcos Paulo – foi outro sucesso onde transitaram os personagens fantásticos de Aguinaldo Silva. A história se passava na fictícia cidade de Greenville, onde os moradores davam grande valor às tradições britânicas. O destaque foi o português com sotaque nordestino falado pelos personagens, misturado a expressões da língua inglesa. Frases como “oh chente, mai gódi” se popularizaram. Grande momento de Eva Wilma e Ary Fontoura, que viveram a ardilosa dupla de vilões Altiva e Pitágoras. Como ingrediente do realismo fantástico, havia o Delegado Motinha (José de Abreu) – que caiu num buraco e foi parar no Japão -, e Altiva – que no final virou fumaça jurando voltar para se vingar. Isso sem falar no mistério do Cadeirudo, a figura que atacava as mulheres de Greenville em noites de lua cheia (o que lembrava a “Mulher de Branco” de Tieta). No elenco, ainda Adriana Esteves, José Mayer, Claudio Marzo, Renata Sorrah, Betty Faria, Paulo Betti, Luiza Tomé e outros.

Em 1998, Aguinaldo foi supervisor de Ricardo Linhares na primeira novela solo dele na Globo: Meu Bem Querer (direção geral de Marcos Paulo e Roberto Naar). Lá estava todo o universo ficcional de Aguinaldo com o qual Linhares estava acostumado a lidar: cidadezinha do interior nordestino com personagens caricatos e de apelo popular, e doses de realismo fantástico. Unindo o universo dos dois autores, os endereços da cidadezinha da novela foram batizados com nomes de personagens criados pela dupla em outras novelas: Travessa Professor Praxedes de Menezes (de Fera Ferida), Ladeira Altiva de Mendonça e Albuquerque (de A Indomada), Beco da Cinira (de Tieta), Rua Gioconda Pontes e Largo Dona Francisquinha Queiróz (de Pedra Sobre Pedra). No elenco, Marília Pêra, José Mayer, Ângela Vieira, Murilo Benício, Alessandra Negrini, Leonardo Brício, Flávia Alessandra e outros.

A novela seguinte talvez tenha sido a mais problemática da carreira de Aguinaldo Silva: Suave Veneno (de 1999, direção geral de Marcos Schechtmann, Ricardo Waddington e Daniel Filho). Desta vez o autor voltou a ambientar sua trama no urbano. A história confundiu o telespectador que se afastou, e pouco restava a ser feito para reconquistá-lo. Durante a novela, o ator José Wilker teria circulado nos estúdios com uma camiseta em que se lia: “Suave Veneno: Eu sobrevivi!”. Destaque para o guru Uálber Cañedo (Diogo Vilela) e para a vilã Maria Regina (Letícia Spiller com os cabelos à la Isabella Rosselinni). O elenco também tinha Glória Pires, Irene Ravache, Betty Faria, Patrícia França, Ângelo Antônio e outros.

Porto dos Milagres – de 2001, escrita com Ricardo Linhares, direção geral de Marcos Paulo e Roberto Naar – pareceu uma salada de todas as tramas regionalistas que Aguinaldo fizera anteriormente. Foi, inclusive, seu último trabalho nesses moldes. Mas, graças ao ótimo elenco, a novela conseguiu escapar da simples cópia, garantindo boa audiência. Entre os destaques estava a vilã Adma Guerreiro (Cássia Kiss), a “perua” Amapola (Zezé Polessa), e Augusta Eugênia (Arlete Salles, que não se deixou abalar pelas críticas acerca da semelhança entre a personagem e Altiva que Eva Wilma viveu em A Indomada, e aos poucos deu um jeito diferente à personagem). O elenco também contou com Antônio Fagundes, Marcos Palmeira, Flávia Alessandra, Luiza Tomé, Leonardo Brício, Camila Pitanga, Fúlvio Stefanini e outros.

Em 2004, Aguinaldo abandonou o realismo fantástico e retomou definitivamente os dramas urbanos com Senhora do Destino, um de seus maiores sucessos (direção geral de Wolf Maya). O autor tirou o mote central da novela das manchetes de jornais: o seqüestro do garoto Pedrinho por Vilma Martins Costa – ela levou o bebê de uma maternidade de Brasília, em 1986, e o criou como se fosse seu filho até ser desmascarada, em 2003. Grande destaque para Renata Sorrah, que viveu a inesquecível vilã Nazaré Tedesco. José Wilker também conseguiu construir um personagem marcante: Giovanni Improta, um bicheiro bonachão com a dose exata de histrionismo. No elenco, também os atores Susana Vieira, Carolina Dieckamnn, José Mayer, Eduardo Moscovis, Letícia Spiller e outros.

A trama seguinte de Aguinaldo, Duas Caras – de 2007-2008, direção geral de Wolf Maya – abordou educação, racismo, luta de classes, drogas, homossexualidade, especulação imobiliária e invasão de terras improdutivas. Com Dalton Vigh, Marjorie Estiano, Antônio Fagundes, Susana Vieira, José Wilker, Renata Sorrah, e outros.

