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Blog do Nilson Xavier

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O que a série "Assédio" da Globo tem em comum com o movimento #EleNão

Nilson Xavier

30/09/2018 07h00

Adriana Esteves em "Assédio" (foto: reprodução)

Pela primeira vez, e de forma objetiva, a Globo reproduz na ficção crimes recentes, que chocaram a opinião pública, dos quais o acusado está vivo. No caso, a minissérie "Assédio" (disponível no Globoplay), sobre a trajetória do hoje ex-médico Roger Abdelmassih, especialista em reprodução humana condenado pelo estupro de várias pacientes, na maioria das vezes quando elas estavam sedadas. Já temos o nosso "Brazilian Crime Story".

A Globo exibiu, nos anos 2000, a série de dramatizações do "Linha Direta" sobre famosos casos da Justiça, mas com um bom espaço de tempo a separar os fatos das dramatizações. Em 1993, a minissérie "Agosto" reproduziu o Atentado da Rua Tonelero, ocorrido em agosto de 1954, contra Carlos Lacerda, que vitimou o major da Aeronáutica Rubens Vaz. O pistoleiro Alcino João do Nascimento, vivo, assistiu na minissérie à reprodução do crime pelo qual foi condenado. Outro caso de distanciamento com a atualidade, já que "Agosto" levantava um crime cometido havia 40 anos (em 1993).

Sobre "Assédio", tudo está ainda muito fresco na memória do público e dos envolvidos: vítimas, médico e sua família, jornalistas, advogados e outros profissionais ligados ao acusado ou às vítimas.

A minissérie tem direção artística de Amora Mautner e é assinada por Maria Camargo, inspirada livremente no livro "A Clínica: A Farsa e os Crimes de Roger Abdelmassih", de Vicente Vilardaga. Em 10 capítulos, a narrativa transcorre – sem ordem cronológica – 20 anos (entre 1994 e 2014) da carreira de Roger (Antônio Calloni) – com outro sobrenome, Sadala -, da ascensão à derrocada profissional, causada pelo escândalo.

Adriana Esteves e Antônio Calloni em "Assédio" (foto: reprodução)

Não se trata de um documentário. Porém, uma linha tênue separa o ficcional do real. A intenção não é reproduzir fielmente os crimes do médico. De um lado, a dramatização do que aconteceu de fato: as acusações contra ele, sua desmoralização perante a opinião pública, a cobertura nacional, a união das vítimas e os vereditos da Justiça. De outro, o que foi inventado – os perfis das vítimas e seus dramas pessoais -, e o que foi baseado – a persona de Roger Sadala, pintado na minissérie como um homem vaidoso, megalômano, egocêntrico, religioso, de família e hipócrita.

As Mulheres versus Roger

A trama, contundente, não poupa o espectador. Logo no primeiro capítulo, a crueza das imagens de um estupro é chocante – não apenas pelo ato em si, mas pela situação em que ele acontece. Por ser uma história sobre vítimas que se uniram contra um algoz, a narrativa prioriza as mulheres. Apesar da ação embaralhada – os fatos vão e voltam no tempo -, as personagens-vítimas são apresentadas ordenadamente, a cada capítulo. E cada uma delas com perfil diferente, representando a pluralidade feminina.

Antônio Calloni está excelente como o médico, porém – sem desmerecê-lo e, talvez, propositalmente – não mais que Adriana Esteves (Stela, a primeira vítima apresentada), que atriz (!), absolutamente em nada lembra a Laureta de "Segundo Sol"; Mariana Lima (Glória, a esposa), seu melhor trabalho em televisão; e Hermila Guedes (Maria José, a terceira vítima), atriz bissexta na TV que precisa ser mais vista. Também um grande destaque para Jéssica Ellen (Daiane, uma secretária) e Elisa Volpatto (Mira, a jornalista que investiga o caso) e pequenas, mas impactantes participações de Mônica Iozzi e Bárbara Paz.

Hermila Guedes, Jéssica Ellen, Adriana Esteves, Paula Possani e Fernanda D´Umbra (foto: Ramon Vasconcelos/TV Globo)

Campanha

A roteirista Maria Camargo afirma no material de divulgação da minissérie: "Vamos falar da força do coletivo. As vítimas tomam uma posição e decidem mudar a história mostrando o poder da coletividade contra o assédio. O médico da trama é um antagonista simbólico desse movimento conjunto de quem rompe o silêncio. O tema é um dos grandes protagonistas. É um assunto muito atual e tem gerado debates no mundo todo".

Aproveitando a estreia de "Assédio", a Globo lançou a campanha "Quando a violência gritar, grite!", dentro da plataforma "Tudo Começa Pelo Respeito". A ação busca incentivar a sociedade a não se calar diante de casos de assédio e violência contra a mulher. São filmes curtos com as atrizes Bárbara Paz, Jéssica Ellen e Vera Fisher (do elenco da minissérie), interpretando depoimentos reais de mulheres vítimas de violência, veiculados na programação e compartilhados nas redes da empresa.

Por enquanto, "Assédio" é vista com exclusividade na Globoplay, plataforma sob demanda da Globo. A minissérie será exibida na TV aberta, porém ainda sem data definida de estreia.

Jéssica Ellen, Antônio Calloni, Maria Camargo e Amora Mautner na coletiva de imprensa (foto: Fabiano Battaglin/TV Globo)

Ótimo timing

Impossível para quem viu "Assédio" não associar o momento em que a minissérie e a campanha da Globo são veiculadas com a repercussão do movimento #EleNão, mobilização do eleitorado feminino contra o candidato à presidência da República pelo PSL Jair Bolsonaro, por suas declarações polêmicas sobre as mulheres. Qual a relação? Nos dois casos há uma ação espontânea de mulheres em luta pela garantia de seus direitos. A campanha #EleNão ganhou força nas últimas semanas e levou, neste sábado (29/09), milhares de pessoas às ruas de várias cidades em manifestações contra o candidato do PSL. Apoiadores de Bolsonaro também foram às ruas, mas em escala menor.

Péssimo timing

Durante a primeira semana da campanha "Quando a violência gritar, grite!" e a estreia de "Assédio", a novela "Segundo Sol" exibiu, no mesmo capítulo (de quinta, 27/09), duas sequências envolvendo atos condenáveis que vão contra o que a campanha da Globo prega: a exposição pública do vídeo íntimo de Karola (Deborah Secco) como forma de vingança e, logo depois, a simulação de uma situação de assédio sexual por Rochelle (Giovanna Lancelotti), também como vingança. Ambas estão dentro de um contexto dramatúrgico. Mas soaram como desserviço por deslegitimar a luta contra o assédio. Que timing errado da novela!

Leia também,Maurício Stycer: "Se a intenção é irritar e desagradar o público, Segundo Sol se superou".

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Sobre o autor

Nilson Xavier é catarinense e mora em São Paulo. Desde pequeno, um fã de televisão: aos 10 anos já catalogava de forma sistemática tudo o que assistia, inclusive as novelas. Pesquisar elencos e curiosidades sobre esse universo tornou-se um hobby. Com a Internet, seus registros novelísticos migraram para a rede: em 2000 lançou o site Teledramaturgia (http://www.teledramaturgia.com.br/), cujo sucesso o levou a publicar o Almanaque da Telenovela Brasileira, em 2007.

Sobre o blog

Um espaço para análise e reflexão sobre a produção dramatúrgica em nossa TV. Seja com a seriedade que o tema exige, ou com uma pitada de humor e deboche, o que também leva à reflexão.