Em 2009, Aguinaldo Silva escreveu com Maria Elisa Berredo a minissérie Cinquentinha (direção geral de Wolf Maya), com Susana Vieira, Marília Gabriela, Betty Lago e Maria Padilha. A minissérie gerou um spin-off em 2011: o seriado Lara com Z, protagonizado por Lara Romero, a personagem de Susana Vieira em Cinquentinha (também escrita com Maria Elisa Berredo e dirigida por Wolf Maya).

Numa parceria com a emissora portuguesa SIC, a Globo produziu a novela Laços de Sangue em 2010, gravada em Portugal, com profissionais de lá, tendo Aguinaldo Silva como supervisor de texto do autor da novela, Pedro Lopes.

Entre 2011 e 2012, Aguinaldo escreveu outro sucesso popular, a novela Fina Estampa – (direção geral de Wolf Maya), que alavancou a audiência do horário nobre da Globo. O autor uniu tramas sem compromisso algum com a realidade com elementos populares em voga no momento – como UFC e o funk -, personagens caricatos – como a vilã Tereza Cristina (Christiane Torloni) e o gay Crodoaldo Valério (Marcelo Serrado) -, e uma heroína maniqueísta – Griselda (Lília Cabral), mulher batalhadora, boa e justa, concebida especialmente para criar empatia com o público que se identifica com essa figura idealizada: a “nova classe C” (responsável pela audiência do horário no momento). No elenco, também Dalton Vigh, José Mayer, Carolina Dieckmann, Eva Wilma e outros.
Leia AQUI meu post sobre o balanço final de Fina Estampa.

Leia AQUI meu post sobre os mistérios nas novelas de Aguinaldo Silva.

Leia AQUI meu post sobre a entrevista de Aguinaldo Silva ao programa Roda Viva da TV Cultura em março desse ano.

Comente os trabalhos de Aguinaldo Silva que você mais gostou!


Relembre as tramas de vingança que fizeram sucesso nas novelas
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Nilson Xavier

A trama central da novela Avenida Brasil envolve uma vingança particular de Nina (Débora Falabella) contra Carminha (Adriana Esteves). Criança, a menina Rita foi abandonada num lixão pela madrasta, Carminha, depois que esta roubou seu pai e ele morreu. Adotada por uma família rica, com quem foi morar no exterior, Rita, – agora Nina – retorna adulta com sede de vingança contra Carminha. Para tanto, ela se infiltra na casa da madrasta sem revelar sua identidade.

Vingança é um tema pra lá de recorrente em novelas. Essa história já foi contada antes, de diversas formas. Remete ao romance O Conde de Monte Cristo, de Alexandre Dumas, e à peça A Visita da Velha Senhora, de Friedrich Dürrenmat. Vamos relembrar algumas novelas que tiveram a vingança como mote central. Quase todas tem alguém que retorna a algum lugar, escondendo sua identidade (ou não), para um ajuste de contas ou para se vingar de pessoas que a fizeram sofrer no passado.

A novela Os Inocentes (Tupi, 1974), de Ivani Ribeiro, foi baseada em A Visita da Velha Senhora. Juliana (Cleyde Yáconis) retorna à cidadezinha – que deixara quando criança – como uma mulher rica e poderosa, que se faz de amiga de todos. Mas ela esconde suas reais intenções: se vingar dos antigos moradores que, no passado, a expulsaram da cidade com sua mãe. E Juliana, como filha da mulher expulsa injustamente, vai se vingar nos herdeiros dos algozes da mãe – daí o título da novela, Os Inocentes.

Em Chocolate com Pimenta (de 2003-2004, em reprise atualmente), o autor Walcyr Carrasco fez uma mistura das tramas de A Visita da Velha Senhora com A Viúva Alegre, de Franz Lehár. Aninha (Mariana Ximenes), quando jovem, fora ridicularizada pelos colegas de escola perante toda a cidade. Casou-se com o homem mais rico da região e partiu. Após a morte do marido, Aninha – ou melhor, Ana Francisca – volta à cidade com sede de vingança contra os moradores que a fizeram sofrer. Seu plano é tirar do local a fábrica de chocolates que herdou, a principal fonte de renda dos moradores e dos ricos ambiciosos, que tiram vantagem do dinheiro vindo da fábrica.

Tieta – personagem de Jorge Amado interpretada por Betty Faria na novela de Aguinaldo Silva (de 1989-1990) – quer se vingar dos moradores de Santana do Agreste, que um dia a escorraçaram da cidade. Seu principal alvo é a irmã invejosa, Perpétua (Joana Fomm). Voltando à cidade, rica e poderosa, ela se faz de boazinha e se deixa bajular por todos – tal qual Juliana de Os Inocentes e Ana Francisca de Chocolate com Pimenta.

Em Cavalo de Aço (Globo, 1973) – de Walter Negrão -, Rodrigo (Tarcísio Meira) chega a uma cidadezinha para vingar o extermínio de sua família ocorrido na infância. O responsável pelo massacre é o rico fazendeiro Max (Ziembinski). Para realizar seus intentos, Rodrigo se envolve com Joana (Betty Faria), filha de Max.

Negrão usaria o mesmo mote para outra novela sua: Fera Radical (1988), em que Cláudia (Malu Mader) quer se vingar dos Flores, latifundiários a quem ela responsabiliza pelo morte de sua família no passado. Para tanto, Cláudia se envolve com os herdeiros Fernando (José Mayer) e Heitor Flores (Thales Pan Chacon).

Histórias semelhantes à da novela Marron-Glacé (1979-1980), de Cassiano Gabus Mendes: Otávio (Paulo Figueiredo) se infiltra na família de Madame Clô (Yara Côrtes) como garçon do restaurante de propriedade dela. Ele seduz ao mesmo tempo as duas filha da madame (Louise Cardoso e Sura Berditchewsky). Tudo faz parte de um plano de vingança contra o falecido marido de Clô, a quem Otávio responsabilizava pela ruína e morte de seus pais.

Em Fera Ferida (1993-1994) – trama de Aguinaldo Silva baseada na obra de Lima Barreto -, Feliciano Júnior (Edson Celulari) retorna à cidade de Tubiacanga para se vingar dos poderosos da região, que no passado foram os responsáveis pela morte de seus pais. Ele se esconde na pele do rico alquimista Raimundo Flamel, e desperta a cobiça de todos com sua ideia de transformar ossos humanos em ouro. Tudo não passava de uma farsa como parte de seu plano de vingança.

Na novela Dona Beija (Manchete, 1986) – de Wilson Aguiar Filho -, a protagonista, vivida por Maitê Proença, se transforma numa famosa e desejada cortesã para se vingar do ouvidor do Rei (Carlos Alberto), que a raptara para fazer dela sua amante. Enquanto ele viajava, Beija servia aos homens em troca de joias. Rica, ela retorna a Araxá, atrás de seu amor, Antônio (Gracindo Jr.), mas só encontra repúdio, dele e de toda população. Beija funda então a Chácara do Jatobá, um refinado bordel onde se transforma num mito como cortesã, escandalizando todas as famílias conservadoras de Araxá. Seu intuito maior era ferir Antônio.

A história de Quatro por Quatro (1994-1995), de Carlos Lombardi, começa quando quatro mulheres (Abigail – Betty Lago, Auxiliadora – Elizabeth Savalla, Babalu – Letícia Spiller, e Tatiana – Cristiana Oliveira), se sentindo desprezadas por seus respectivos homens, se unem para se vingar deles. Quem não se lembra da famosa cena em que elas fazem um pacto quando estão presas, unindo as mãos e gritando: “Vingança!”!

A trama espírita da novela A Viagem (1994), de Ivani Ribeiro, desenvolveu-se em cima da vingança do espírito de Alexandre (Guilherme Fontes) contra as pessoas que ele considerava responsáveis pela sua prisão e morte. Alexandre se suicidou na cadeia e, em outro plano, começou a influenciar na vida de seus desafetos – mais especificamente o irmão e o cunhado (Miguel Falabella e Maurício Mattar), que o entregaram à polícia, e o advogado (Antônio Fagundes) que o condenou.

Em O Dono do Mundo (1991) – de Gilberto Braga -, Márcia (Malu Mader) foi seduzida pelo canalha cirurgião Felipe Barreto (Antônio Fagundes), na noite de núpcias dela, o que culminou com a morte de seu noivo. Rejeitada e abandonada por todos, Márcia inicia então uma implacável vingança contra o homem responsável pela sua desgraça.

Em outra trama de Gilberto Braga – Celebridade (2003-2004) -, a maquiavélica Laura Prudente da Costa (Cláudia Abreu) usa de todos os meios para tomar o lugar, a fortuna e a fama da empresária Maria Clara Diniz (Malu Mader). Tudo fazia parte de um plano de vingança contra a ela, a quem Laura responsabilizava pela desgraça de seu pai, o verdadeiro autor da música que lançou Maria Clara ao estrelato.

Em Insensato Coração (2011) – novela de Gilberto Braga e Ricardo Linhares -, o mau caráter Léo (Gabriel Braga Nunes) se envolve com a simplória enfermeira Norma (Glória Pires) tão somente para roubar o dinheiro do velho rico que ela cuidava. Norma vai presa injustamente, acusada da morte do velho. Ela cumpre pena e tem apenas um objetivo na vida: vingar-se de Léo. Como parte de seu plano de vingança, Norma se casa com um milionário que lhe deixa polpuda fortuna ao morrer. Rica e poderosa, Dona Norma arma para Léo transformando-o em uma espécie de escravo em sua mansão, sob a ameaça de ele ser entregue à polícia pelos crimes cometidos.

As histórias, muitas vezes, se repetem. Mas o olhar do autor, ou a forma de se contar a história, faz toda a diferença. Muitas outras tramas trataram de vingança, em vários níveis. Cite outras novelas com vingança!


Aguinaldo Silva no Roda Viva: “A telenovela é tratada com profundo desdém pela mídia.”
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Nilson Xavier

Na segunda-feira, 12/03, participei do programa Roda Viva, na TV Cultura, em que o novelista Aguinaldo Silva foi entrevistado. Além de mim, o autor de Fina Estampa foi sabatinado por Mário Sérgio Conti (apresentador do programa), Mauricio Stycer (repórter e crítico de televisão do UOL), Cristina Padiglione (editora e colunista de TV do jornal O Estado de São Paulo), Katia Mello (gerente de conteúdo da TV1 Eventos) e Raimundo Rodrigues Pereira (diretor da revista Retrato do Brasil).

Diferente da postura em seu blog e no Twitter, Aguinaldo mostrou-se uma pessoa calma, serena, de fala mansa e baixa e muito simpática. Questionei se ele usava um personagem nas redes sociais e ele afirmou que não faria um blog apenas para descrever o seu dia a dia. “Todos criam uma persona na Internet! (…) É um personagem, aquilo não sou eu. Quem me conhece sabe que eu não sou assim”.

Gostei bastante do programa, mesmo porque – e até comentei com Aguinaldo – não me lembrava de já tê-lo assistido em alguma entrevista na TV. Durante mais de uma hora e meia, ele falou – entre coisas cosas – do sucesso e dos bastidores de Fina Estampa, de sua carreira antes da televisão, quando era jornalista e repórter policial, de como cria seus personagens, de seu restaurante e sua pousada, de Portugal, do politicamente correto, da censura que já sofreu e que ainda sofre, da nova classe C, de sua desavença com Walcyr Carrasco, de novelas x seriados, de seu futuro na Globo (seu contrato vai até setembro de 2014), de sua imagem na Internet e de sua relação com a mídia em geral.

Sobre o final de Fina Estampa, Aguinaldo revelou apenas que a vilã Tereza Cristina (Christiane Torloni) não morrerá nem será presa, e que Baltazar (Alexandre Nero) não é o amante de Crô (Marcelo Serrado). O mote central da novela – “o que vale mais, o caráter ou a aparência?”, que fora abandonado no decorrer da trama – será retomado quando Griselda (Lília Cabral) discursar sobre ética na formatura do filho Antenor (Caio Castro). Ele confirmou ainda que a Barra da Tijuca não será varrida do mapa com um tsunami, como já fora anunciado.

Desenhos do cartunista Paulo Caruso

Aguinaldo disse que alguns personagens da novela são como personagens de desenho animado: “As crianças adoram o Crô porque ele é o Pica Pau! (…) E Tereza Cristina é o Tom” (da dupla Tom & Jerry). Perguntado se algum personagem de Fina Estampa ficará para a posteridade, Aguinaldo respondeu: “O Crô, para a infelicidade dos gays [que criticam o personagem]”.

Questionado sobre sua melhor novela, o escritor primeiro deu uma resposta clichê: “É sempre a última!”. Ao final do programa, ele reconheceu: “É Tieta! A primeira que escrevi depois do fim da censura. Pude me permitir coisas que não podia antes”.

Sempre achei estranho Aguinaldo Silva ter sido supervisor de texto de Bosco Brasil em Tempos Modernos (trama das 7 horas, de 2010) pelo fato da novela não ter absolutamente nada a ver com o seu universo ficcional (a trama era ambientada em São Paulo e, no início, tinha uma “pegada” de ficção científica). Perguntei a ele qual foi a sua efetiva participação na novela, no que Aguinaldo respondeu: “Praticamente nenhuma! Porque nada na novela tinha a ver comigo”.

Questionei também se Aguinaldo não tem mais interesse em fazer novelas regionalistas. Sua resposta: “Vou te contar um segredo: eu continuo fazendo novelas rurais! Eu uso um truque: finjo que faço novela urbana! Você acha que aquilo é a Barra da Tijuca [cenário de Fina Estampa]? Não é! É uma cidadezinha do interior!”

Para Aguinaldo, os autores de novelas das 21 horas da Globo estão em extinção, porque escrever novela exige muita disciplina, que só os veteranos têm. Ele chama os novelistas veteranos remanescentes no horário de “as cinco últimas ararinhas azuis”, a saber: ele, Gilberto Braga, Glória Perez, Manoel Carlos e Silvio de Abreu. E João Emanuel Carneiro, “um jovem autor de 40 anos”.

Abaixo transcrevo algumas de suas melhores frases no programa.

“Os gays que abominam o Crô anseiam por parecerem heterossexuais.”

“Todas as pesquisas indicam que as pessoas não querem ver o beijo gay [na novela]. Dependendo de mim, beijo gay só na minha casa!”

“Crítico é uma pessoa que entende e gosta de televisão. Em primeiro lugar tem que gostar de televisão!”

“A telenovela é tratada com profundo desdém pela mídia.”

“Não me interessa falar de jornalistas sérios, porque eles são irretocáveis. Me interessa falar dos que não são sérios, porque eles existem. A gente sabe que existem jornalistas assim, principalmente cobrindo televisão.”

“Novela é entretenimento, não é arte. Porque é uma obra coletiva.”

“Sempre comparo novela com jornal de ontem: quando acaba, some da mente das pessoas. Não existe nada mais antigo do que jornal de ontem.”

“O brasileiro gosta mais de novelas do que seriados porque não temos bons seriados. (…) Temos muito que aprender com os americanos. (…) Acho que a linguagem dos seriados [nacionais] ainda é antiga.”
“Tentei fazer algo novo
[sobre Lara com Z], não sei se consegui. Tenho que reconhecer que eu tenho os vícios da novela. Então meus seriados sempre acabam ficando no meio termo entre o seriado e a novela.”

 “Quando tinha a Censura [oficial] era mais divertido, porque as regras do jogo eram muito claras.”

“A novela não é minha, é do produtor [da emissora]. Mas você é o senhor da novela – sinto que nós somos o lado negro da história, e isso é perigoso! Se pudesse fazer novelas sem autor, seria melhor.”

O brasileiro não se preocupa com spoiler “porque mesmo sabendo o que vai acontecer, o público quer saber como vai acontecer.”

“Entrego uma sinopse que dura no máximo 80 capítulos. Depois, seja o que Deus quiser!”

 “Eu ainda tenho muitas histórias para contar. Não estou interessado em remakes.”

“Se eu posso fazer propaganda de uma peça de teatro, por que não posso fazer de minha pousada?”

Assista abaixo a entrevista na íntegra (vídeo do Youtube).


Relembre os travestis e transexuais das novelas
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Nilson Xavier

Esta semana o travesti da novela Aquele Beijo, Ana Girafa, vivido pelo ator Luís Salém, descobriu suas origens: Maruschka (Marília Pêra) é a sua mãe, que o entregou a um orfanato quando ele nasceu. Esta revelação trouxe novas emoções à novela das sete, já que Maruschka repudia o filho, a quem chegou a chamar de “aberração”, e Ana Girafa vai lutar para ser reconhecido como filho da megera.

Aproveitando o destaque atual de Ana Girafa em Aquele Beijo, vamos relembrar os travestidos que se destacaram nas novelas.


O primeiro ator a se travestir para uma novela foi Ziembinski em O Bofe (Globo, 1972-1973), novela de Bráulio Pedroso. Neste caso, o ator se vestiu de mulher para interpretar uma senhora solitária, a velha Stanislava.

Já na trama de O Grito (1975-1976), de Jorge Andrade, o personagem Agenor, vivido por Rúbens de Falco, era um homem angustiado com um segredo: durante o dia era um sério executivo e à noite se vestia de mulher para perambular pela noite paulistana.

Em 1977, na novela Espelho Mágico, de Lauro César Muniz, pela primeira vez um travesti de verdade ganhou um papel numa novela: Cláudia Celeste era uma corista do teatro de revista de Carijó (Lima Duarte) que ensinava coreografias à personagem de Sônia Braga. Mas Cláudia Celeste entrou para o elenco da novela sem que Daniel Filho (o diretor) soubesse de que se tratava de um travesti – na época do Regime Militar, os travestis eram proibidos de aparecer na televisão. Descoberto, o travesti teve que sair de cena. Mas Cláudia Celeste voltaria às novelas em 1988, em Olho por Olho – novela de José Louzeiro,da Manchete -, e dessa vez sem esconder sua identidade e com um papel fixo: o travesti Dinorá.

Sérgio Mamberti viveu em Dinheiro Vivo, trama de Mário Prata, da Tupi (1979), um personagem inusitado: Dr. Pacheco, cujo segredo era um santuário em homenagem à estrela do cinema Marilyn Monroe. Na trama, após a morte de sua esposa, Pacheco não conseguiu mais se relacionar com outras mulheres, pois em todas via a figura de Marilyn Monroe. O Dr. Pacheco travestia-se de Marilyn para cantar e dançar como se fosse a estrela norte-americana.


Ney Latorraca viveu vários personagens em Um Sonho a Mais (1985), escrita por Daniel Más e Lauro César Muniz. Volpone voltava ao Brasil para provar sua inocência à justiça e se escondia na pele de vários tipos, entre eles, a secretária Anabela Freire, uma personagem que cresceu na história e ganhou duas “primas”: Florisbela e Clarabela (Marco Nanini e Antônio Pedro). A novela também contou com a participação da sexóloga Olga Del Volga – criação de Patrício Bisso. Mas os personagens masculinos travestidos de mulheres chocaram a censura da Nova República. A Globo foi orientada a reduzir as aparições de Anabela na novela. Pior para suas comparsas, Florisbela e Clarabela, que tiveram que sair da trama. Mesmo com a polêmica dos personagens travestidos, aconteceu na novela a primeira bitoca entre dois homens na nossa teledramaturgia, na cena do casamento entre Anabela e Pedro Ernesto (Carlos Kroeber).

A participação especial de Rogéria em Tieta (1989-1990) movimentou a trama da novela de Aguinaldo Silva. Os homens de Santana do Agreste se encantaram pela amiga de Tieta (Betty Faria), que a visitava na cidade. Até descobrirem que Ninete se chamava na verdade Valdemar!


Silvio de Abreu ressuscitou Dona Armênia (Aracy Balabanain) e “seus três filhinhas” Geraldo, Gerson e Gino (Marcello Novaes, Gerson Brenner e Jandir Ferrari) na novela Deus Nos Acuda (1992-1993). Os personagens haviam feito sucesso na trama anterior do autor, Rainha da Sucata (1990). Mas, para desespero de Dona Armênia, o caçula Gino voltou de uma viagem da Europa como Gina e confundiu os marmanjos da novela.

A primeira vez que um travesti teve uma abordagem mais séria em horário nobre global foi em Explode Coração (1995), de Glória Perez. Na trama, o ator Floriano Peixoto – em sua estreia em novelas – encarnou a figura de Sarita Witt, que se vestia, falava e agia como mulher, e à noite ainda dava shows performáticos.

Em 1998 foi a vez de Matheus Nachtergaele encarnar um travesti na TV: Cintura Fina, amigo de Hilda Furacão, na minissérie de Glória Perez. Apesar da aparência frágil, Cintura era bom de briga e não levava desaforo para casa.

O travesti Ivone Shirley (Hairton Júnior), de Uga Uga (2000-2001), novela de Carlos Lombardi, ganhava a vida rodando bolsinha. Sua amiga Madá (Beth Lamas) – mulher – era sua parceira de rua. Curiosamente, Madá se passava por travesti por acreditar que assim era mais fácil conseguir clientes.

Em As Filhas da Mãe (2001), de Silvio de Abreu, Cláudia Raia viveu uma personagem inusitada: Ramona – que um dia fora Ramon -, a primeira transexual das novelas. Depois de anos fora do Brasil, o filho de Lulu de Luxemburgo (Fernanda Montenegro) retornou ao país com outro sexo, para o espanto da família. Ramona ainda enlouquecia a cabeça de Leonardo Brandão (Alexandre Borges) que era apaixonado pela moça mas não aceitava o fato de que um dia ela havia sido um homem.

Entre 2003 e 2004, Bruno Garcia, Lúcio Mauro Filho, Lázaro Ramos e Wagner Moura se revezaram em vários personagens femininos na série Sexo Frágil, fazendo graça com a diferença entre os sexos.


Walcyr Carrasco apresentou em Chocolate com Pimenta (2003-2004) um personagem nunca antes pensado em novelas: Kayky Brito viveu Bernadete, um menino que foi criado como menina e não sabia disso. A cena em que alguns personagens olham por debaixo da saia de Bernadete e descobrem que “ela” era “ele”, foi uma das sequências mais hilárias da novela.

Em 2005 foi ao ar o primeiro caso de cross-dressing em novelas. O termo é usado para designar pessoas que se vestem com roupas do sexo oposto independente da orientação sexual. Dona Roma – Miguel Magno em A Lua Me Disse,de Miguel Falabella – era a personagem de Amoroso Valentim, dono de uma pensão, que se vestia como mulher e era aceito por todos como tal.


Outro cross-dresser das novelas foi Orã, personagem de Luís Mello em Cobras e Lagartos (2006), de João Emanuel Carneiro. Apesar de inicialmente casado com Silvana (Totia Meirelles), ele se escondia na pele da espanhola Conchita, mas era apaixonado pela mulher e pela família.

Em Os Ricos Também Choram, novela do SBT, de 2005, o ator Celso Bernini viveu o trambiqueiro Hugo, que se vestia de mulher e encarnava Josefina para fugir das pessoas que enganava.


Entrecho semelhante tinha a trama de Bang Bang (2005-2006), de Mário Prata. Para fugir da justiça, os bandidos Billy the Kid (Evandro Mesquita) e Jesse James (Kadu Moliterno) instalaram-se na pequena cidade de Albuquerque disfarçados das irmãs solteironas Henaide e Denaide. Donas da pensão da cidade, ninguém desconfiava que elas fossem os famosos foras da lei. Até a chegada de Calamity Jane (Betty Lago), também procurada por seus crimes, que se hospedou na pensão sob a identidade do forasteiro Mike.

Na temporada de 2006 de Malhação, foi a vez de Bernardo Mendes se travestir. Na trama, seu personagem, Bodão, assumiu a identidade de Ivana para participar de um concurso de culinária. Já no final da temporada de 2004 de Malhação, Cabeção (Serginho Hondjakoff) se transformou em Verônica, uma “menina” que chegou ao Múltipla Escolha para animar o tristonho Rafa (Ícaro Silva).

Marmanjões que fogem da lei escondendo-se por trás de vestidos, perucas, maquiagem, salto alto e seios postiços, também é uma especialidade de Walcyr Carrasco. Em Sete Pecados (2007), o mordomo Antero (Marcelo Médici) personificou a recatada Zizi, entre outros disfarces. Da mesma forma, Elcio (Otaviano Costa) virou Elaine, a Pirulitona de Morde e Assopra (2011), e confundiu a cabeça dos homens da cidadezinha de Preciosa.

Em outra novela de Carrasco, Caras e Bocas (2009), Fabiano (Fábio Lago), travestido de mulata e enganando a todos, participou de um concurso de dança e foi eleito Rainha do Axé.

Na trama de Beleza Pura (2008) – novela de Andrea Maltarolli -, o químico Mateus (Rodrigo Veronesse) foi dado como morto deixando viúva a mulher Helena (Mônica Martelli). Para se manter, ela passou a usar a identidade do falecido marido, se passando por ele, trajando-se como homem. Mas Mateus não havia morrido e retornou. Para ajudar a mulher, que poderia ser processada por crime de falsidade ideológica – Mateus passou então a se vestir de mulher e assumiu a identidade de Tânia.

Em 2009, o SBT contratou um transexual, Fabianna Brazil, para sua novela Vende-se um Véu de Noiva, escrita por íris Abravanel. Na trama, Fabianna viveu o travesti Andressa Carla, pago pela vilã Eunice Baronese (Elaine Cristina) para desmoralizar Homero (Marcos Winter).

A trama de Vidas em Jogo – novela da Record, de Cristianne Fridman, atualmente no ar – teve uma reviravolta com a revelação de que Augusta (Denise Del Vecchio) na verdade era um transexual, o que revoltou seu filho Raimundo (Rômulo Arantes Neto).Recentemente, o personagem acabou misteriosamente assassinado na novela.

Em O Brado Retumbante, minissérie de Euclydes Marinho apresentada em janeiro, o presidente Paulo Ventura (Domingos Montagner) descobriu que seu filho Júlio (Murilo Armacollo) havia se transformado em Julie após uma cirurgia no exterior. Julie estava no Brasil para trocar de nome em seus documentos e sua chegada gerou conflitos, sofrimento e até violência.

Além dos casos citados acima, outras mulheres travestidas de homem também já fizeram sucesso em nossas novelas: Gloria Menezes em Almas de Pedra, Wanda Stephania em Cavalo Amarelo, Bianca Rinaldi em Pequena Travessa, Myrian Freeland em Essas Mulheres, Daniela Récco em Três Irmãs, Nathalia Dill em Cordel Encantado, Bruna Lombardi na minissérie Grande Sertão: Veredas, entre outras.


E a trama de Fina Estampa também apresenta um transexual: Fabrícia (personagem de Luciana Paes), uma das maridas de aluguel que trabalham para Griselda (Lília Cabral). Ela é descoberta e revela estar na fila do SUS esperando para ser operada e, enquanto isso, toma hormônios.


Mistérios de Aguinaldo Silva alavancam Ibope de suas novelas; relembre alguns
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Nilson Xavier

No capítulo de Fina Estampa de 02/02/2012, o tão esperado segredo de Tereza Cristina (Christiane Torloni) foi revelado para sua família. Ela era, na realidade, filha de uma empregada (Carlota Valdez), que morreu louca num hospício. Mas este segredo envolve outros mistérios, que serão revelados apenas no final da novela.

Aguinaldo Silva já usara esse desfecho em sua novela Senhora do Destino (2005/2005), onde o prepotente Leonardo, personagem de Wolf Maya, acreditava ser filho de um aristocrata (o Barão Pedro, vivido por Raul Cortez), mas revela-se que ele era filho do mordomo da família com uma cozinheira da casa onde cresceu.

Independente da trama requentada, Aguinaldo Silva geralmente acerta nos segredos e mistérios que apresenta em suas novelas, pois eles viram sucesso. O suspense de um mistério aguça a curiosidade do telespectador. E o autor tem usado esse subterfúgio em sua obra com bastante frequência.

Na trama da novela O Outro (1987), os personagens – e o público – queriam saber a identidade do Perfumado, um tarado que atacava as mulheres seduzidas por seu perfume. O mistério foi mantido até o final, quando se descobriu a identidade do homem: era Gato (Milton Rodrigues), o dono do bar frequentado pelos personagens da novela.

Já em Tieta (1989/1990), os homens de Santana do Agreste eram as vítimas. Nas noites de lua-cheia, eles corriam o risco de encontrarem a misteriosa Mulher de Branco, uma espécie de assombração que abusava sexualmente de barbados indefesos. Depois de várias vítimas, a identidade da figura veio à tona: Laura (Cláudia Alencar), a fogosa esposa do Comandante Dário (Flávio Galvão).

Ainda em Tieta, outro mistério chamou a atenção do público. A vilã Perpétua (Joana Fomm) agarrava-se a uma misteriosa caixa escondida em seu guarda-roupa. O segredo do conteúdo da caixa foi desvendado ao final: ficou subentendido que – para matar as saudades do falecido marido – Perpétua guardava, embalsamado, o órgão genital do defunto.

Em Pedra Sobre Pedra (1992), o “retratista” Jorge Tadeu (Fábio Jr.) foi morto a tiros. Para a alegria das mulheres seduzidas por ele na novela, o fotógrafo retornava em espírito. O mistério deste “quem matou” fez sucesso na época. Ao final descobre-se que ele foi morto pela beata Gioconda Pontes (Eloísa Mafalda). O fotógrafo havia descoberto que ela roubava objetos sacros de valor da igreja e os substituía por réplicas falsas. Jorge Tadeu flagrou a ladra roubando e bateu uma foto. Gioconda, que já o odiava por causa de seu envolvimento com a filha Úrsula (Andrea Beltrão), resolveu livrar-se dele para não ser denunciada. Desmascarada, a beata se fez de louca para não ir para a cadeia, e foi internada num hospício.

Em A Indomada (1997), mais um mistério envolvendo ataques sexuais. Dessa vez, as mulheres de Greenville eram as vítimas de um tarado nas noites de lua-cheia. A figura ficou conhecida como o Cadeirudo, por sua silhueta estranha e andar peculiar. Para o espanto de todos, o Cadeirudo era uma mulher: a beata Lurdes Maria (Sônia de Paula).

Em Suave Veneno (1999), os personagens estavam interessados em saber a identidade do assassino da advogada Clarisse Ribeiro (Patrícia França), morta por causa de valiosos diamantes que ela havia roubado. Ao final, o assassino da advogada é revelado. Augusto Ivan (Tarcísio Filho) sabia que Clarisse tinha os diamantes e tentou extorqui-la. Como não conseguiu, matou a moça. Ao ser desmascarado, tentou fugir e acabou morrendo atropelado durante a fuga. Vários personagens da novela se preocuparam então em descobrir onde estavam os tais diamantes.

Para finalizar, Aguinaldo – mais uma vez requentando tramas – apresentou em Duas Caras (2007/2008) outro tarado misterioso que atacava mulheres indefesas: o Sufocador. Geraldo Peixeiro (Wolf Maya) era a identidade do meliante, descoberta no final da novela.

 

 


No centenário de Jorge Amado, Viva ainda não pode reprisar “Tieta” e “Tenda dos Milagres”
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Nilson Xavier

A partir de terça-feira, dia 7 de fevereiro, o Canal Viva reapresenta (às 23h15) a minissérie Dona Flor e Seus Dois Maridos, desta vez em comemoração ao centenário de Jorge Amado – que completaria 100 anos no dia 10 de agosto deste ano. A minissérie foi originalmente apresentada pela TV Globo entre 31 de março e 1º de maio de 1998 e reapresentada pela própria emissora em junho de 2002.

O curioso é que esta é a segunda reprise de Dona Flor pelo Viva. Ela havia sido apresentada entre 18 de janeiro e 14 de fevereiro de 2011, há exato um ano. A pergunta que se faz é: com tantas minisséries no acervo da Globo, por que reprisar uma que já foi apresentada, e em tão pouco tempo? Esta não é a primeira re-reprise do canal. A minissérie Desejo, de Glória Perez (uma produção do ano de 1990), foi apresentada no Viva em novembro de 2010 e retornou menos de um ano depois,  em julho de 2011.

Para celebrar Jorge Amado, a Globo tem outras minisséries baseadas na obra do autor: Tenda dos Milagres (de 1985) e Tereza Batista (de 1992). Isso sem falar as novelas – Gabriela (de 1975), Terras do Sem Fim (de 1981/1982), Tieta (de 1989/1990) e Porto dos Milagres (de 2001) -, a série Pastores da Noite (de 2002) e o caso especial A Morte e a Morte de Quincas Berro D´Agua (de 1978). Jorge Amado é o escritor brasileiro mais adaptado para a televisão (também as adaptações de Capitães da Areia, minissérie apresentada na Band em 1989, e Tocaia Grande, novela da Manchete que foi ao ar entre 1995 e 1996).

Perguntei para o Viva a razão deste retorno precoce de Dona Flor em detrimento às outras minisséries inspiradas na obra do autor. Eis a resposta:

“As minisséries Tereza Batista e Tenda dos Milagres foram consideradas para exibição no Viva em comemoração ao centenário de Jorge Amado em 2012. Infelizmente, não será possível por questões jurídicas de licenciamento. Optamos então por reapresentar Dona Flor e Seus Dois Maridos, obra clássica e emblemática do autor – ainda não assistida por muitos assinantes novos do Viva que passaram a acompanhar o canal a partir de 2011. Optamos ainda pela exibição da série durante o carnaval, em sintonia com a atmosfera carnavalesca da mesma.”

Este é também um dos principais motivos pelos quais as minisséries Tenda dos Milagres e Tereza Batista ainda não foram lançadas em DVD. Questionada sobre quais são estas “questões jurídicas de licenciamento”, o Viva não esclareceu.

Perguntei também pela reprise da novela Tieta, uma das mais solicitadas pelo público do Viva. A resposta é a mesma dada a Tenda dos Milagres e Tereza Batista: não será possível por questões jurídicas de licenciamento. Pelo menos neste momento. Entretanto, vamos considerar que existe a possibilidade das produções baseadas em Jorge Amado serem vistas no Viva ao longo de 2012, tão logo se resolvam essas “questões jurídicas de licenciamento”.

Dona Flor e Seus Dois Maridos é um dos romances mais conhecidos de Jorge Amado, lançado em 1966. A versão cinematográfica do livro – estrelada por Sônia Braga, José Wilker e Mauro Mendonça, no filme de Bruno Barreto de 1976 – foi um marco do cinema nacional. A minissérie da Globo foi adaptada por Dias Gomes (seu último trabalho na TV), Marcílio Moraes e Ferreira Gullar, com direção de Mauro Mendonça Filho, Rogério Gomes e Carlos Araújo.

Giulia Gam, Edson Celulari e Marco Nanini vivem o triângulo amoroso protagonista Flor, Vadinho e Teodoro. A produção apresenta uma fotografia viva e colorida e direção de arte com cenários e figurinos caprichados. A história, originalmente ambientada na década de 1940, foi atualizada na versão para a TV, e algumas tramas secundárias foram criadas, como o núcleo dos bicheiros. Edson Celulari aparece nu em várias cenas, e Giulia Gam, moreníssima, no auge de sua beleza. A minissérie, gravada em Salvador, contou com sequências rodadas durante o carnaval. E não faltaram efeitos especiais, usados principalmente nas cenas com o fantasma de Vadinho.

Ainda em comemoração ao centenário de Jorge Amado, a Globo leva ao ar este ano uma nova versão do romance Gabriela, Cravo e Canela, adaptada por Walcyr Carrasco, com Juliana Paes no papel que havia sido de Sônia Braga na famosa novela dos anos 70.